Rendição do Serviço de Guarda

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Eddie observa o céu estrelado desta noite agradável de verão no hemisfério sul. O brilho das estrelas no fundo do vasto holotanque do núcleo de controle da base é indistinguível do fulgor legítimo a céu aberto.

Suspira e então cerra os maxilares com o queixo apoiado na concha da mão.

Lá fora, na vastidão deste setor da periferia galáctica, a menos de mil anos-luz do Sol, grassa uma guerra interestelar avassaladora. Um conflito abarcando dezenas de espécies civilizadas, um engajamento de proporções incomensuráveis à imaginação humana, que já perdura por mais de trinta e cinco milênios.

Krezstul lhe disse que os antepassados dele haviam batizado o conflito de “Guerra Natural”. Eddie abana a cabeça, desalentado. Sente saudades do humanoide de pelagem vermelha, seu predecessor, mestre e amigo durante os últimos cinco séculos.

Pensa outra vez no makene. Após vinte mil e poucos anos na Terra, o mentor regressava de seu exílio voluntário rumo ao sistema pátrio, enfim de volta ao seio da civilização materna, da qual abrira mão em prol do cumprimento da missão de sua vida.

Seu antigo mestre permaneceu nove décimos da existência mergulhado na gravitosfera solar. Mais especificamente, na Terra. Ainda que tenha se mantido em estado de animação suspensa por boa parte destes milênios, viveu demasiado, até por padrões makenes. Presenciou eventos históricos demais. Conviveu com milhões de pessoas. Acumulou uma quantidade prodigiosa de conhecimentos em primeira mão. Humanólogo por excelência, presenciou a alvorada, o florescimento e o ocaso de centenas de protocivilizações humanas. Auxiliou algumas. Influiu para minar a pujança de muitas. Atuações de exceção. Pois estudou a maioria com o afastamento científico devido, ante as circunstâncias.

O makene legou sua base ao novo guardião.

O programa-mestre do biocomputador residente no interior do complexo constituirá o único companheiro de Eddie e seu principal auxílio nos séculos vindouros. Sua sentença de solidão quase absoluta só será comutada quando os humanos lograrem desenvolver suas próprias técnicas de navegação interestelar. Então poderá revelar o propósito de sua missão e o papel que a Liga das Espécies espera que a humanidade assuma na periferia galáctica.

Além de abrigar um programa-mestre dotado de autoconsciência, a biomáquina armazena a coleção completa dos registros holográficos das experiências de Krezstul e grande parte do conhecimento científico e cultural makene.

Uma tarefa árdua e solitária. Longa, mesmo pelos padrões sobre-humanos, granjeados por Eddie com o beneplácito da Liga.

Com cautela e um pouco de sorte, não será colhido pela morte. Pois há um dispositivo do tamanho de um caroço de azeitona implantado em sua nuca, um artefato de fabricação makene que reprograma seu organismo, estimulando-o a produzir as enzimas responsáveis pelo desarme do relógio celular existente no padrão genético de toda a vida superior terrestre. Essas enzimas sintéticas ludibriam o mecanismo que desencadeia a decadência biológica associada à senilidade. Graças a Krezstul, vem mantendo sua idade somática constante há dois séculos e supõe que o fará até cumprir a missão milenar que lhe foi delegada.

Mesmo para um humano imortal, equipado com uma tecnologia muito superior à proporcionada pela ciência solariana do século XXII e com o vínculo hipercom com os makenes, a missão exigirá um sacrifício extremo.

Apesar de suas novas capacidades de guardião do Sistema Solar, tem plena consciência de que é apenas humano. Solitário e temeroso, diante de uma ameaça que, tanto em escala tecnológica quanto espaçotemporal, empalidece qualquer engenho, instituição ou empreendimento da humanidade.

Numa tentativa de insuflar ânimo em seu espírito abatido, rememora as palavras de Krezstul:

— O caminho para a vitória definitiva na Guerra Natural depende da continuação de nosso êxito em manter a cultura humana evoluindo por uma trilha correta. Vocês serão o nosso trunfo. Nossa arma secreta.

Estremece ao imaginar o que acontecerá à humanidade e, consequentemente, à Liga das Espécies, se os Carnívoros os descobrirem antes que estejam prontos.

Krezstul partiu há poucas semanas. Eddie ainda não se acostumou ao convívio solitário com o temor calmo e arraigado.

Sorri com tristeza. Desconfia de que esse sentimento de impotência constituirá seu companheiro mais fiel pelos séculos vindouros.


A nave auxiliar decolou da Terra há menos de um mês. Dista agora cinco vezes mais afastada do Sol que a órbita de Netuno. Docou num dos hangares do veículo estelar makene que jaz na borda da nuvem cometária que envolve o Sistema Solar.

Para os padrões de seus construtores, trata-se de uma nave estelar de porte reduzido. Um modelo antiquado, cuja característica principal reside na capacidade de se tornar virtualmente invisível à tecnologia de detecção humana, graças a um sistema ativo de antirreflexão, camuflagem que precisou ser atualizada diversas vezes nos últimos séculos, à medida que a ciência solariana progredia e a humanidade explorava mais a fundo os ermos do Sistema Solar.

Krezstul aciona o painel frontal do passadiço do veículo por comando vocal. O telescópio permanece focado na Terra, que se exibe como uma bola branco-azulada com poucos contornos nítidos na ampliação do holotanque. Não precisa recomendar que o gerente-de-bordo empregue os filtros de compensação óptica para evitar o fulgor da luz solar, feérica à sensibilidade do equipamento, mesmo à distância de dezenove horas-luz.

Esboça um sorriso melancólico. Um dos trejeitos tipicamente humanos que reluta em abandonar. Há menos de novecentos anos terrestres, na pele de um artífice de materiais ópticos holandês, sugeriu que o já célebre Galileu Galilei construísse sua primeira luneta. Outros humanos já o haviam feito uns poucos anos antes. O makene sabia que, ao contrário de seus contemporâneos, o gênio pisano faria bom uso do invento.

Presta novamente atenção ao holograma da Terra. Distraído, considera o holo bem melhor do que os obtidos a partir dos telescópios instalados no novo observatório automático que os humanos plantaram em Caronte.

Lembra-se do início.

Chegou à Terra em plena glaciação.

Os informes anteriores haviam sido vagos e poucos conclusivos. As sondas falaram de uma forma de vida bípede paleolítica, radicalmente diferente de tudo que a ciência da Liga conhecera até então.

Os dados relevantes eram escassos. Afinal, haviam sido colhidos às pressas por duas sondas estelares distintas. Em ambas as ocasiões os engenhos de passagem pelo Sistema Solar constituíram modelos bastante antigos e primitivos pelos padrões tecnológicos então vigentes e nem mesmo possuíam módulos de aterragem, recursos que teriam possibilitado a exploração da superfície daquele mundo biótico e o estudo de suas formas supostamente racionais in situ. Os batedores daqueles modelos foram lançados milhares de anos antes da eclosão da Guerra Natural. Na época da descoberta dos primeiros humanos, os makenes não julgaram que aquele tipo de pesquisa importasse tanto, sobretudo, diante do esforço-de-guerra imenso que sua civilização vinha empreendendo há milênios.

Krezstul deparara-se com umas poucas tribos esparsas de duas subespécies humanas distintas. Suas rotinas inteligentes estimaram a população terrestre em cerca de dez mil indivíduos. Um quadro bem mais dramático do que aquele delineado a partir das informações das sondas. Os humanos corriam um risco severo de extinção. Cumpria minimizar essa possibilidade.

Com o auxílio do programa-mestre, instalou sua base planetária e em poucos meses traçou uma linha de ação de contingência.

