Ruínas no Horizonte

0

Ninguém soube como aconteceu. O fato é que a Névoa Rubra recuou e revelou ruínas no horizonte. Não mais a paisagem imutável; de um lado o vazio sem fim nem começo, de outro o vermelho estático, mas uma novidade a encher os olhos da gente miserável que por ali sobrevivia. E todos se amontoaram pelas ruelas dos vilarejos, subiram em telhados e passaram a fitar enfeitiçados aquilo que só conheciam de histórias contadas pelos mais velhos, mas que se tornava realidade, algo palpável, se vencessem as distâncias, se ousassem a travessia do inferno.

Houve rebuliço. A visão dos prédios era esperança, mesmo que pequena. Falavam da possibilidade de haver alimento. A terra do vilarejo não dava nada. Era poeira e pedras enterradas. Nenhuma raiz que tivesse condição de crescer no futuro. E a pouca comida que havia tinha de ser regrada. As reservas escasseavam. Já eram insuficientes. E pessoas morriam. Caíam duras no chão, entregues, cansadas demais para resistir. E as que viviam enlouqueciam. Ainda era recente o caso do menino que morrera esvaído em sangue. Fora mordido na garganta por um homem e o rasgo fora fundo. Não tivera remédio. Morreram os dois; o menino e o homem, o segundo executado em nome de uma tal justiça tão moribunda quanto a humanidade.

Reuniram os líderes da pequena nação. Confabularam durante horas e os roncos do estômago decidiram a contenda. Enviariam exploradores para vasculhar as ruínas. O tempo rugia. Não podiam esperar mais. A sombra da fome crescia de tamanho e ameaçava eclipsar a todos que ali viviam. Dois rapazes foram escolhidos. Ainda tinham músculos que lhes mantinham de pé, ao contrário dos outros, farrapos a beira de ser extintos. Partiram durante o começo de uma manhã, sob a vigília de seu povo, almas crentes de recomeço. Era o que lhes restava.


2

Antes que a noite caísse eles acamparam. Dali viam as construções como dedos erguidos na paisagem, acusativos, como que a condenar alguma criatura invisível pela decadência que os consumia. A imaginação vagueava por aquele território e pintava quadros, situações de uma hipotética existência. Pensavam se o tom desbotado dos prédios não era apenas disfarce, se no interior das entranhas de concreto não havia gente, aquelas pessoas sorridentes das quais os antigos tanto falavam com aqueles olhares distantes; prisioneiros de reminiscências. Sonhar não arrancava pedaço e era um exercício gostoso. O mero ato de considerar a possibilidade de algo além do vilarejo já os deixava excitados, embora receosos. Pois o desconhecido não só os fascinava, mas também os horrorizava, como os pesadelos mais incoerentes têm a capacidade de fazer.

Alfredo — o rapaz mais novo, com seus vinte anos — sentia-se dividido, duas entidades em conflito pelo destino de um espírito. Ele ouvia o chamado e sentia a urgência de ir, de ver e tocar naquelas estruturas, mas a razão o impedia de arriscar-se no ventre da escuridão desértica. Ele temia um encontro com um andarilho, daqueles de que se ouvia falar volta e meia no vilarejo, quando crianças teimavam em não dormir. Homens sem rumo, que matavam e comiam qualquer coisa que se movesse.

O outro rapaz — cujo nome era Ricardo — remoía reflexões tenebrosas. Era mesmo possível alguém ter sobrevivido ao ar venenoso da Névoa Rubra? E se houvesse, que tipo de vida haveria? Pensava em seus conterrâneos, aquelas faces aniquiladas pelo sofrimento. Lembrou-se do menino com a garganta rasgada, morto, como uma presa abatida pela fera. Ainda resistiam como civilização, amparavam-se em regras de convivência, mas nem assim eram capazes de evitar a loucura. E lá, nas ruínas, aquele lugar há tanto oculto debaixo da densa cortina vermelha? Há tanto abandonado pela luz do sol… “Estamos mesmo desesperados para tentar a sorte em um lugar desses”, pensou, não conseguindo conter o estremecimento de seu corpo diante dessa agourenta reflexão.

