Toda Menina Baiana

0

Por receio de ver seu mundo desmoronar outra vez, Babu custou a criar ânimo para sair da cama. Por fim, ela suspirou, levantou-se, pôs a camisola e foi descalça tomar café. A cozinha estava agitada, pois os turistas tinham acordado cedo para aproveitar a praia. Viu a tia preparar beiju de cara amarrada e hesitou em dar bom-dia, mas a esperança falava mais alto que o medo.

— Oi, minha tia, tudo bem? Teve notícia de Voinho? — Perguntou, ansiosa.

Naná, sobrinha de vô Dinho e de vó Ciça, andava estressada. A crise na família a obrigara a assumir a Pousada Olocum quase sozinha, bem no início da alta temporada. O marido, arquivista da prefeitura, era inútil para aquilo e ela não era do tipo que levava as dificuldades na boa, ainda mais num dia em que a cozinheira faltava. Mas se esforçou por sorrir para a menina, que não tinha culpa e já tinha passado por muitas coisas ruins.

— Oi, Babu. Liguei pra Ciça há pouco e ela acha que ele melhorou um pouquinho. O médico diz que, se continuar assim, pode voltar para o quarto amanhã ou depois.

— Ah, que bom! Vai dar tudo certo! — A menina sentou à mesa, cruzou as pernas magras e respirou direito pela primeira vez no dia. O avô, pessoa de quem mais gostava no mundo, estava na UTI. A mãe morrera de câncer de pulmão. O pai morava nos Estados Unidos desde quando ela era pequena. E ainda por cima ela brigara com o namorado.

— Tomara… — Sempre se podia contar com a sinceridade de Naná, não com o seu otimismo.

A menina se serviu de suco de cacau e um beiju de coco com leite condensado. Mais relaxada, ouviu Gil no som da pousada:

Toda menina baiana tem
Um santo que Deus dá
Toda menina baiana tem
Encantos que Deus dá…

Naná queixava-se da recepcionista fulana e do faxineiro sicrano sem muita convicção. Era mais para evitar falar do Dinho. De repente, mudou de assunto e acariciou a mão da sobrinha:

— Cê não quer mesmo ir pra cabeleireira hoje? Não vamos economizar nisso, menina, a pousada vai bem e o hospital, o seguro paga… Você é tão bonitinha, mas com esse cabelo ruim… juro que com ele arrumadinho, você arranjava outro dengo num instante!

— Não, tia, é assim que eu gosto. — Sorriu e balançou a cabeça e a cabeleira crespa, solta e volumosa. A tia não era vaidosa, mas fazia questão do cabelo esticado que nem arame, apesar de ser a mais preta da família. Babu tinha a cor de canela da mãe e agora que a deixavam escolher, queria o cabelo afro igual ao dela antes da doença. Além disso, não queria um namorado novo. Preferia ter de volta o seu galeguinho de olhos verdes. Era só ele ser um pouco menos abobado e dar um pouco mais de atenção para ela e menos para os games…

Por lembrar dele, abriu o smartphone que o pai lhe dera na última visita. Tinha sido rápida, de uma semana, que nos Estados Unidos as férias eram assim, mas pela primeira vez ele trouxe a mulher e o filho gringos para conhecê-la. Eles não conseguiam dar nem “bom dia” em português e ela, mesmo com a melhor nota de inglês da escola, custava a entendê-los. Apesar de predisposta contra a mulher que levara o pai para longe, admitia que Latoya e Trevon tentaram ser simpáticos e ela se divertiu muito tentando ensinar os dois a dançar zouk, lambada, samba e forró. Só não gostou de ser chamada de “Barbie”. Exigiu ser chamada de Babu, como fazia a mãe e os amigos.

Não encontrou nada, quer dizer, nada do Claus. Tinha um recado do pai, outro de Ginga, que estava de férias no Rio, e vários de Catona que, além de perguntar do avô, contava suas novidades e a convidava para uma festa em Trancoso. A avó e a tia não viam com bons olhos essa amizade. Quando pensavam que não a ouviam, resmungavam que aquela Cátia era má influência, tinha jeito de sapatona e podia levar a menina “delas” para o mau caminho. Babu pouco se lixava, gostava de Catona e o avô também.

Aliás, ele gostava de qualquer pessoa que compartilhasse sua paixão por gibis antigos e as duas meninas os curtiam mais do que qualquer moleque de Porto Seguro. Foi para ler quadrinhos estrangeiros, principalmente histórias antigas da Mulher Maravilha e de Mary Marvel, que ela aprendeu tão bem o inglês.