Um deus novo e terrível resplandeceu no panteão Cro-Magnon durante algumas gerações nas estepes geladas e na tundra das regiões setentrionais do continente eurasiano.

Apoiado por uma equipe de robôs bem programada, o makene empurrou as tribos atemorizadas do Homo sapiens sapiens para regiões até então inexploradas. Afugentou manadas de mamutes lanudos para o sul, para que os Cro-Magnon dispusessem de caça farta. Algumas tribos atravessaram o Gibraltar e mais tarde o Estreito de Bering, almejando fugir à cólera da divindade de pelagem rubra, que trajava peles de bestas desconhecidas mesmo aos caçadores mais experientes e comandava um séquito de criaturas infernais, cujos corpos, feitos de uma pedra lisa e brilhante, revelaram-se impenetráveis às lanças arremessadas pelos braços mais possantes.

Para as poucas tribos que já viviam nas regiões não atingidas pela glaciação, o deus escarlate desempenhou um papel diverso. Ensinou os primeiros rudimentos da agricultura a duas tribos ribeirinhas da Ásia e uma da África. Os povos que habitavam as margens do grande lago do Saara foram agraciados com a cerâmica e a noção de que certos animais podiam ser domesticados.

Em alguns casos, as tribos que fugiam do deus terrível do norte se fundiram com os povos protegidos pela divindade benevolente do sul.

Todas essas comoções se deram apenas entre as diferentes tribos Cro-Magnon. As tribos neandertais não foram perturbadas.

A glaciação se tornou mais rigorosa, como o programa-mestre previra há centenas de anos.

Acuados pelo frio e pela fome, os caçadores neandertais conduziram suas tribos para o sul.

Bem estabelecidos há muitas gerações na África do Norte, na Ásia Menor, nos vales do Indo e do Yang-Tsé, as comunidades prósperas de Cro-Magnon não tiveram dificuldades em rechaçar os invasores neandertalenses com a aplicação de um esforço conjunto.

Um mal necessário. Krezstul e o programa-mestre lamentaram amargamente seus papéis naquele genocídio sutil.

Os neandertais possuíam coragem e agressividade, mas não no mesmo grau que os Cro-Magnons. Possuíam índoles mais brandas e pacíficas. Eram mais contemplativos, talvez até mais sábios que os Cro-Magnons. Krezstul se identificou com os neandertalenses. A própria civilização makene constituíra em seus primórdios uma cultura pacífica. Aqueles eram os valores que Krezstul fora ensinado a louvar desde a infância.

A Guerra Natural obrigou os makenes e as demais espécies da Liga a empreender uma guinada brutal em sua maneira de ser. Caso houvessem persistido com seus credos filosóficos não-beligerantes, teriam sido varridos pelo furor ofensivo dos Carnívoros.

Nunca é fácil mudar a maneira de ser e pensar de uma civilização madura inteira. Sobretudo, quando se trata de uma civilização com dezenas de milênios de história.

A reiteração, numa escala menor, da atitude tomada por seus antepassados abalou o guardião makene. Julgara ter vindo à Terra para velar pelo desenvolvimento da espécie humana. Conscientizou-se de que a lealdade à Liga o obrigaria a perturbar o curso de vida de povos inteiros, a causar a dor e trazer a guerra, a fome, a miséria e a morte para muitos milhões de seres pensantes, na esperança de que, junto com tanta desgraça, algum progresso florescesse.

Não havia muito tempo. Urgia fomentar o progresso técnico e cultural da humanidade, reforçando simultaneamente o temperamento agressivo da espécie. Na realidade, patrocinar o extermínio dos neandertais foi apenas a primeira de uma série de confirmações em pequena escala da coerência das escolhas difíceis praticadas por seus ancestrais.

Em seus sistemas estelares, os makenes se julgavam criaturas de espírito elevado e conduta ética inatacável. Nas planícies ermas e geladas da Sibéria, ou no cálido aconchego de sua base num grande planalto da América do Sul oriental, houve ocasiões, como aquela em que condenara a raça neandertal ao oblívio, em que Krezstul se considerou tão cruel quanto um Carnívoro.


— De todas as espécies humanoides já descobertas pela Liga, meu jovem Edwin McAndrews, os humanos são os únicos cuja agressividade e espírito de luta se comparam aos das espécies racionais Carnívoras, com a diferença que vocês evoluíram sozinhos. Ou quase…

Ele ouvira o makene afirmar essa frase esdrúxula poucas semanas depois de se conhecerem, na penúltima década do século XX. Só após Krezstul lhe explicar tudo, ao longo dos anos seguintes, compreendeu aquela afirmação categórica.

A maioria das espécies racionais deste setor da periferia galáctica possui contornos humanoides, embora dotadas de metabolismos, fisiologias e padrões comportamentais em geral bastante diversos de seus equivalentes humanos. Essas espécies se desenvolveram, quase invariavelmente, em ambientes menos competitivos do que os terrestres. Ecossistemas não raro desprovidos de predadores realmente perigosos. Os humanoides que tiveram que se defrontar, ao longo de sua evolução biológica e cultural, com predadores mortíferos, acabaram por criar armadilhas para afugentá-los, ou ainda, paliçadas para impedir-lhes o acesso às áreas habitadas.

Os humanos constituem uma exceção notável. São o único povo humanoide conhecido que, desde os primórdios de sua evolução como espécie, conceberam armas ofensivas para enfrentar os predadores irracionais. Com o tempo, tornaram-se eles próprios os maiores predadores da Terra. Uma criatura bípede racional que não se encolhia, trêmula de pavor, ante o rugido de um tigre de dentes-de-sabre ou o rosnado cavo e possante de um urso-das-cavernas.

Para os xenologistas dos povos humanoides que compunham uma Liga das Espécies severamente pressionada pela Guerra Natural, no princípio foi impossível acreditar. Criaturas racionais humanoides com a agressividade de uma espécie Carnívora. Seres capazes de lutar contra carnívoros irracionais de grande porte contando com pouco mais do que as mãos nuas.

Que danos tremendos não seriam capazes de infligir aos Carnívoros se dispusessem de uma tecnologia sofisticada, os makenes especularam, levantando a questão numa conferência militar da Liga.

Dessa forma, segundo Eddie soube vinte e poucos milênios mais tarde, a longa missão de Krezstul no Sistema Solar fora arquitetada.


Krezstul medita, preparando o espírito para o breve período de hibernação. Em breve rumará para a câmara de animação suspensa e ordenará que o gerente-de-bordo inicie a viagem de regresso. Em poucos anos humanos estará em casa. No entanto, ao contemplar o holograma da Terra, hesita.

Irá para casa afinal. Surpreende-se ao se perceber acometido por uma avidez nervosa ante a certeza do regresso há tanto ansiado. Dividido entre as saudades da Terra que já o acometem e as saudades de casa, tormento onipresente durante os milênios de seu exílio. Passou demasiado tempo afastado de seus semelhantes. Tempo bastante para, agora que deixaria a Terra para trás, começar a pensar no mundo dos humanos como seu verdadeiro lar. Tempo bastante para começar a se questionar sobre o quanto de makene ainda resta em seu âmago.

Mesmo para um povo acostumado à imortalidade, gozou de uma existência excepcionalmente longeva. Porque, cedo ou tarde, o imortal desiste da vida. No começo, a perspectiva da passagem dos séculos e milênios assusta um bocado, sobretudo, os cidadãos mais antigos, que foram assombrados pelo fantasma da morte em suas juventudes. Depois, junto com a certeza absoluta da eternidade, vem o tédio. Contudo, por mais paradoxal que pareça, a Guerra Natural constituiu um estímulo extraordinário. Jamais na longa história makene, tão poucos cidadãos optaram pela desistência. Krezstul, por exemplo, idoso como é, sente-se mais vivo do que nunca. Mesmo afastado centenas de anos-luz de seus semelhantes mais próximos, não foi acometido pelo anseio de abandonar tudo. Decidiu permanecer vivo em prol da causa e jamais se arrependeu.

