Sardas e Manchas de Sangue

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Ainda me lembro quando ficava horas ao telefone com ela, apenas escutando sua voz falando sobre qualquer coisa, enquanto sentia as batidas do seu coração na minha pele.

Bem diferente da ligação que ela acabou de fazer. Uma ligação prática e rápida. “Sei que você está no trabalho e não quero lhe incomodar,” ela disse. Ligou apenas para avisar que Samuel buscaria os livros dela na semana que vem. Ligação prática. Sem skincon.

Eu não sabia o que era pior. O jeito como Rachel tratava o nosso relacionamento, como um bicho de estimação que precisava ser sacrificado, ou ter de receber o idiota do irmão dela na minha casa.

Levei a mão ao bolso, esquecendo que não havia nenhum maço ali. Que hora fui escolher para cortar o cigarro.

Deixei sair um suspiro.

Senti um cheiro no ar. Um cheiro forte de bolonhesa. Noodles de bolonhesa.

Nove horas da manhã e o caipora já estava comendo macarrão.

Ele olhou para mim.

“Está tudo bem?” Perguntou, espichando o pescoço por cima de três monitores, a boca manchada de molho.

Olhei para ele. Fora os monitores, Morera também havia levado o seu próprio computador para o trabalho. Ele estava no SicaCon desde a hora que chegou, usando os constructos de três escrivães para formalizar alguns boletins. O caipora estava realmente disposto a mostrar serviço.

“Claro que sim. Por que não estaria?” Respondi.

“Sei lá. Você estava com uma cara ao celular.”

“Ligação ruim. Não deu para ouvir a Rachel direito.”

“Ahm,” ele falou, erguendo as sobrancelhas. “Posso fazer uma pergunta?”

“Diga.”

“O constructos são todos de policiais que morreram?”

Coloquei os braços sobre a mesa, estreitando os olhos. “Claro que não. E você deveria saber bem disso. Acabou de passar no concurso e esse é o tipo de pergunta que sempre cai.”

“E eu sempre errei essa questão,” ele falou e abriu um sorriso sem graça.

“Garoto,” eu comecei, “os velhos são todos de policiais aposentados. Alguns estão vivos, mas outros estão mortos. Por isso você tem que ter muito cuidado ao acessar o SicaCon.”

“Por quê?”

Levei a mão à testa, massageando-a. “O que acontece se o constructo de um policial que já morreu for apagado?”

Ele moveu os olhos para cima, como se a resposta estivesse escrita no teto. “Ele deixa de existir?”

“Para sempre,” completei.

“Não existe nenhuma cópia de segurança?”

“Você tem ideia do quanto custa só para manter um desses velhos?” Eu perguntei, voltando para o meu monitor. “Vamos, volte pro seu estudo.”

A inserção de constructos no sistema foi uma das poucas tecnologias que realmente vi surtir algum efeito positivo. Antes, os policiais com mais tempo de casa acabavam ficando responsáveis por todo caipora que chegava, tendo de explicar como as coisas funcionavam no departamento. Depois que os velhos foram inseridos no SicaCon, bastava criar um usuário para o caipora e deixar que ele aprendesse o beabá com eles.

Passei o resto da manhã em frente ao computador, no que parecia ser mais um dia de sombra. A conversa que tive com Machado acabou mudando o rumo das coisas.

Eu terminava um relatório sobre o caso de um mixolab conhecido como Fúria da Cura. O proprietário, um sujeito chamado Fisq, era acusado de lavagem de dados. Foi uma investigação que não resultou em nada (Fisq era filho de gente poderosa. Nem ele nem os seus furistas foram presos), mas as informações que levantei eram úteis demais para ser descartadas. Estava terminando de subir os dados no SicaCon, quando o ícone de Machado apareceu na tela.

Cliquei.

“Sim?”

“Você parece cansado,” ele falou.

“Falta de vitamina D,” respondi.

O peito dele estufou sob a camisa polo preta com o símbolo do departamento. Ele coçou o queixo com o dedão, seus olhos me sondando por baixo da testa proeminente. Dezesseis anos trabalhando juntos e ainda não conseguíamos ir com a cara um do outro.

“Se é por falta de atividade, uma boa notícia para você. Temos um 446.”

“Outro?” Perguntei. “Melhor deixar com o pessoal do controle de zoonoses.”

“Assassinato não é da alçada deles.”

Cruzei os braços, encostando as costas na cadeira. “Qual é a história?”

“O de sempre. Homem assassinado. Trabalhava como vigia noturno.”

“E quanto ao gimo?”

“Fugiu logo em seguida.”

“Essas silitags não valem mais nada mesmo.”

“Já foram melhores,” Machado falou, o queixo balançando. “Estou disponibilizando o endereço para você. Aproveite para levar o caipora. Não se aprende só com constructos.” Sua imagem desapareceu.

Tamborilei os dedos na mesa, encarando o relatório que voltou a surgir na minha frente. “Ei, caipora…”

“Sim, Juarez”, Morera respondeu, a cabeça entre os monitores. Ele parecia ansioso.

“Ouviu a conversa que acabei de ter aqui?”

“Sim. Digo, parte dela.”

“Sabe o que é um 446?”

“Gimo foragido,” ele respondeu, ajeitando as hastes dos óculos. “Acredito que o mais correto seria 452, pois o caso envolve assassinato.”

“Quem é sabe, quem é sabe,” falei. “Vamos. Pegue suas coisas e um Farejador também.”