Respondeu aos recados e prometeu à amiga dar um jeito de ir. Naqueles dias em que sua vida parecia ir por água abaixo, ela era a tábua de salvação, um ombro no qual rir e chorar. Se era ou não sapata, Catona mesma não sabia. Era meio troncha e pouco ligada em coisas de meninas, mas por enquanto estava mais para assexuada. Quanto a Babu, era bem moleca, mas sabia como gostava de garotos, mesmo que não estivesse disposta a fazer tudo que pedissem, pelo menos enquanto não deixassem de se portar como crianças. E sabia como eles a faziam sofrer, às vezes.

Tomou uma ducha, deu umas escovadas no cabelo, pôs short jeans vermelho, correntinha no tornozelo, miniblusa bordada com borboletas, muitas pulseirinhas, chinelo de dedo e saiu para espairecer. Costumava deixar games, Twitter, livros e gibis para a noite quando era mais complicado sair, tinha bebedeiras, brigas e outros perigos.

Foi pela Passarela do Álcool, calçadão de botecos tranquilo de manhã, quando só as lojas de artesanato tinham algum movimento. Evitou a barraca dos pais de Claus, para não parecer que estava atrás dele. Aí reparou numa novidade, uma tenda na qual Mãe Cigana Joione, “Mentora Espiritual, Vidente, Cartomante, Quiromante, Búzios e Tarô” oferecia consultas a vinte reais. Curiosa, deu uma espiada. Cheirava a incenso e tinha uma mesa com velas, baralhos, bola de cristal, muitos badulaques e uma mulher de roupas e colares extravagantes, lenço na cabeça, queixo apoiado nas mãos entrelaçadas.

— Entre, entre! — Disse ela, com uma voz macia e um gesto convidativo. — Vai uma consulta?

— Bom dia! Desculpe, xeretei só de curiosa, não trouxe dinheiro.

— Tem certeza? Estudante paga meia…

— Não mesmo — sorriu amarelo. — Só uns trocos pra tomar um geladinho ou coisa assim.

— Faz mal não — insistiu a suposta cigana –, vejo nos seus olhos que você precisa muito de orientação. Hoje é de graça, mas só pra você. Se gostar, me recomende às amigas.

De graça, por que não? Tinha mesmo muita vontade de trocar ideias, a tia não era a pessoa certa, não ia ver Catona antes do sábado, Ginga estava longe e não confiava tanto nas outras amigas. Era até mais fácil falar com uma estranha.

— Tá bem, valeu, dona Joione… — Sentou-se no banquinho que ela ofereceu. De perto, a mulher não era feia, devia ter uns trinta e poucos anos e até onde dava para especular, bem que podia ser uma cigana de verdade. Baiana, é claro.

— Vamos tentar o tarô?

— Como a senhora achar melhor…

A mulher pegou um embrulho de seda preta, tirou as cartas, embaralhou-as com destreza e pediu para a menina cortar. Pegou um punhado de cima e dispôs três fileiras de sete cartas viradas para baixo.

— A primeira fileira é o passado, a segunda o presente e o terceiro o futuro…

Joione começou a virar uma por uma as cartas da primeira fileira e explicar o que aquilo significava. Babu começou a ficar azoada e levar aquilo muito a sério. A cigana contou a sua história direitinho: a separação dos pais, a doença e morte da mãe (a carta da Morte estava mesmo ali, era igual a como ela tinha visto num gibi), seus problemas e sucessos na escola, as maiores amizades, os dois namorados que ela tivera, o preto e o lourinho. Eram coisas sabidas de quem a conhecia bem, mas ela nunca tinha visto aquela mulher mais gorda. E outras só ela sabia, ou dava importância.

Veio a fileira do presente e mais uma vez a mulher acertava em cheio a cada virada de carta. A doença “do senhor que cuidava dela”, o bolo que ela tomou de um menino louro por causa de um joguinho besta na internet e a briga que veio depois, a solidão em que caiu de repente e até uma coisa que ela ainda não tinha contado para ninguém. Que o pai estava jogando verde para ver se a levava para morar nos Estados Unidos se Voinho não pudesse mais cuidar dela. Aquilo a preocupava, não queria ir para longe do lugar e das pessoas de quem mais gostava. Se fosse só um passeio, como o que o pai tinha prometido para as próximas férias de julho, tudo bem. Queria conhecer aqueles parques todos de Orlando. Mas para ficar, não. E o que mais a afligia era o pressentimento de que o pai não ia se conformar com um “não”. Ia contratar advogado e recorrer ao juiz de menores para levá-la, ia ser horrível e ela ia ficar com ódio dele… A vidente falou de todos os seus receios. Só faltou dar o endereço do pai.

