Saccade

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“— E desde então — continuou o Chapeleiro num tom pesaroso —,
ele não faz uma coisa do que eu peço! São sempre seis horas agora.”

Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas

 

I

 

Milhões de tufos brancos suspensos no ar, estáticos. A seu lado, uma águia-chilena de asas abertas. Podia contar quais flocos de neve, ao encontrar a ave, se espatifariam e desapareceriam, se ao menos transcorresse um único milissegundo.

Acariciou sua penugem cinzenta, passando os dedos entre as penas, por sulcos onde gotas d’água se depositavam naquele instante. Somente naquele instante.

Sacou um bloco de notas, limpou com o dorso da mão o gelo que neblinava a vista e escreveu:

“Subi uma montanha nos Andes, acredito que ainda no sul do Peru. Faz frio, mas não diferente do frio que sinto em todo lugar. Estou vestindo o sobretudo que furtei num shopping assim que saí da sua casa. Não aquece, mas ao menos me sinto abrigado. Em São Paulo eu peguei um binóculo, este bloco e alguns lápis. Já não me envergonho de escrever sobre esses pequenos crimes. Sobre o que está acontecendo comigo. É estranho me dirigir a você, mas é que eu não tenho ninguém com quem conversar. Isso deixa a gente meio louco.

O que quero dizer é que tomei uma decisão. Uma decisão que, tenho certeza, vai desfazer esse mal. Eu vou voltar para o Rio de Janeiro. Vou voltar para você, e dessa vez vou conseguir revelar o que eu sinto.”

Guardou o bloco num bolso do sobretudo e examinou, desligado, uma rocha alvejada pela neve, a seus pés, esfregando os dedos.


Desceu a montanha e seguiu para o sudeste, afastando-se da tempestade e da cordilheira de picos caiados que se enfileiravam para norte e sul, sob o céu da tarde que insinuava azul-marinar. Para ele, o ambiente estava sempre um pouco mais escuro do que esperava. Os objetos distantes surgiam borrados, como se houvesse adquirido alguns graus de miopia. Ainda assim, avistou um acampamento de alpinistas e desviou-se para encontrá-los. Fora das tendas, que cheiravam a toalha mal seca, quatro viajantes sentavam em círculo no terreno árido, segurando barras de cereais rente às bocas. Acocorou-se ao lado do grupo.

— Olá companheiros, falam português?

Analisou-os como se fossem estátuas de cera. Pareciam europeus.

— Vocês devem ser alemães. Vou chamá-los de Karl, Friedrich, Hansel e Gretel. Onde nasci tem muitos alemães. Meu pai mesmo é descendente, de parte de mãe. E é loirinho, de olhos claros. Minha mãe não, ela é bem morena. Por isso que eu saí essa combinação toda castanha que vocês tão vendo. O pessoal do futebol até me chamava de “churros” por causa disso, os malditos. — Penteou com a mão os cabelos lisos e cheios, descendo até o pescoço para apertá-lo. — Ah, sim, meu nome é Alex. Não é diminutivo, é Alex mesmo. Foi o único nome do Rush que minha mãe aceitou que o pai desse. Conhecem o Rush, né? Tom Sawyer, YYZ.

Sentou-se entre eles e ajeitou os cadarços. Admirou uma ponta do oceano camuflada entre duas montanhas ao longe.

— Legal esse lugar que vocês acamparam. Estão há quanto tempo por aqui? Eu só tenho dezessete anos, mas já conheci bastante a América do Sul. Estou viajando a pé desde o Rio de Janeiro há aproximadamente, vejamos, bem, zero segundo!

Esticou-se para contemplar a barra de cereais esmagada pelos dentes de Hansel e os grãos que flutuavam sob seus lábios. Colando nelas o nariz, sentiu o cheiro obtuso de frutas secas. Ao entrever uma medalha da Virgem Maria, apoiada sob o zíper dentro do casaco do suposto alemão, ele se desequilibrou e arranhou mãos e joelhos nas pedrinhas do solo irregular. Uma outra igual adornava o pescoço de Gretel, a seu lado.

“Não é possível.”

— A Virgem que trouxe vocês até aqui também?

“Quantos mais?” Bateu as mãos para limpar-se.

— Quer saber, que seja, cada um com sua fé ou sua não fé. Vamos mudar de assunto. Vocês são casados, você e a Gretel? Como foi o início? Quer dizer, como você falou para ela que gostava dela?

Aconchegado à nova companhia, retornou ao diário improvisado.

“Tenho aproveitado para refletir. Sondei eventos da minha vida, que por anos fingi para mim mesmo que eram apenas fantasias, e finalmente os aceitei.

Uma vez foi quando me escalaram para goleiro na final de um campeonato de futebol, no colégio. Empatamos e a partida entrou em morte súbita — o primeiro time que marcasse gol levava o troféu. O melhor atacante jogava no time adversário. Ele driblou a defesa e, cara a cara comigo, largou o pé na bola. Talvez você ache besteira, mas eu me apavorei.

Tudo parou. Bola, jogadores, arquibancada. Planejei meu salto e só quando tomei impulso o tempo voltou ao normal. Agarrei. Gritos, um contra-ataque rápido e ganhamos o jogo. Contei para um amigo e ele disse que ‘a adrenalina dá essa ilusão mesmo’.

Tiveram outras vezes. Pausas rápidas, que eu nunca quis admitir. Bolinhas de papel que viajavam em fotos até eu desviar o rosto, vilões de videogame que travavam enquanto eu dedilhava o controle e revertia uma derrota certa… A mais forte foi logo depois que passei na prova do colégio e fui morar com minha tia no Rio, quando comecei a quinta série. Atravessávamos a rua, minha tia um pouco mais adiante, e um ônibus furou o sinal numa curva logo atrás. Eu consegui nos salvar rente ao para-brisas e o rosto assustado do motorista — paralisado. Ela me agradeceu muito, mas não reconheceu a mágica daquele instante.

