Pindá

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Pindá aprumou-se e parou à entrada da oca de Akang.

— Ô de casa! — Pronunciou-se, com a voz clara e decidida de uma jovem que nada tinha a temer.

Na mão direita levava o tacape; na esquerda, prova de sua habilidade como caçadora: um tatu de bom tamanho. Visualizou-se mentalmente: alta e parruda, uma belíssima guerreira abayuká, embora fosse apenas uma porta-escudos de dezoito anos de idade e não pudesse casar ou comer a carne de um inimigo abatido. Sequer podia pintar seu próprio símbolo no escudo; em vez disso, sempre que saísse em combate, sua função seria cobrir a retaguarda de uma mulher mais velha, uma guerreira de verdade, sua mãe-de-arco. Akang.

Quando Akang saiu porta afora, toda a confiança de Pindá derreteu. Sua mãe-de-arco, uma mulher imensa, lutara contra guerreiras hetá de Abayuká, Iperu e Murená e contra os bárbaros da Mata Antiga ao longo de seus sessenta anos de idade. Lutadora experiente, ostentava um belo cinto de troféus, repleto de partes de inimigos conservadas em salmoura: orelhas, narizes, testículos, dedos, uma mão inteira e uma mandíbula.

Diante de sua veterana, Pindá voltou imediatamente a ser a adolescente desajeitada e gaga de sempre.

— Mãe-de-arco! Eu lhe trouxe! — Disse, chacoalhando o tatu pela cauda diante da guerreira.

— A troco de que?

— É um agrado — disse Pindá, com a testa brilhando de suor. Como todas as porta-escudos, tinha o cabelo curto; tranças e franjas bem cuidadas eram para as guerreiras prontas.

— Escute aqui, sua pirralha de tipoia — respondeu Akang. — Sei que você anda de olho no meu filho. Por acaso acha que eu trocaria meu filho por um tatu?

Akang agarrou sua orelha e começou a torcê-la, fazendo a menina se curvar de dor. Por um instante, Pindá pôde olhar para dentro da oca, onde o objeto de seu desejo estava sentado calmamente, fiando algodão: Aperema. Era um rapaz de bochechas grandes e empinadas, que parecia estar sempre sorrindo. A boca era carnuda; os olhos miúdos e brilhantes eram valorizados com linhas grossas de tintura preta; as sobrancelhas eram longas e arqueadas, muito expressivas.

Ele passava algum tipo de óleo perfumado nos cabelos e no corpo, e parecia ter a pele muito macia. Era parrudo, mas não anguloso nem barrigudo, provavelmente seria um bom amante. Às escondidas, Pindá já escapulira com vários rapazes para longe da aldeia, tanto magricelos quanto gorduchos, então tinha certa experiência no assunto.

Quando Akang não estivesse por perto, Pindá e muitas outras mulheres paravam para ver Aperema passar, quando trazia produtos da horta ou voltava do banho de rio. Acompanhando seus movimentos de longe, Pindá se perguntava por que a visão das costas e do traseiro do rapaz lhe causavam um arrepio quente. “Por que Rudá faz isso?”

Rudá era o espírito do amor, da paixão e da manutenção da vida.

Mas Rudá não tinha lugar na casa de Akang. Akang tinha apenas um marido, algo incomum para uma grande guerreira, e com ele tivera cinco belas filhas e um único menino. Ela sabia que o garoto atrairia muitas pretendentes, mas o mantinha dentro de sua casa. Aperema era valioso demais para deixar que se casasse com uma qualquer: além de belo, era asseado, bom cozinheiro, bom cantor, diligente, habilidoso na coleta do mel e das castanhas. Pindá estaria louca se acreditava ser julgada um par adequado para ele.

— É só um presente, mãe-de-arco. Ouvi a senhora dizer que seu filho gosta muito de carne de tatu — choramingou Pindá.

Algumas jovens que praticavam luta na praça central da aldeia haviam parado para observar e rir da amiga.