O pulso da menina disparou e ela começou a se sentir tonta e enjoada com o calor, o cheiro de incenso e o medo. Quando a cigana disse que agora ia ver o futuro, segurou a mão dela antes que virasse a primeira carta:

— Não, dona Joione! Por favor, não! Se vô Dinho vai morrer e eu vou ter que ir embora daqui, prefiro que não me conte! Obrigada, mas quero não! — E se levantou para fugir correndo dali, tão rápido quanto permitissem as pernas trêmulas, mas a cigana lhe segurou a mão com força.

— Calma, Babu! — Ela lhe tinha dito seu nome? Não se lembrava. — Isso não vai fazer mal nenhum. As cartas do futuro não vão matar nem condenar ninguém. Elas vão dar dicas sobre como resolver seus problemas. Você é tão esperta, tão bonita e tão corajosa… Tenho certeza de que no fim dará tudo certo. E eu me sentiria muito mal de ver você fugir assustada, sem um conselho pra enfrentar o que virá por aí!

Os elogios e a postura amigável da vidente a acalmaram e ela resolveu ouvir. Pelo menos a carta da Morte já saiu, pensou ela, não dá para sair de novo. Ou será que dá?

A cigana virou a primeira carta: o Louco.

— Hum, um estranho vai sugerir a você um novo caminho, mas será preciso manter os olhos bem abertos… haverá muitos perigos nessa jornada.

Virou a segunda: a Imperatriz.

— Vai ter também uma mulher poderosa, que vai ajudá-la a superar suas dificuldades. Não é avó nem tia, mas você logo vai conhecê-la e aprender coisas importantes com ela.

A terceira: a Justiça.

— Vejo aqui outra mulher, generosa e sofrida. Ela é um pouco como sua melhor amiga, a de Trancoso, mas mais madura. Dela, você vai ganhar mais valentia e senso de justiça.

A quarta: a Força.

— Ôpa, essa é uma carta muito boa pra você. E mais uma vez, sinto que tem a ver com uma mulher que vai conhecer logo, esperta e dinâmica, parecida com você e que você vai querer como uma segunda mãe. É sinal de vitória nas suas lutas, se souber imitá-la!

A quinta: a Estrela.

— Puxa, mais uma mulher das boas! Esta é bonita e sedutora, como sua outra amiga que está longe. E se você aprender o que ela pode ensinar, terá muita sorte no amor e nenhum homem, muito menos um garoto, vai se atrever a desagradar você.

A sexta: a Papisa.

— Vixe Maria! O que que é isso? Babu menina, tem alguma coisa muito estranha acontecendo aqui. Tô encafifada!

— Essa é ruim? — Perguntou, assustada.

— Não, é esquisito por ser quase que bom demais pra ser verdade. É uma carta boa atrás da outra, todas de pé, nenhuma de ponta-cabeça, e todas têm a ver com mulheres respeitadas, ou mais que isso. Esta, eu vejo, é muito velha e sábia e meio feiticeira. E não sou eu, que não sou tão velha assim, muito menos tão sábia e… é alguém muito maior. Não posso esperar para ver a última carta. Se for o que eu estou pensando…

Virou com pressa a última carta. A Lua, de pé como as outras.

— Bingo! Sim, menina, isto é incrível. Esta é mais uma mulher, uma que vai saber abrir para você os caminhos do sonho e da fantasia. Não era o que você queria, aprender a fazer roteiros de quadrinhos ou de cinema?

— Mas e Voinho? O que vai acontecer com ele? — Insistiu Babu, esquecida de que tinha dito que não queria saber aquilo.

— Não posso dar certeza, não é pra ele que fiz a leitura, mas tem uma constelação de forças tão boa do teu lado que é difícil imaginar que alguma coisa ruim possa acontecer a você. Tudo isto é muito especial e você deve ser, também. Sabe o meu nome, Joione?

— É engraçado, mas o que é que tem?

— Eu adotei em homenagem às seis iabás, as orixás femininas. J de Janaína, O de Obá, I de Iansã, O de Oxum, N de Nanã, E de Euá. E olha, este é o Tarô tradicional, mas no Tarô dos Orixás, que algumas colegas minhas usam, estas seis cartas são exatamente as das seis iabás, na mesmíssima ordem. Nunca tirei nada igual!