Ora, se o tempo parou à minha volta é porque eu devia estar muito rápido. Por que, então, ela não me viu voar como um jato? Talvez não seja possível me visualizar nesse estado. Para os outros, pode não passar sequer o tempo de um desvio dos olhos quando eles tentam pincelar, na consciência, esboços do que conseguem copiar do mundo real — o movimento que chamam de saccade.

Então talvez os seus olhos, Lívia, ainda estejam fixados nos meus.”


Despediu-se dos alpinistas e seguiu viagem. Após subidas, descidas e encontros com agricultores e mineradores permanentemente preguiçosos, transeuntes sempre hesitantes e iogues amadores desinibidos, estacionados nas mais desafiadoras posições, chegou à animada Sucre, na Bolívia. Ainda que admirasse os retratos de famílias encasacadas em passeio e estudantes sorridentes com cervejas em punho, tendo como fundo parcos arranha-céus e a alvura de igrejas e edifícios coloniais, eles salientavam sua solidão.

Atravessou uma feira recém desmontada, pisando lascas de caixas cobertas de folhas enegrecidas e líquidos inidentificáveis. O odor misturado de peixes e frutas cítricas martelava suas narinas em blocos desconexos, diferentes a cada passo. Onipresentes, adesivos e estatuetas da Virgem se escondiam também dentro das caminhonetes e furgões dos feirantes em retirada. Estes contavam cédulas de bolivianos, ou conversavam; muitos, curvados diante de mercadorias malsucedidas, pareciam correligionários de um culto bizarro às frutas, verduras, legumes, especiarias e cogumelos que retornavam a suas caçambas.

Julgou ter percebido algum objeto cruzando a esquina e balançou a cabeça. “Preciso voltar logo para você.”

O muro de uma residência bloqueava a vista da rua, transversal à da feira. Aproximou-se devagar e espiou o outro lado por detrás: um gato branco, mirrado, circundava restos de peixe. Então se agachou e os lambeu.

— Por todos os deuses do Olimpo!

Ao notar o jovem, o gato se virou para ele e arqueou o corpo. Encararam-se e, tão logo Alex deu o primeiro passo em sua direção, ele correu rua acima.

— Não, volte! — Seguiu apressadamente o provável trajeto do felino até encontrá-lo sobre o parapeito da janela baixa de um sobrado, entretendo-se com um vaso de flores. Na calçada logo abaixo, dois meninos apostavam corrida, cada qual equilibrado na ponta de um pé.

— O que você tá fazendo?

O gato meteu a pata na flor e, atrapalhando-se, inclinou o vaso para fora da janela.

— Seu maluco, não entende que, para essas crianças, o vaso vai cair no próximo instante?

Alex ajeitou o vaso e estalou os dedos para o gato, que se aproximou passo a passo, espreitando-o de cabeça baixa e rabo ereto, até que por fim roçou a nuca sob sua mão, ronronando.

— Isso, garoto. Você até que tá bem. Como é que você vive também nessa velocidade, hein? Tomou algum susto? — falou próximo a seu ouvido, para que talvez o escutasse um pouco. — Vem, pssss, vem comigo.

Sem que precisasse reforçar o pedido, o gato passou a acompanhar Alex pelas ruelas de Sucre, em direção ao leste.

— Será que não somos os únicos? Ou talvez sejamos dois loucos, vagando por aí achando que estamos presos no tempo… Eu devo ser o Chapeleiro, e você, a Lebre de Março. Vou te chamar de Gato de Março, ok? Ou melhor, só Março.


Alcançaram a praça principal da cidade, arborizada e recheada de monumentos, onde Alex se sentou para escrever. Março estacionou logo à frente, esticado, e aplicou-se um banho de língua.

“Acho que tenho um novo amigo, mas só até eu voltar até você. É uma pena, mas ele vai ter que encontrar a própria solução, assim como eu terei que enfrentar sozinho a minha. Memorizei o ponto preciso de onde tenho que continuar nossa conversa. Eu tinha ido para sua casa com a desculpa de buscar o Mulholland Drive emprestado, ‘a maior obra de arte de todos os tempos’ nas suas palavras empolgadas, vivas. A Audrey pulava para cá e para lá, sua mãe arrumava a cozinha, seu pai devia estar dormindo. Quando dei por mim, já estávamos no seu quarto. Para você, acabou de acontecer; para mim, faz uma eternidade.

— Lívia, sabe, eu penso muito em você.

— O que você quer dizer com isso? — você perguntou. E suas sobrancelhazinhas intrigadas perguntaram ainda mais. Quantas horas, desse meu novo tempo, será que eu as admirei?

Abri um pouco a boca, mas não consegui falar. Senti meu coração se agitar de tal maneira que pareceu expandir e se espalhar pelo corpo em todas as direções. E então, o mundo parou.”

Pôs o lápis junto aos lábios e fechou os olhos. Quando os reabriu, já não localizou Março.

Sem sucesso com o binóculo, correu para a avenida do outro lado da praça, com esperança de melhorar o campo de visão. Acabou avistando uma senhora idosa que, com o pé esquerdo preso a uma raiz, tinha todo o corpo projetado ao chão. Alex se acostumara a ignorar pequenas tragédias com as quais deparava, mas dessa vez se lembrou do vaso que havia ajeitado na janela do sobrado.

— Com licença, permita-me ajudá-la.

Surpreendeu-se com sua leveza ao carregá-la até um banco da praça.

— Não precisa agradecer, mocinha. Aposto que você vai contar para todo mundo sobre o poder de la Virgen! Só que dessa vez foi un ángel, ok?

Março reapareceu de dentro de um jardim mastigando grama.

— Você gosta de planta, hein? Eu também, vou pegar uma flor para mim.

Colheu uma hortênsia e riu ao pressupor que, para seus colegas paralisados, ela apenas desapareceria diante de seus olhos.

— Vejam, sumiu!

Repousou-a na mão de uma jovem estudante, que passeava com duas amigas. Curvou-se em reverência.

— A senhorita é quase tão bonita quanto a minha Lívia. Queira aceitar este singelo presente.

E para Março:

— Vamos embora, né? A gente ainda vai ter muitas cidades para brincar até o Rio.