— E vocês também, suas inúteis! — Gritou Akang. Soltou a orelha de Pindá para fazer gestos ameaçadores às moças na praça. — Especialmente você! Sim, você, bocuda! É com você que estou falando! Se eu voltar a ver você tentando abordar o meu filho na horta, juro que vou costurar cada buraco seu tão firme que você não vai conseguir copular nem com um fantasma!

As moças voltaram imediatamente à sua prática de luta, fingindo que não sabiam do que a veterana estava falando. Akang continuou a repreender Pindá:

— E além do mais, pirralha de tipoia, eu sequer te declarei guerreira! Achou mesmo que eu deixaria uma porta-escudos entrar em minha casa para cortejar meu filho?

Pindá, segurando a orelha dolorida, reuniu cada fiapo de confiança para responder:

— Mãe-de-arco, eu já lutei em seis batalhas ao seu lado, e sempre fui uma boa porta-escudo. A melhor de todas! Se a senhora possui alguma filha-de-arco que merece ser nomeada guerreira ainda esse ano sou eu!

Akang se preparou para desferir um bofetão na jovem, mas parou no meio do caminho. Pois a garota não estava mentindo. A guerreira a levava consigo para batalhas todo início de verão, desde que fora confiada a ela por sua mãe biológica, aos doze anos, para ser devidamente endurecida. Mesmo menina, Pindá jamais fugira. Era ágil, robusta e boa arqueira.

Poucos meses antes, as mulheres da aldeia haviam se aventurado pela Mata Antiga a fim de defender a fronteira dos bárbaros. Na batalha que se seguiu, Akang teria sido trespassada por um dardo silencioso, disparado das árvores, se o escudo ligeiro de Pindá não se colocasse no caminho. Era duro para a veterana admitir que devia sua vida à novata, mas sua sinceridade não lhe permitia dizer o contrário.

— Sim, sua cabeça de vento, você merece. — Retrucou Akang, muito contrariada. — Mas eu sei que assim que for declarada guerreira, fará de tudo para deitar seus dedinhos rápidos no meu filho!

— Mãe-de-arco, eu tenho nove dedos guardados, dos nove bárbaros que matei este ano, prontos para serem pendurados no cinto que ainda não posso usar! Quantas outras meninas dessa aldeia podem se gabar do mesmo?

Com efeito, nenhuma outra porta-escudos derrubara tantos homens na última campanha, sem contar todos os inimigos abatidos em anos anteriores. Outras jovens já haviam sido declaradas guerreiras por menos. Mas a decisão era sempre da mãe-de-arco, e se ela decidia ser magnânima ou mesquinha, isso era problema seu. Em um gesto especialmente ameaçador, Akang bateu com o indicador estendido contra o peito de Pindá.

— Eu sou sua mãe-de-arco e de outras três daquelas palermas ali. Suas mães confiaram vocês a mim porque sabem que eu sei como transformar pirralhas de tipoia em mulheres de guerra. Eu decido quem pode se gabar.

Pindá finalmente cedeu, cabisbaixa.

— Está bem, mãe-de-arco.

Ela baixou a cabeça e se virou, pronta para voltar ao centro da praça circular, onde as moças em formação dormiam nas noites secas de inverno. Anoitecia, e uma de suas irmãs-de-arco já acendera a fogueira. Pelo menos haveria um tatu inteiro para o jantar. Geralmente as porta-escudos só tinham peixe defumado e pimenta para misturar com seus mingaus e bolos de mandioca.

Estarrecida, Akang observou que a moça não tentara usar o argumento mais óbvio, pelo menos não diretamente. “Eu salvei sua vida, sua montanha de azedume com traseiro de anta gorda! Admita que sou boa o bastante”, teria dito uma garota mais irascível. Ferozmente independentes, as tribos de Abayuká desenvolveram uma cultura competitiva que valorizava a bravura individual. Isso tornava a humildade uma virtude rara. Claramente a menina não tinha medo de ser punida pela superiora; não assumira para si a salvação dela porque realmente sentia que este era seu dever. A veterana não sabia se admirava o valor da menina ou se a odiava por julgar-se digna de seu lindo filho.

— Ei, pirralha, volte aqui — disse Akang.