“Sim, jang,” ele respondeu daquela maneira irritante, levantando-se da cadeira.

Ajeitei o coldre. A alça continuava apertando no ombro e eu sabia que se quisesse um novo teria que gastar do meu bolso. O departamento tinha recursos para comprar canhões de lodo e constructos, mas faltava verba para coldres novos. Era ridículo.

Saímos do escritório. Quando chegamos perto do elevador, Morera falou que havia esquecido uma coisa. Ele voltou usando uma daquelas lentes pretas horríveis. Sempre me perguntei quantos garotos faziam o concurso somente para poder brincar com as bugigangas que o departamento oferecia. Balancei a cabeça e entrei no elevador, a porta fechando.

“Trabalho de campo não é de todo mal,” ele falou, tentando puxar assunto. “Pelo menos lá fora você pode fumar quantos cigarros quiser.”

“Sabe que estou tentando parar,” respondi, encarando os seus olhos. “Por Krishna, caipora. São onze da manhã. Por que você está usando esses olhos de gato?”

“Eles me ajudam a enxergar melhor de dia também. É sério.”

“Faça o que você achar melhor,” respondi, sentindo a boca secar.

“Ei, nunca se sabe. E se o gimo possuir visão noturna? Pelo menos ficamos quites.”

“E se o gimo tiver um rabo? Você vai providenciar um também?”

“Eu não,” ele exclamou. “Não sou um daqueles morfos malucos.”

O elevador parou, deixando-nos na garagem. Estava escuro, como se todas as lâmpadas estivessem desligadas.

Tateei a parede procurando o interruptor. O botão parecia estar na posição correta, mas a luz não acendia.

“Esse andar tá todo sem energia,” o faxineiro gritou por trás de uma coluna. “Algum moleque entrou no sistema de novo.”

Morera olhou para mim, os lábios entreabertos. “Se quiser eu posso achar o nosso carro.”

Ele tinha a mão estendida, esperando que eu entregasse as chaves. Respirei fundo, tentando manter a calma. Acho que se tivesse apertado os punhos com um pouco mais de força, teria quebrado meus próprios dedos.

“Sei muito bem onde está o carro, caipora. Vem.”

Seguimos em frente, caminhando no escuro. A pouca luz que vinha de fora resplandecia na lataria de alguns carros. Eu encostei a mão nas colunas, contando uma a uma. A vaga em que deixara o carro ficava do lado esquerdo, próxima à sexta coluna depois do elevador.

“Pronto,” exclamei, apalpando o capô do BYD. Dei a volta nele e abri a porta. As luzes internas se acenderam como uma saudação de boas-vindas.

O interior do carro cheirava a ranço de salsicha e jalapeño. Olhei para o banco de trás, vendo uma embalagem do Sonic, a gordura amarelada manchando o estofado.

“Caipora, quantas vezes já lhe pedi para não deixar lixo dentro do carro?”

Ele olhou para mim com o ar espantado. “Puxa, Juarez. Desculpa. Achei que tinha jogado isso aí fora.”

“Esquece. Acesse o endereço para nós .”

“Sim, jang,” ele falou, encarando nervosamente o painel de controle. Eu cutuquei o seu ombro. Ele me deu um olhar perdido.

“Faça assim,” falei, movendo o indicador no ar.

“É verdade.” Ansioso, ele deslizou a ponta dos dedos no para-brisas de grafeno, clicando no ícone de Machado. O endereço saltou na nossa frente e as coordenadas foram transferidas para o navegador.

“Olha só,” ele falou com interesse. “Não é lá que estão construindo a nova sede da Alencar Sagong?”

“Não sei. É?”

“É sim. Você tem que ver. Très chic,” ele disse, beijando a ponta dos dedos como um chef.

“Trouxe o Farejador?”

Ele enfiou a mão no paletó e tirou do bolso interno o contador Aull. “Aqui,” ele disse, exibindo aquele objeto que parecia mais um controle remoto verde. “Acha que os urubus já estão lá?

“Eu espero que não,” falei, ligando o carro. “Espero que não.”


Bairro da Jaqueira, um dos fāng zhang mais caros de Recife. Ou metros quadrados, na unidade do antigo SI.

Havia um estacionamento improvisado próximo à obra. Parei o BYD ao lado de um caminhão de concreto autorregenerável, olhando com atenção através do para-brisas. Para nossa sorte, parecia que nenhum jornalista havia chegado ainda.

Fomos recebidos por um tal de Marcelo Koehler, o engenheiro responsável pela obra. Ele trajava uma camisa de linho azul, as mangas dobradas. Usava um relógio de aspecto caro, mais uma joia do que um acessório. Tinha o sorriso fácil, o trejeito de quem procura agradar o tempo todo. Ele nos levou até o local onde o vigia fora assassinado.

“Uma perda irreparável, inspetor,” Marcelo falou, enquanto caminhávamos pela obra. “Edson era um funcionário exemplar. Tinha anos de casa.”

Com uma das mãos no bolso, acionei o gravador do celular. “Por acaso esse Edson chegou a ter algum tipo de desavença com o gimo em questão?”

“De maneira alguma. Ele sempre tratou todos seus colegas com respeito, humanos ou não. É a política da nossa empresa,” ele respondeu. Uma gota de suor escorreu da sua testa. Não devia estar acostumado a ficar muito tempo fora da sua sala com AVAC.