Quilômetros depois, encontraram-se no vilarejo de Padilla, quase na metade do caminho até a fronteira com o Paraguai. Passaram por plantações de amarantos lilases e de pimentões alaranjados, que os brindaram com rara constância de aromas e permitiram a Alex ao menos conjecturar a trajetória do vento. Ao atingir a paisagem urbana, ele aproveitou para bisbilhotar, através das portas e janelas, aspectos do dia a dia e curiosidades a respeito dos habitantes.

Numa dessas espiadelas, pela janela do primeiro andar de um casebre, deparou com um homem, de traços guarani, apontando uma pistola para outro, igualmente mestiço, que dormia.

Afastou-se por instinto e colou as costas na parede do lado de fora até relembrar que, para ele, não havia perigo.

— E agora, Março? Espera aqui.

Pulou para dentro e analisou a cena com calma. O dedo indicador do atirador pressionava o gatilho. Seguiu a mira e somente então percebeu o projétil, que flutuava já bem próximo à vítima.

“Ok, como resolvemos isso?”

Embrulhou a bala no lençol e levou o pacote até o banheiro. Em seguida, retornou ao atirador:

— Desculpe-me, mas o senhor pode acabar machucando alguém. — Guardou a pistola consigo.

Num bolso da jaqueta terrulenta do criminoso, brilhava um celular. Na tela, Alex pôde ler o final de uma troca de mensagens em espanhol:

“‘Num sonho?’ perguntara o interlocutor.

‘Num sonho. A Virgem de Cotoca me benzeu e me contou onde encontrar o Toñito. Vou para lá agora.’

‘Sorte.’”

— Cacete, até execuções a senhora ajuda? Podia ter mais critério, hã? Agora, vejamos…

Trouxe da sala uma cadeira, a qual apôs pairando um metro acima do “abençoado”. Por fim, apanhou um balde d’água e o girou sobre Toñito, o dorminhoco, retirando-o por cima para deixar apenas o cilindro translúcido suspenso sobre seu rosto.

— Pronto, senhor. Creio que, se o barulho do tiro não acordar você, a água deve resolver. Março, você sabe me dizer onde fica a delegacia? Naquela praça da estação? Tem razão, deve ser lá.

Encontrou-a quase vazia. Um policial lia o jornal numa das cadeiras disponíveis aos denunciantes.

— Boa tarde, inspetor. Eu queria registrar uma ocorrência, pode ser com o senhor mesmo?

Substituiu o jornal por um papel no qual escreveu “crimen en curso”, seguido do endereço do Toñito. “Desculpe, Virgen de Cotoca, eu também sei aparecer em sonhos.” Apoiou a pistola numa mesa à frente e saiu.

Na praça, golpeou folhas avermelhadas carregadas pelo vento que, por não aterrissarem, pareciam penduradas a uma árvore invisível, espalhando-as. Chamou por Março e seguiu jornada com as mãos nos bolsos, olhos brilhando.


II

 

— Pensei em te apresentar meus pais. Eles não gostam de animais na loja, mas, para você, podiam abrir uma exceção.

Havia dado a volta pelo norte do estado para passar por Nova Friburgo, sua cidade natal. Alex relanceou a entrada da loja de roupas dos pais, que havia ajudado a bancar seus estudos até o quinto ano, mas passou direto.

Mantinha os braços cruzados e puxou-os ainda mais contra o peito, baixou o queixo e apertou os olhos. Como cambaleava, Março se afastou aos pulos, em diagonal.

— Vem cá, Março, fica mais perto. Não vê que agora eu preciso de você mais do que nunca? Será que você não percebeu que tudo mudou?

Na média, são registrados por volta de doze homicídios por dia no estado do Rio de Janeiro.

Seguiram sob céu laranja-escuro pelas estradas da serra, entre matos desabitados salvo casebres e sítios esparsos, até que Alex estancou frente a um oratório. Nele se hospedava mais uma imagem daquela que o assombrou, em diferentes feições, figurinos e alcunhas, durante toda a viagem: a Nossa Senhora, dessa vez a das Dores. Caso não significasse admitir uma psicose, Alex juraria que o rosto da Virgem havia se curvado para desafiá-lo, em sua placidez indiferente. Examinou mais de perto a escultura em gesso, pouco colorida, enfeitada com um manto azul-escuro.

— Vê, Março, por trás dessa máscara de bondade, ela se vangloria. Tem uma lâmina perfurando o peito, mas ela não liga, porque o poder dela é maior do que qualquer sofrimento mundano. Enquanto choram por ela, também rogam para ela, e de uma maneira ou de outra ela acaba guiando a vida dessas pessoas.

Alex juntou as sobrancelhas, levou o indicador ao queixo e deu um passo à frente — havia maços de papéis aninhados sob o manto da Virgem que, através do vidro que a protegia, pareciam mapas anotados numa língua desconhecida. Procurou uma pedra pontuda e a martelou contra o vidro para quebrá-lo. Então afastou as farpas flutuantes para fora e levantou o manto.

Não havia mapas. Ou inscrições em língua estrangeira. Apenas dezenas de panfletos publicitários da região unidos por um elástico, nos quais se repetiam versículos bíblicos anotados em vermelho:

“Vossos olhos se acham abertos para todos os destinos dos homens, a fim de retribuir a cada um de acordo com sua conduta e os frutos de seus atos.”

“Nem sabedoria, nem prudência, nem conselho podem prevalecer contra o Senhor.”

— Não era só isso, eu vi! — exclamou, irritado.

Prendeu os dentes, tirou o manto da estátua e o rasgou como se dilacerasse uma caça, em busca de algum fundo falso. Em seguida repassou duas vezes mais os panfletos de lojas e serviços aleatórios, tentando evitar, em vão, reler as mesmas frases. Vasculhou a estátua e, num ímpeto, arrancou sua cabeça, que pairou diagonalmente ao lado do corpo, encarando-o com a mesma candura.

— Merda.

Apoiou a testa no arco de pedra que cercava o oratório. “As pessoas já têm seus destinos monitorados por você e sua família confusa, é isso? Você só quer que eu volte para a Lívia. Só quer me ajudar.” Balançou a cabeça. “Desculpa, mas comigo é diferente, eu não vivo mais como os seus súditos.”