Ela se virou e voltou timidamente. Era um poço de ressentimento, o que não a impediu de tentar dar mais uma olhada para dentro da oca. O rapaz continuava fiando algodão e cantarolando. Que voz linda ele tinha.

— Sim, mãe-de-arco.

— Eu vou te nomear guerreira. — Akang viu a centelha de esperança no rosto da jovem. — Mas você precisa se provar uma vez mais.

Pindá sentiu vontade de chorar: a estação das batalhas havia acabado. Teria de esperar até a chegada das chuvas. Oito luas, talvez? Até lá alguma outra guerreira certamente já teria desposado Aperema. Havia pretendentes até em aldeias vizinhas, e ele tinha dezesseis anos; nem mesmo o zelo da mãe poderia segurá-lo para sempre dentro de casa.

— Traga-me meu amuleto de volta — disse Akang, em tom de desafio, crente de que veria sua proposta ser recusada.

A porta-escudos estremeceu. As garotas na praça pararam ao ouvir a proposta, incrédulas. A narrativa era bem conhecida por ela e todas as suas irmãs-de-arco.


Quando Akang ainda era uma porta-escudos, três aldeias abayuká do Oeste se uniram para enfrentar a horda bárbara do rei Paac ka Tul. Naquela época fazia apenas dez anos que a nação abayuká se estabelecera; tendo obtido seu território através da conquista. O rei bárbaro desposto, Tul, morreu combatendo as invasoras. Seu filho, Paac, reuniu então um exército de dois mil homens de quatro tribos para vingar o pai e apagar as aldeias hetá do mapa. O combate que se seguiu foi tão feroz que ambos os lados precisaram recuar, terminando em um impasse.

No calor da batalha, Akang viu sua mãe-de-arco tombada no chão, trespassada por um dardo lançado por Paac. Akang pegou então o grande arco negro do chão e lançou uma flecha contra o inimigo desatento. A flecha atravessou a coxa do rei bárbaro, fazendo-o cair de joelhos. A jovem tentou dar um segundo tiro, mas sua fúria fora tão grande que partiu o arco já danificado, lançando uma flecha desgovernada no meio do caos.

Virando-se, o rei bárbaro viu, aterrorizado, a garota avançar de tacape em riste. Ele estava armado à moda dos bárbaros da Mata Antiga, com uma pesada armadura de couro de tapir, grevas, braceletes, saio e couraça.

Akang, por outro lado, trajava apenas sua pintura corporal negra, e as poucas jóias que eram permitidas a uma porta-escudos. Entre elas, um amuleto que ganhara ao nascer: um pequeno lagarto esculpido em jade, preso ao pescoço em um cordão simples.

Ela desceu o tacape contra o inimigo, que aparou com seu escudo. O choque partiu a arma e fendeu o escudo, quebrando também o braço atrás dele. Paac gritou. Girou seu machado contra Akang, mas a dor roubava a força de seu corpo e tornava seus movimentos lentos; ela se desviou facilmente e desarmou-o, tomando o machado para si.

— Eu vou comer sua carne esta noite — disse ela, olhando-o nos olhos.

O rei resmungou algo incompreensível. Reunindo toda a força que lhe restava, ele empurrou Akang e conseguiu se libertar. Atirando-se contra ela, mordeu seu ombro com tal violência que a fez largar o machado. Os dentes artificialmente afiados fecharam em torno da carne da guerreira como as presas de uma fera e — pela única vez em sua vida — ela chorou de dor. Akang caiu para trás, segurando o ombro ensanguentado; Paac mancou de volta ao seu lado do campo, onde foi carregado por dois soldados. Com perdas pesadas e nenhum sinal de vitória decisiva, ambos os lados deram meia-volta.

E Akang percebeu que seu amuleto, o amuleto que recebera do pai quando veio ao mundo, não estava em seu pescoço, nem no solo à sua volta. Procurou-o futilmente em todos os lugares por onde passou, até aceitar: o rei o levara junto com a flecha, o braço quebrado e o orgulho ferido.

