Os Delírios Atômicos do Professor Freund

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Em sua loucura desvairada, concebeu uma enorme bomba em formato de colher. Imaginou-a imensa e letal, com todos os seus parafusos transpirando morte pelos poros metálicos. Passava noites em claro dando forma à sua invenção mirabolante, criando-a aos poucos, de rabisco em rabisco. Naquela época já não tinha dinheiro nem mesmo para comprar papel, e fazia suas anotações em papiros e pergaminhos mofados. Diz-se que, no final, escrevia com o próprio sangue. Mas mesmo com as adversidades financeiras e com o maldito tubarão que vestia um chapéu de festa, prosseguiu com seu projeto delirante.

Com este, era o terceiro projeto que começava nos últimos dois meses. Os outros dois jamais chegaram a sair do papel, e um deles foi escrito apenas até a terceira palavra. Mas daquela vez estava determinado a terminar sua bomba e a vê-la explodir com toda a sua potência infernal. Determinou-se a fazê-lo pelo respeito de seus compatriotas, pelo amor de seus amigos, e pelo orgulho há muito esquecido.

O outrora imperador das terras da imaginação, sultão dos homens sem lei e inventor de maravilhas, enlouqueceu sem perceber. Num dia, estava escrevendo conjecturas sobre as propriedades curativas do queijo suíço. No outro, dançava ao som dos motores de trólebus. Um mês depois já falava com criaturas invisíveis, e dali a um ano passou a ver o tubarão. Antes, chamavam-no de professor Freund. Hoje se referiam a ele apenas como “o louco da casa que assobia”. As crianças atiravam-lhe pedras pontiagudas, e os anjinhos lhe caçoavam balançando suas partes de mastodonte.

Optou então pela clausura de sua casa, para mofar com sua insanidade e seus papiros em branco. Ali seus delírios floresceram como nunca, brotando nas paredes e surgindo no café entre um gole e outro. Aos poucos o ar se tornou denso e estafante, e cada cômodo era um calabouço. O bolor maligno de sua demência alastrava-se pelos cantos, e os corredores passaram a ficar abarrotados de pessoas fantasmagóricas. Em dado momento, a casa pareceu desenvolver um sistema de ventilação próprio, abrindo janelas e cuspindo para fora o ar impuro em forma de longos assobios. Então todas as vezes que os delírios do louco pareciam ficar insuportavelmente asfixiantes, uma janela se abria em algum lugar, assobiando suas tristezas para longe.

O tubarão, porém, era onipresente. Vestia sempre seu famigerado chapéu de festa, navegando pelo ar e suspirando palavras cruéis. Eterno e irremediável, sua única fonte de diversão era distorcer o espaço e o tempo para enlouquecer os homens de bem. Transformava canetas em baratas imperiais, e preenchia a atmosfera com notas ensandecidas de violino. Depois voltava a transformá-las em canetas, e silenciava o mundo por completo. O louco tentou explicar aos amigos sobre o peixe maligno que vivia do lado direito de sua mente, fonte de toda loucura no mundo dos homens. Mas eles não acreditaram, e, aos poucos, o tubarão os foi afastando.

Um dia percebeu que todos os seus amigos, agora, também viviam do lado direito de sua mente. Percebeu que eram fantasmas, emulados pela crueldade do peixe. Percebeu que estava só numa casa que assobiava, que cheirava a mofo e que estava infestada de baratas imperiais. Percebeu também que os esforços do tubarão para roubar-lhe a sanidade haviam dado certo muito antes de tê-lo conhecido, e que estava completamente perdido no labirinto de sua própria loucura. Naquela noite, com um sorriso sorumbático esculpido em seu rosto, chorou de descontentamento enquanto dançava ao som dos motores de trólebus.

Na manhã seguinte, porém, estava mudado. Decidiu que doaria seus desvarios febris à ciência, aproveitando a lógica inverossímil de seu cérebro para desbravar os mistérios da natureza. Organizou-se como pôde e voltou ao trabalho no mesmo dia.

E mesmo com o maligno tubarão nadando sempre em seu encalço, suspirando crueldades teimosas e mordiscando-lhe os calcanhares, aquela época conseguiu ser bastante produtiva. Terminou de escrever suas incursões sobre as propriedades mágicas do queijo suíço; criou uma fórmula quase correta para calcular a distância entre um sonho e a sua realização; e, por fim, tentou elaborar um método para fazer com que um lugar caísse duas vezes no mesmo raio.