— Fico pensando… Tem alguém lá? — Perguntou Ricardo, quase para si mesmo.

— Talvez — respondeu o outro.

— Não sei, mas… Acho que tô com medo.

— Medroso!

— Você não tem?

— Um pouco.

— E se fossemos para lá? Eles não iam ficar sabendo — disse Ricardo, apontando o dedo para oeste e além. — Deve ter coisa melhor praquele lado. Tem de ter. Lá, nos prédios, é que não tem.

— Se nos prédios não tem, para lá é que não vai ter. Não lembra? É só deserto. Pra todo lado. A nossa única esperança está lá. Tem de estar. — respondeu Alfredo e fechou os olhos.

Ricardo encarou as construções por mais alguns minutos, num silêncio cheio de especulações. Logo ele também fechava os olhos e adormecia e sonhava com vultos de antigas cidades.


3

Despertaram com o alvorecer e retomaram a caminhada. Nas garrafas ainda restava água, mas eles não sabiam se era em quantidade suficiente para o restante do trajeto. Os prédios dominavam cada vez mais a paisagem, mas parecia uma proximidade ilusória, como miragens de oásis para homens sedentos. A temperatura fazia o suor se esvair pela pele, quente e viscoso, e fazia rolar ondas de calor pelo ar.

Ricardo tentava vencer o cansaço, as dores presentes com doses de passado, aquela saudosa época em que o deserto era lenda e toda a sua vida se resumia aos corredores estreitos do subterrâneo; os quartos comprimidos em fileiras de pares e ímpares. Época em que o mundo exterior era um sonho recorrente nas noites de criancice, motivo para perguntas que não podiam ser proferidas perto de ouvidos adultos. Queria conhecer o lado de fora, na sua ingenuidade de infância, cansado daquela realidade de lâmpadas artificiais e máquinas que rugiam.

Mas o sonho se tornara pesadelo quando o computador central do Complexo 43 entrou em curto e toda a sociedade desmantelou-se nos incêndios e correrias que se seguiram. O que era tédio se transformou em terror, e o garoto irrompeu para a superfície para ser recebido pelo toque abrasador de um admirável mundo novo. Tarde demais para sentir saudades, para sentir-se arrependido. Chegara o tempo da sobrevivência e até que as coisas se estabilizassem com o surgimento do vilarejo, ele via cadáveres aos punhados, de amigos e vizinhos, ossos semeados no deserto.

Beberam da água, até restar uma miséria no fundo da garrafa. Felizmente, estavam perto. Pararam a alguns metros das ruínas, as encarando como se estivessem diante de gigantes, uma raça desconhecida de criaturas. Alfredo olhou para o céu e viu a tarde declinando, as cores vibrantes de uma manhã dando lugar ao laranja do entardecer. A noite viria logo, e nela os horrores rastejantes ganhavam corpo.

— Temos de andar mais rápido. A noite não demora.

— Não é melhor acampar? Aqui mesmo. Continuar… Pode ser perigoso! E se escurece com a gente lá… — Respondeu Ricardo.

— Não dá. Eles estão esperando.

— Mas e se houver alguma coisa por lá? Monstros! Não lembra? Dizem que na Névoa vivem monstros! E se…

— É um risco que temos de correr.

— Tem certeza?

— Não percebeu? A água tá acabando. Se não formos agora, vamos ter de voltar de mãos vazias. E eles não vão gostar disso. Nem um pouco.

Calou-se. Não tinha argumentos. Alfredo estava certo; mais um gole e não sobraria nada. Ele pensou na manhã seguinte, quando o sol nasceria forte. Ou concordava em se arriscar a ser alcançado pelas trevas, ou se condenava a encarar horas intermináveis de sede. Havia ouvido dizer que uma pessoa consegue ficar mais de uma semana sem se alimentar, mas sem água… A morte era certa.

— Você está certo.

— Sabia que entenderia — respondeu Alfredo, caminhando na direção das ruínas.


