Senhoras idosas que puxam assunto no meio da rua

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Senhoras idosas que puxam assunto no meio da rua. Elas se aproximam, geralmente em transportes públicos, e têm quase sempre a mesma altura — nunca superior a um metro e cinquenta —, o que significa que elas precisam esticar bastante o pescoço para conversar comigo caso estejamos de pé; este pequeno esforço, porém, não as desestimula em nada, muito menos a suas colunas resistentes. Tenho um talento especial para atrair senhoras idosas que puxam assunto no meio da rua. Dona Fátima não foi diferente.

Exceto por uma peculiaridade.

Dona Fátima era uma alienígena.

Ela veio até mim no metrô, na estação São Francisco Xavier. Eu voltava do trabalho, direto para o aniversário de uma tia. Como tinha ainda um pouco de tempo, resolvi que compraria uma torta de coco, que eu julgava a melhor da cidade, numa padaria metida a besta. Dona Fátima me pegou pelo braço, como se estivesse no meio de um tropeço. E ela estava. Aparentemente, eu a salvei de uma queda feia entre o trem e a plataforma. Senhoras idosas sempre possuem uma força descomunal nos dedos das mãos, independente da espessura deles. Tenho a impressão que elas confiam mais neles — e nos braços de desconhecidos — que nas próprias pernas.

— Me desculpe, querida — disse ela, gentil, assim que pisamos seguras na plataforma.

— Tudo bem — sorri para ela.

Sempre sorrio para elas. Alguma coisa me leva a crer que existe uma rede secreta de comunicação entre as senhoras idosas que puxam assunto na rua e é através deste esquema que elas informam, umas às outras, que eu sou uma pessoa legal. A garota de aparência incomum, mas que sorri e as ouve. Porém, eu não sabia se Dona Fátima integrava a organização das senhoras idosas, pois ela era uma alienígena.

— Seu cabelo é lindo, viu, menina!

— Obrigada.

Havíamos alcançado as escadas da estação. Dona Fátima já tinha soltado meu braço, mas ainda caminhava ao meu lado. Enquanto mulheres e homens adultos me encaravam quase como se eu fosse uma criminosa por causa do meu black power colorido (roxo naquele dia), os olhos das velhinhas brilhavam em admiração, algumas até chegavam a pedir que as ensinasse a deixar o cabelo daquela cor. Talvez por isso eu sempre sorrisse para elas.

— Roxo é minha cor de nascença — explicou Dona Fátima. — Mas tive que pintar quando me mudei para cá. — reparei que seus cabelos eram tingidos de castanho e possivelmente alisados por meio de alguma química.

— Oi?

— Querida, será que você pode me ajudar com mais uma coisinha? — ela passou por cima da minha cara de tacho com elegância. — Hoje eu fugi do asilo onde eu moro só pra comprar uma torta pro menino que cuida de mim lá. Amanhã é aniversário dele. Nunca vi garoto melhor nessa terra. Você tem namorado? Ou namorada?

— Não — fora o papo sem sentido do “roxo é minha cor de nascença”, eu estava amando aquela senhora.

— Ele também não namora, o menino que toma conta de mim. Ele é o único que acredita que eu sou quem eu sou… Queria apresentar vocês dois, tenho certeza que se dariam bem! Ele tem aquele corte de cabelo bonito, desses negócios de rock, raspado do lado, sabe? — ela refletiu um pouco, depois riu da própria distração. — Ouvi dizer que tem uma padaria aqui perto que vende uma torta gostosa, foi a filha da Carmela que me contou, uma vez ela levou um pedaço pra gente. Mas era tão pequenininho que eu acabei sonhando com a torta naquela noite, acredita?

— É mesmo? — ri. — Qual o nome da senhora?

— Fátima. E o seu, querida?

— Meu nome é Laura.

— Laura! É um nome lindo, mas tem uma enfermeira lá no asilo que se chama Laura e não é nada bonita. Tem voz de taquara rachada e ainda por cima grita com a gente. Outro dia, ela me perturbou tanto as ideias enquanto eu fazia o meu bordado que eu quase lhe dei um beliscão. A Carmela falou pra eu não fazer isso, se não era bem capaz da moça me processar…

— A senhora faz bordado? Eu também! — interrompi. Só assim haveria um diálogo.

— Ah, é mesmo? Mas que maravilha! Você é maravilhosa! Tão raro uma menina novinha saber bordar aqui nesse planeta.

— Agora mesmo eu estou indo nessa padaria que a senhora acabou de falar — resolvi ignorar o final de sua última frase.

Àquela altura, já tínhamos saído da estação de metrô, virado a esquina e passado pela igreja de São Francisco Xavier. A padaria ficava na próxima transversal.