Animou-o não somente a relevância de sua missão na Terra, como a esperança de um dia retornar à civilização makene. Sua cultura se modificou bastante nestes últimos vinte milênios humanos. Os costumes e a tecnologia teriam parecido inteiramente estranhos ao historiador e ex-guardião, caso não houvesse acompanhado todas essas mudanças à distância, à medida que se processavam.

Regressará ao lar de todos os makenes.

Com um sorriso, repara ter adotado uma postura tipicamente humana ao sentar na poltrona anatômica do passadiço. Velhos hábitos primatas.

Afinal, depois de todo este tempo, tornou-se meio-humano. Os pelos dos braços e do dorso se eriçam de orgulho ante o pensamento. Sentirá saudades.

Tristonho, recorda-se de que não houve apenas gratificação profissional e satisfação pelo cumprimento do dever em sua longa estada no mundo adotivo.

Por várias vezes conheceu o amor. Amor de um tipo muito diverso daquele que experimentara com as cidadãs de seu sistema natal. Um sentimento menos sofisticado e intelectualizado, mais intenso e saboroso, do que o outrora dedicado às mulheres de sua própria espécie.

Após cada uma dessas aventuras românticas de umas poucas décadas, jurava que não sucumbiria ao desejo outra vez. Sempre conseguiu se manter fiel ao juramento. Por alguns séculos.

Ainda sentado à poltrona anatômica, solta uma risada rouca que termina num gemido. Se estivesse presente aqui consigo, o amigo Edwin McAndrews decerto teria classificado esse som tão humano com o adjetivo “pungente”.

No início, julgou-se inteiramente incapaz de se apaixonar por uma fêmea humana. Considerara-as demasiado exóticas, com seus modos rudes e agressivos, as epidermes praticamente desprovidas de pelos, as nádegas carnudas e o cheiro adocicado de seus fluidos vaginais.

A solidão falou mais alto. A solidão e a necessidade de se manter emocionalmente saudável, numa época em que já se sentia farto de recorrer ao auxílio pueril das simulações proporcionadas pelo programa-mestre da base.

Dezesseis milênios afastado dos indivíduos de sua própria espécie, durante os quais interpretou papéis humanos de complexidade crescente, personificações cada vez mais convincentes e eis que começou a se considerar um mestiço cultural. As mulheres humanas já não pareciam tão esquisitas. Suas peles nuas exalavam um aroma agradável e sensual. Os seios diferiam um bocado das tetas das mulheres makenes, tanto em número quanto em disposição, isto para não falar na ausência óbvia de pelagem. Neste quesito particular, justamente a região pubiana peluda era o local em que as duas espécies de mulher mais se assemelhavam.

Sim. Não só copulou, como se apaixonou perdidamente por muitas mulheres humanas. O mais triste era o fato de que suas amadas envelheciam e morriam num piscar de olhos.

A primeira foi a doce Nafren, filha de um faraó dos primórdios do Antigo Império. Sob o disfarce humano de Imhotep, ministro e sacerdote egípcio, Krezstul servira primeiro ao avô e depois ao pai da princesa amada. O faraó Neterierkhet (que os helenos optaram por chamar de “Djoser” milhares de anos mais tarde) tinha-o numa estima tão elevada que aprovou entusiasmado seu casamento com a filha predileta.

Depois vieram Tabaat, a bela fenícia dos tempos de Hiram; Tsin Li, filha de um comerciante com laços sanguíneos com a família imperial da Dinastia Tcheu; Flavínia, uma patrícia romana da época anterior às Guerras Púnicas e muitas, muitas outras. A última foi uma princesa incaica nascida em 1232 AD.

Após Nimalk, uma jovem de origem quíchua, possuidora da epiderme clara característica de sua posição social elevada entre os incas, logrou manter certo celibato por cerca de novecentos anos. Porque a dor provocada pela morte da mulher amada não se tornava menos intensa a cada repetição. Ao contrário, continuava tão capaz de destroçá-lo por dentro como na primeira vez. Ou talvez, como já suspeitara em várias ocasiões, doesse mais a cada novo amor perdido. Portanto, nos últimos nove séculos, limitou-se ao sexo casual com humanas incapazes de lhe despertar amor ou paixão.

Se ao menos os hierarcas da Liga lhe houvessem permitido ofertar a imortalidade a suas humanas amadas… Longe disso, sempre advogaram que o advento de humanas imortais reduziria em muito as probabilidades de êxito da missão.


Os sistemas de termorradar da nave estelar esguia que penetrou na nuvem de Oort solariana poucas horas atrás são sensíveis o bastante para que a caçada seja coroada pelo êxito. Os dois tripulantes exultam ao confirmar as suspeitas levantadas no informe do Serviço de Inteligência Aliado, transmitido direto do Quartel-General.

A criatura de cerdas castanhas e olhos pedunculares se ergue nas quatro patas traseiras e urra jubilosa quando a ampliação holográfica exibe a silhueta de um vaso alienígena. Ideogramas no idioma da espécie-líder flutuam pouco abaixo do holograma.

— Makenes! Então as informações que recebemos eram corretas.

O outro Carnívoro — menor que o companheiro e de aparência vagamente humanoide — libera as garras retráteis de uma das patas tridáctilas e alisa a crina hirsuta que lhe recobre o crânio, descendo até o dorso musculoso. Sua fisionomia assume um aspecto céptico ao declarar:

— Trata-se de um modelo muito antigo. As linhas, no entanto, são tipicamente makênicas.

— Um destroço, portanto.

— Não creio. Repare no perfil de emissão energética. Suas linhas indicam que os sistemas de manutenção de vida estão ativados e o propulsor de antimatéria parece pronto para impulsionar o veículo daqui para longe tão logo o gerador de parassingularidades fenda o continuum.

O alienígena cerdoso reassume bruscamente a postura octópode característica. A plataforma elevada do centro de comando acanhado estremece ante o impacto. As naves de reconhecimento da raça-líder são robustas, mas não foram em absoluto projetadas para suportar os acessos de irritação de algumas das espécies aliadas. O pseudoinsetoide de quatro metros de diâmetro e mais de uma tonelada de massa ronca num tom inquisitivo:

— O que uma nave estelar tão velha está fazendo neste sistema não catalogado? As presas decerto não possuem núcleos habitacionais aqui. — Diante da ausência de resposta, o octópode ondula as antenas num ritmo incerto antes de prosseguir. — No entanto, a Inteligência suspeita que os makenes talvez tenham instalado o projeto de uma nova arma neste sistema.

— Talvez os informes estejam desatualizados neste setor. Nossas sondas não varrem esta vizinhança há milênios. De qualquer modo, viemos até aqui para verificar a questão. — O Carnívoro bípede rosna para a criatura maior, como que para lembrá-lo de seu lugar. O octópode encolhe os tentáculos cranianos, assumindo a postura ritualizada de submissão. Aparentemente satisfeito, o menor ordena. — Programe a nave para a manobra de interceptação e abordagem.


— Não há carnívoros racionais na natureza. Em todas as biosferas estudadas pelas civilizações da Liga, é a mesma história: animais tão bem adaptados ao estilo de vida de predadores simplesmente não precisam desenvolver o raciocínio. A seleção natural não incentiva um desenvolvimento que, afinal, seria desnecessário à sobrevivência de um predador.