— Ah, que maneiro! — Alegrou-se Babu. — Você é como o Shazam!

— Hem? — A cigana franziu o cenho.

— É o mago que deu os superpoderes a Mary Marvel, uma heroína de uniforme vermelho com um raio no peito. Ela se transforma gritando Shazam!, que pra ela quer dizer S da deusa Selena, para ser graciosa, H de Hipólita, pra força, A de Ariadne, pra habilidade, Z de Zéfiro, pra velocidade, A de Aurora, pra beleza e M de Minerva, pra sabedoria. O irmão dela tem os mesmos poderes, mas para ele as letras significam coisas diferentes… e também tem a Mulher Maravilha, que é filha da Hipólita e linda como Afrodite, sábia como Atena, forte como Hércules, ágil como Hermes e…

A mulher riu com aquela explosão de entusiasmo.

— Interessante, eu não sabia! Pena eu não ter superpoderes para te dar desse jeito, um vestido vermelho ia ficar bem em você… só posso ajudá-la a descobrir os poderes que tem. Mas garanto que os das iabás são tão bons ou melhores que o dessas gregas todas!

Babu agradeceu a Joione e saiu contente, disposta a recomendá-la a todas e todos, mesmo se ela não tinha dito nada sobre aquilo que ela por um lado queria saber, mas por outro preferia não saber. Foi à Praça do Relógio sentar à sombra de uma castanheira, tomar picolé de graviola e sentir a brisa do cais, enquanto lia sobre as iabás na Internet. Sabia pouco e não conhecia ninguém do Candomblé para perguntar. Depois aproveitou para checar de novo correio e redes sociais. Sem novidade. O alto-falante tocava Clara Nunes:

Ela mora no mar
Ela brinca na areia
No balanço das ondas
A paz ela semeia…

Então lhe veio um capricho de criança. Cismou de ir ao Trevo do Cabral subir a escadaria, mas não para a Cidade Alta das igrejas históricas. Foi às ruínas do fortim, no meio da mata da encosta, pouco conhecidas dos turistas e quase abandonadas, salvo para atividades clandestinas à noite, como atestavam tantas camisinhas usadas e as pontas de baseados. Não queria passar vergonha se a ouvissem. Chegou ao canto mais escondido que encontrou e gritou a plenos pulmões:

— JOIONE! — Nada aconteceu. Por desencargo de consciência, tentou também um SHAZAM! Riu da própria bobeira, virou-se para voltar e esbarrou no peito de um homem alto, surgido atrás dela como se brotado da terra. Deu um grito de susto.

— Sossega! Essa menina! Se aperreie não, não vim lhe fazer mal. — Era um negro magro, de chapéu panamá, terno branco, gravata vermelha combinando com o lenço no bolso e sapatos brancos brilhantes. Estava todo arrumadinho e o sorriso era ainda mais branco e impecável.

— O que você quer? — Perguntou ela.

— Vou lhe mostrar um segredo e apresentar umas pessoas. Coisa rápida, um pé lá, outro cá.

Era o tipo de lugar, pessoa e situação em que a mãe, a tia e os avós lhe recomendavam fugir correndo, gritar por socorro, ou aplicar um joelhaço no saco sem dó nem piedade. Era esperta o bastante para isso e mais, se fosse preciso. Já tinha feito, uma vez. Mas também era sonhadora e aquele cabra tão fora de tempo e lugar a deixou intrigada. A cigana tinha falado de um estranho e um caminho novo. Quem podia ser mais estranho?

— Tá, mas nada de fuleiragem… qual é o seu nome?

— Pode me chamar de Zé.

— Eu sou…

— Babu de Sousa Ramos, a princesinha da capoeira de Porto. É uma honra servi-la. — Descobriu a cabeça e fez uma reverência.

— Tá me tirando? — Corou, embora se orgulhasse do cordão de estágio, azul de ponta amarela.

— De jeito maneira. Cê é das minhas. Vamos?

Seu Zé vasculhou no chão atrás de um velho canhão de ferro fundido e levantou com a mão, como se fosse isopor, a ponta de uma laje enorme. Debaixo tinha uma escada que levava sabe-se lá para onde. Para a casa da desgraça? Não tinha que ter aquilo ali e ela não tinha que ser louca de entrar lá dentro, mas foi assim mesmo. Depois que entraram, o Zé baixou a pedra e o lugar ficou um breu. Babu ficou apreensiva até ver o traje branco brilhar tanto que dava para enxergar um pouco do túnel. Seguiu o terno, o chapéu e os sapatos.

