Rosas

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Para esperar o professor, Mildred assou um bolo com pedacinhos de amêndoas. Era o seu preferido, ou pelo menos ele o comera sem reclamar, todas as sextas-feiras, ao longo dos dezenove anos em que estavam casados. O chalé fora comprado depois, uma pequena e adorável moradia a duas milhas da estação. Mildred podia assim cultivar suas rosas e o professor podia residir na escola na maior parte do tempo, pegando o trem das 14:27 na sexta-feira para passar o fim de semana ao lado da esposa. Era um arranjo conveniente para ambos, por isso nunca se falou em mudá-lo, assim como jamais se cogitou experimentar uma cor diferente do bege ao repintar o chalé. Não havia por que alterar uma rotina que funcionava tão bem.

O professor descia do trem às 16:14. Comprava uma revista científica na banca da estação e iniciava a caminhada, que no início levara vinte minutos, subira ao longo dos anos para trinta e agora estava em torno dos trinta e sete, podendo ser um pouco mais, se o tempo estivesse ruim ou a mala muito pesada. Mildred, assim, se organizou para que às cinco os móveis estivessem espanados, o chão aspirado — inclusive embaixo do tapete, o que ela negligenciava entre a segunda e a quinta-feira — e a cama com os lençóis trocados e aspergidos com lavanda. A chaleira ficou sobre o fogão, que ela acendeu tão logo ouviu a chave girando na fechadura.

Ao entrar, o professor esfregou as solas dos sapatos no capacho, pousou a mala no chão, depois se voltou para a esposa, um riso beatífico no rosto bem escanhoado. Beijou-a levemente nos lábios e indagou como ela passara a semana, tendo o cuidado, dessa vez, de não perguntar também por Snowball. Pobre Mildred, não se queixara em nenhum momento, mas o professor sabia o quanto ela devia ter sofrido com o desaparecimento do gato. O persa de pelo branco fora sua maior companhia ao longo de oito meses. Antes dele houvera um terrier, Pennington, atropelado por um carro pouco antes de completar dois anos.

O professor pensava em comprar outro animalzinho, talvez um menos propenso a sair pela janela ou correr para o meio da estrada, mas, enquanto não se decidia entre um hamster e um peixinho dourado, Mildred não tinha com o que se ocupar a não ser o jardim. As rosas eram a sua paixão, merecedoras de cuidados extremados que, no entanto, o marido não reprovava. Mildred jamais se descuidara dos deveres domésticos por causa do jardim, e as flores eram lindas. Ele passara pelas roseiras ao se encaminhar para a entrada da casa e comprovara que estavam maiores que nunca, embora, é verdade, tivesse havido florações com pétalas de um vermelho mais vivo. Possivelmente era uma ocorrência comum, pensou, lavando as mãos antes de se sentar para o chá da tarde. Os afazeres da vida acadêmica não lhe deixavam tempo para aprender sobre o cultivo de rosas.

Enquanto comiam, o professor contou a Mildred como passara a semana: as discussões com os colegas, dois ou três episódios ocorridos em sala de aula, o aborrecimento que eram as goteiras no teto do laboratório de química. A chuva de terça-feira tinha feito seus calos doerem e uma de suas camisas perdera um botão, mas fora isso tudo correra bem. Mildred ouviu com atenção, balançando a cabeça, e não fez perguntas, apenas o interrompeu uma ou duas vezes para insistir que comesse mais uma fatia do bolo de amêndoas. Estava inclinada sobre a mesa, mais próxima dele do que de costume, e não tirava os olhos do seu rosto, fazendo-o supor que desejava um pouco de intimidade antes do jantar. E por que não, pensou o professor, sentindo-se invadir por uma quente onda de afeto. Por que, se estavam ambos dispostos a isso, não poderiam antecipar a agenda em algumas horas?

Carinhosamente, ele tomou a mão de Mildred e a conduziu para o quarto, dando início ao ritual das carícias preliminares. Parou um instante para se livrar dos sapatos e foi em frente, embora, ao se inclinar sobre a mulher, sentisse por um instante um gosto amargo lhe subir à boca. Devia ser o chá, pensou, dizendo a si mesmo que agora seria indelicado parar, mas o sexo voltaria ao horário regular das dez da noite a partir da sexta-feira seguinte.