Krezstul afirmou aquilo dando ênfase ao termo “natural”.

Eddie precisou aguardar alguns anos até que o mentor se dignasse esclarecer os pormenores da afirmação enfática anterior.

O makene narrou a história trágica de uma espécie humanoide já extinta, os dyzzoatis. Um povo que, tendo atingido seu apogeu científico e cultural cerca de cinquenta milênios humanos atrás, decidiu criar uma nova espécie racional através de técnicas de manipulação genética.

Dentre vários candidatos, os cientistas desse povo escolheram um animal predador extremamente astuto e agressivo, dotado de um potencial evolutivo formidável. Os rtzieks constituíam o ápice da cadeia alimentar do ecossistema terrícola da biosfera de um planeta pouco explorado, num sistema estelar distante.

Durante dezenas de gerações, os rtzieks foram geneticamente aprimorados por seus promotores orgulhosos. Os dyzzoatis não julgaram necessário extirpar as características agressivas do padrão comportamental rtziek. Alegaram que tal exclusão não poderia ter sido implementada, sob risco grave de alterar de forma danosa o processo de promoção evolutiva dos rtzieks à racionalidade. Após alguns milênios, os pupilos cruzaram o limiar da sapiência e continuaram progredindo. Passaram a assistir seus promotores em empreendimentos de grande envergadura e complexidade crescente. Com o passar das gerações, a relação de dependência foi se invertendo. A mão-de-obra e a iniciativa rtzieks se tornaram essenciais à sobrevivência da cultura dyzzoati.

A civilização dyzzoati já havia se tornado uma estrutura decadente, mantida de pé quase que exclusivamente pelo esforço rtziek, quando a espécie Carnívora decidiu reivindicar um privilégio apenas oferecido aos cidadãos da espécie promotora: exigiram que os geneticistas dyzzoatis desenvolvessem técnicas capazes de deter o avanço da senescência em organismos rtzieks.

Bastante pressionados por uma decisão da assembleia da Liga das Espécies — onde muitos representantes condenavam abertamente há vários séculos a simbiose dyzzoati-rtziek, por temerem a possível explosão demográfica de uma espécie tão agressiva pelos setores conhecidos da periferia — os promotores se negaram a atender a reivindicação.

Em retaliação à recusa dyzzoati, os rtzieks perpetraram algo para o qual não houvera precedente nas histórias das espécies racionais conhecidas. Declararam guerra total aos dyzzoatis e os exterminaram com relativa facilidade no decorrer de poucos anos. Pouparam apenas alguns poucos cientistas. O genocídio se deu diante de uma Liga horrorizada e impotente ante a celeridade dos eventos.

Muitos veículos estelares atenderam aos pedidos desesperados de socorro lançados a partir de sistemas habitados por dyzzoatis e rtzieks. Naves das espécies humanoides pertencentes à Liga e mesmo alguns vasos de povos alienígenas não-humanoides enxamearam em torno dos sistemas dominados pela espécie Carnívora. A grande maioria desses veículos foi abatida pelas baterias de canhões multilásicos pesados, instaladas às pressas em estações orbitais dyzzoatis, ou rechaçada pela incipiente, mas belicosa e bem treinada Armada Rtziek.

O genocídio dyzzoati foi só o começo.

Civilizadas e pacíficas, as espécies da Liga não estavam em absoluto preparadas para a onda de barbárie avassaladora que se abateu sobre suas culturas.

Os geneticistas dyzzoatis cativos foram forçados a realizar manipulações nos genes de outras espécies de predadores irracionais. Animais tão agressivos e mortíferos quanto os antepassados dos rtzieks. Após cento e cinquenta anos de labor, os rtzieks se declararam satisfeitos. Não precisavam mais dos últimos promotores, portanto, deram cabo dos últimos indivíduos da espécie que os criara. Graças ao trabalho desses últimos remanescentes, os rtzieks se tornaram eles próprios progenitores. Um milênio mais tarde, havia não uma, mas sete espécies Carnívoras à solta na periferia galáctica.

Sete espécies Carnívoras contra os quase setenta povos humanoides da Liga. Sim, porque os rtzieks e suas raças vassalas haviam decidido que, numa primeira etapa, eliminariam a Liga.

Aparentemente, a vantagem inicial residira com os makenes e demais humanoides, Eddie considerou. Afinal, qualquer espécie humanoide da Liga possuía uma população maior do que a soma de todos os indivíduos das sete estirpes Carnívoras. Dispunham ainda de uma tecnologia em média bastante superior a do Inimigo, uma vez que os dyzzoatis não haviam constado entre os povos de ciência mais avançada.

Faltava-lhes, entretanto, o vigor e a persistência dos Carnívoros. Algo que o humano definiu para o mentor como “a estamina do macaco assassino”. O ímpeto monomaníaco do predador, capacidade ímpar do Inimigo de transformar espécies de tecnologia mais sofisticada, algumas com mais de um milhão de anos de história documentada, em presas fáceis da sanha de destruição de suas Armadas.

Os primeiros milênios da Guerra Natural foram os mais terríveis.

Naquela época, a maioria dos povos humanoides decidiu que deveria alterar radicalmente seus estilos de vida, as filosofias de suas culturas e até suas maneiras de pensar, a fim de adaptá-las ao desafio da sobrevivência representado pelos Carnívoros. Não foi fácil. Algumas espécies somente a duras penas lograram fazê-lo. Outras, atualmente extintas, tentaram estabelecer uma paz em separado com os rtzieks. Enquanto outras, ainda, tentaram mudar, mas fracassaram nesse intento, ou desistiram no meio do caminho, decidindo que não valia a pena.

Ao fim do segundo milênio de conflito, as taxas de natalidade elevadas dos Carnívoros tornaram a superioridade numérica da Liga um fator irrelevante. Ainda que os rtzieks e seus aliados não tivessem conquistado a imortalidade ansiada, procriavam com a velocidade característica dos predadores que dispõem de caça farta.

Além disso, os Carnívoros — machos, fêmeas e filhotes — são guerreiros natos. Nutriam um ressentimento profundo pelos humanoides, advindo do fato de terem sido condenados a existências efêmeras. Julgam que as civilizações da Liga das Espécies constituem suas presas naturais. Numa forma cruel de darwinismo em âmbito galáctico, os Carnívoros sempre repudiaram todas as propostas de armistício, argumentando, com uma lógica toda própria, que presas e predadores devem cumprir seus papéis pré-definidos, exatamente como na natureza.

As espécies Carnívoras estabeleceram formas de governo descentralizadas. No entanto, todos os clãs lutam em prol do objetivo comum de predar as culturas humanoides até a extinção. Alguns clãs estão radicados há milhares de anos em superfícies planetárias, fabricando armamento e material bélico em geral. Existem clãs de pesquisadores, residentes em arsenais orbitais gigantescos, instalados ao redor de estrelas de nêutrons, desenvolvendo tecnologia militar cada vez mais avançada. Os clãs mais temidos são os que tripulam as esquadras-nômades, entidades autossuficientes que fustigam as fronteiras das civilizações da Liga, penetrando, por vezes profundamente, nos territórios humanoides para sitiar ou destruir uma determinada base ou planeta situado num sistema estelar mais vulnerável.

No quinto milênio do conflito, a situação atingiu um ponto de equilíbrio.