Dona Fátima acabou comprando uma torta de coco igual à minha. Não sem antes monologar a respeito dos prós e dos contras de cada sabor. Boa pedida, eu disse. Ela se justificou para si mesma por mais alguns minutos e eu me arrependi de ter manifestado meu apoio. Minha paciência, cujas pequenas frações deveriam ter ido embora com cada palavra pronunciada por Dona Fátima, para minha surpresa mostrava-se bastante resiliente. Havia algo naquela velhinha que me mantinha presa. Ela era totalmente diferente das outras senhoras idosas que puxavam assunto no meio da rua, mesmo sendo igual. Durante aquele encontro, o fato de estar atrasada para o aniversário da minha tia foi parar em alguma camada atmosférica acima da minha cabeça. Eu sabia que deveria estar preocupada com alguma coisa, mas essa coisa não se tornava uma preocupação real em momento algum.

Cheguei ao ponto de acreditar que Dona Fátima era realmente uma extraterrestre.

Juro que acreditei quando ela narrou a história de sua aterrissagem na Terra, e até quando me contou que seu povo possuía a tecnologia da viagem no tempo.

Num primeiro momento, é claro, achei que ela estivesse senil ou só louca mesmo. Depois, comecei a pensar que a louca era eu e que minha vida neste planeta fazia menos sentido que suas aventuras extraterrenas. Minha família era uma piada, meu emprego me levaria do nada ao lugar nenhum, minha vida social flertava com o entorpecimento. Ou seja, ao contrário do que meu cabelo chamativo e meu estilo “alternativo” tentavam comunicar, eu era igual a todo mundo. Diferente mesmo era Dona Fátima. Mas ela não me desprezava pela minha insignificância ridícula. Ela era amável comigo e até demonstrava uma admiração que nem parecia ser fingida.

— A senhora vai voltar agora para a casa de repouso?

Eu não podia simplesmente deixá-la se virar sozinha com aquele embrulho de papelão imenso em seus braços frágeis. Quer dizer, podia. Ela não teria dificuldade alguma em voltar sem mim. Mas eu queria me sentir necessária, queria fugir do compromisso enfadonho na casa da minha tia e, principalmente, queria continuar perto de Dona Fátima. Quem sabe quando ela subiria novamente em sua nave espacial e abandonaria para sempre nosso planetinha banal?

Confesso, tenho tendências fantasiosas.

Sou capaz de acreditar em qualquer coisa, de seres sobrenaturais folclóricos a deuses mitológicos, passando pelas histórias de adolescência da minha mãe. Todos sabemos que este é o mais óbvio escapismo da realidade maçante. E, no meu caso, um tapa-buraco para a perda da minha amiga imaginária de infância. Lembro-me dessa garota até hoje. Ela ficava no cantinho do corredor comprido na entrada do apartamento da minha avó e era o mais diferente de mim que alguém podia ser. Loira, os cabelos finos formando cachos de boneca quase tubulares, usando um vestidinho rosa e vermelho cheio de laços e babados. O mais curioso é que ela não parecia uma menina de carne e osso. Era feita de traços de desenho animado. Acho que porque eu, na época, queria ser um desenho animado.

Quando me dei conta, estava no táxi com Dona Fátima.

Foi só quando me vi de mãos vazias, sem a torta da minha tia, que me dei conta que não iria ao aniversário mesmo. Mas tinha feito questão de apoiar a embalagem da torta da Dona Fátima sobre meu colo no banco de trás. Lá pelo meio do caminho, fui acometida por uma sonolência fora do comum. A sensação era que meus olhos tinham triplicado de tamanho. Minhas pálpebras, imensos véus negros, derramavam-se sobre os dois lados do meu rosto. Será que estou sendo abduzida? — lembro-me de ter pensado, um pouco antes de apagar de vez.


A primeira coisa que vi quando acordei foi um teto branco.

Obviamente, não estava mais no banco de trás do táxi. Devia estar dormindo o tempo todo e Dona Fátima teria sido uma personagem criada em um sonho, ao que tudo indicava. Só que eu não estava no meu quarto, cujo teto também era branco. Aquele não era o meu teto branco.

Ainda deitada, me esforcei para dobrar o pescoço e erguer um pouco a cabeça, de forma a dar uma olhada no ambiente desconhecido. Meu corpo permanecia dormente. Meus olhos embaçados encontraram pernas vestidas em calças brancas de microfibra, não muito afastadas da cama (deveria ser uma cama). Achei que eram pernas masculinas.

— Então você acordou — a voz grave de um homem jovem confirmou minha impressão.

— Não — respondi sem pensar.

Ele riu uma risada discreta.