Ouvia o xá-xá dos chinelos, o tum-tum do coração, mas não os passos do Zé. Seria um fantasma? Melhor. De morto ela não tinha medo, era dos vivos que tinha de se cuidar.

Chegaram, por fim, a uma espécie de câmara abobadada. Pelo tanto que tinham andado, deviam estar debaixo do Marco do Descobrimento. Então o lugar se iluminou. Babu se viu no meio de uma grande estrela de seis pontas, riscada em branco sobre um chão de pedra negra. Em cada ponta da estrela tinha uma mulher com a pose de uma rainha em seu trono, cada uma com uma roupa diferente, mas todas com os rostos cobertos por fios de contas. A luz vinha delas, não havia lâmpada alguma.

— Laroiê, seu Zé Pelintra! — Saudou a da frente, que vestia azul-claro e abanava um leque de prata com a figura de um peixe. — Muito obrigada pela sua ajuda!

— Odoiá, minha rainha! — Reverenciou seu Zé. — Se me permite, gostaria de me retirar. Outras missões urgentes me aguardam entre o Orum e o Aiê.

— Como queira, meu amigo. Transmita nossos cumprimentos ao Maioral!

Sob os olhos arregalados de Babu, seu Zé se despediu com um toque no chapéu e afundou no chão de pedra. Em um segundo, só se via a cabeça, depois, nada. Ela se virou para a rainha que, agitada, gesticulava com o leque e chocalhava as contas.

— Bem-vinda, omobinrin aladé! Você é muito importante para nós. Sabe quem somos?

— Eu… acho que sim… — Baixou a vista, intimidada.

— Olhe bem para nós, e não precisará achar mais nada.

A menina obedeceu. A rainha ergueu o véu de contas. Mostrou o belo rosto negro e os olhos brilhantes. Num instante, Babu aprendeu tudo sobre suas qualidades e histórias, seus poderes e fraquezas, suas tristezas e alegrias, seus segredos e seus nomes — Iemanjá, Janaína, Inaiê, Oguntê, Marabô, Dandalunga, Caiala, Sobá, Oloxum… Era muito mais do que havia na Wikipédia. Mais do que as próprias mães-de-santo deviam saber. Uma por uma, as demais iabás fizeram o mesmo e ela aprendeu tudo sobre a valorosa Obá, a audaz Iansã, a sensual Oxum, a idosa Nanã e até a misteriosa Euá.

— Mas por que estão me contando tudo isso? — Disse ela, tonta e de pernas bambas, embora as orixás não tivessem realmente dito nada.

— Porque precisamos. — Explicou Iemanjá. — Sua avó Cecília é tataraneta de uma princesa de Irá trazida como escrava para o Brasil no início do reinado de Dom Pedro II. Através dela, você descende de uma linhagem secreta de guerreiras iorubás, capaz de incorporar uma ou mais de nós de uma maneira completamente diferente das ebomi. Seu pai descende de outro ramo da mesma família. A união deles juntou chave com fechadura, abriu as portas a poderes latentes. Nós a fizemos vir assim que você cresceu o suficiente para compreender, pois você é uma entre muito poucas e a primeira em séculos com todas as qualidades necessárias na cabeça, no caráter e no sangue.

— Necessárias pra quê?

— Para ser uma onilajá, uma pacificadora, capaz de trabalhar conosco para tirar a humanidade do caminho da destruição e curar a Terra. Aceite ser o que é e compartilhará nossos poderes e responsabilidades enquanto viver.

Babu sentiu-se enjoada, de pé numa pinguela estendida sobre o abismo entre o sim e o não. Daquele jeito, ser uma super-heroína não parecia nada divertido.

— Babu querida — interveio mansamente a rainha vermelha à sua direita, que batia na mão com um espanta-moscas de rabo de búfalo — se você concordar, terá minha proteção especial. Eu sou a mãe e padroeira das guerreiras e mais ainda da sua estirpe. Se cumprir sua missão, olharei por você e jamais a deixarei só. Palavra de Oiá.

Foi a promessa de uma segunda mãe, ou ser chamada de “Babu querida” com a mesma entonação da verdadeira? De qualquer forma, ela disse “sim”. E Iansã respondeu:

— Então aguente firme, meu amor. Isto vai lhe causar aflição, mas não tem outro jeito.

