Rainha das Cinzas

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O reino que deveria ser meu queima diante de meus olhos.
É tarde demais. O som do fogo crepitante abafa todo o resto. Eu não consigo mais ouvir os gritos de meu povo. Me pergunto se sobrou alguém para gritar.

Um estouro ensurdecedor retumba, seguido do zumbido de magia recém lançada. Uma silhueta escura surge por entre as chamas, um ponto negro flutuando em meio às mais altas piras funerárias que já vi na vida. Eu não preciso olhar mais de perto para saber que é ela. A mulher que causou tudo isso.

Pondero. Uma bruxa ainda pode ser considerada uma mulher, ou apenas uma criatura das trevas?

Olho para minha própria espada, imbuída de magia. Uma lâmina de prata feita especificamente para destruir aquilo que foi corrompido. Demorei muito tempo para encontrá-la, tempo demais. Seguro o cabo de couro com força. Se eu não posso salvar meu reino, ao menos a espada me trará vingança.

Sinto um curioso zunido de magia fina vindo da lâmina. Ela me chama, implora para ser usada. Eu tremo com a ideia. Ainda serei considerada humana depois de usá-la? Quanta magia é necessária para que alguém perca sua identidade?

Um outro pensamento se esgueira em minha cabeça: Quantas pessoas perderam suas identidades por causa deste monstro? Meu povo está morrendo, provavelmente já está morto.

“Princesa,” minha dama de companhia chama atrás de mim. Sua voz é frágil, ela é apenas a sombra da mulher forte que costumava ser. Um espelho perfeito do reino inteiro. “Vamos embora, Vossa Alteza não precisa fazer isso. A rainha entenderia.”

Eu consigo escutar o medo em sua voz. No alto do penhasco onde estamos, a bruxa pode nos notar a qualquer segundo.

E de fato ela paira entre os escombros, olhando em nossa direção.

Eu fito fixamente as lagoas negras e profundas que ficam no lugar onde deveriam estar seus olhos. Sua pele acinzentada cai em flocos como a casca de uma árvore velha. A bruxa sorri, seus dentes podres batendo de excitação quando ela vê sua próxima presa, a última pessoa que ela deve matar para que seu reinado de terror esteja completo.

“É meu dever,” respondo à dama, sem tirar meus olhos da bruxa. “Eu nunca serei digna de ser a rainha se não estiver disposta a lutar pelo meu reino. Minha mãe morreu para defendê-lo, e eu irei fazer o mesmo, se necessário.”

A dama respira fundo, como se fosse discordar, mas desiste. Ela sabe que eu estou determinada a ficar e é leal o suficiente para permanecer ao meu lado, se eu o desejar.

“Ache um abrigo,” digo. “Rápido. A bruxa já nos viu, ela sabe que estou aqui para matá-la.”

Sem mais uma palavra, a mulher corre penhasco abaixo em passadas frenéticas, abastecidas pelo medo. A bruxa a segue com o olhar, apenas parcialmente interessada, seu foco maior em mim e na espada em meu cinto. A criatura lambe os lábios com uma língua arroxeada, saboreando o momento.

Desembainho minha espada. Sua atenção está toda em mim. Deveria estar amedrontada, mas só me sinto vazia. Estava assustada antes, e vou chorar minhas perdas depois, mas agora tudo o que penso é em matar essa criatura horrenda.

A espada aquece em minhas mãos, me enchendo de uma coragem mágica. Não me atrevo a pensar sobre as consequências.

A bruxa ergue um braço, e eu mal consigo ver o brilho saindo de seus dedos antes de rolar para o lado, uma bola de fogo passando a centímetros de mim e explodindo as árvores ao meu redor. Meus ouvidos parecem gritar com o impacto, e me levanto cambaleante, minha cabeça estranhamente leve. Planto os dois pés no chão e respiro fundo, deixando o ar quente queimar meus pulmões.

“Bruxa! Desça aqui e lute comigo!” grito com toda minha força.

Entretida com a ideia e orgulhosa com a lembrança de milhares de soldados que a desafiaram da mesma maneira, ela vem.

Ergo a espada quando ela desce rapidamente dos céus para me encontrar, suas mãos vermelhas brilhando com poder ainda não utilizado. Todo o seu corpo está enegrecido e coberto de fuligem, e eu não sei dizer se é a ruína de minha terra agarrando-se a ela, ou se ela mesma é feita de chamas e cinza.