4

Um silêncio pesado pairava pelo lugar. Caminhavam por ruas abarrotadas de lixo como duas crianças fascinadas. Olhavam para as janelas rachadas querendo absorver a história guardada por suas vidraças judiadas, ansiando pelo vislumbre de uma sociedade morta e enterrada por debaixo de escombros. A imaginação trabalhava firme, fazendo-os enxergar as pessoas que por ali andavam durante as manhãs e tardes de um tempo quando a esperança ainda não era uma tolice; a loucura dos vivos.

Carcaças de veículos despontavam pela rua, alguns amassados contra postes, paredes, outros apenas apodrecendo ao relento, esperando pelo dia em que deixariam de ter formas e se transformariam em meros pedaços de metal em eterno enferrujar. Ricardo olhava para aquelas coisas e resmungava pragas contra tudo. Por que nascer para sofrer? Se ao menos tivesse nascido em outra época, em outro ventre…

Uma embalagem passou voando, e só não foi levada para o deserto por causa dos dedos ágeis de Alfredo, que a agarraram no ato. Havia uma mulher de avental desenhada no pacote e ela apontava com ambas as mãos para um delicioso pedaço de carne, ainda quente, pelo menos era o que sugeriam os rolos de fumaça que subiam em espiral do alimento. Comida. Os mais velhos contaram que antes era fácil consegui-la. Bastava uma volta por um quarteirão e lá estava ela, entregue ao seu predador, à mercê de uma mordida. Um sonho… Olhou ao redor e viu as fachadas de antigas lojas e comércios. Dentro de um dos prédios, ele pôde ver os pés descalços de um defunto apontando para o vazio, secos, se desfazendo como papiro devorado por traças. Morte.

Pararam em frente a um amontoado de destroços que fechavam a rua. Ao lado, na entrada escancarada de um prédio, trevas profundas, de onde qualquer tipo de criatura poderia estar lhes observando. Ou se arriscavam a entrar ali ou davam meia volta e retornavam para o deserto. A barriga de Ricardo roncou, e o ruído foi alto, ecoou pelos becos entulhados e reverberou por cada parede e vão. A fome estava ali e fungava em seus cangotes.

— Ainda vai demorar um pouco mais para escurecer — disse Alfredo, olhando para o céu. — Que acha de entrarmos ali? Deve ter alguma passagem que vai dar em outro canto.

— Talvez. Mas e se…

— Não tem outro caminho. Acho que não. Vai ter de ser por ali. — Respondeu Alfredo, caminhando na direção da entrada do prédio. Respirou fundo e entrou.

Nada viam. Caminharam às cegas, até sentirem com a ponta dos dedos a frieza da pedra. Um parede. Deram os braços e seguiram juntos. Na medida em que avançavam, formas iam surgindo, uma por uma, sombras e vultos que clareavam, tomando consistência. Logo enxergariam, mas saber disso não os aliviava. Temiam o que poderia se esconder por debaixo do manto de escuridão, à espera, a vigiar os seus passos inseguros. E se houvesse mesmo algo a ser visto? Alguma coisa como os andarilhos, os monstros descritos em noites de conversas sussurradas à beira de fogueiras? E se? Temiam o pensamento e, automáticos, se obrigavam a seguir. Era tarde demais para voltar. As pernas não obedeceriam. Eram escravas da tal curiosidade, que de olhos arregalados não dava mostras de que voltaria a dormir.

Entraram em um largo corredor. Um raio de luz se infiltrava pelo teto e permitia que vissem um pouco do chão arruinado, cheio de buracos e tingido por um rastro vermelho, que seguia serpenteando até uma porta aberta. Um cheiro horrível fluía de lá, e um ruído baixo ecoou pelo gesso mofado que recobria as estruturas. Um rosnado… Não estavam mais sozinhos. Alfredo recuou alguns passos, com cuidado, não querendo fazer barulho, tampouco atrair a atenção para si. O companheiro descuidou e topou com um parafuso de bom tamanho, que se deslocou até bater de encontro a uma parede. Houve um estrondo e um berro inumano respondeu ao chamado. Era feito de raiva e uma fome surda, tão antiga quanto o pó que recobria superfícies.