O problema é que as espécies humanoides não são agressivas por natureza e, portanto, não conseguem lutar diretamente contra as Armadas espaciais ou contra os exércitos planetários dos Carnívoros. Mesmo assim, suas tecnologias superiores proporcionaram a criação de diversos sistemas e mecanismos de defesa eficientes. Sondas automáticas patrulham as fronteiras. Armadas guarnecidas por robôs de confecção simples conquistaram vitórias em batalhas importantes. Contudo, segundo o makene, embora as máquinas autoconscientes complexas possam ser ensinadas a utilizar conhecimentos estratégicos e sistemas táticos, não aprendem a ser agressivas e tampouco desenvolvem denodo e espírito de luta, porque seus criadores não sabem como lhes transmitir tais conhecimentos.

Numa certa ocasião, Eddie comparou a situação atual da Liga das Espécies à do Império Romano do século III. Uma estrutura social ainda pujante, mas com as fronteiras sujeitas a invasões periódicas de tribos bárbaras. Uma civilização ainda vigorosa sobre a qual pairava a ameaça constante de destruição vinda do exterior. Krezstul resmungou algo ininteligível. Provavelmente, um palavrão que sua memória infalível resgatou de algum idioma semita esquecido. Em seguida, afirmou que algum dia ainda conversariam sobre a Queda do Império Romano Ocidental.


O gerente-de-bordo alerta Krezstul num tom nervoso sem precedentes, pois a consciência artificial normalmente se expressa com voz simpática e agradável:

Veículo estelar alienígena acaba de se materializar a menos de um segundo-luz de distância!”

O historiador makene sente os pelos se eriçarem. O velho instinto de fugir para se afastar da ameaça iminente, ocultando-se num sítio remoto qualquer. Há vários milênios não sente com tanta intensidade o tremor que lhe acomete agora. Recobra-se devagar. Logra esboçar um sorriso amargo, ao pensar que se julgou suficientemente humano a ponto de ter superado esse comportamento atávico.

O gerente interpreta os dados coligidos pelos sensores da nave. O veículo recém-chegado é um vaso de reconhecimento de longo curso, de projeto rtziek:

Veículo inimigo rumando direto para cá em curso de interceptação. Sua velocidade impossibilita que se cogite a implementação de manobra evasiva. Distância zero em vinte e sete segundos.”

— Salte para o hipercontinuum!

Impossível. Tripulante não se encontra em estado de animação suspensa. Manobra sugerida implica risco de vida severo para o tripulante.”

— Proceda conforme o ordenado. Nas circunstâncias presentes, sou dispensável. Rume para a base makene mais próxima e apresente seu relatório.

Negativo. A segurança da tripulação tem precedência de prioridade sobre a ordem emitida.”

O makene murmura um palavrão em latim clássico. Humanos jamais introduziriam diretivas tão estúpidas na pré-programação das inteligências artificiais incumbidas do controle de seus veículos estelares. Agora, se ele for capturado, talvez os humanos jamais tenham oportunidade de construir seus veículos estelares…

Suspira, desanimado. Os termorradares do veículo Carnívoro detectaram-no pela emissão de partículas de antimatéria do propulsor que o gerente colocou em stand-by.

O vaso de reconhecimento é bem menor do que a nave estelar makene. Compensa esse tamanho reduzido com uma capacidade de aceleração bem maior e um sistema de armas mais moderno e, sobretudo, mais mortífero.

Manobra de interceptação concluída. Veículo inimigo se encontra presentemente atracado em nosso casco. A tripulação Carnívora parece prestes a iniciar operação de abordagem.”


Quase dois meses se passaram desde a partida de Krezstul.

O sono de Eddie foi perturbado uma vez mais pelo pesadelo recorrente da crucificação.

No topo da colina baixa, três figuras esquálidas e abatidas pendem de mãos e pés pregados em grandes cruzes de madeira. Ao contrário do que as crendices populares advogaram pelos séculos afora, o holo gravado por microssondas makenes exibe três humanos pregados nas cruzes em posição normal, com as cabeças apontadas para cima. Legionários romanos mantêm a multidão sob controle. Só agora Eddie presta atenção aos detalhes: o indivíduo da cruz central, colocada em posição de destaque entre as outras duas, não é humano. Seus braços, tórax e cabeça são hirsutos como os de um chimpanzé, só que com pelagem rubra. Os olhos possuem íris alaranjadas imensas, ocupando todo o espaço entre as pálpebras semicerradas.

Como aconteceu nas versões anteriores deste mesmo pesadelo, acorda coberto de suor. Abana a cabeça, como que para espantar essa reprodução fantasiosa. Pois o disfarce de Krezstul fora perfeito, indistinguível de um ser humano genuíno.

Senta-se no leito, inteiramente desperto na penumbra do aposento que escolheu no piso residencial da base. O complexo foi instalado a meio quilômetro de profundidade, nos sertões do planalto oriental do continente sul-americano, a poucos quilômetros de uma das nascentes do rio Araguaia.

O novo guardião da Liga não se considera crente e tampouco ateu. Como a grande maioria da população humana em todas as regiões habitadas do Sistema Solar, Eddie professa desde a adolescência uma forma branda de agnosticismo.

Ainda assim, julga que o makene exorbitou ao assumir o papel histórico de Jesus Cristo.

Concorda que o Império Romano precisava ser desestabilizado a fim de permitir que os ventos do progresso varressem a Europa Ocidental uma vez mais, pois, caso contrário, uma das alternativas indesejáveis de alta probabilidade consistia no estabelecimento de um Estado Romano Mundial. Mesmo assim, em sua opinião, engendrar o cristianismo não foi uma atitude honesta, tampouco uma solução efetiva, conforme se comprovou mais tarde.

Não possui nem de longe a experiência do antecessor na manipulação da história humana. No entanto, crê que deve ter havido outros meios ao alcance da Liga para solapar as bases da cultura romana. Métodos que, se não tão fáceis, pelo menos teriam sido mais éticos e elegantes.

Krezstul se referia modestamente à personificação de Jesus como “meu papel histórico mais importante”.

Toda aquela baboseira sobre os milagres foi ridiculamente simples de implementar com o auxílio da tecnologia makene. Além disso, como Eddie bem sabe, o mentor sempre foi um aficionado das religiões humanas. Ao menos, seu desempenho como Sidharta Gautama foi mais discreto e convincente. Mais honesto também. A introdução do budismo na Índia já não causa mais espanto ao guardião humano. Afinal, como Budha, Krezstul tão somente postulou uma versão simplificada dos fundamentos básicos de uma das doutrinas existenciais makenes.

O guardião é interrompido em suas divagações religiosas pelo vínculo telepático, possível graças ao implante de um microtransceptor em seu neocórtex:

A nave auxiliar do veículo de Krezstul acaba de ingressar na atmosfera. Estou recebendo o sinal codificado com a solicitação de acesso à base.”

Os músculos dos ombros do humano se enrijecem. Esse retorno intempestivo está completamente fora dos planos. Algo saiu errado.

— Estabeleça contato com ele.

Não responde. A conexão automática com o gerente de bordo não se encontra operacional. Foi desabilitado por alguém a bordo do veículo.”

— Alguém?

Krezstul não saberia como impedir o gerente de falar comigo.”

— Está sugerindo que a ligação com a IA de bordo tenha sido propositadamente sabotada?

Correto. Outra hipótese é que o gerente tenha sido de alguma forma proibido de se comunicar com a base. A automonitoração e os sistemas de redundância eliminam a possibilidade de qualquer falha técnica.”

Eddie se sente um idiota rematado por ter indagado o óbvio. Conhece bem a tecnologia makene. Seus artefatos são absolutamente à prova de falhas.

— A nave se encontra estruturalmente intacta?

O programa-mestre não responde de imediato. O humano imagina-o esquadrinhando o veículo makene com os dispositivos de rastreamento ao seu dispor. Após a longa pausa de poucos segundos, informa que não há danos perceptíveis.