Assim que o exército foi desfeito e as abayuká voltaram para suas aldeias, Akang foi nomeada guerreira adulta pela chefe, já que sua mãe-de-arco estava morta. Ninguém questionou: ela havia vencido um rei em combate; e não importava que não tivesse arrancado dele nenhum troféu: não faltavam testemunhas. Ela foi celebrada com um banquete de cauim, peixe, carne de caça e inimigos mortos, mas a cerveja e a carne tinham um gosto amargo. Paac ainda vivia e ela perdera seu amuleto.


Pindá estremeceu. Recuperar o amuleto? Como? Paac estava velho e perdera a coragem, mas isso não significava que não era capaz de se defender dentro de seu território. Atacar um inimigo refugiado em seu abrigo é sempre mais difícil do que vencer em campo. E as abayuká temiam os segredos da Mata Antiga, onde os bárbaros viviam em cidades sob a terra e sobre as árvores.

Era um desafio calculado. “Ela pode ser valorosa, mas não é estúpida”, pensou Akang.

— Se é o que quer, mãe-de-arco, é o que farei — retrucou Pindá, inflando o peito.

Por um instante Akang e as garotas da praça permaneceram em choque.“Ela aceitou. A cabeça de vento aceitou!”

A velha guerreira não podia voltar atrás. Palavra era palavra, e a proposta fora aceita. Maldição. A menina jamais conseguiria atravessar o território inimigo a salvo. Akang teria o sangue dela em suas mãos.

— E se, além do amuleto, me trouxer um presente, minha mãe permitirá que você se case comigo — disse alguém. Era uma suave voz masculina.

Porta-escudos e mãe-de-arco ficaram surpresas ao ver que o belo rapaz esticara a cabeça para fora da casa.

— Aperema — chiou Akang. — Não lhe disse que não deveria ouvir conversas de guerreiras?

— Disse, mãe, mas também disse que eu teria voz quando chegasse a hora de escolher a quem você me daria. — Aperema sorria com o canto da boca. Aquele sorriso derretia o ímpeto de qualquer guerreira. — E você sempre diz que Pindá é uma caçadora de primeira e será uma de nossas melhores guerreiras no futuro.

Ouvir isso da boca do rapaz aqueceu a resolução vacilante de Pindá. Ela conseguiria aquele amuleto.

— Aperema… — disse Akang, não em tom de reprimenda, mas de desânimo, cobrindo o rosto com uma das mãos.

— Está bem, mãe, está bem. Se acha que me ofereci por pouco, farei uma nova proposta — disse ele, acariciando o ombro da guerreira. — Pindá, volte com o amuleto, um presente para mim e um bom troféu para o cinto de minha mãe.

Pindá concordou e voltou-se alegremente para o centro da aldeia. Precisava preparar suas armas e mantimentos.

— Ei! Me dê isso aqui! — Disse Akang. Alcançou-a e, puxando-a pelo braço, tomou o tatu de sua mão.

Estava furiosa, não apenas com o filho desobediente e com a menina, mas consigo mesma. Fizera a proposta esperando desencorajá-la e terminara colocando sangue bom a caminho da morte certa. Não podia voltar atrás: a palavra era tudo que uma guerreira tinha. Sentiu-se precipitada e estúpida, mas não podia fazer nada a respeito agora.


As abayuká temiam a Mata Antiga, não apenas porque era habitada pelos bárbaros da sombra — também conhecidos como tapuy arabé — mas porque as próprias árvores e animais da floresta pareciam pouco amigáveis.

Pindá suspirou antes de cruzar o vale. Após meio dia de caminhada ela entrava em território inimigo. As árvores de séculos de idade estendiam seus ramos até o céu. O sol estava alto e ela se abrigou na dobra de uma raiz para descansar e comer algo. Olhou para as trevas à sua frente enquanto mastigava um pouco de farinha torrada. A vegetação só se adensava, a ponto de ocultar o sol. Podia ouvir o estardalhaço de centenas de pássaros e bugios. Certamente havia jaguares ali também.

— Isso está começando a parecer bem estúpido. — Ela sabia onde encontraria o que procurava. A cidade maldita: Uuc, o ninho dos bárbaros.