Voltou à estátua e apoiou sua cabeça no lugar, cobrindo-a com o que sobrou do manto.

— Desculpa.

É claro que a média não quer dizer nada. Estou preso a um instante, quem saberia dizer se não é um instante pacífico?

No Rio, visitou o apartamento da tia, no Flamengo, o qual ainda se acanhava em considerar seu. Escalou o portão da entrada enquanto Março se esgueirava entre as grades, e então se espremeu entre a síndica e o porteiro, que papeavam, para enfrentar a escuridão das escadas. Assim que chegou ao quarto, descalçou os tênis e deitou na cama. Contemplou as figurinhas de Copa do Mundo coladas no guarda-roupas, reminiscências do primeiro ano da mudança. Na parede livre, sobre a cama, gostos recentes: pôsteres de Assassin’s Creed e God of War instigaram sua mente a errar por cenários imaginados da Itália e da Grécia.

“Sim, é isso. Está decidido.”

Ainda assim, quantas informações não posso passar para a polícia sobre outros crimes? Quantos acidentes não posso evitar?

No quarto ao lado, diante da cruz metálica insossa na parede branca, a tia parecia rezar de olhos fechados. “Ou, talvez, esteja apenas conversando. Agora eu entendo.”

Ela jamais casara. Dedicou a vida a cuidar de um sobrinho daqui, de uma prima de acolá. Pouco depois de se mudar, Alex chegou a conviver um ano e meio com um primo de terceiro grau, neto de uma tia-avó de Campos, que na circunstância de uma leucemia veio morar com eles no Rio de Janeiro na expectativa de melhor tratamento. Sob orientações religiosas insondáveis, a tia procurou leitos que vagaram no dia do telefonema, obteve recomendações de especialistas internacionais que visitavam a cidade por acaso, e cada novo milagre reforçava a conspiração do universo para a cura. Ainda assim, o menino morreu. “Deus escreve certo por linhas tortas”. O apartamento se esvaziou de familiares, ansiedades e esperanças, e pelos anos seguintes restaram Alex e a tia. Brigavam às vezes devido a seu anacronismo moral, mas logo faziam as pazes.

— Bênção, mãezinha dois. Talvez eu demore bastante a te ver de novo. Mas não se preocupa, acho que você nem vai perceber. Março, vem, chegou a hora.


Dobrou a Rua das Laranjeiras, ofegante. O pôr do sol desenhava na ciclovia, através das mangueiras, as mesmas nuvens cinzentas que ele contemplara, perplexo, quando partira. O porteiro assistia na televisão ao passe que, depois de muito analisar em padarias e bares, Alex não se preocupava mais se resultaria em gol.

— Vem, Março, pode entrar. A Lívia ia gostar de conhecer você.

Abriu a porta do apartamento e entreviu a mãe dela onde a deixara, retirando a roupa seca do varal, na área adjacente à cozinha. Lívia a admirava por sua dedicação ao trabalho, sua atenção com a casa e parceria cinéfila. O pai estava de cama já há dois meses. Cardíaco, sem que renunciasse ao cigarro e à má alimentação, acostumaram-se a tê-lo ora fervilhando por consultorias empresariais, ora esmorecendo entre a cama e o sofá ou, ainda pior, internado. Completavam a família o irmão mais velho, que migrara para São Paulo, e Audrey, a adorável Beagle preto e branca de dois anos que, com redentora indecisão, planava em retorno da cozinha para a sala.

Segurou, enfim, a maçaneta para o quarto dela, mas demorou a girá-la. Sentiu na barriga um mar ressacado, cujas ondas quebravam até a altura do peito.

— Lívia. Eu voltei.

O quarto destoava do restante da casa pela sobriedade das cores, a dominância de tecnologias contemporâneas e a decoração baseada em clássicos do cinema. Ao centro, Lívia aguardava. Vestia sua saia quadriculada pregada de botões decorativos e uma camiseta. Seu corpo esguio, pele moreno-clara, olhos grandes e cabelos pretos e lisos indicavam traços indígenas, de origem perdida algumas gerações atrás. Combinavam com seus seis brincos na orelha direita, anéis de madeira e pulseiras de cânhamo emaranhadas umas nas outras. Ela mantinha as sobrancelhas intrigadas e o olhar ansioso.

— Oi Lívia… Sou eu. Por onde eu começo? Eu fiz o caminho de volta pensando em falar para você o que eu sinto, para desfazer essa maldição e voltar para a vida, voltar para você. Só que aconteceram algumas coisas e… Eu não posso.

Fechava os olhos e os abria na direção dos pôsteres de Godard, Tarantino e Hitchcock na parede, evitando encará-la, enquanto respirava para recuperar as palavras.

— A mim foi dada a chance de impedir mais dor e sofrimento do que a qualquer outra pessoa no mundo. Eu posso ajudar muita gente, Lívia. Tenho certeza que você ia concordar comigo. Talvez um dia eu me convença que não tem mais nada para acertar, e nesse dia você pode ter certeza que eu vou voltar para você. E eu vou gostar muito… Eu sei que não cabe a você, mas eu vou gostar muito se você estiver exatamente assim, Lívia, olhando para mim. E eu vou falar tudo o que eu tenho a dizer para você. É isso.

Enxugou o rosto com o sobretudo, e saiu.


III

 

O que preciso é método. Rua por rua, bairro por bairro, cidade por cidade, país por país.

Caminhou até as subidas de Santa Tereza, pelos trilhos do bondinho reformado que perpassavam residências imemoriais, hoje lar de artesãos, pintores, músicos e poetas. Estabeleceu seu quartel-general no Parque das Ruínas, constituído de um pátio, onde se podia admirar boa parte da cidade, e um palacete de pedra oco, atravessado por pontes de ferro e ornado de um mirante pentagonal de vidro, como se uma bijuteria contemporânea decorasse o cenho de uma princesa colonial.