— Corre! — Gritou e o outro obedeceu.

Correram pelo extenso corredor, passando na frente da porta onde terminava o rastro de sangue, e de cujo interior se ouviu soando um grito humano e selvagem em um só tempo. Viram uma silhueta pulando lá de dentro e um vulto seguiu em seus rastros, um borrão que berrava e fazia estalar as unhas contra o piso carcomido. Um raio de luz que vinha do teto revelou seu rosto inchado, de olhos opacos e leitosos, os dentes se arreganhando num arco de presas amareladas, ansiosas por desfrutarem do gosto da carne humana. Um instante depois as suas formas foram encobertas pelas trevas e o que restou foi um vulto a lhes perseguir, gritando e urrando, assassinando o silêncio que fora a tônica das ruínas.

Viraram em uma dobra de corredor e avistaram uma silhueta humana mais adiante, que acenava e indicava um roteiro de fuga. Seguiram na esteira do sujeito, dobrando corredores e subindo escadas, até toparem com uma porta de madeira escura que se fechou assim que passaram por ela. Alfredo respirava com dificuldade, ainda recuperando o fôlego, e Ricardo se mostrava um tanto mais recomposto, embora os olhos estivessem arregalados, pulsantes de terror.

Encarou a face do sujeito que havia lhes salvado. Nas trevas amenas dali, ele pôde ver que não havia rosto, e sim uma máscara de gás e olhos vítreos que encaravam. “Há algo de errado com ele”, pensou, apesar de não saber de onde vinha essa súbita constatação. Esperava que estivesse enganado.

— Obrigado… Você nos salvou. Salvou sim. Obrigado — disse Alfredo, aliviado.

— Comida… — Murmurou o estranho da máscara. Encarava Ricardo fixamente, a refleti-lo naqueles olhos vítreos.

— Você tem? Pode nos dar? Estamos famintos.

— Tem alguma coisa errada aqui, Alfredo — disse Ricardo, levando a mão até a maçaneta da porta, enquanto os pés dançavam no assoalho, tentando topar com algo duro, alguma coisa que pudesse ser usada como arma.

— Do que você está falando? — Perguntou Alfredo, o fitando como se estivesse diante de um doido. — Desculpa, mas o meu amigo está um pouco nervoso. É que…

— Comida… — Murmurou o sujeito da máscara de gás uma vez mais, e tudo aconteceu.

Um assobio cortou o ar e Alfredo caiu ao chão com uma picareta fincada em sua nuca, espirrando sangue por todos os cantos, pintando o rosto de Ricardo de vermelho. Ele tentou reagir, mas assim que se virou na direção do sujeito da máscara, algo pesado foi de encontro ao seu rosto e houve uma dor explosiva na têmpora direita e uma sensação de estar se perdendo, sumindo… Caiu para trás, e antes que sentisse o chão, já não havia mais mundo no qual se firmar.


5

O horizonte se abria diante de seus olhos e ele podia ver o vilarejo adiante. Um grupo de pessoas estava reunido em frente a ele, e acenavam na sua direção e esboçavam sorrisos. Esperavam pelo seu retorno, com a certeza de que o rapaz carregava a solução para a fome dentro da sua mochila. Procurou por Alfredo, por alguém com quem pudesse compartilhar sua glória, e o viu caminhando bem próximo, a fitá-lo com olhos que sangravam, a picareta ainda agarrada em sua nuca, entranhada na fundura do crânio. O amigo sorria, mas naquele sorriso não havia alegria, apenas desespero e morte. Morte.

Ele desviou o olhar daquela coisa e olhou novamente para o vilarejo, esperando ver aquelas pessoas respondendo aos seus acenos, mas o que viu foi fumaça subindo no rumo do céu e chamas se espalhando pelas casas, brasas devorando tudo; o mundo. Ele tentou berrar, mas a voz não saiu e… Abriu os olhos e sentiu o cheiro que se espalhava pelo quarto. Não era de coisa queimada, e sim de algo assando. Olhou para o lado e viu um homem de pernas cruzadas, o rosto uma forma terrível, devorado por alguma doença que havia desfigurado seus traços e o transformado num mosaico de pústulas que cuspia um corrimento escuro. Uma máscara de gás descansava por entre as suas pernas cruzadas.