— Muito bem. Acesso autorizado. Libere o ingresso pela plataforma do hangar principal. Sele as eclusas e não deixe ninguém, nem mesmo Krezstul, passar pela escotilha interna da cidadela sem minha ordem. Entendido?

Afirmativo. Um makene jamais agiria assim.”

O programa-mestre que gerencia o funcionamento da base por vezes exibe um senso de humor sutil. O fato é que o tom da última afirmação soou elogioso dentro da mente do guardião. Com uma fração diminuta da consciência, percebe que o elogio contribuiu para elevar seu moral. O mais importante, no entanto, é que o comando foi prontamente aceito, mesmo diante da hipótese de desobedecer as ordens de um makene.

— Outra coisa. Há algum meio de desabilitar os sistemas de propulsão da naveta assim que ela efetuar o pouso?

Essa desabilitação dependerá da anuência do gerente de bordo. Embora não-comunicativo, essa I.A. se encontra decididamente operacional. Ante as circunstâncias, não creio que se oponha ao procedimento.”

Eddie sente que está tomando decisões em modo lógico e automático. Não precisa ponderar a respeito do que é preciso fazer. Não pairam dúvidas quanto aos próximos passos a serem tomados.

— Mais um pedido. Seria possível inundar o hangar com alguma forma de gás paralisante de amplo espectro de ação?

O programa analisa a questão durante pouco mais de um segundo. A resposta é concedida num tom francamente respeitoso, que Eddie jamais ouviu antes:

Embora não constitua uma técnica defensiva ortodoxa, a estratégia é viável.”


— Exatamente como lhe disse, honorável progenitor. — Bem humorado, o globt acena com os tentáculos cranianos. — Bastou que ameaçássemos a presa makene e o computador de bordo voltou a se mostrar cooperativo.

— Eu sei. — O rtziek agita a crina espessa, num sinal claro de impaciência. O outro Carnívoro já repetiu essa última afirmação dezenas de vezes nos últimos três dias.

A atitude adotada pela máquina serve apenas para confirmar os papéis de presa e predador. Diante de uma metralhadora ultrassônica apontada para o crânio do makene, a biomáquina que controla a nave decidiu mostrar seu lado razoável, revelando-lhes a localização do link automático. O pseudoinsetoide octópode destruiu o equipamento cautelosa e metodicamente, a fim de evitar infligir danos desnecessários ao computador propriamente dito.

Com uma ameaça semelhante, vinte e dois dias mais tarde, obtêm o código de acesso à base planetária.

Rumaram para o interior do sistema, numa velocidade excruciantemente lenta para os padrões Carnívoros, a fim de eliminar a possibilidade de detecção por parte dos humanos. Embora impacientes, ambos concordaram com a presa e sua máquina quanto ao acerto dessa tática em particular.

O makene jaz desacordado no piso do centro de comando espaçoso de seu veículo. A nave rtziek foi docada no hangar do veículo maior, ao lado da nave auxiliar.

O ferimento no topo do crânio do humanoide volta a sangrar, empapando-lhe a pelagem rubra.

— Seu mestre se recusou a falar, mas você o fará. — O rtziek articula num makene formal e pausado. — Para o bem dele. Quantos makenes existem na base?

— Nenhum.

Os dois Carnívoros se entreolham. Por experiência, sabem que o programa não lhes ousaria mentir. Os rtzieks e seus aliados já praticaram caçadas desse gênero anteriormente.

O rtziek prossegue com o interrogatório:

— E quanto aos autóctones primitivos? São aliados dos makenes?

— São humanos. — Os dois Carnívoros ouvem a inteligência artificial se manifestar no idioma de seus criadores. — Desconhecem tanto a existência dos makenes quanto a dos rtzieks.

— Serão capazes de detectar a presença desta nave, agora que nos pusemos em órbita ao redor de seu mundo mais populoso?

— Não dominam as técnicas de detecção necessárias para superar meus sistemas de camuflagem.

— Se as criaturas autóctones ignoram a presença dos makenes, trata-se de uma base secreta, certo?

— Exato.

— Os planos da nova arma que os makenes estão desenvolvendo se encontram no interior dessa base lá embaixo?

— Somente uma parte minúscula dos mesmos.

A criatura octópode se ergue nas quatro patas traseiras, roncando de alegria:

— Um mecanismo de disparo, portanto.

— Talvez faça sentido designá-lo assim.

Rtziek e globt se fitam. Satisfeito, o alienígena de aspecto felino ondula a crina, ao externar sua decisão:

— Desceremos no veículo auxiliar makene. A presa capturada seguirá conosco como refém. Desembarcaremos tão logo pousarmos.


A escotilha externa está se abrindo.”

Eddie não necessita do vínculo paratelepático com o programa-mestre para perceber o óbvio. O hangar foi inundado com gás anestésico e permanece às escuras. O capacete do traje makene feito sob medida possui visores infravermelhos. Com um movimento cauteloso, agachado atrás de uma empilhadeira, destrava a pistola laser de fabricação humana.

A arma foi a única concessão de Krezstul ao que classificou como paranoia belicista primata. Eddie sorri em silêncio. A precaução acabou se revelando útil, afinal.

Um vulto indistinto se esgueira com passos elásticos pela escotilha aberta. Olha em torno e volta a cabeça para o interior do veículo.

— Foi uma boa ideia termos nos lembrado de envergar nossos trajes espaciais. — O vulto se expressa no idioma de rosnados guturais dos rtzieks. — Segundo os indicadores do capacete, estou imerso em gás paralisante.

— Muito espertas, essas bases makenes! — O globt move o corpanzil rampa de desembarque abaixo, ainda mais volumoso em seu uniforme estanque.

O menor é um rtziek. O maior deve ser um globt. Como você previu, estão trajando uniformes espaciais selados.”

Eddie sente os pelos da nuca se arrepiarem. Os Carnívoros anteciparam seu estratagema com facilidade. Só lhe resta enfrentá-los pessoalmente. Um humano pouco versado em combates pessoais, contra dois guerreiros experimentados.

Começa a suar de nervoso dentro do traje hermético. Numa resposta equivocada, o sistema de manutenção de vida da vestimenta diminui a temperatura em seu interior. Eddie é acometido por novos arrepios. Agora de frio.

A criatura maior aponta um dos tentáculos cranianos em direção à empilhadeira. O rtziek assente com um rosnado. Antes mesmo do programa-mestre confirmar sua detecção, Eddie intui que terá que agir logo, antes que seja tarde.

Espera que o globt se aproxime. Quando o Carnívoro maior dista uns poucos passos, salta e dispara sobre ele. O feixe de radiação invisível atinge o capacete do inimigo explodindo-o. o globt ronca num tom grave e recua em seu cambalear esquisito de octópode. Em poucos segundos estará sob efeito do gás.

O rtziek pula para o lado e saca a metralhadora do coldre da pata traseira. Os reflexos do Carnívoro parecem incrivelmente rápidos aos olhos do humano. Eddie torna a se ocultar atrás da empilhadeira quando o inimigo dispara. Percebe que se trata de uma arma sônica. A frente de onda atinge em cheio a máquina, que começa a vibrar violentamente. Pequenas farpas de plástico metalizado se desprendem da carcaça.

Fuja do hangar, Eddie! Não há a mínima chance de enfrentar o poder de fogo de uma metralhadora ultrassônica com um laser portátil.”

— Entendido. E o grandalhão?

Inconsciente, sob a ação do gás. Acenderei todos os refletores do hangar. Isto deverá ofuscar o rtziek por um ou dois segundos. Será a sua chance de correr para a escotilha. Vou selá-la bem atrás de você.”