*O que estiver ao meu alcance. *

Sublinhou a última frase várias vezes, então guardou o bloco e estendeu no piso um mapa do Rio de Janeiro, furtado de uma banca de jornal. Desenhou um plano de trajeto, circundando marcos do percurso, e se serviu do binóculo para fixar também na memória pontos de partida do Centro rumo à Zona Norte.

Março subira numa balaustrada e pulava para atacar uma mosca suspensa um pouco acima. Sem querer, empurrou-a para ainda mais longe e passou a mirá-la, dedicando-lhe miados mudos.

— Nem pense que eu vou pegar essa mosca para você — disse Alex, sorrindo. — Estou numa vibe oposta!

Metros depois, de um elevado, capturou com o binóculo um carro desgovernado, numa rua abaixo, rumo à parede lateral de um restaurante. Alcançou o local e confirmou, no velocímetro, a fatalidade iminente: 90 km/h. O motorista dormia.

— Boa tarde, senhor, estou patrulhando este instante preciso da existência, você faria a gentileza de sair do carro para facilitar meu trabalho?

“O carro não sei como salvar. Pelo menos vou tirar ele daqui.”

Largou-o na calçada e prosseguiu caminho.

— Mas Março, você, que é mais esperto do que eu nesse mundo, me diz uma coisa: o que a inércia vai fazer com o sujeito? Melhor colocá-lo numa piscina, né?

Voltou à calçada onde o havia deixado. Ele não estava lá.

Deu dois passos para trás e levou a mão aos cabelos, circulando os olhos sob as sobrancelhas cerradas.

— Março. Você viu, eu deixei ele aqui.

Voltou correndo para o carro e irrompeu à janela: o motorista dormia ao volante, pé no acelerador.

— Não é possível!

Percebeu movimento e, ao se virar, defrontou uma muralha de cactos — como se houvessem enfileirado, por dezenas de metros, variadas espécies compridas, de inúmeras floriculturas da cidade, amarradas umas nas outras e em bueiros, postes, frades e hidrantes, em semicírculo de um canto ao outro da parede contra a qual o automóvel se arremessava.

Expandiu os olhos por todos os lados para confirmar seu aprisionamento, agitando as pernas para trás até se encostar ao carro. Março eriçou-se.

A janela de um edifício atraiu sua atenção, mas estava vazia. Decidiu olhar de novo para a mesma janela com o binóculo. Uma mulher ruiva o observava, e desapareceu.

— Quem?

Rodopiou em sua busca e então surpreendeu, na parede do restaurante, inscrições em tinta vermelha:

“Dirige embriagado e displicente.

Servirá de exemplo para família e conhecidos.

Deixe-o. Já há quem cuide do futuro.”

Verificou a impossibilidade de escalar a parede do restaurante e subiu no carro para calcular a extensão da muralha de cactos. Sem ângulo, porém, não enxergou o fim.

Desceu e emaranhou-se na floresta de espinhos, flores esparsas, caules robustos e seivas amargas, erguendo o sobretudo para proteger seus olhos e a Março, que carregou debaixo do braço. Uma vez que desprendia pedaços das plantas, suspendia-os no ar com facilidade, mas feriu-se nas pernas e no braço direito, e atingiu o outro lado com o sobretudo repleto de furos e rasgos.

“Talvez você esteja certa.”

Tremia e arquejava, como se houvesse escapado do fundo de um lago congelado. Soltou Março, que correu sacudindo o rabo.

“Talvez não.”

Apanhou uma flor que havia se prendido ao sobretudo, na altura da costela, e a alojou, trepidando, no bolso da frente.

— Quem é você? — gritou o mais alto que pôde, embora escutasse apenas o som reverberado em sua própria cabeça.

Pela primeira vez amedrontou-se com o silêncio e a estagnação que o acompanharam desde o instante que não se declarou.

— Quem é você…?

Ajoelhou-se para recuperar o ritmo da respiração. Vislumbrou, contrastando com o asfalto negro, um filete alvo, um espinho de cacto. Percebeu outro mais à frente e julgou ter encontrado rastros involuntários para o paradeiro da ruiva. Tão logo passou a segui-los, porém, reparou que os espinhos formavam uma trilha proposital.

— Coragem, Março, vai dar tudo certo.

A trilha acabou numa ruela estreita na Tijuca, bucólica, de prédios residenciais do final dos anos 60. Muniu-se do binóculo, mas não avistou nada à frente. Girou-o para os lados, e, ao incliná-lo para cima, um rosto feminino de olhos fechados preencheu as lentes.

Jogou-se para trás e soltou o binóculo: uma mulher na faixa de trinta anos pairava, de cabeça para baixo, do lado de fora da janela do quinto andar de um dos prédios. Seus cabelos pretos cacheados se espetavam para cima, assim como a borda rendada de sua camisola clara.

Numa outra janela, dois andares acima, relanceou a ruiva.

Correu pelas escadas e encontrou a porta do apartamento aberta, um conjugado.

— Onde está você?

Nenhum sinal. Sobre a cama, um diário estava aberto na última página escrita:

“Hoje, sob a luz de Dália, tomei a decisão mais difícil da minha vida. Ninguém vai entender, mas sei que estou fazendo o melhor para mim e para o meu filho.”

— Dália…?

Assim que alcançou a janela para ponderar sobre o resgate, a ruiva surgiu do outro lado, levitando entre ele e a suicida. Sua imagem variava erraticamente, como o fogo de uma vela: a mão direita apoiada na cintura já pendia próxima ao queixo e então descansava no peito; o vestido valsava desde os joelhos até sumir sob o xale verde, que saltitava sobre seus ombros; seus olhos verde-piscina, bálticos, miravam Alex e cada canto do quarto ao mesmo tempo.

Ela era ainda mais rápida, ele finalmente percebeu. Simplesmente mais rápida.

Seu braço apareceu levantado através da janela, para dentro, e Alex recuou. Apontava o diário.

Ele se esgueirou de costas até a cama. Na página seguinte à nota de suicídio, que antes estava vazia, lia-se, com outra letra, em vermelho:

“Grávida. Depressiva. Viciada em crack. Seu pai morrerá em três anos, sua mãe dentro de seis. O irmão planeja um sequestro, que permitirei por outras razões. Seria a referência da criança, que cometeria crimes mais sofisticados. Parir atrapalhará os planos. Matar-se, entrelaçado a certos eventos, influenciará iniciativas na área da saúde mental.”