Ele não teve tempo para pensar a respeito. Desmaiou e se perdeu.


6

Quando acordou estava mais escuro. Esperou por alguns minutos, enquanto a vista se acostumava com a falta de luz e aprendia a distinguir formas. Olhou para a direita, apesar de estar amarrado a uma corda, e viu pela janela que a noite seguia alta, desnuda de estrelas. Olhou para a esquerda e teve de reprimir um grito. O rosto de Alfredo estava voltado para a sua direção, o seu corpo jogado feito trapo, uma poça de sangue enorme secando ao seu redor. Estava caído de lado, e era possível ver a sua barriga, que jazia aberta como a de um porco, as vísceras pendendo inúteis no vazio. Ricardo respirou fundo, segurando a vontade de vomitar, o ímpeto de gritar e… tudo aquilo passou, e o que restou foram os seus olhos voltados na direção do cadáver. A picareta ainda estava presa na nuca dele.

Olhou para outra direção e avistou o sujeito sem a máscara, dormindo em um canto mais afastado, ressonando alto, e havia mais um mascarado, este voltado para outro lado, também deitado. Sabia que eles não dormiriam para sempre, e sentiu urgência em agir. Começou a rolar de um lado para o outro, na esperança de que o movimento fosse capaz de afrouxar a corda. Fez isso por alguns minutos, os olhos fixos nos captores, estremecendo a cada vez que eles se moviam um pouco, a cada resmungo que atravessava a barreira dos sonhos.

Um laço se desfez, depois outro… o seu braço direito se soltou, tornando fácil libertar o restante do corpo. Levantou-se e deu um passo adiante. Olhava para o amigo, para o que havia sobrado dele.

Alfredo estava sem uma das pernas, e o que havia sobrado dela despontava queimado entre as cinzas de uma fogueira. Ricardo desviou os olhos da atrocidade e, com a ponta dos dedos, fez o morto dormir. Atravessou a sala em passos miúdos, na direção de um pedaço de cano que jazia ancorado contra a parede. Armou-se com ele e voltou-se para um dos mascarados, o seu rosto transformado pelo ódio, os dedos cerrados no metal, ansiosos por usá-lo. Estava perto, já podia estender o braço e acertá-lo, mas ele despertou antes e lhe encarou, os olhos negros cheios de uma inteligência perigosa, doentia.

— Comida… — a coisa murmurou, enquanto sorria com seus lábios feridos.

— Me deixa em paz! Você matou o meu amigo! Desgraçado! Doido! Você é louco!

— Fome… Comida — respondeu o sujeito, levantando-se e cutucando o comparsa com a ponta de sua bota gasta. O outro acordou e também olhou para Ricardo.

— Vocês só podem estar loucos… — Disse, afastando-se com passadas para trás, seus olhos nunca abandonando aquelas duas formas de pesadelo.

O rapaz virou-se para a porta. Passos continuavam a ecoar às suas costas enquanto ele agarrava a maçaneta e a girava de lá para cá, suores se derramando pelo rosto, um grito a escalar os interiores da garganta. Uma mão o agarrou num dos ombros e com um safanão ele a repeliu e com um puxão desesperado escancarou a porta e por ali se enfiou e correu aos tropeços pelo corredor, enquanto ouvia aquelas coisas vindo e repetindo a ladainha; a eterna súplica por comida. Tateou por paredes, dobrou corredores, até sair em uma escadaria que descia para profunda escuridão. E logo atrás vinham os mascarados, rindo alucinados, como se estivessem achando graça de alguma piada, algo extremamente engraçado.