Pisca uma vez o olho direito, programando os visores para a luz solar. Quando o programa-mestre o instiga, levanta-se e corre em direção à saída. No mesmo instante, o hangar fulge como um palco iluminado. O rtziek rosna, irado e confuso, tentando proteger os olhos com a pata livre. Dispara a esmo em direção às passadas que se afastam.

A frente de onda sonora não atinge o humano em cheio. Mesmo assim, este é arremessado com violência contra a antepara próxima à escotilha.

Lutando contra o torpor da inconsciência, arrasta-se sob o portal aberto. Mal o atravessa e a porta blindada desce com um chiado agudo. Senta-se com as costas apoiadas da antepara do corredor. Esbaforido, recobra o fôlego devagar.

O Carnívoro golpeia a escotilha cerrada com as patas. Seus rosnados de frustração são parcialmente abafados pela blindagem.

Eventualmente demolirá a escotilha com disparos seguidos da metralhadora. Só que isto ainda levará alguns minutos. Será relativamente fácil abatê-lo quando ele enfim cruzar o portal da escotilha arrombada.”

— Minha pistola! Deixei minha pistola cair dentro do hangar!

O programa-mestre mergulha num silêncio sepulcral.

Não é para menos. Resta apenas um humano, sozinho e desarmado, entre o guerreiro rtziek e o fracasso de um plano que a Liga das Espécies já vem desenvolvendo há mais de vinte milênios.

O guardião procura desviar sua atenção da certeza da morte iminente.

— Preciso de uma arma. Deve existir algo, em algum lugar desta base, que possa ser utilizado como arma.

Existem armas de fabrico humano na Sala de Troféus. Contudo, não creio que sejam de alguma valia na situação presente.”

Eddie se vê obrigado a concordar com o programa residente na biomáquina. Já passou milhares de horas estudando os tesouros armazenados na Sala de Troféus. Há uma pletora de armas por lá. Lanças neandertais; clavas e tacapes neolíticos; sarissas da infantaria das falanges macedônias; gládios romanos; broadswords medievais; bumerangues das tribos aborígines da Austrália; escudos de procedências e formatos diversos; armas de fogo ainda operacionais, cuidadosamente lubrificadas, mas sem munição; e muito mais. Nada realmente capaz de derrubar um soldado rtziek protegido sob um traje espacial de combate.

— Os robôs da base obedeceriam as minhas ordens para atacar o invasor? — Já conhece a resposta. Perguntou por mero desespero de causa.

Estão programados para tarefas rotineiras de manutenção e limpeza. Só acatariam ordens de combater uma criatura orgânica após uma reprogramação completa. Posso implementá-la, mas levará horas. Julgo que não dispomos de tempo para tal.”

Eddie franze a testa com expressão tristonha. Os robôs da base são máquinas complexas e seus processos de reprogramação são lentos e redundantes. Absolutamente à prova de falhas. Os makenes não necessitam reprogramar suas máquinas com frequência. Uma pena, pois alguns dos robôs mais parrudos seriam capazes de enfrentar o operativo rtziek sem maiores dificuldades.

A propósito, deverá sentir um pouco de calor nos próximos minutos. Estou elevando nossa temperatura ambiente para 36,5 ºC. Espero que não se importe.”

— Tudo bem. — Eddie não nutre grandes esperanças neste ardil. Impedir o inimigo de se valer de seus sensores infravermelhos pode até retardá-lo, mas não evitará que ele o encontre.

Na Sala de Troféus há também diversos arcos e bestas em perfeito estado de conservação, bem como várias aljavas repletas de setas.

Antes de travar conhecimento com Krezstul, Eddie foi campeão universitário de tiro com besta medieval. Só que aquilo se dera há pouco mais de duzentos anos.

Não crê que uma simples seta possa abater o Carnívoro. Feri-lo ligeiramente, talvez. Irritá-lo, com certeza. Isto, se tiver sorte num primeiro disparo. Porque não crê que terá oportunidade de disparar uma segunda vez.

Será melhor, contudo, enfrentar a morte de frente, do que aguardá-la tremendo como um coelhinho assustado. Além disso, a Sala de Troféus é um sítio tão bom para morrer quanto outro qualquer da base makene. Fosse ele um guerreiro de uma das antigas civilizações humanas que fabricara os artefatos bélicos expostos aqui e teria considerado este como o único local honroso para se defrontar com a morte que se aproximava com os passos ágeis de um rtziek.


Com um urro de triunfo, o rtziek consegue afinal pôr abaixo a escotilha do hangar. Desconfiado, examina o mostrador do radar de movimento verdadeiro embutido em seu traje. Não vê nada se movendo em sua cercania imediata. Sinal algum do nativo traiçoeiro que tramou a emboscada no hangar.

Após verificar que o subordinado octópode se encontra apenas desacordado, atravessa o portal onde a escotilha lhe barrara a passagem até há pouco. Empreende uma busca sistemática pelo corredor comprido que conecta o hangar ao núcleo da base. Todo o seu corpo pulsa com uma sensação de júbilo quase incontrolável. O predador inicia mais uma caçada.

No entanto, o semiêxtase irrompe mesclado com um sentimento de inquietação. A mera ideia de humanoides emboscando Carnívoros faz com que suas vísceras borbulhem de indignação. O conceito lhe parece tão fora de esquadro que sente dificuldade em absorvê-lo por inteiro. Uma anomalia que periga provocar uma reviravolta em suas concepções de certo e errado. Agora, contudo, as coisas voltaram aos seus devidos lugares. Reassumiu seu papel de Caçador. Tal mudança de atitude o tranquiliza bastante. Sua presa, como toda presa humanoide, esconde-se, tomada pelo pânico ancestral.

No encalço do humanoide autóctone, examina boa parte da base makene. Constata a presença de uma quantidade imensa de informações valiosas para a Causa. Conquanto relevante, decide deixar tais conhecimentos para mais tarde. A caçada em primeiro lugar.

Por enquanto, nem sinal da presa. Os termorradares não indicam a mínima pista.

Mantém a metralhadora ultrassônica destravada. Sua garra tamborila ritmicamente no disparador, quando o bipe intermitente atrai sua atenção para a tela minúscula do radar MV no interior do capacete.

Ronrona num tom quase inaudível, denotando um sentimento de deleite próximo ao êxtase. A presa, afinal.

Com um salto ágil, ingressa no aposento onde o nativo se abrigou.

Em menos de um décimo de segundo identifica com segurança a forma ajoelhada como aquela que lhes preparou a cilada no hangar.

A criatura desajeitada fez uma fogueira pequena sobre a qual parece aquecer uma quantidade diminuta de fluido viscoso com odor pronunciado no interior de uma tigela de argila. Mexe o caldo grosso com a extremidade de uma vareta de madeira.

Embora sinta a curiosidade despertada pelo ritual inoportuno, mira a metralhadora contra o nativo.

O guardião levanta os olhos da tigela para fitar o Carnívoro:

— Peço-lhe apenas mais uns instantes, predador.

A presa não só articula o idioma makene, como emprega a forma de etiqueta correta. O rtziek não se surpreende. Questões dessa alçada serão analisadas por oficiais da Inteligência, operativos que pretende convocar tão logo conclua a missão de campo presente.

Não logra interpretar as expressões faciais da criatura autóctone. No entanto, algo lhe diz que a mesma não aparenta o pânico característico das presas racionais encurraladas.

Verificando que o nativo se encontra desarmado, concede-lhe essa última mercê. Desde os primórdios, os Caçadores sempre procuraram respeitar os costumes e os rituais de suas presas racionais. Assim rezam as tradições de sua estirpe. Há aqueles que, mesmo hoje em dia, professam a crença de que uma atitude benevolente desse tipo concede ao Caçador mais poder sobre a presa.