Alex travou os lábios. Conferiu que a ruiva ainda pairava diante da janela e folheou entradas anteriores do diário. A moça descrevia o romance interrompido que a levara à gravidez, suas angústias e como um espírito passou a ampará-la: Dália. A entidade a convenceu dos prazeres do pós-vida, no início para consolá-la com respeito a familiares perdidos e, meses depois, para incentivá-la a buscá-lo.

Agarrou o diário e o espremeu com as duas mãos, bufando.

— Então é assim que você se chama para quem não tem deuses. Então é isso que você faz.

Dália agora se apoiava ao armário do quarto, logo atrás dele. Ele brandiu o diário frente a sua figura oscilante, com os olhos incendiados.

— Por quê?

À medida que a ansiedade acelerou sua respiração, o quarto sombreou, os móveis e as paredes turvaram e os movimentos de Dália se estabilizaram, revelando seus contornos.

— Dália! É este seu nome? Ou devo chamar você de la Virgen?

Ela arregalou os olhos, embora seu semblante jovem pouco se modificasse, e recostou-se ao armário. Alex gradualmente atenuou suas feições.

— Ficou bem mais escuro aqui. Já sei, eu atingi sua velocidade. É por isso que você está assustada.

Soltou o diário e avançou com calma na direção dela, que se contraiu e deslizou rente ao armário para o lado, mirando-o fixamente.

— Eu sei que você pode ler meus lábios. Você não é uma deusa coisa nenhuma. Você só quer um mundo melhor, assim como eu. Não é isso?

Ela anuiu com a cabeça devagar.

— Mas por que tanta crueldade? Como você sabe o que vai acontecer?

— Todas as pessoas são previsíveis — Dália enunciou, sílaba a sílaba, em silêncio. — Compreenda seus medos e você conhecerá suas escolhas.

— Não — disse Alex, sacudindo a cabeça e franzindo o cenho. — Não tem como ter certeza.

— Olhe para você. Escravo do medo da resposta de uma adolescente.

“Como?” Alex hesitou, mas deu mais um passo, distando apenas um metro dela. Entreviu, na base de seu pescoço, a ponta de uma cicatriz que escapou às vestes.

— Talvez. Mas se você analisa as pessoas, mesmo paradas, você sabe que elas podem surpreender.

Alex tomou-a pelos antebraços, premindo levemente a casimira do xale, que a cobria da nuca aos punhos. Olharam-se nos olhos.

— Elas superam medos pelo bem de outras pessoas, Dália.

Alex tremia, mas prosseguiu.

— Por favor, deixa ela viver. Eu prometo te ajudar a fazer um mundo melhor. Vamos fazer isso juntos.

Olhou para baixo, envergonhado, até repousar a vista na flor de cacto em seu bolso. Sentiu os braços de Dália tremularem nas suas mãos, e então desaparecerem.

Levantou a cabeça. A claridade ao redor confirmou que retornara a seu próprio tempo estagnado. Dália sumira, mas, sobre a cama, a grávida se deitava envolta por travesseiros. Próximo à cabeça dela, junto à capa do diário agourento, do qual todas as folhas haviam sido arrancadas, se sobrepunha o próprio caderno de Alex, aberto. Palavras em vermelho violavam a página de suas últimas anotações:

“Permitirei que vivam.”

Suspirou.

Havia algo escrito também do outro lado: “Por sua Lívia, não interfira mais.”


IV

 

Alex desceu as escadas estonteado. Ao sair do prédio, levou as mãos espalmadas à boca, absorto. Despertou com Março roçando suas pernas.

— Vamos lá, amigo. Temos que ver se essa maluca fez alguma coisa com a Lívia. Ela… Março, há quanto tempo será que você está vivendo assim? E ela?

Voltaram ao apartamento de Lívia. A mãe dela retirava roupas do varal. Audrey corria em direção à sala. No quarto, Lívia ainda aguardava a declaração, porém deitada de costas no chão. A nova trajetória de seus olhos seguia ao teto, de onde pendiam dezenas de facas ornamentadas em camadas, pontas para baixo, como um lustre.

Alex encostou a testa na parede, a qual socou devagar.

— Maldita. Eu vou descobrir quem você é. E eu vou parar você. Mas como?

Para sair, caçou Março pela casa até encontrá-lo na cozinha, desfiando jornais que serviam de banheiro para Audrey.

— Você não pode parar quieto? O que está fazendo aí?

Leu uma notícia qualquer:

“POR UM TRIZ — Casal reage a assalto e escapa de tiros…”

— É isso, garoto, é isso!

Trotou em direção ao Centro. Março irritou-se com a recém adquirida pressa e atacou sua canela.

— Ah, seu desgraçadinho! Se quiser, fica aqui, não tenho mais paciência para você. Não é mais a mesma coisa, nós não estamos sozinhos.

Março se apressou, a contragosto, para acompanhar o novo ritmo. Obstinado, Alex desprezou a Praça Paris, onde estátuas e turistas decoravam igualmente o jardim sob o chafariz congelado; o Aqueduto da Lapa, com a miscelânea de músicas represadas prestes a ecoar em seus túneis branco-cinzentos; o verde inesperado que caía das figueiras trançadas do Passeio Público; até que alcançou, finalmente, a praça da Cinelândia. Como parte do acervo arquitetônico da praça, que teletransporta visitantes aos anos dourados de alguma capital europeia, a Biblioteca Nacional deslumbrava. Invadiram-na pelo saguão, no qual uma claraboia art nouveau guiava o sol para passagens conectadas a galerias altas, repletas de incontáveis livros.

— Agora, onde encontramos os arquivos de periódicos?

“Se ela falava com a grávida, está pelo menos há alguns meses reais brincando de Deus. Viver desse jeito por meses… Ela transita entre os tempos? Ainda assim, cada dia pode significar anos e anos…”

Encontrou uma sala adjacente, restrita aos funcionários da fundação, que continha submissões recentes, e pôs-se a vasculhá-las. Retirou exemplares de arquivos metálicos e os dispôs sobre uma mesa central comprida de madeira compensada. Pesquisou eventos incomuns e procurou estabelecer padrões a partir de datas, locais e perfis das vítimas.