“Esse gimo. Ele tinha um nome?”

“Mas é claro. Era… ehm… Tambor,” ele respondeu, depois de um tempo.

“Tambor? Isso parece nome de bicho,” Morera falou, colocando-se entre nós dois.

“E não é isso que essas coisas são?” o engenheiro perguntou, olhando surpreso para Morera.

Como os peritos do DPT estavam atrasados, tivemos a chance de ver o trabalho feito pelo gimo.

O corpo estava caído ao lado de fardos de vergalhões, a barriga para cima. Morera, como todo caipora, queria mostrar que tinha estômago. Agachou-se perto do corpo e olhou com interesse. Eu me aproximei também, mas mantive distância suficiente para não sujar os sapatos.

De alguma maneira, o gimo conseguiu anular sua silitag e atacar, aproveitando-se de um momento de distração do vigia. O sangue estava concentrado em um único local, o que me levava a supor que não houvera conflito. Observando os cortes, concluí que o gimo se aproximou por trás de Edson e o atingiu no pescoço, furando as duas jugulares de uma vez. Procurei no chão alguma faca ou outro objeto cortante, mas não achei nada. Havia manchas de sangue na parte de cima do tapume, como se alguém com as mãos sujas houvesse pulado ele.

Virei-me para Marcelo. “Você estava na obra quando Edson foi assassinado?”

“Sim. O turno dele termina exatamente quando o meu começa. Jesus, eu havia cumprimentado ele minutos antes disso tudo acontecer,” ele falou, balançando os lábios.

“Você viu quando Tambor o matou?”

“Não, não vi. Eu estava entrando no meu container e ouvi um grito. Quando olhei pela janela, vi Edson no chão e o gimo parado ao lado dele, com as garras ensanguentadas. Chamei os seguranças, mas o gimo já havia pulando o tapume.”

“Quando vocês adquiriram esse gimo?”

“Quando?” O engenheiro colocou o dedo na boca. “Eu posso consultar essa informação, mas acho que ele veio no mesmo lote que os outros.”

“Não é uma informação tão importante, mas vou precisar dos dados do caldo.”

“Dados do caldo?”

“Caldo, vida boa,” Morera falou, tentando soar durão, o Farejador entre os dedos. “Os dados com a composição do gimo.”

“Sim, sim. Eu posso arranjar isso,” Marcelo respondeu, a testa minando suor. Sob o sol do meio-dia, ele se desmanchava como um boneco de cera. “Acha que pode ser algum defeito no lote?”

“Não creio,” respondi, tossindo. “A silitag do gimo deve ter sido danificada.”

“Mas como isso é possível?”

“Existem várias maneiras. Choque ou um golpe aplicado no local certo podem danificar a silitag,” falei, aproximando o rosto dele. “Diga, vocês costumam punir seus gimos por aqui?”

Ele me olhou como se alguém houvesse abaixado suas calças, os olhos arregalados. “Na-não. Mas é claro que não. Como eu disse antes, é política da nossa empresa o total respeito aos funcionários, sejam eles humanos ou não.”

Certo, eu pensei, sentindo uma imensa vontade de fumar. “Bem, onde estão os outros gimos?”

Marcelo consultou o relógio. “Devem estar no refeitório. Por que quer saber?”

“Quero fazer umas perguntas.”

“Pa-para os gimos?” Ele me olhou estarrecido. “Aquelas bestas nem sabem assinar o próprio nome.”

“Esses gimos conviveram com Tambor mais do que qualquer um. Eles podem saber de algum detalhe importante.”

O engenheiro balançou a cabeça em negativa, mas obedeceu.

Era o horário de almoço, ou o que quer que eles chamassem aquilo. Enquanto os funcionários humanos comiam no refeitório, os gimos se acotovelavam em dois longos bancos de madeira localizados do lado de fora.

Um homem dava aos gimos a sua ração diária de comprimidos. À medida que recebiam sua dose, cada gimo fechava a mandíbula, abaixando o focinho como em uma eucaristia demente.

Olhei para eles, enfileirados no banco como réus aguardando o julgamento. Não que eu fosse um defensor de gimos, mas a forma como esses pobres coitados eram tratados chegava a me embrulhar o estômago. Era quase nítido o elemento humano naqueles olhos. Aproximei de um deles.

“Olá. Consegue me entender?”

O gimo me encarou, a pele caída sobre os olhos. Pareceu balbuciar alguma coisa, mas não se ouvia nada do seu focinho branco, apenas o movimento da barbela tremendo abaixo do queixo.

Dei de ombros, procurando um que fosse menos velho e conseguisse falar. Repeti a mesma pergunta para o gimo ao lado dele.

“Ah sim senhor posso sim senhor,” ele respondeu, os bigodes de rato balançando.

“Ótimo. O que tem para me dizer sobre o Tambor?”

Ele agitou as orelhas, me encarando com olhos que pareciam gigantescas bolas de gude vermelhas. “Bom ótimo empregado bom senhor.”

“E o que me diz do Edson, o vigia?”

“Bom ótimo também bom senhor.”

“Por que Tambor matou Edson?”

“Bom ótimo empregado senhor.”

Olhei intrigado para ele. “Você entendeu a minha pergunta, rapaz?”

O gimo encolheu os ombros, os dentes saltando para fora. “Não senhor.”

“Sabe onde Tambor pode estar agora?”

“Sinto senhor não senhor.”