Com um movimento longo, uso minha espada para parar um ataque antes que ela possa alcançar meu rosto. Vi cavaleiros derreterem em suas cotas de malha desta mesma maneira, mas a bruxa não me toca. A lâmina de prata fica vermelha onde ela a segura, mas a espada não cede. A criatura aperta a espada com força, e um sangue negro como a noite escorre pela prata; seu sorriso, até então inabalável, se dissolve em um esgar de dúvida.

Ótimo.

Giro a espada, decepando um de seus dedos. Ela grita e tenta me atacar com a outra mão, mas eu me abaixo e desvio. A bruxa aponta sua mão boa para mim, chamas nascendo de seus dedos, mas eu me movo mais rápido do que considerava possível e cravo minha espada em seu braço, atingindo carne e osso. Desta vez nenhuma parte de seu corpo cai, mas sua mão fica dependurada por tendões quase rompidos e ossos quebrados. Com um salto, a bruxa voa para longe, colocando uma boa distância entre nós.

Eu me permito um segundo de surpresa. Tantos soldados de minha mãe tiveram suas armaduras transformadas em caixões de metal antes que pudessem ao menos chegar perto desta criatura. Minha própria mãe, em seus momentos finais, após me enfiar em uma passagem secreta, abrindo seus braços para se tornar um escudo entre a bruxa e eu, estraçalhada na frente dos meus olhos. Tudo aquilo fez com que a bruxa parecesse algo invencível, que não poderia ser tocada e muito menos morta.

Mas agora um único dedo queimado está no chão em minha frente, e sua outra mão está completamente inútil. Permito-me tocar na lâmina mágica. Parece tão fácil. A vitória está na palma de minhas mãos.

Hesito, meus dedos tremendo ao sentir o metal quente vibrar com meu toque. Que preço pagarei para destruir um monstro com sua própria arma?

Mas então eu vejo as chamas, as imagens de dor e destruição tão fortes em minha mente que parecem estar acontecendo diante de meus olhos, e consigo escutar os gritos de meu povo em meus ouvidos como uma súplica de misericórdia — que eles não tiveram — e vingança — que eles necessitam.

Franzo meu rosto. Eu sou a única sobrevivente da família real. É meu dever dar isso a eles.

Vejo a criatura flutuando perto da beirada do penhasco, pronta para fugir e cuidar de seus ferimentos como o animal que ela é. Eu praticamente consigo ouvir a fúria tomando conta de mim com um estalo. Cerrando os dentes, corro em sua direção.

Alguém grita. Um grito alto de dor e raiva, quase desumano em sua ira. Me assusto quando compreendo que sou eu. Mas acho que isso também pega a bruxa de surpresa, pois ela olha para trás. E estou correndo mais rápido que qualquer humano deveria, lâmina brilhando em mãos. A espada me roga para ser usada, para destruir aquela que destruiu minha vida e minha chance de um futuro, e tomar a sua vida como meu prêmio.

Dessa vez, eu a escuto sem hesitar.

Pulo do penhasco com vista para a vila, em direção à bruxa. Eu ajo, mas também consigo me ver agindo, como se estivesse dentro e fora de meu corpo ao mesmo tempo. A sensação é inebriante. Ela ergue os restos de sua mão para me parar, mas eu vejo a desistência em seus olhos. Ela sabe que é fútil tentar me impedir. Magia me tornou mais forte e determinada do que ela. Cravo a espada por dentro de sua garganta em direção de seu peito, deixando que a lâmina beba de sua magia negra e a transforme em algo bom, a vida da bruxa se esvaindo por entre meus dedos. Os buracos negros de seus olhos se tornam menos infinitos, até que são apenas as cavidades de uma caveira. Seu corpo perde as forças de uma vez por todas.

E eu caio.

A queda não é longa, pois o penhasco não é assim tão grande. Mas minha mente ainda é afiada, seja pelo calor do momento ou por amplificação mágica — eu já não sei mais —, e sinto como se o tempo tivesse estagnado. Sinto o fogo que consumiu milhares de vidas queimando abaixo de mim. Penso sobre como o reino irá perder sua última governante, e como isso será o fim. Me entristece saber que o reino que minha mãe nutriu com tanto amor irá se desfazer em cinzas antes que eu possa ter uma chance de provar para ela que eu era capaz de comandá-lo.