Dez minutos depois, despidas as calças de tweed, mas conservando a camisa e as meias, o professor arremetia entre as pernas da esposa em estocadas firmes e regulares. Mildred não deixava escapar um som, mas seus quadris colaboravam, as pernas se enroscando em torno dele de forma a fazê-lo saber que estava gostando. Isso o deixava satisfeito, já que fazia aquilo por ela; seu próprio desejo diminuíra muito nos últimos tempos. Só não riscara o intercurso da agenda dos fins de semana porque levava a sério seus deveres como marido. Além disso, ambos haviam acalentado durante anos o desejo de ter uma descendência, e quase tinham conseguido. Não uma, nem duas, mas nada menos que onze vezes, embora todas houvessem sido frustradas no terceiro ou quarto mês de gestação.

Acontecia sempre durante a semana, sem aviso, a não ser uma cólica excruciante que resultava em uma massa sangrenta no fundo do vaso sanitário. Mildred limpava o banheiro e chorava durante uma ou duas horas antes de telefonar para a vizinha mais próxima, a Sra. Griff, que ia buscá-la de carro e a acompanhava ao hospital. De lá, o professor era avisado, mas não havia nada que pudesse fazer, por isso permanecia na escola e voltava para casa, como sempre, na sexta-feira. Mildred o recebia com os olhos pisados e um sorriso triste, e as coisas iam voltando lentamente ao que eram, até que tudo acontecesse de novo alguns meses depois. Isso até quatro anos atrás, quando ondas repentinas de calor e oscilações no estado de ânimo de Mildred anunciaram o fim das possibilidades de perpetuação da espécie. Então, o professor comprou Pennington, mais tarde substituído por Snowball, que ainda não tivera substituto a não ser as rosas.

E, por sinal, que lindas eram aquelas rosas, pensou ele, apenas um segundo antes de estremecer sobre o corpo da mulher. Lindas e cheiravam bem. Teria sido seu aroma, entrando pela janela, que encheu sua boca de saliva?

O professor se recostou no travesseiro e levou a mão à cabeça. A dor que começara momentos antes como uma pontada agora lhe atravessava o crânio, e o estômago também doía, mas o pior de tudo era a confusão que não o deixava pensar. Ele chamou pela esposa, pediu um copo d’água, a voz que sempre fora clara e firme soando como uma espécie de grunhido. Mildred saiu do quarto sem nenhuma pressa e o deixou dobrado ao meio, estertorando agora como um porco a quem tivessem cortado a garganta.

Pela janela aberta, um relâmpago iluminou as roseiras, o cheiro enjoativo das flores enchendo o quarto como se fosse uma câmara mortuária. Num lampejo de consciência, o professor tentou vomitar, mas um espasmo o fez cair de costas sobre o lençol molhado pelo suor de sua agonia. Mildred voltou naquele instante, com um copo que deixou sobre a mesa de cabeceira antes de se sentar e segurar a mão do marido. Ele a apertou, fitando o rosto da mulher com os olhos vidrados, a boca entreaberta deixando escapar saliva e um odor de amêndoas amargas. Aquele fora o último bolo que comeria na vida.

Quando as veias no pulso do professor deixaram de pulsar, Mildred lhe deu um beijo na testa e se levantou para abrir a janela. Suas rosas ali estavam, ainda viçosas e saudáveis, mas com uma palidez preocupante em suas pétalas. Vinham perdendo a cor desde que Mildred deixara de expelir aqueles corpinhos inertes, cujos membros e órgãos macios se dissolviam tão bem na terra negra do jardim. Abençoada fora a Sra. Griff ao aconselhá-la sobre aquele maravilhoso fertilizante, que, no entanto, ela não era mais capaz de produzir. E, como as tentativas com o cão e o gato tinham resultados medíocres, Mildred tomara uma decisão ambiciosa, que infelizmente a levara a ter de optar entre o marido e suas amadas flores.

É impossível ter o melhor de dois mundos.

O vento começara a soprar, trazendo ainda mais forte o cheiro do perfume. Mildred deixou a janela e pegou o telefone a fim de falar com a Sra. Griff. Desta vez, além da pá, seria melhor que ela trouxesse uma serra, e talvez também alguns sacos de plástico. O freezer tinha sido esvaziado durante a semana, e Mildred não pôde deixar de se congratular por ter insistido na compra de um modelo tão grande. Todas as partes do professor caberiam nele. Ela acabara de garantir por muitos anos o vermelho perfeito para suas rosas.

Ana Lúcia Merege
Ana Lúcia Merege
Ana Lúcia Merege é carioca e trabalha na Biblioteca Nacional. É autora de artigos, de contos, do ensaio “Os Contos de Fadas”, dos romances “O Caçador”, “Pão e Arte”, “O Castelo das Águias” e "A Ilha dos Ossos". Organizou, entre outras, a coletânea “Excalibur” e é co-organizadora de "Meu Amor é um Sobrevivente", “Bestiário” e “Bestiário: outras criaturas”.

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