O engenheiro interveio, colocando-se do meu lado. “Veja, inspetor. Esses coitados não sabem de nada. Mal são capazes de fazer o serviço que precisamos,” ele concluiu, forçando uma risada.

“Umas bestas, não é mesmo?” Perguntei com um sorriso, olhando para o seu rosto molhado de suor.

“Como eu disse,” ele respondeu, rindo mais alto.

Voltei para o gimo. Ele me encarava com o que parecia ser a sua tentativa de um sorriso. Algo horrendo. “Diga,” eu comecei, desviando o olhar da sua boca, “você recebe a ração em dia?”

“Sim sim senhor,” ele respondeu, balançando as orelhas, redondas como as de um camundongo de desenho animado.

“E eles lhe tratam bem aqui?”

“Sim sei senhor.”

O engenheiro cruzou os braços em contentamento ao ouvir aquilo.

“O vigia já fez algum mal para você?”

“Nunca senhor. Ed bom sempre bom. Dividia pão,” ele falou, ainda sorrindo.

“Alguma outra pessoa aqui já fez mal para você?”

O gimo congelou. As bolas de gude viraram em direção a Marcelo.

“Vamos, fale.”

“Nunca senhor não,” ele respondeu após um tempo.

Voltei-me para o engenheiro. Sua pele estava vermelha, como se houvesse prendido a respiração. Até mesmo o suor havia desaparecido do seu rosto. “Ainda vou precisar dos dados do caldo,” falei para ele.

“Cla-claro, inspetor. Vou enviar para você.”

Deixamos os gimos fazendo a digestão e voltamos para o local do assassinato. Os peritos do DPT haviam chegado e Morera conversava com um deles. Ele veio em minha direção após encerrar o assunto.

“Conversei com o coveiro ali, e ele vai nos passar as informações que descobrir,” Morera sussurrou, apontando na direção do corpo. Os peritos o cobriram com uma manta.

“Muito bem, caipora,” respondi, enfiando a mão no paletó. “Acho que podemos ir embora. Não vamos encontrar mais nada aqui.”

Passamos pelo engenheiro. Ele estendeu a mão em cumprimento, o que respondi apenas lhe entregando o meu cartão. “Os dados do gimo. Não se esqueça.”

“Pode deixar, inspetor,” ele disse, tentando ser cortês. Parecia aliviado por estarmos saindo.

No estacionamento, o calor parecia ainda mais forte, como se o asfalto estivesse cozinhando. Levei a mão ao peito, apalpando um bolso vazio. Olhei para o outro lado da avenida, vendo uma van com um pequeno poste espiralado saindo do teto. As portas se abriram.

“Droga,” eu falei, tirando a chave do bolso.

“O que, jang?”

“Urubus,” eu respondi. “Bem, garoto, essa é uma experiência que você precisa ter. Espero você no carro.”

“Mas eu não falei com quase ninguém lá dentro,” ele lamuriou.

“Improvise.”

Ele voltou vinte minutos depois. Abriu a porta do BYD, batendo-a com força. “Ogunhê! Esses urubus são uns selvagens.”

“Você se acostuma,” falei, apaziguador.

Morera tirou um cartão do bolso e o jogou por cima do painel.

“O que é isso?

“De um jornalista. Ele disse que está investigando questões envolvendo maus- tratos a gimos.”

Franzi a testa, mas não fiz nenhum comentário.

“Então, eles falaram alguma coisa?”

“Os gimos?”

“Sim.”

“Nada que eu já não soubesse,” respondi, enfiando a chave na ignição.

“E o que vamos fazer agora?”

“Tenho que pensar,” respondi, recebendo um skincon que nunca sentira antes. Conferi o celular. Mensagem de Marcelo Koehler.

“20 por cento humano, 30 por cento jaguatirica, 15 por cento formiga e 35 por cento variadas espécies de primatas,” li em voz alta.

“É a composição do nosso gimo?”

“Exato. O vida boa acabou de enviar a receita do caldo.”

“Ótimo. Podemos almoçar agora? Essa palavra caldo sempre me dá fome.”

“Você está sempre com fome, caipora.”

“Não sei o que é. Devo estar em fase de crescimento ainda,” ele falou, encarando o para-brisas. Seus olhos oscilavam por baixo das lentes pretas.


Chovia quando cheguei em casa.

Abri a porta e fui logo recebido por Dum-Dum. Ele veio pelo corredor e pulou sobre minhas pernas, balançando o rabo em contentamento igual a todo cachorro. Fiz um afago em sua cabeça, o que ele retribuiu com uma lambida áspera, característica da sua herança felina.

Havia um cheiro leve de cigarro no ar. Após duas semanas sem fumar, comecei a perceber que a casa realmente exalava cheiro de cigarro. Não diria que Rachel foi embora por essa razão, mas essa era uma de suas reclamações mais frequentes.

Como se me livrasse de um sapato apertado, tirei o coldre e a camisa. A alça havia marcado o meu peito e axila, deixando um vergão. Precisava mesmo comprar um coldre novo.

Procurei em vão por um cabideiro que não estava mais lá. Depois que Rachel foi embora, eu senti que precisava de mais espaço. O cabideiro — e outros objetos — estavam guardados em um pequeno cômodo no fundo do apartamento. Guardei tudo lá, junto com as discussões mal resolvidas e um par de chinelos esquecido. Desse ato de limpeza, a sala foi o cômodo mais despojado. Nela agora havia apenas a mesa de centro, o sofá e uma pequena estante.