Não, não pode acabar assim, a espada sussurra. Ou eu que penso?

Mas entendo o que preciso fazer. O reino precisa de uma rainha. Precisa da sua rainha. Precisa de mim.

E farei qualquer coisa por ele.

Aponto minha espada — ainda com o corpo sem vida da bruxa cravado nela — para o chão em minha frente. Fecho os olhos e rogo, chamando todas as forças que ainda consigo invocar. Quando alcanço o chão, não é em um impacto sangrento, mas com um leve baque quando minhas botas o tocam.

E então, a chuva.

Ela vem pelo meu chamado, para lavar as minhas terras do mal. Sinto o refrescar das gotas caindo em meu rosto, levando embora o calor infernal que a criatura trouxera. O ar sai de mim em golfadas. Eu a venci. Eu consegui, mãe.

Água escorre por minhas bochechas, e não sei dizer se são gotas de chuva ou lágrimas.

Eu não sei mensurar quanto tempo passa. Labaredas se transformam em centelhas que se transformam em fuligem molhada. Em algum momento percebo que estou coberta de cinzas, tirando toda a cor de meus cabelos negros e pele escura e me transformando em algo pálido e sem vida. Algo frio e desesperador se instala no fundo de meu estômago, e eu rio.

Meu reino se perdeu em chamas. Sou a rainha das cinzas.

Eu os sinto chegar antes mesmo de os ver, como um sexto sentido despertando. Pessoas. O que sobrou do vilarejo: crianças pequenas o suficiente para se esconderem em buracos, mulheres e homens sujos de sangue para se misturarem com os mortos. Vários deles erguem os olhos para o céu, depois para mim e para a criatura morta em meus pés. Sabem o que eu fiz.

Um a um, todos caem de joelhos e choram pelo milagre que eu lhes trouxe.

“Nossa salvadora!” alguns suplicam, sua voz um misto de alívio e sofrimento.

“É um milagre!” outros respondem, beijando uns aos outros em seus rostos irreconhecíveis de sujeira.

“A rainha está morta, vida longa à rainha!” O velho padre da capela anuncia, brandindo uma sineta estridente pelas ruas para quem pudesse ouvir.

Eu vejo a cena como se não estivesse realmente ali, uma espectadora em meu próprio corpo. Há um zunido familiar em meus ouvidos. Eu posso quase—

“Prin… Não, minha rainha,” minha dama de companhia me chama. Seus olhos estão vermelhos de choro, e um sorriso pinta seus lábios. O zunido fica mais forte. “Conseguiu. Salvou a todos nós.”

A espada está quente em minhas mãos. Eu olho para ela. Conseguimos, pensamos.

Uma alegria histérica toma conta de mim e quebra a barreira de gelo em meu estômago, finalmente alcançando meus lábios. Eu sorrio.

“Majestade?” a dama de companhia pergunta quando eu não a respondo prontamente.

Coloco uma mão em seu ombro. Consigo sentir como ela está se sentindo. Alegre, aliviada, em luto.

“Ainda não. Não o suficiente,” respondo. Em minha mente, todas as formas nas quais eu poderia moldar o futuro se fazem presentes. O potencial é praticamente infinito. Eu viro para o que restou de meus súditos.

“Meu povo,” eu chamo, minha voz alta e clara como nunca. Sei precisar exatamente cada uma das pessoas que está ali. Minha mente se estende para cada um deles, fazendo com que escutem. “Não pudemos salvar nossa terra, mas podemos reconstruí-la.”

Em minhas mãos, a espada treme. Finalmente.

Eu a ergo, a lâmina mágica brilhando com uma força renovada. “Vamos tornar nosso reino ainda maior. Expandiremos. Conquistaremos. Nunca mais uma força externa irá nos destruir desta maneira.”

Meu povo celebra, sua alegria extasiante.

Derrotaremos tudo o que se colocar em nosso caminho.

Seremos a maior força que esse mundo conheceu.

Em meu pulso, percebo algo se descolando. É um floco de pele, soltando da mão com a qual seguro a espada. Arranco-o e o jogo fora, sem pensar.

Temos tanto potencial juntas, jovem rainha.

Bruna Nora
Bruna Nora
Bruna Nora é amante de ficção especulativa desde que entende o que era uma história, atualmente escritora e ilustradora de quadrinhos e tudo o mais que pode se relacionar a narrativas. Vivo a base de chá e projetos inacabados.

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