Tropeçou em um degrau e bateu com o ombro em algo sólido. Berrou de dor, mas não parou de correr, pois podia ver adiante a saída, na crença de que outro caminho o levaria ao lugar certo. Comida. Por ali não havia, a não ser que quisesse voltar ao esconderijo daqueles homens e dividir com eles uns pedaços de carne bem passada. Pensou no cheiro de gordura quente e borbulhante que pairava pelo quarto e seu estômago chegou a desejá-la por um instante. Por que não se entregar ao desejo? Vivia em um mundo sem sentido, onde o pecado era virtude, então por qual motivo simplesmente não entrava na dança? Não se arriscou a pensar a respeito, apenas correu, querendo livrar-se das risadas daqueles homens, fugir para longe e sentir o vento quente do deserto em seu rosto.

Passou pela porta dupla e saiu do prédio, chorando e rindo ao mesmo tempo, abraçando um poste enferrujado como um náufrago abraçaria um pedaço de seu navio afundado em pleno oceano. Olhou para trás, para as profundezas negras da construção, e ouviu gritos reverberando por lá. Eram os mascarados. Alguma coisa os havia farejado, e um berro selvagem serviu para confirmar essa suspeita. Ricardo deu as costas para os gritos que se seguiram e correu em direção ao deserto. Era melhor vagar por lá eternamente do que passar os próximos minutos ali, naquele cemitério onde os mortos apodreciam e os vivos sobreviviam de restos.

Ele correu, correu e correu, até sentir o pulmão ardendo em brasas, a respiração tornar-se fogo. Caiu na terra seca do deserto e vomitou o nada que havia em sua barriga. Ao terminar, levantou-se cambaleante e olhou para trás, para a escuridão. Em algum lugar naquele horizonte negro estavam as ruínas de uma civilização; prédios se deteriorando com o tempo, cadáveres se decompondo em abandono. E também a loucura. Sim, ela caminhava por aquelas ruas cheias de entulho, visitava os corredores escuros das construções e cumprimentava os farrapos humanos que insistiam em querer sobreviver. Homens ou animais? Fazia diferença? Evitou essa nova pergunta e seguiu no rumo do vilarejo.


7

Foram dois dias de caminhada, dois dias de fome. Ao avistar o vilarejo no horizonte ele suspirou aliviado e se permitiu correr, a despeito do cansaço de seu corpo, das dores que sentia, mas não foi muito longe. A esperança zombou de sua cara e lhe deu as costas, e o que restou foi o negrume da fumaça, a ganhar os céus e corromper os tons de azul fosco. Espalhava um cheiro acre e… de coisa assada. Sim, como no seu pesadelo, como no quarto dos mascarados; o mesmo odor que havia partido dos restos esfumaçados do seu amigo. Apressou o passo.

Chegou mais perto e a sua desconfiança tornou-se concreta. Havia uma grande fogueira acesa no centro do vilarejo e ao redor dela se viam homens e mulheres de bocas pintadas de vermelho, observando a carne girar em espetos enquanto babavam de fome. Era obsceno, mas o cheiro era tão delicioso… Ricardo também queria um pouco! Nem que fosse apenas uma mordida, só para sentir o gosto, calar de uma vez por todas a maldita fome, que não se cansava de gritar do meio de suas entranhas. Haveria luta por comida, selvageria, mas ele não se importava. Não havia mais nada que lhe provocasse repulsa. Não depois do que viu nas ruínas.

Aquele era o mundo no qual vivia, e nele não havia nenhuma embalagem hermeticamente fechada com algo delicioso dentro, nenhum carro que pudesse levá-lo para outras paragens. Tudo o que havia era o deserto interminável e a loucura, aquela dama travessa. Sim, o cheiro era maravilhoso! Agachou e procurou por uma pedra pesada e encontrou uma com uma das pontas afiadas. Olhou na direção do vilarejo e apertou o passo. Estava morrendo de fome.

Enquanto isso, as ruínas fitavam o vilarejo de longe. Observavam a queda de outro refúgio humano, o surgimento de novas ruínas no horizonte.

Rafael Dias Canhestro
Rafael Dias Canhestro
Rafael Dias Canhestro tem carreira recente como escritor, com dois contos publicados: "A menina e a banheira", na antologia Horas Sombrias, da Andross, e "Cadáver", selecionado no concurso promovido pela editora AMCGuedes, e publicado em maio desse ano. Ainda publicou o livro "A casa", pela editora Multifoco.

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