Assassinatos “em nome de Deus”. Tiroteios em colégios. Terrorismo. Pessoas que não estavam lá porque uma ocorrência extraordinária as impediu. Um carro que não ligou. Um sonho que as alertou.

— Você as salvou? Ou programou cada detalhe? Quem ia morrer e quem ia viver, pessoa por pessoa?

Separou e classificou notícias, pendurando-as nas paredes, por vezes alternando os critérios de ordenação. Enquanto trabalhava incessantemente, a tarde teimava em não ceder seu lugar para a noite; a chuva, reticente, se enclausurava nas nuvens; e a Biblioteca Nacional, com suas suntuosas escadarias, colunas neoclássicas e torres laterais, permanecia ignorada.

“Há quanto tempo estou aqui? Se estivesse no tempo normal? Algumas horas, um dia, uma semana, um mês? Estou enlouquecendo, como você? Não, não é com você que devo conversar. Lívia, Lívia, me ajude. Preciso me concentrar em você acima de tudo.”

Desolou-se com as pilhas de anotações que reservou na ponta da mesa, das quais ainda tentaria tirar algum sentido. Março se lambia no parapeito.

“Não vou conseguir.”

Abriu a janela e inspirou fundo, como se pudesse simular o prazer de refrescar-se. Voltou-se e notou que a porta da sala se abrira. “Parabéns, Dália, você me achou”. Conferiu a mesa e gelou — as anotações haviam desaparecido. Todavia, uma nova revista despontara no lugar delas.

Tratava de curiosidades bizarras, como distúrbios intensos de personalidade, decisões jurídicas estapafúrdias e coisas do gênero. Varou as páginas e se deteve, em transe, no penúltimo item de uma lista de doenças inidentificáveis:

“PUNIÇÃO ESPIRITUAL?

Presidiário lituano sofre há dez anos com doença de pele inexplicável.

Boris Kūris foi condenado à prisão perpétua por assassinar a facadas sete crianças polonesas, no Parque Dauniškis, na cidade de Utena. O primeiro rasgo espontâneo em sua pele foi identificado dois dias após a confissão. Desde então, a cada duas ou três horas ele sofre novos rompimentos em outras partes do corpo.

‘No início desconfiaram que havia um complô para machucá-lo’, explicou Mykolas Tumėnas, diretor do presídio de Vilnius. ‘Então o filmamos por vinte e quatro horas numa mesma sala e provamos que as feridas são naturais.’

Boris necessita de atendimento médico permanente e nenhum especialista ofereceu explicação para o fenômeno.

Outro mistério assombra o caso: o presidiário confessou o assassinato de apenas seis das sete crianças. O corpo de sua última vítima, Dalia Sielvartas, de 13 anos, jamais foi encontrado.”

Misturaram-se na cabeça de Alex a suicida, o xale, o lustre de facas e a notícia. “Uma menina. Ela era só uma menina.” Pressionou a testa com a mão esquerda.

“Quantos milhões de anos?”

Lembrou-se do primo e seu rosto avermelhou.

— Dália, você matou meu primo?

“Os médicos falaram que as descobertas do tratamento vão salvar muitas vidas no futuro,” disse a tia aos presentes, no velório. “Foi o desejo de Deus. Ele sabe o que está fazendo.” Naquele dia, Alex fez várias vezes o sinal da cruz diante de uma imagem da Virgem Maria. “Deus escreve certo por linhas tortas.”

Apertou bem os olhos com a cabeça para baixo. Respirou rápido, acariciando Março, para se recompor, e então escreveu numa folha de papel:

“Eu entendo você. Você quer o melhor mundo possível, para que isso que aconteceu com você não aconteça com mais ninguém. Eu também. Mas estamos errados.”

Vagou pela biblioteca com o papel em punho. Deixou-o numa das estantes que se enfileiravam entre o início da sala e um janelão envidraçado. Ao reerguer o rosto, Dália tremulava à sua frente. Subitamente seu xale se estirava sobre uma cadeira, e seus ombros e braços nus, inconstantes, transpareciam dezenas de cicatrizes.

— Dália… Você consertou tudo, o mundo inteiro, desde a primeira vez. Que nem eu queria fazer. E então você voltou ao tempo real, não foi isso? Só que toda vez que você voltava, você sentia a dor. Depois, as cicatrizes. Você vê que o mundo continua com problemas e quer melhorar mais, e mais. Só que ele sempre vai ter problemas, Dália, que a gente tem que lidar dia a dia. Você fala que as pessoas agem em cima de seus medos, mas não é você que está com medo do mundo? Vamos voltar juntos, por favor.

Assim como o xale, Dália desapareceu. “Não, merda.” Avistou Março correndo para a entrada do salão, eriçado, e seguiu para acudi-lo, mas foi atingido na nuca e caiu. Virou-se para trás e arregalou os olhos: centenas de livros deslocavam-se das estantes a seu redor e voavam com ferocidade na sua direção, como um tornado. Uma saraivada o atingiu em todo o corpo e então defendeu-se com os braços, os quais as pontas das capas rasgavam sem que ele sangrasse.

Concentrou-se até perceber as cores de Dália tremeluzindo por entre os livros, seu xale piscando a cada ataque.

Março avançou contra a torrente de livros com a pata em riste, e foi atingido na cabeça. Enquanto aparava a rajada seguinte, Alex o procurou e constatou: como todos os demais gatos, Março paralisara.

Inchou o tórax e ainda mais os olhos. “Se eu voltar ao tempo normal também, as facas… Lívia, Lívia, Lívia!”

Protegeu o rosto de um livro que não chegou a tocá-lo. Ele pairava à sua frente, mas já não enxergava bem, pois a luz do pôr do sol rastejava com dificuldade pela janela: o tempo de Dália.