Eu deveria estar em pânico. Deitada numa cama que não era a minha, totalmente grogue, sozinha com um homem que eu nunca tinha visto. Porém, era como se a tranquilidade que pairava na atmosfera daquele quarto tivesse se infiltrado em minha pele e decantado no fundo dos meus membros repousados. E não só por conta da sonolência. Havia também naquele rapaz algo que me deixava calma. Por mais que ele fosse um estranho, seu timbre e o ritmo da sua voz me soavam familiares, quase íntimos.

— Mas eu não conheço você — achei que tivesse pensando, mas disse em voz alta.

Ele, confortavelmente vestido em seu jaleco branco, olhou pra mim como se eu estivesse delirando. Sua idade devia regular com a minha. Alto, cabelo castanho raspado dos lados com um discreto topete, naquele estilo rockabilly que andava na moda. Bonito de um jeito comum, meu tipo preferido de beleza. “Comum”, não “normal”. Eu detestava “normal”, pois implicava um esforço em se adequar a alguma regra.

— Está com fome? — perguntou o moço de jaleco branco.

— Você quer me dar comida? — a frase saiu da minha boca num tom um pouco mais destemperado que a minha intenção. Isso me assustou.

— É o que eu faço quando não estou limpando penicos — sorriu. Seu rosto de ossos bem desenhados pairava muito acima do meu, ao lado da cama.

— Interessante distribuição de serviço vocês têm aqui — mesmo que eu não soubesse exatamente onde “aqui” era.

Ele sorriu de novo, mas um sorriso cansado.

— Qual o seu nome?

— João.

— João, cadê a Dona Fátima?

— Ah, a Dona Fátima — soltou um suspiro entediado, como quem tenta ganhar tempo para inventar uma resposta. — Deve estar assistindo à novela das nove.

Aquela era uma mentira deslavada.

— Já são nove horas?! Tenho que ir pra casa.

Por algum motivo — ou por motivo nenhum, dado o caráter absurdo daquela situação — eu estava vestindo uma camisola lilás de algodão franzida no decote, pipocada de mini lacinhos de cetim por toda parte, cuja barra alcançava os joelhos. Numa situação menos insólita, eu teria adorado seduzir João. Porém, mesmo se decidisse fazer isso, aquela camisola tornaria tal façanha impossível.

— Por que eu tô usando isso? Onde estão minhas roupas?

João passou a mão pelos cabelos, nitidamente exausto, o topete desfeito.

Imaginei por quanto tempo ele ficaria ali me encarando sem dizer nada. Não conhecia o “enfermeiro”. Porém, com minha boa percepção em relação às pessoas, eu podia inferir que ele não era exatamente um rapaz tímido. Por que então se recusava a responder minhas perguntas?

— Você realmente não sabe onde está Dona Fátima?

Maravilhoso. Agora ele também fazia perguntas.

Claro que não. Como eu ia saber?

— Claro que não! Como eu vou saber?

Vislumbrei as possibilidades de um diálogo com João tão distantes e perdidas quanto me pareciam Dona Fátima e minhas roupas.

— Você me dopou? — o alarme na minha cabeça, antes em modo de espera, disparou desesperado. Meu corpo e minha consciência estavam despertos por completo.

João, contudo, parecia mais confuso que eu. Ele não parava de mexer no cabelo e olhar pra minha cara, assustado, os olhos clamando que eu não o agredisse.

— Tudo bem — saltei para fora da cama. — Tô indo.

Se eu dava algum valor à minha vida, seria melhor ignorar a camisola ridícula e o fato de estar sem minha bolsa. Poderia sair correndo dali e, assim que alcançasse um lugar seguro, chamaria a polícia para tentar recuperar meus bens. É claro que havia a forte possibilidade de ter gente lá fora pronta pra me agarrar, mas eu precisava tentar. Isso se eu não tivesse que lutar contra João primeiro.

João continuava imóvel ao lado da cama, mesmo que eu já estivesse fora dela.

Foi quando reparei que o quarto onde estávamos era adorável. Simples, não havia quadros nas paredes brancas — a decoração se resumia a um vasinho de violetas sobre a cômoda de cerejeira e às cortinas curtas amarelas —, mas muito limpo e cheirando a lavanda. Uma colcha feita de retalhos em tons claros cobria a cama modelo “viúva”. Havia também uma poltrona, forrada com uma manta semelhante à colcha, junto à pequena janela. A seu lado, um baú de madeira sobre o qual jaziam bastidores com bordados começados e diversas caixas de sapatos cheias de linhas coloridas. Meu coração pulou uma batida.