Havia outras cidades escondidas nas entranhas da mata, muitas delas maiores que Uuc, mas era de lá que haviam saído Tul e Paac, e as abayuká do oeste haviam aprendido a vê-la como uma espécie de inferno na terra, um buraco fedorendo que cuspia bárbaros constantemente. A curandeira desdentada da aldeia explicou com todos os detalhes.

Pindá acordou a tempo de ver um guaxinim correr com o que restava de seu embrulho de farinha. Teria gritado um palavrão, mas pensou melhor e se calou. Não era bom chamar a atenção naquele lugar.

Claro, em termos de discrição, correr sobre o chão coberto de folhas e saltar sobre troncos era tão ruim quanto gritar. Logo, seria detectada.

Uma pequena sombra negra passou diante de seus olhos, encravando-se em um tronco. Um dardo fino com a ponta de bronze manchada: envenenado. Velozmente, Pindá virou-se. Agachada, já tinha uma flecha encaixada na corda de seu arco longo. Largando o arco, rolou para o lado enquanto outro dardo batia no solo, enterrando-se onde ela deveria estar. O segundo inimigo, que a atacaria por trás, segurando um grande machado com ambas as mãos, perdeu o equilíbrio. A reação da invasora foi tão rápida que ele nada pode fazer, Pindá ergueu a mão direita entre suas pernas, cravando a flecha em sua virilha. O homem deixou o machado cair: berrou enquanto o sangue quente escorria pelas coxas e berrou ainda mais quando Pindá arrancou a flecha, que tinha ponta farpada.

Tudo ocorreu em um segundo. O bárbaro caiu convulsionando enquanto ela se erguia para escapar de um terceiro dardo. O outro atacante apareceu das sombras: não tinha mais projéteis à mão, então atacou com uma adaga de bronze longa e curva. Pindá viu porque ele era responsável pelos disparos e o outro pela arma de combate corpo-a-corpo. A posição de ataque era completamente aberta, selvagem, ineficaz. Abaixando-se no momento certo, Pindá fez uma finta, se esquivou e agarrou o braço da arma, torcendo-o. Puxou o oponente pelo nó dos cabelos e desferiu uma joelhada em seu rosto. Soltou-o.

— Senhora, fuja! Corra! Uuc…

Os gritos enfraqueceram até sumir. Pindá rugia enquanto espremia a vida para fora de seu corpo. Quando o inimigo tombou ao solo, a porta-escudos viu com quem ele tentava interagir.

A dez passos dali uma mulher baixa jazia sentada em uma cadeira delicada apoiada sobre duas varas. A mulher tinha o crânio deformado e tatuagens faciais. Seu cabelo estava arranjado em um penteado elaborado, seguro por pentes de pedrarias e plumas verdes. Vestia uma ampla túnica com desenhos complexos e sandálias de couro decoradas com lascas de turquesa.

— Você vai me matar? — Disse a mulher bárbara.

— Você… — Pindá balbuciou, depois abriu e fechou a boca algumas vezes, sem emitir som.

— Não, eu não falo sua língua, a língua boa, como vocês costumam dizer. — Ela emitiu um riso de ressentimento. — Não acha pretensioso chamar sua própria língua de “língua boa”, insinuando que todas as outras são… tapuy? É essa a palavra, não é mesmo? Bárbaras.

— Mas, se você não fala minha língua…

— Como você me entende? — Ela sorriu. — Eu entrei na sua mente. Eu ouvi dizer que as nações hetá não gostam de feiticeiros. Vocês os matam, não é mesmo? Todos aqueles que mexem com o oculto. Nós, tuylum, por outro lado, apreciamos muito o ofício da magia. Na verdade, ao contrário de vocês, sequer temos palavras diferentes para “curandeiro” e “feiticeiro”.

Ela se levantou da cadeira e começou a caminhar pelo pequeno campo de batalha.

— Se você entrou na minha cabeça, por que não impediu que eu matasse seus guardas? — Questionou Pindá.

— Meus guardas… — Disse a bárbara com desdém. Ao passar perto do homem que lançara os dardos, cuspiu sobre seu corpo. Caminhou até o outro, que ainda estrebuchava. — Porque eles me espionavam. Porque me levavam para estes passeios distantes na floresta quando meu marido estava cansado de mim. E porque este monte de lixo disse que uma mulher que fala com o marido do jeito que eu falo devia ser estuprada.