Mas, à medida que o tubarão o alcançava, seus delírios pioravam. Começou uma dúzia de projetos sem nunca chegar a terminá-los, como um mecanismo que revela a presença de deuses, e um emplastro para a loucura feito à base de queijo suíço. Quando via seus amigos imaginários zaranzando pelos corredores, chorava por horas a fio. Acabou por lembrar-se que estava louco de todo, prostrando-se pela atrofia de sua sanidade, e aquele sorriso taciturno voltou a nascer em seu semblante.

Então teve a ideia da bomba. Magnífica, régia, augusta, seria o ponto final de todas as guerras. Uma invenção fabulosa que pudesse deixar estarrecido até mesmo o tubarão com chapéu de festa. Seria um monumento à capacidade humana de assassinar o que quiser, o registro definitivo de nossa supremacia universal. Depois dela, não haveria tubarão ou loucura que pudesse prostrá-lo novamente.

Iniciou pelo conceito geral. Desenhou-a como uma gigantesca colher de sopa, toda ela de cobre brilhante, refletindo as cores do mundo à sua volta. Empenhou-se em bolar um mecanismo interno tão perfeito que o ranger de suas engrenagens era capaz de formar canções. Criou a fórmula de um combustível esverdeado, que seria a alma sólida de sua bomba. Cuidou de todos os pormenores, do diâmetro dos parafusos ao cheiro do explosivo. Ao fim de três semanas praticamente sem dormir, havia terminado a parte teórica.

Sem dar-se ao luxo do descanso, empreendeu a construção de sua arma fantástica. Desmantelando algumas invenções antigas que ainda estavam largadas no porão, empenhou-se em forjar com as próprias mãos as peças que formariam as partes de seu colosso megatônico. Derretia o metal sucateado para dar-lhe nova forma, amassando-o e dobrando-o sob o peso de seu martelo. Martelava com tanto viço e com tanta habilidade que alguns de seus amigos imaginários passaram a chamá-lo de Hefesto Louco. Acabou por construir cada placa metálica, cada porca e parafuso, cada mola e engrenagem que constituiria sua grande invenção.

Depois se empenhou em produzir o explosivo. Em um velho alambique em formato de coração, destilava versos de poesia persa até obter um absinto escuro e tristonho. Levava esta mistura ao fogo baixo, adicionando ingredientes secretos e aplicando as fórmulas mágicas de Emílio Patarca. Ao fim deste processo, obtinha-se uma espessa pasta verde-clara, que era colocada em caixas de madeira para ser congelada. Após vinte horas exposta a temperaturas glaciais, a pasta transformava-se num bloco verde e sólido que brilhava no escuro, e era este o coração da bomba. Se uma única lágrima ensandecida caísse no material, iniciava-se uma reação em cadeia de proporções catastróficas, espalhando a morte por todos os recônditos da mente humana. O louco produziu quarenta e dois destes blocos.

Terminadas todas as partes, faltava juntá-las. Começou assim o trabalho de montagem da arma mais letal que o homem já conhecera. Com a delicadeza de um amante, o louco aparafusou a pele de sua criação, teceu os mecanismos de suas entranhas, e posicionou cuidadosamente os frios blocos de sua alma. Depois, poliu cuidadosamente cada centímetro de sua epiderme acobreada. Colheu então uma lágrima taciturna que brotava de sua insanidade, e a posicionou no centro do mecanismo para servir de estopim no momento da detonação. Armou a bomba e a fechou, enfim, preparada para semear a morte de seus inimigos.

Tomou um momento para apreciar sua criação. Era verdadeiramente magnífica. Ali, parada, deitada sobre seu pedestal de ferro, a imensa bomba em formato de colher parecia transpirar morte até mesmo pelos poros metálicos de seus parafusos. O louco podia sentir o poder que exalava de dentro de suas entranhas. E mesmo por trás de sua pele acobreada ainda era possível ouvir o cantarolar das engrenagens, implorando para levar devastação às terras de seus rivais.

Ao seu redor, as pessoas fantasmagóricas amontoavam-se para ver a colher gigante. Observavam, estarrecidas, o inquestionável poder da loucura humana. Até mesmo os delírios que brotavam nas paredes e as baratas imperiais pareciam demonstrar atenção à sua maneira. Ao longe, o tubarão parecia observar com receio. Vinda do meio da multidão, uma criatura fantástica vestindo uma coroa de penas e com cogumelos crescendo entre as axilas surgiu para entregar ao louco o seu martelo de Hefesto.

Tomando o martelo em suas mãos, virou-se para encarar seu destino. Ergueu-o alto sobre a cabeça, ignorando completamente seu mundo de delírios. Apenas um golpe forte no casco da colher bastaria para detonar o dispositivo, libertando a potência assassina que vivia congelada em suas vísceras. A colher parecia estar lhe dizendo adeus, refletindo sua imagem na lataria de cobre. Então, definitivamente decidido da crueldade dos deuses enquanto encarava o seu reflexo, o louco golpeou a bomba com toda a força que conseguiu conjurar.