— Não se demore muito, nativo. — O rtziek concede num makene firme e seguro.

O humanoide retira a vareta da tigela e a encaixa num mecanismo de madeira curiosamente provido de uma mola grossa e um cabo de aço retesado. Levanta o dispositivo até a altura da cabeça e, ainda de joelhos, mira-o contra o Carnívoro. Este não se mostra impressionado. No fundo, já esperava por algo do gênero. O cerimonial primitivo visa, provavelmente, amaldiçoar seu espírito por toda a eternidade. Após uma avaliação sumária, sente-se seguro de que o artefato estranho é incapaz de lhe infligir danos.

— Não vou demorar mais, seu filho-da-puta! — Eddie dispara a besta.

A ponta de ferro da seta penetra menos de um centímetro no ombro do rtziek. O material flexível e resistente do traje de combate absorve a maior parte do impacto. No entanto, o urro enfurecido do Carnívoro indica que foi ferido pela ponta aguçada dessa seta, forjada na Inglaterra há mais de um milênio.

— Maldito humanoide desleal! Esse artefato ridículo é tão mortífero quanto a picada de um inseto.

O guardião se ergue devagar. Fita o alienígena maciço nos olhos amarelados. Preciso ganhar tempo! Tenta emprestar à voz o tom mais casual possível:

— O que vocês fizeram com o makene?

— Asseguro-lhe que ele gozará de uma sorte bem melhor do que a sua. Será levado como prisioneiro e interrogado por nossos psicólogos. — O Carnívoro começa a sentir uma dormência suave no ombro atingido. Sem pensar duas vezes, passa a metralhadora para a outra pata. Invadido por uma calma profunda, ergue a arma para fazer a mira, mas seus olhos não conseguem se fixar no humanoide. Atordoado, rosna em seu próprio idioma:

— Que ardil sujo você empregou desta vez, criatura vil? Meus visores… embaçados…

Dentro de sua mente, Eddie ouve o tom animado do programa-mestre:

O curare está surtindo efeito sobre o organismo do rtziek.”

— Como supusemos que ocorreria desde o início.

Depois que o rtziek tombou, paralisado, Eddie se sente mais velho e cansado do que o antigo mestre. Então recorda as palavras do makene, quando afirmou que ele e o programa-mestre ainda formariam uma dupla excelente.


Com o crânio enfaixado em compressas orgânicas, Krezstul ingressa duas horas mais tarde na Sala de Troféus. Já recebeu o relato sumário da situação, preparado pelo programa-mestre. A entidade comenta em tom casual que um makene jamais teria pensado em solucionar a crise daquela forma.

O importante é que não há mais Carnívoros vivos no Sistema Solar…

Durante o percurso, da enfermaria até a Sala de Troféus, caminha ladeado por seis robôs da base. As biomáquinas foram reprogramadas com novas rotinas criadas especialmente por Eddie e pelo programa-mestre. Agora só obedecem ao novo guardião. Krezstul descobre a mudança quando um dos robôs ignora sua ordem para largar a bazuca-laser de fabricação globt que carrega sem dificuldade.

Circunspecto, o humano agradece ao historiador makene por ter mantido o recipiente de curare em bom estado de conservação. Então prepara o espírito do mestre e amigo para que esse não se impressione demasiado ante o estado do cadáver do rtziek. Mesmo assim, o makene julga impossível ignorar o estômago embrulhado pelo espetáculo sangrento.

A camada espessa de plastiaço transparente do capacete do Carnívoro foi arrebentada, ao que tudo indica, pelo golpe da clava pesada de cabo de costela de mamute, que jaz próxima ao corpo. O peso de pedra aguçada atado na extremidade do artefato está manchado de sangue fresco coagulado.

Há uma lança da Idade do Ferro alojada na garganta do alienígena num ângulo enviesado, atravessando o grande rombo que o impacto da clava provocou no capacete. A lança foi cravada com uma força tão grande que logrou atravessar o pescoço grosso do Carnívoro e se fixou no piso de tábua corrida do aposento. No ar, misturado ao cheiro horrível do sangue do cadáver, o makene percebe o aroma amargo e pungente do curare. A ponta da seta ainda se encontra espetada no ombro do rtziek, embora sua haste se tenha partido.

Mais tarde, quando indagado sobre se houve necessidade real dessa chacina brutal, o guardião humano alegou não poder garantir a intensidade do efeito da droga paralisante sobre o organismo rtziek. Não cogitou a hipótese a manter o rtziek vivo para interrogatório. Não assumiu riscos. Contrariado, Krezstul se vê tristemente forçado a concordar com a lógica das decisões do sucessor.

— E quanto aos restos do globt, calcinados no hangar?

Eddie afirma ter empregado a pistola laser. Não conhecia a fisiologia do inimigo, seus pontos vitais e poderes de recuperação. Precisava se assegurar de que o mesmo não representaria ameaça futura à humanidade.

O makene estremece. Os Carnívoros acabaram de topar com um inimigo à altura. Perspicazes, determinados, implacáveis. Inimigos enrijecidos por milhares de anos de guerras intraespecíficas.

Dentro em poucos séculos, a Liga das Espécies pretende liberar os humanos na periferia para enfrentar os Carnívoros. Para cumprir essa missão militar de longo curso, receberão conhecimentos científicos e recursos tecnológicos das culturas humanoides mais amadurecidas.

Depois do que viu na base e do que o programa-mestre lhe descreveu, não nutre a menor dúvida quanto ao êxito do projeto.

Eddie, seu amigo e discípulo durante vários séculos, parece mudado. Tem conversado com o programa-mestre sobre a aplicação de técnicas de combate tipicamente humanas contra os clãs Carnívoros, numa escala interestelar. Juntos, humano e programa makene começam a aventar hipóteses de guerrilha planetária em mundos de colonização Carnívora, onde a população civil poderia ser tomada como refém. Outra ideia que surgiu há pouco foi a do genocídio através da disseminação proposital de vetores viróticos e bacteriológicos, cujas letalidades seriam incrementadas geneticamente. Há ainda outras técnicas de destruição em massa mais terríveis, nas quais o makene prefere não pensar.

Os Carnívoros não terão a menor chance contra esses primatas sanguinários. Serão inexoravelmente varridos da espiral galáctica.

Com o auxílio valioso da humanidade, a Liga das Espécies conquistará a vitória definitiva na Guerra Natural. Não apenas sobreviverão, mas vencerão este conflito multimilenar.

E ele, Krezstul, com o seu trabalho, será considerado um dos maiores responsáveis por essa vitória.

Contudo, resta uma preocupação que não logra apaziguar: que destino os humanos reservarão aos seus aliados humanoides, depois que os últimos clãs Carnívoros forem exterminados?

Gerson Lodi-Ribeiro
Gerson Lodi-Ribeiro
Gerson Lodi-Ribeiro publicou as noveletas na Asimov’s brasileira: “Alienígenas Mitológicos” e “A Ética da Traição”. Autor das coletâneas Outras Histórias...; O Vampiro de Nova Holanda; Outros Brasis; Taikodom: Crônicas e As Melhores Histórias de Carla Cristina Pereira, e dos romances Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas; A Guardiã da Memória e Aventuras do Vampiro de Palmares. Criador do universo ficcional Taikodom. Antologista de Phantastica Brasiliana; Como Era Gostosa a Minha Alienígena!; Erótica Fantástica 1; Vaporpunk; Dieselpunk; Solarpunk e Super-Heróis.

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