Ela pisou sobre o rosto retorcido de dor do homem caído.

— Disse que ele mesmo daria conta disso quando meu marido não estivesse olhando.

— Por favor, senhora… — Balbuciou o homem. — Me cure…

— Agora me chama de senhora. Pois eu quase sinto vontade de parar o sangramento e fechar a ferida, só para ver quanto tempo você suportaria viver sem seus ovos. — Gracejou a feiticeira, com uma nota de sadismo na voz. — Eu poderia zombar de você todos os dias: Zakuk, a lança sem ponta, a árvore do galho quebrado, o menino que perdeu seu brinquedinho. Você se tornaria uma companhia tão mais divertida!

— Por favor…

— Mas eu sou misericordiosa.

Ela impôs as mãos sobre o corpo vacilante e sibilou como uma serpente. O homem sentiu o ferimento converter-se em uma fenda; a poça de sangue cresceu assustadoramente. Em segundos, toda a vida tinha abandonado seu corpo. Seu rosto empalidecido preservava uma carranca monstruosa de medo e decepção.

— Sim, eu sou quem você suspeita — disse a feiticeira. — Eu sou Itzel, a esposa de Paac ka Tul, inimigo de seu povo. O homem que você deseja matar.

— Eu não desejo matar Paac.

Itzel revirou os olhos.

— Não, só quer arrancar dele um amuleto que já carregava antes de se casar comigo, e que não tira do pescoço nem para se banhar ou fazer amor. E não é só isso que você quer. — Ela sorriu. Seus olhos cintilaram. — Você prometeu um presente a alguém, um destes troféus nojentos que vocês carregam. Francamente, querida, dá no mesmo que matá-lo. Você jamais sairá de Uuc com tudo isso se ele estiver vivo. E jamais conseguirá fazer isso sem minha ajuda.

— Sua ajuda? — Pindá cruzou os braços, carregada de desconfiança.

— Sim. Pois eu desejo ver aquele velho impotente morto. Todos os seus filhos mais velhos morreram lutando contra suas irmãzinhas. Pelas leis tuylum, eu me tornaria a governante de Uuc até nosso filho ter idade o bastante para governar, então eu poderia simplesmente manipulá-lo. E eu posso ajudá-la.

— Como?

— Como você já notou, minha querida, eu conheço feitiços que curam, que matam, que ocultam e entorpecem. Com mágica eu matei este miserável. Com mágica eu mantenho minha juventude. Com mágica eu transformo a vagem seca que meu marido tem entre as pernas em algo útil para uma mulher. Confie em mim e eu garantirei que você obtenha tudo o que precisa.

Pindá, como a maioria das guerreiras abayuká, temia a magia. Por isso, fechou os olhos e se agachou quando viu que o tecido da veste de Itzel crescia e se desfiava, formando uma névoa multicor. A névoa estava ao seu redor, em sua boca e suas narinas. A textura era de água, mas o aroma era de floresta: pútrido e doce como as camadas de vida que se sobrepunham em troncos antigos, lianas, orquídeas, musgos e cogumelos. Sua boca estava seca, mas ela não ligava.

Não ligava. Ela começou a correr, e miraculosamente seus pés desviavam sozinhos de toda pedra afiada, de toda coisa traiçoeira, e suas passadas eram silenciosas como se seus pés estivessem envoltos em tecidos. Ela carregava Itzel nas costas, como uma criança, mas não sentia peso algum.

Viu a cidade maldita. As casas de tábuas e palha trançada ficavam empoleiradas nas árvores, em vários níveis. Sentiu o cheiro da comida rica em condimentos que preparavam e dos óleos perfumados que extraíam das árvores. Viu uma mãe amarrando pedaços de madeira à cabeça de um bebê e entendeu porque eles tinham crânios compridos. Viu um homem sendo tatuado por outro com um espinho de cacto e tinta preta. Viu um mercado na clareira central, onde negociavam produtos de terras distantes: cerâmica, bronze, esmeraldas e escravos.