Caminhei até a estante, repleta com retratos e os livros de Rachel. Os livros que o irmão dela viria buscar.

Um dos retratos prendeu minha atenção. A foto de uma das vezes em que fomos acampar. Chovera antes de viajarmos e Rachel brincava, falando que a estrada parecia um manguezal. Bati a foto logo depois de montarmos a barraca. Ela parecia realmente feliz naquela camisa de flanela, as sardas se abrindo com seu sorriso.

Sentei deprimido no sofá, repousando as pernas sobre a mesa. As latas e caixas de comida coreana formavam uma pequena muralha, um reino de material reciclado e restos de gimbap. Dum-Dum chegou perto. Apoiou o focinho sobre meus joelhos, fechando os olhos quando afaguei atrás da sua orelha. Mesmo sendo apenas um gimo de edição 02, Dum-Dum parecia me entender. O que era um absurdo, pois gimos de edição 02 possuíam zero por cento de gene humano em sua constituição.

Olhei de novo para o retrato na estante, o que me fez lembrar da conversa que tive durante a manhã com Rachel. Há dias eu aguardava uma ligação sua e, quando isso finalmente acontece, nós brigamos. Eu precisava retornar a ligação e me desculpar, mas antes que eu me decidisse, o celular tocou. Senti um aperto antes de atender. Era Morera.

Jang, consultei o SicaCon e descobri algumas coisas sobre os membros daquele mixolab que você pediu que eu checasse.”

Passei o dedo nos olhos, massageando-os. “Você ainda está aí, garoto?”

“Estou em meu estágio probatório,” ele falou baixo.

“Certo. O que descobriu sobre nossos amigos furistas?” perguntei. Fosfenos estalaram no ar.

“Eu descobri que eles estão envolvidos com lavagem de dados.”

Balancei a cabeça. “Morera, não diga que ligou apenas para me contar essa novidade.”

“Por quê? Você já sabia?”

“Leia para mim o nome de quem escreveu esse relatório.”

Houve um silêncio na ligação. “Juarez Costa Baer. Jang, foi você mesmo quem escreveu?”

“Boa noite, Morera,” eu falei, quase desligando.

“Não, espera,” ele falou, “tem outra coisa.”

“E o que seria essa outra coisa?”

“Descobri que esse mixolab está envolvido com a Etz Chaim,” ele pronunciou devagar.

Franzi a testa, tentando recordar o nome. “A Fúria da Cura está envolvida com aqueles reducionistas?”

“Sim. Parece que eles andam cozinhando algumas pílulas de redução para eles.”

“Muito bem, caipora. Essa descoberta pode ser bastante útil.”

“Tenho que mostrar serviço,” ele falou, encerrando a ligação.

Pousei o celular na almofada. “Pílulas de redução,” resmunguei. Esse mundo estava tão doente que não estranhava haver pessoas interessadas em deixar de ser humanas. Dum-Dum abriu a mandíbula e bocejou.

“Será que você já foi humano um dia, Dum-Dum?” perguntei com um sorriso, passando um dedo entre os seus olhos. Ele bufou, molhando minha calça com saliva. Olhei à minha volta, para a sala desprovida de móveis. O minimalismo era quase palpável.


“Você teve problemas com esse Fisq antes, não?”

“Sim,” respondi, sem tirar os olhos da rua. “O cretino já se envolveu com quase todo tipo de contravenção biológica que existe.”

“Li no seu relatório sobre o caso da lavagem de dados. Ele chegou a ser preso?”

Virei-me rapidamente para Morera. Olhando para ele, com aquele canhão de lodo no colo, parecia que íamos enfrentar alguma manifestação dos Herdeiros de Nassau-Siegen.

“Foi, mas ficou só um dia na cadeia.”

“Por quê?” Ele perguntou, tirando o braço da janela.

“Ele é filho de político. Tem as barbatanas quentes,” falei, puxando o r.

Chegamos no mixolab debaixo de um sol quente. Era uma dessas lojas secretas, cuja localização somente aparecia nos navegadores de clientes afiliados. Para nossa sorte, os furistas conservavam a placa do estabelecimento que funcionara antes no local. Ela exibia uma sereia ostentando duas caudas, relíquia da época em que era possível beber café com tranquilidade.

Eu era garoto quando o fruto do café se tornou oficialmente extinto. Lembro que a notícia foi recebida com descaso pela maioria da população. Afinal, era muito mais barato e rápido obter grãos em laboratórios do que plantando. Esse era o pensamento predominante até o momento em que surgiram os primeiros casos de pessoas envenenadas com grãos modificados de café. Havia algo errado que fazia com que uma parcela desses grãos desenvolvesse a variante de uma substância chamada tetrodotoxina; a parcela era ínfima, mas havia o perigo. Desde então, tomar um cafezinho se tornou o equivalente líquido de comer um baiacu, e as pessoas passaram a evitar a bebida. Ainda era possível encontrar lugares que vendiam café, mas as grandes cafeterias ou faliram ou mudaram de ramo. Muitas viraram mixolabs.

Bati na porta. Morera estava ao meu lado, checando a munição do canhão de lodo como se alisasse um filhote de smilodon. Não conseguia entender o fascínio dos caiporas com essas bugigangas. Algemas de neo-gore-tex realizavam o mesmo serviço, sem a preocupação de limpar toda aquela sujeira depois.