Viu-a por detrás do ciclone de livros suspensos no ar, e se encararam. Enquanto Alex levantava, Dália apanhou uma cadeira pelo encosto para golpeá-lo. Alex, recuperado, conseguiu segurar a arma improvisada pelas pernas e a empurraram um contra o outro.

— Para, Dália, presta atenção! Se nós dois voltarmos agora, a Lívia vai morrer à toa, você não quer isso, pelo amor de Deus!

— Deus… — Dália sorriu com os olhos inflamados. — Se houve algum, foi um de nós, e desistiu. Agora eu sou a única chance de a humanidade se proteger do seu próprio egoísmo, vaidade e mesquinhez. Quer salvar sua Lívia? Pare você.

Dália intensificou a pressão da cadeira contra Alex, que, sem apoio, acelerou para trás até recostar na janela às suas costas. Dália passou a puxar a cadeira com o intuito de soltá-la das mãos dele, que resistia.

— Não! Você viu muito mais desse mundo do que qualquer um. As pessoas às vezes ficam assustadas mesmo, e caem em desvios. Mas quando superam seus medos, elas são capazes de coisas incríveis.

— Desvios? Você não sabe de nada.

— Que nem a gente! Você acha que nosso caminho é aqui, no tempo parado? Você pode se libertar do seu medo de viver, Dália, e eu posso superar meu medo da rejeição da Lívia.

Dália espremeu os olhos:

— Você nem sequer entendeu. O que apavora você é o sim.

Alex escorregou e Dália tomou a cadeira para si. Travou a mandíbula e o golpeou com violência crescente.

Uma das investidas o acertou no rosto e arremessou sua cabeça contra a janela. O salão clareou e escureceu de volta como se houvessem brincado de girar o botão de uma lâmpada regulável. Entretanto, Alex agora enxergava um pouco mais: cacos brilhantes flutuando em espiral a seu redor, a cadeira estirada sobre o nada, a janela, despedaçada, e, atrás dela, o salão da biblioteca, de onde Dália se preparava para saltar.

Espreitou por trás do ombro e confirmou que voava sobre a travessa adjacente ao edifício. Dália escalou os pedaços de vidro como a uma escada, apoiando-se ainda na cadeira, até desferir-lhe um soco na altura dos rins que fez o céu piscar uma vez mais. Dessa vez ele recuperou a velocidade com o joelho direito de Dália sob seu queixo e os cabelos molhados por uma nuvem, à beira da inconsciência.

Dália segurou-o pelo pescoço, com os polegares em suas orelhas, e posicionou seu rosto em direção ao mesmo joelho. Alex mal conseguiu ler suas últimas palavras:

— Se não contar nada sobre mim, eu preservarei sua vida. E as de quem você ama. Bons sonhos.

Dália dobrou a perna e, naquele instante, Alex pensou escutar uma voz. A voz de Lívia, que pulsava dentro de sua cabeça.

“O que você quer dizer com isso?”


V

 

Adveio a escuridão.

Começou ao longe e se aproximou em círculos, como se um buraco negro os engolisse. Na calçada abaixo, desapareceram os transeuntes, os discos de rock dos anos setenta e as árvores que os alamedavam.

Sua última visão foi de Dália movendo-se com a lentidão de uma folha boiando num lago sereno, quando desvencilhou de suas mãos e a agarrou pela cintura.

Adentrara um novo tempo. Num universo silencioso e de odores fixos, agora também a luz estacionara. Lampejos de imagens só encontravam seus olhos ao acaso, monocromáticas, compondo formas caóticas. Sentia o corpo de Dália abraçado ao seu e forçou o voo em sentido ao chão, como se nadasse propulsionando-se pelo ar imóvel.
Atingiram a superfície. Alex já podia enxergar as pedras portuguesas impactadas pelo pouso, que rebentariam no próximo instante, assim como os pedestres paralisados e as bancas de música. Voltara ao tempo que havia se acostumado desde que não se declarou.

Dália, por sua vez, não demonstrava movimento. Agora ela despertaria apenas entre aqueles cujos segundos evaporam mais rápido quanto mais importantes.

Afagou-a numa das têmporas e prendeu a flor de cacto em seus cabelos.

— Eu volto para cuidar de você. De Março também. Mas primeiro, Lívia.

Arrastou-se com dificuldade até pôr-se de pé. Marchou e então correu na direção do apartamento dela. No caminho, surpreendeu um beija-flor em voo baixo, tão difícil de observar no tempo normal. Verificou que suas asas, vagarosamente, ascenderam em torno de meio centímetro.

“Não. Não, Lívia, não vai dar tempo!”

Alcançou o prédio. Disparou escadas acima, atravessou o apartamento e irrompeu ao quarto.

Estava ilesa, de pé. Sobre sua cabeça, apenas o teto. Nada mudara, talvez exceto seus olhos. Talvez seus olhos, percebeu Alex, tivessem se deslocado alguns milímetros.

“Dália, sua maldita… Obrigado.”

Embrulhou binóculo e caderno no sobretudo e escondeu o pacote num quadro de cabos, do lado de fora do apartamento. “Ainda dá tempo.” No banheiro, encontrou esparadrapos para suas feridas.

Voltou até a frente de Lívia e suspirou.

Roncos indistinguíveis se converteram em barulho de trânsito e o ruflar da máquina de lavar. Lívia piscou.

Alex se espantou ao falar e ouvir sua voz ressoar pelo quarto. Então, por um breve instante, eles apenas se olharam, parados, como se o tempo não existisse. Seus rostos rosearam aos poucos, tom a tom até o vermelho.

— Nossa, Alex, isso é meio súbito, não sei o que dizer.

— Eu sei. — Alex riu. — Muito súbito.

Felipe Cotias
Felipe Cotias
Felipe Cotias é pseudônimo literário de Rodrigo Bahia, advogado carioca desenvolvendo carreira jurídica e comercial em uma multinacional. Introspectivo de nascença, sempre apreciou descobrir e produzir ficções. Seu amor pelas artes e humanidades o levou a fundar o ficcoeshumanas.com, para publicar ensaios e contos, hoje tocado em parceria com o historiador e resenhista Paulo Vinícius dos Santos.

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