Calmamente, a abayuká andou pelo mercado, maravilhada com a variedade de joias, tecidos e alimentos. Ali os homens não precisavam usar suas pesadas armaduras de couro, vestindo apenas tangas, sandálias e joias, e Pindá viu que muitos eram tatuados dos pés à cabeça.

— Ninguém me vê — disse a porta-escudo, incrédula. — Você é muito boa nisso.

— Estou só começando.

Do outro lado da clareira estava seu objetivo: o palácio de Paac, composto de salões, corredores e escadas escorados em uma sumaúma de sessenta metros de altura. Pindá jamais imaginou que um mortal vivesse em uma moradia tão luxuosa. Por mais impressionada que estivesse pela visão, julgou que tudo aquilo era uma monstruosidade e um desperdício.

— Vamos, suba depressa — disse Itzel, puxando os cabelos da nuca da abayuká. — Suba logo.

Atravessaram três lances de escadas e três salões, passando despercebidas pelos guardas.

— Agora espere aqui — disse a feiticeira, descendo das costas de Pindá.

Estavam na antessala dos aposentos reais. Ainda invisível e inaudível, Itzel impôs uma das mãos e disse algumas palavras, enquanto segurava um adorno de osso em seu cabelo. Os quatro guardas que protegiam a entrada caíram no sono. Atrás deles havia um luxuoso cortinado vermelho e dourado. Itzel rasgou sua própria túnica e se arranhou com as unhas. Atravessou o cortinado gritando.

— Marido! Zakuk! Talac! Uma fera nos atacou na floresta!

As lágrimas e o desespero pareciam genuínos.

— Calma, pequena — disse Paac, acariciando seus cabelos enquanto se erguia de seu leito. O estrado de madeira com um acolchoado de algodão era decorado com chifres e peles de veado. Paac observou sua esposa em farrapos, que revelavam parcialmente sua nudez; um grande seio de mamilo escuro atraía sua atenção de tal maneira que ele prestou pouca atenção à história. Deu um beijo molhado na bochecha da esposa e começou a acariciar suas nádegas macias.

— Ora, querida. Você sabe que a Mata sempre cobra um tributo de quem cruza seus limites. Fico feliz que não tenha sido você. — A carícia tornou-se um aperto firme.

Pindá observou, enojada, o corpo nu e esquálido de Paac. As velhas tatuagens pareciam deformadas sobre a pele flácida. Perto dele, Itzel parecia uma escultura de pele suave e curvas cheias e firmes.

— Foi culpa minha, marido. Eu que pedi que fôssemos mais longe. Eu queria conhecer a lagoa. Foi minha culpa, marido. Me puna.

O velho Paac babava. Não resistia aos encantos da esposa. Com um toque dela, estava pronto para possuí-la. Jogou-a no piso de tábuas e terminou de rasgar sua veste, exibindo o corpo jovem.

— Faça sua mágica, minha querida.

Estava babando nos seios dela quando os velhos instintos de guerreiro o fizeram olhar para cima. A abayuká segurava um machado de bronze retirado da sua parede, seu machado. Ele não podia acreditar: a guerreira de anos atrás voltara para terminar seu trabalho.

Ele abriu a boca aterrorizado. Abaixou a cabeça e olhou nos olhos da esposa. Ela ria. E continuou a rir quando o machado desceu, separando a cabeça do rei de seu corpo e o sangue lavou seu rosto. Pindá retirou o amuleto ensanguentado do pescoço destruído e o enfiou dentro da boca do falecido. Tinha o amuleto, o troféu e o presente.

— Saia pela porta da frente — disse Itzel. — Confie em mim.

A rainha gritou à medida que a algoz escapava.

— Vocês dormiram em vez de defender seu rei! E agora a besta matou meu marido.

Acordados repentinamente, os guardas viram as manchas horrendas de sangue e o corpo sem vida de seu senhor. Ouviram os berros erráticos da rainha e viram a assassina fugir, mas de início ficaram sem reação: ela não era humana.