Um dos furistas atendeu a porta, um funcionário que eu nunca vira antes. Ele nos olhou de cima para baixo.

“O quéé quéérem?” ele falou, a voz emitindo o início de um grasnado.

Estruturas ósseas contornavam seu queixo e mandíbula, um bico de pássaro que começava a se formar ao redor da boca. Duvidei que fosse um reducionista. Devia ser um morfo, aquele tipo de gente que edita a si mesmo para se parecer com algum animal, algum super-herói ou qualquer outro personagem fictício.

“Juarez Baer, Polícia Urbana,” eu falei, mostrando a carteira. “Precisamos falar com Fisq.”

“E cês por acaaaso tão com mandado de busca?”

“Não, nós não temos um mandado de busca.”

“Então não entram,” ele falou, categórico.

“Ei, Patolino—” Morera começou a falar, mas eu logo o interrompi colocando a minha mão entre os dois. Dei uma piscadela para que ele se acalmasse. Eu sabia dos problemas que poderíamos ter caso ele selasse alguém sem termos uma autorização. Ou um forte argumento.

“Escute,” eu falei, voltando para o rapaz, “deixe a gente entrar. Vamos apenas fazer umas perguntas e depois vamos embora.”

“Não posso deixar,” ele exclamou, as penas eriçando por baixo da gola.

Alisei o queixo com o polegar, olhando para ele. ”Por acaso vocês furistas estão escondendo alguma coisa?”

“Não taaamo escondendo nada. Só disse quéé sem mandaaado não entram. Invasão de propriedade é crime sério e cês tinham quéé saber disso.”

“Não tão sério quanto obstruir uma investigação policial.”

Ele abriu a boca em silêncio. Sua língua já começava a adquirir aquele aspecto serrilhado como a de um pato.

“Na cadeia você não vai ter acesso às suas pílulas. Sabe muito bem o que vai acontecer com esse bico se ficar sem os seus remédios.”

“Cê não ousaria,” ele falou, horrorizado.

“Genética, garoto,” eu disse, erguendo os ombros. “Vai nos deixar entrar?”

Ele fechou o rosto, tornando visível os pontos na testa onde penas iriam nascer. A muito contragosto ele cedeu espaço e Morera e eu entramos no mixolab.

Caminhamos por entre as mesas e os clientes lançaram olhares desconfiados, como pássaros vendo o ninho ser invadido. Um deles, sorvendo uma vitamina batizada, fez um gesto que somente outro furista saberia ler.

Pouca coisa mudara desde a última vez que estive aqui. Havia menos gente, mas isso não significava que Fisq estivesse perdendo furistas.

Fisq era um homem de recursos e artifícios, conhecido pela facilidade com que conseguia persuadir pessoas. Na única vez em que foi levado a um tribunal, foi o próprio Fisq, e não os advogados do seu pai, quem convencera o júri de que ele havia enlouquecido devido a um consumo excessivo de Poytara. Ele se livrou da cadeia e o caso acabou conhecido como defesa Poytara, tornando-se um jargão comum nos corredores da justiça quando alguém queria dizer que uma defesa foi baseada em disparates.

Uma atendente colocava amostras em uma máquina de PCR. Ela estava atrás de um balcão de madeira em formato de U, resquício dos tempos do café. As orelhas de coelho que brotavam de sua cabeça pareciam postiças, mas não era possível ter certeza.

Virei para o garoto-pato. “Fisq está no depósito?”

“Está,” ele respondeu, olhando para os lados.

“Vamos até lá,” falei. “Morera, você espera aqui.”

“Eu posso ir com você.”

“Não,” respondi. “Fique aqui.”

“Já sei,” ele falou, balançando a cabeça. “Você acha que não vou conseguir olhar para ele, não é? Não se preocupe. Já vi coisa bem pior.”

“Preciso que fique aqui para observar qualquer movimentação estranha,” sussurrei entre os dentes.

Ele arqueou as sobrancelhas. “Ok, então, jang.”

“Chamo você se precisar,” eu disse, apontando para o canhão que ele segurava.

“Pensei que preferia as neo-gore-tex.”

“Prefiro, mas sinto calafrios só de pensar em tocar aquela pele molhada.”

Acompanhei o garoto-pato. Havia um pequeno corte na sua nuca, além de uma sujeira parecida com lama cinza e ressecada.

“É bom você lavar isso aí. Pode pegar uma infecção,” eu falei.

“Ahm?”

“Sua nuca. Está suja e machucada.”

Ele não respondeu.

“Diga. Você conhece um gimo chamado Tambor?”

Ele me olhou por cima do ombro, levando a mão à nuca. Percebi pontos brancos no braço, como se a pele houvesse arrepiado; goose bumps, é como os americanos chamam. “Não,” ele respondeu

A iluminação na escada para o depósito era fraca, apenas uma lâmpada emitindo um brilho azulado sobre os objetos. O ar estava úmido, como se houvessem ligado umidificadores. Perguntei-me que tipo de coisa os furistas estariam cultivando naquele lugar.

O garoto-pato parou diante de um manto largo e escuro, uma espécie de tecido que parecia vivo. “O que é isso?”

Ele revirou os olhos, fazendo uma expressão de enfado. “Fungos.”

“Fisq está aí dentro?”

“Sim.”

“Como eu faço para entrar?”