Em seguida, veio um clarão. Uma surda suspensão de tempo veio depois disso, até que se viu flutuando de pé sobre o chão, cercado pelas fantasmagóricas chamas purgatórias que jorravam por todos os lados e através de si, lavando sua alma. “Funciona!”

Do lado de fora da casa que assobia, as pessoas entraram em desespero ao ver suas paredes se desmantelarem para darem espaço a uma gigantesca explosão verde em forma de lírio. Mas o desespero sumiu por completo ao serem atingidos pelo poder incompreensível da bomba. As chamas atravessavam as paredes sem danificá-las, levando consigo apenas o pó dos séculos. As pessoas eram envolvidas num abraço ardente que não fazia nada a não ser matar a tristeza dos ossos e dos corações, enquanto os quadros em preto e branco tinham sua cor restaurada.

Por onde a explosão passava, levava os rancores dos pedregulhos teimosos, bem como as velhas mentiras empoeiradas. As feridas de amor saravam à luz do fogo, e a perda parecia subitamente mais leve e natural. Os instrumentos musicais começavam a tocar sozinhos, e as espadas perdiam o gume.

As gaiolas dos pássaros se escancaravam, libertando seus prisioneiros às revoadas. Seus donos, que os amavam tanto, choravam de felicidade ao vê-los partir. As luzes acesas brilhavam com mais força, e as apagadas despertavam da escuridão. Os livros amarelados e esquecidos jorravam versos de poesia persa, enquanto as santas de barro levantavam-se para realizar milagres. Os anciões viam-se livres de suas dores, e as criancinhas tornavam-se suspensas de toda maldade, largando suas pedras pontiagudas ao esquecimento das eras.

Em todas as paredes, porém, brotavam delírios floridos, alastrando-se numa flora desvairada. Povoavam os sonhos dos homens, aniquilando suas tristezas e varrendo os sorrisos sorumbáticos de seus rostos. E por onde passaram as chamas, as pessoas foram cingidas por uma felicidade inverossímil, que não deixou vivo sequer um pensamento taciturno.

Quando a explosão terminou, já não restava memória de infelicidade onde o fogo passara. Subitamente restituída de suas paredes, a casa que assobia encontrava-se em profundo silêncio. Ajoelhado no chão, cercado por uma multidão de fantasmas e ainda segurando seu martelo de Hefesto Louco, um homem chorava em silêncio. Eram lágrimas de felicidade, de amor recíproco, de sucesso e de orgulho recuperado. Havia criado, com todo o êxito que poderia desejar, uma bomba para matar a tristeza. Nenhuma melancolia poderia jamais sobreviver à sua engenhosidade, e não haveria catástrofe na terra que pudesse esmorecer outra vez o coração dos homens.

Erguendo-se, colossal e inquebrantável, o professor Freund virou-se para encarar sua plateia. Aplaudiam-no orgulhosos, atiravam-lhe rosas que não existiam, exclamavam e voltavam a exclamar. Tinha finalmente o amor dos seus, e havia terminado um projeto depois de tanto tempo de conjecturas intermitentes. Abriu caminho entre eles, sorrindo-lhes e apertando suas mãos imaginárias, até chegar ao tubarão.

A criatura, imensa entidade responsável pelos delírios humanos, não se mexeu. Não suspirou crueldades ou transmutou o espaço. Limitou-se a olhá-lo, com seus olhos frios e cinzentos sem expressar nenhuma emoção. O professor, porém, ignorou sua frieza e envolveu-o num abraço fraterno e apertado que pareceu durar uma eternidade.

Quando finalmente terminou, o professor Freund voltou-se aos seus escritos. Reuniu todas as suas anotações referentes à criação da bomba e organizou-as à sua maneira, completamente ininteligíveis aos olhos ingênuos dos sãos. Depois, tomou uma barata imperial e molhou-a em seu próprio sangue. Com suas antenas, calando por um instante os delírios que ainda o aplaudiam no lado direito de sua mente, escreveu ao fim da última página: “projeto concluído com sucesso”.

Victor Bertazzo
Victor Bertazzo
Victor Bertazzo nasceu em São Paulo, Capital, no dia 11 de novembro de 1993. Pretende cursar jornalismo, está atualmente trabalhando como agente de atendimento em callcenter, e seu sonho é conseguir trabalhar apenas produzindo conteúdo. Tem três contos publicados pela Andross Editora: "Cigano", na antologia Névoa; "A Morte da Grande Besta" e "O Conto do Astronauta", na antologia Utopia.

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