Um homem tomou coragem e interceptou seu golpe com o escudo. Ainda assim, vacilou diante da força do impacto e do rugido horripilante que ela emitiu. Cinco outros a cercaram, fazendo gestos amedrontados e proferindo palavras mágicas, tentando afastar o mal que ela representava.

A criatura horrenda empunhando o machado do rei era como uma mulher, mas muito maior e coberta de escamas. Ela rugiu novamente, exibindo fileiras de dentes afiados. Seu hálito era pútrido; seus olhos eram amarelos. Os homens se alinharam para enfrentá-la, mas estavam enfraquecidos pelo pavor. Seus golpes não tinham efetividade, pois não conseguiam encará-la diretamente: perdiam a força, batiam em falso, tinham suas armas desviadas. Foram atropelados no ímpeto de sua passagem: um atingido pelo machado, outro por um rápido chute, outro escorregando espontaneamente; um afastou-se, hesitante.

— Levante-se, seu covarde! Kohol, não fuja!

As ordens vieram do primeiro a atacar o monstro. Ele jogou o escudo partido e avançou, colocando-se entre ela e a saída. A criatura destruiu o rosto dele com sua garra esquerda.

Pindá observou abismada. Como fora capaz de derrubar aquele guerreiro com tamanha facilidade? Como pudera afundar seu nariz com um mero soco? Não importava: os outros haviam sido postos para correr pela demonstração de força.

— Kaauka! O rei foi morto pela Kaauka! — Gritou um deles, enquanto corria para fora da casa.

O aviso ecoou pela clareira e as pessoas começaram a se fechar em suas casas. Primeiro o silêncio se abateu sobre Uuc; depois um murmúrio coletivo se ergueu de cada casa, como se todos sussurrassem orações para afastar o demônio invasor. Segurando consigo a cabeça decepada e o machado, Pindá correu para dentro das árvores centenárias sem que ninguém a confrontasse. Não parou de correr. “Não sei o que a rainha bárbara fez comigo que me faz tão assustadora, pensou, mas devo aproveitar enquanto isso durar”.

No aposento real, Itzel chorava por fora e ria por dentro.


— Pindá! Pindá voltou! — Disse uma menina, empolgada, largando o arquinho com que praticava tiro na praça central.

Quando a menininha gritou, sua mãe deu-lhe um tabefe imediatamente.

— Pare de mentir!

— Mas é verdade, mãe! Olha lá! — A menina apontou com seu dedinho gorducho.

A aldeia toda se reuniu. A jovem voltara, descabelada, suja e faminta, com os lábios rachados e os olhos turvos.

— Farinha! Cerveja! — Rogou Pindá, pateticamente, pois não conseguia gritar com sua voz arranhada. — Não como nada há três dias!

A curandeira ria e abraçava Pindá. Outras guerreiras vinham afagar seu cabelo e dar tapinhas em suas costas e braços. A enorme Akang abriu caminho no meio da confusão. Seu rosto era a própria expressão da incredulidade.

— Rudá… — Balbuciou. — Rudá deve amar você, pirralha-de-tipoia.

— Mãe-de-arco. O presente para seu filho, meu futuro marido — disse, entregando-lhe o machado de bronze. — E o seu troféu. Eu não sabia se preferia uma orelha, um nariz ou outra mandíbula, então trouxe a cabeça inteira.

Akang segurou a cabeça de Paac pelos cabelos. Não havia dúvidas: sob as rugas ela ainda conseguia ver suas feições. Era legítima. O machado também era legítimo. Enquanto ela olhava a cabeça nos olhos, a boca se abriu. Dos dentes aguçados despencou o pequeno lagarto esculpido. Os olhos de Akang brilharam e ela riu como não ria desde a juventude.

— Filho! Venha aqui! Sua futura esposa lhe trouxe um belo presente!

Em Uuc, o pânico gerado pela aparição da Kaauka durou semanas. O povo aclamou Itzel como sua senhora quando ela saiu do palácio pintada de vermelho, segurando o cajado dos ossos. Seria conveniente uma feiticeira no comando: homens de guerra eram inúteis contra ameaças sobrenaturais.

Vilson Gonçalves
Vilson Gonçalves
Vilson Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

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