Ele indicou um interruptor ao lado do tecido. “Não conte a ele quéé eu lhe trouxe até aquíí,” ele falou, virando-se de volta para a escada.

Pressionei o botão. O tecido de fungos desdobrou-se como um origami para abrir passagem. Entrei.

Esse era o verdadeiro centro nervoso do mixolab. O que as pessoas viam a garota com orelhas de coelho fazer no bar não passava da ponta do iceberg. Era nesse quarto que a magia acontecia de verdade. Agora, se a magia era boa ou ruim, iria depender da moral do freguês.

Fisq estava de costas, debruçado sobre uma mesa de laboratório. Havia alguns instrumentos para cozinhar pílulas e um pouco daquele pó de cor estranha que eu vira antes em outros mixolabs.

“Brincando de senhor Hyde, doutor Jekyll?” Perguntei.

Ele virou o rosto em minha direção, os olhos tubulares movendo-se dentro do domo transparente em sua cabeça. “Juarez? Quem deixou você entrar aqui?”

“Preciso de informações sobre um gimo desparecido,” falei, pulando a sua pergunta. “Um gimo suspeito de ter cometido assassinato.”

“Não sei nada sobre nenhum gimo,” ele respondeu, a boca como um talho côncavo.

“Fisq,” eu falei em tom de reprovação, “o departamento sabe que você e os seus furistas ajudam gimos fugitivos.”

Sua boca fez um bico, no que deveria ser o sorriso dos peixes. “Vocês não tem como provar nada.”

“Talvez,” respondi, me aproximando da mesa. “O que é isso em que está trabalhando?”

“Coquetéis recreativos. Nada demais.”

“Não seriam pílulas de redução, seriam?” Perguntei, tirando o contador Aull do bolso.

O leitor oscilou, exibindo na tela seis cadeias químicas proibidas. “Olha, olha…,” falei, encarando Fisq.

Suas guelras se contraíram.

Constitui crime a redução e eliminação da genética natural, por meio sintético ou quaisquer outros, em indivíduos de nascimento humano,” citei, puxando do meu celular. “É o que está escrito no nosso Código Penal Genético.”

“Absurdo,” Fisq rosnou, as escamas do seu rosto moldando uma máscara, “esse código está ultrapassado há anos. Não atende mais os anseios da nossa sociedade.”

“Se está ultrapassado, por que você mesmo não toma uma dessas suas pílulas?”

“Porque eu não quero descartar a genética dos meus pais.”

“O típico caso do médico que não recomenda a própria medicina.”

“Só porque você ou eu não quer se livrar do seu material humano, não significa que outros também não possam. É uma questão que cabe a cada um decidir.”

“Pessoas que concordam com isso são do mesmo tipo que defendem o aluguel de mentes. Quem não estiver satisfeito que mude para uma região onde isso é aceito.”

“Ridículo,” ele rosnou. “Você não sabe o que é nascer pássaro no corpo de um humano.”

“Não faço as leis, Fisq” respondi, sacando a arma. “Mas não se preocupe. Vamos encontrar um aquário bem bonitinho para você.”

“Sabe que não vou ficar preso por muito tempo. Sou lou-co, esqueceu?” ele falou, movendo os olhos por dentro do domo.

“Tudo bem, Jekyll-Jekyll,” falei. Levei o pulso para perto da boca. “Morera, desça as escadas e venha até o depósito.”

Apertei o botão do interruptor, deixando Morera entrar. Ele passou pela porta de fungos, empunhando o canhão de lodo. “Esse aí é o comedor de Poytara?”

“O próprio,” respondi. “Enlata logo essa sardinha.”

“Com prazer, jang” ele falou, disparando o conteúdo do canhão contra Fisq, prendendo-o em uma bolha espessa de polilático.


Fisq manteve-se calado e imóvel durante todo o interrogatório. Sentado diante de Machado, ele tinha os pulsos presos a algemas de neo-gore-tex, não revelando nada sobre o paradeiro do gimo ou sobre as pílulas que estava cozinhando. Ele apenas nos contemplava com uma expressão neutra, se é que aquilo em que o seu rosto havia sido transformado era capaz de realizar expressões.

De volta para casa, pus-me mais uma vez em modo melancólico. Com uma caipirinha na mão, fiquei a observar a foto de Rachel no acampamento.

E foi aí que eu identifiquei.

Manguezal.

A lama na nuca do garoto-pato.

Era a lama do manguezal.

Liguei em seguida para Morera. Ele estava no departamento.

“Tambor está no mangue,” eu falei.

“Vou pegar outro par de olhos de gato.”

Busquei Morera no departamento, colocamos as lentes e fomos direto para os Manguezais, cortando as ruas de Recife dentro da noite esverdeada.

O Parque dos Manguezais havia sido uma das principais atrações turísticas da cidade. Isso antes dos REEE e bactérias sintéticas terem transformado o local no maior depósito de lixo eletrobiológico do Nordeste, onde apenas alguns catadores e gimos abandonados se arriscavam.

Estacionei o BYD e atravessamos a cerca que separava o mangue da rua. Era possível ver uma fumaça preta subindo de pilhas de eletrônicos abandonados, uma pluma tóxica riscando o céu. Uma figura escura emergiu da lama, segurando uma carcaça eletrônica entre os dedos.

Morera me seguia dois passos atrás, empunhando o canhão de lodo. Saquei a pistola, atento aos grunhidos e grasnados ao meu redor.