Os bordados da Dona Fátima me fizeram pensar nas pessoas lá fora, caminhando pra lá e pra cá sem ideia do que acontecia do lado de dentro. Como se não fosse suficiente, tais criaturas autocentradas possuíam uma ignorância singular, própria dos nativos desta Terra, que descartava em suas mentes a possibilidade de serem elas um mero acidente do universo. Acidente este inteiramente possível de acontecer em outro lugar.

Parei a mão sobre a maçaneta. Senti os olhos de João às minhas costas. Eu sabia que ele me conhecia, por mais que nunca o tivesse visto antes daquele dia, mas também sabia que a minha presença naquele lugar era uma surpresa para ele. Quando me virei para falar com ele, as palavras escaparam da minha cabeça. As cortinas amarelas voavam com a brisa que entrava no quarto, por isso pude ter um vislumbre do lado de fora. Vi algo parecido com uma varanda grande, iluminada, com um sofá de palha encostado ao guarda-corpo de madeira. Junto ao encosto acolchoado, o rostinho de Dona Fátima me sorria.

Vi meu próprio rosto. Meu próprio sorriso. Minhas próprias dores acrescidas de outras dores que a experiência me traria.

— João — chamei, anestesiada. — Será que você pode me ajudar com uma coisinha?

João quase correu até onde eu estava, apressando-se a segurar meu braço. Acho que ele pensou que eu fosse desmaiar. E talvez fosse mesmo. Mas, ao invés disso, abracei-o. Quer dizer, meio abracei, meio me escorei no pescoço dele. Quando dei por mim estava chorando. Senti uma falta terrível dos meus pais, como se eles não existissem mais naquele mundo, ou em qualquer outro. Eu, que nunca tinha perdido ninguém da família, que nunca tinha dado muita importância à minha família pra falar a verdade — não por desprezo ou insensibilidade, mas pela segurança que a juventude nos dá —, experimentei um luto profundo e súbito ali nos braços daquele enfermeiro desconhecido chamado João.

— Foi por isso que ela te trouxe aqui, não foi? — disse ele, a boca colada aos meus cabelos. — Pra que você se lembrasse.

Meus pais estavam mesmo mortos. Eu fora arrancada deles e enviada a uma terra muito distante para que pudesse construir uma vida nova. Para que pudesse crescer uma pessoa nova. Mas eu era um desastre, estava falhando, tornara-me mais um rosto igual aos outros. Seria esta uma peculiaridade deste planeta? Sugar a identidade das pessoas, dividi-la em bilhões de pedaços e polvilhar seus farelos sem rosto de volta sobre a multidão?

— Comece a ser você mesma com tamanha imensidão que até o ambiente hostil à sua volta vai ser obrigado a começar a ser você também — ouvi a voz de Dona Fátima. Ouvi a minha voz.

Os braços de João me diziam que havia esperança. Não conhecia muito sobre aquele rapaz, mas sua autenticidade saltava aos olhos, chegando a me comover. Eu não queria me separar dele. Contudo, não pertencíamos ao mesmo tempo.

— É melhor você ir — disse ele, mas não fazia menção de me soltar.

— Não posso vê-la mais uma vez?

— Você vai vê-la muitas e muitas vezes.

Observei-o enquanto ele abria a gaveta da cômoda e tirava de lá minhas roupas.

— Vou te deixar se trocar. Já volto com a sua bolsa.

Ele me deixou sozinha no quarto. Assim que terminei de me vestir, como se obedecesse a um sinal, João bateu na porta. Mandei que entrasse.

— Pronto — entregou-me a bolsa.

Não sabia como me despedir dele.

Percebendo minha inabilidade, João se afastou da porta, oferecendo-me passagem. Dei-lhe um sorriso melancólico como adeus.

— Ah, ela te pediu uma coisa. O cabelo… ela quer que você não o mude.

Concordei com a cabeça. Era como se, desde o momento em que ele devolveu minhas roupas, minhas palavras tivessem sido roubadas, como num escambo.

Saí sem olhar o rosto dele, sabendo que não o veria mais. Pelo menos não nos próximos anos. Enquanto caminhava para fora do asilo, dirigindo-me novamente à minha realidade, vi Dona Fátima uma última vez. Ainda sentada no banco de palha da varanda. Porém, no lugar do cabelo alisado tingido de castanho que ela usava repartido ao meio quando a conheci, havia uma vistosa cabeleira crespa num tom de roxo desbotado.

Priscilla Matsumoto
Priscilla Matsumoto
Priscilla Matsumoto é formada em Produção Cultural pela UFF e em Roteiro pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Largou a faculdade de moda, mas se divide entre a costura e a escrita. Seu primeiro romance “Conto Noturno da Princesa Borboleta” foi finalista do Prêmio SESC de Literatura 2011/2012. Em 2015, seu livro “Ball Jointed Alice – Uma História de Amor e Morte” foi lançado pela Editora Draco.

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