Com os dados genéticos de Tambor inseridos no Farejador, eu sondei as moradias construídas a partir de sucatas. O aparelho reconheceu diferentes caldos, mas apenas um me interessava.

O Farejador piscou quando chegamos próximo a um barracão de madeira, as tábuas emboloradas pelo ar úmido do mangue. Chutei a porta, a pistola apontada. “Polícia Urbana!”

Um vulto se lançou pela janela, bloqueando a minha visão com um lençol. Virei de volta para fora, gritando para Morera me acompanhar.

A terra mole e pegajosa dificultava o passo, mas o gimo corria sobre ela como um maratonista. Escutei um tiro do canhão. A bolha passou por cima da minha cabeça, desaparecendo no escuro.

Tambor se voltou, seus olhos brilhando como pequenos faróis. Em dois pulos, ele passou por mim, jogando-me no chão.

Virei-me a tempo de vê-lo enfiar uma das garras na barriga de Morera. Ele girou o braço e o arremessou na lama do mangue, deixando Morera preso entre as raízes das árvores.

Mirei e dei um tiro, atingindo a perna.

O gimo levou a mão ao joelho, emitindo um urro.

“Deita, deita,” gritei, a arma empunhada.

Ele deitou, gemendo e espumando entre os dentes.

Extraí um par de algemas do cinto, prendendo os pulsos peludos. “Fica quieto,” eu falei, notando as cicatrizes que desciam do seu pescoço até as costas.

“Sabe que acontece?” Ele perguntou em uma voz rouca, movendo o focinho.

“Tambor ganha outra silisili e volta pro trabalho,” respondi.

“Não Tambor ganha ração mau Tambor morre.”

Eu balancei a cabeça. “Você matou um homem.”

“Tambor não queria Ed bom Ed dividia pão,” o gimo lamuriou e deixou o rosto cair na lama como um pacote que não lhe pertencesse.

“Então por quê matou ele?” Perguntei, mas Tambor não respondeu. Ele não estava mais ali.

Levantei e fui até onde Morera havia caído. Ajudei-o a sair do mangue. “Está bem, caipora?”

“Não sei,” ele falou preocupado, mostrando o lugar onde Tambor o feriu. Abaixei para olhar. Era apenas um arranhão.

“Você vai sobreviver. Tome uns cinco banhos e estará tudo ok,” eu disse, ouvindo algo estalar por cima do meu ombro.

Quando virei para trás, vi Tambor ajoelhado; as algemas quebradas estavam no chão.

Saquei a arma.

O gimo ergueu a cabeça e me encarou; havia lama em seu focinho. Mas não era apenas lama.

Lágrimas?

Aquilo ao redor dos olhos dele eram lágrimas?

“Tambor não volta,” ele grunhiu com determinação.

Abaixei a arma e dei um passo que pareceu durar vinte anos.

“Calma, rapaz.”

“Tambor não volta,” ele repetiu, aproximando suas garras do próprio pescoço.

“Escute, Tambor,” falei. “Eu vi as suas cicatrizes. Posso imaginar o que aconteceu com você naquela obra. Conheço pessoas que podem lhe aju—”

Mas era tarde demais. Antes que eu pudesse me aproximar, Tambor cortou a própria garganta e tombou na lama pegajosa. Morera ainda tentou estancar a ferida, mas não havia o que fazer.

Esperamos os rapazes do DPT chegar. Expliquei o que aconteceu e fomos embora. Pelo retrovisor eu vi o corpo de Tambor sendo ensacado.

Deixei Morera em casa e dirigi em seguida até o Santo Amaro, parando em um bar na Frei Cassimiro.

Sentei em uma das mesas do lado de fora. O garçom que me atendeu era um gimo de oito braços, que caminhava encurvado como uma tartaruga. Perguntou o que eu queria. Pedi uma Brahma e, antes que ele voltasse para dentro, pedi que trouxesse também um maço de Gold Panda.

Ele voltou pouco depois trazendo a cerveja e o maço em cima de uma bandeja que havia apoiado em suas costas. Enchi um copo e acendi um cigarro, sentindo a fumaça percorrer os pulmões. Uma leve sensação de tontura veio em seguida.

Fiquei bebericando da cerveja, olhando sem interesse para a rua deserta à minha frente. Dei outro trago no cigarro, afastando um dedo invisível que me cutucava. A imagem de Tambor parecia colada na minha retina; aquela trama de pelos duros e cicatrizes. Terminei de beber, paguei e fui embora com um gosto amargo na boca.

De volta ao carro, percebi algo brilhando por cima do painel. Segurei entre os dedos. Era o cartão de ontem; o cartão que Morera pegara com o jornalista.

Havia um nome e um número nele.

Ao chegar em casa, deparei-me com Rachel folheando um dos seus livros no sofá, Dum-Dum dormitando calmo no chão.

“Cadê o cabideiro?” Ela perguntou, como se houvesse me visto há poucas horas.

Ela usava o cabelo curto, do mesmo jeito de quando a conheci.

Havia novas sardas em seu nariz.

Michel Peres
Michel Peres
Michel Peres é professor, engenheiro, escritor e leitor. Natural de Matozinhos (MG), escreveu poesias que nunca passaram pelo crivo da gaveta e vive a desenvolver a sua mitologia pessoal (divertindo-se bastante com isso). Já publicou na Trasgo e nos sites Leitor Cabuloso e Obvious.

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