A iabá estendeu o braço e um corisco vermelho saltou de sua mão para Babu, que se ouviu gritar e cair no chão sem controlar braços e pernas, como no dia em que tentou mexer no chuveiro elétrico no meio do banho. Antes que recuperasse o fôlego, um segundo relâmpago, alaranjado, lhe foi disparado por Obá. Depois a faísca amarela, de Oxum, a verde de Euá, a azul de Iemanjá e a violeta de Nanã a fizeram babar em convulsões. E apagou.

Quando abriu os olhos, se viu sentada no mesmo exato lugar onde tinha tomado o sorvete. Tinha cochilado e sonhado tudo aquilo? Seria lógico. Sentia-se bem, sua roupa estava em ordem, o celular e as moedas no bolso. Mas ela nunca caía no sono assim de repente. Sonhava acordada, muito, mas isso era outra coisa. Suas lembranças eram nítidas demais para um devaneio. E se lembrava das palavras que devia usar quando fosse preciso, além de muitos conhecimentos que nunca tivera antes.

Ocorreu-lhe que se aqueles relâmpagos fossem de verdade, talvez tivessem estragado o celular. Abriu para testar: parecia estar em ordem e tinha passado quase uma hora de quando o abrira da última vez. E nenhuma mensagem nova.

Ouviu tocar uma velha lambada do grupo Kaoma:

Chorando se foi quem um dia só me fez chorar
Chorando se foi quem um dia só me fez chorar
Chorando estará, ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar…

Cedeu à saudade, abriu a galeria de fotos, para ver as últimas com o Claus e tomou um susto. Sete novas fotos. O Zé e as seis iabás, datadas de minutos antes.

Foi à pousada almoçar e se a tia notou que ela estava muito calada, não comentou nada. Pouco depois, o celular tocou “Problemas”. Não, não eram mais deles, era uma colega, Ana Carolina como a cantora, convidando para ir ao cinema com uma galerinha. Faltavam umas semanas para ela fazer quatorze, mas a deixaram entrar. O filme da boboca que gostava do vampirinho (“não, não acho ele nada parecido com Claus”, respondeu para Carol) pareceu ainda mais besta depois daquela manhã. Mas foi bom sair e dar risadas com as meninas, como se nada tivesse acontecido.

À noite, ela se interessou de repente pelo romance Tenda dos Milagres, de Jorge Amado, e o lia na sala da tevê quando a assustadora vinheta de edição extraordinária interrompeu a novela dos tios e os fez se endireitarem no sofá.

— Falamos ao vivo para informar sobre a explosão da plataforma petrolífera Sedco 777, da Petrobras, na costa da Bahia, ao largo de Cabrália. Segundo as primeiras informações, o vazamento pode chegar a mais de mil barris por dia. Ao explorar águas profundas no lote 259 da Bacia do Jequitinhonha, a cem quilômetros da costa…

— Oxe! — Exclamou o tio.

— Que horror da porra! — Gritou tia Naná, e bateu a mão na boca. — Só me faltava essa! Já pensou todo aquele petróleo nas praias? Lá se vai a temporada!

Sem saber explicar como, Babu sabia que isso era o de menos, pois as correntes marinhas levariam a maior parte do óleo para os Abrolhos e sufocariam toda a vida do Parque Nacional. Também sabia que as iabás tinham lhe emprestado seus poderes para ela resolver problemas como esse e não pretendia desapontá-las.

— Vou dormir — disse aos tios e os beijou. — Boa noite!

Resolveu tentar. O porteiro da noite estranharia se a visse sair sozinha àquela hora, mas a sala de jogos estava vazia e a janela dava para a rua do fundo. Mas e se a tia a procurasse e visse que ela tinha sumido?

Entrou no quarto em dúvida, e deu consigo mesma, de camisola e pronta pra dormir.

— Hã? Quê!?

— Xiu! — Respondeu a visagem, dedo na boca — Oiá disse que olharia por você e isso inclui eu cobrir sua retaguarda quando precisar. Não se preocupe.

— Mas quem é você?

— Me chame de Panjira. Sou quem Iansã escolheu para ser seu anjo da guarda. Axé!

Babu pulou a janela e correu para um beco escuro e solitário. Antes, nem de brincadeira ela pensaria em estar ali àquela hora da noite, mas nunca mais teria de se preocupar. Não com aquele tipo de perigo. Assegurou-se de que ninguém olhava e gritou:

Epa hei!

Um relâmpago vermelho caiu do céu sereno. Outro disparou para as estrelas, acompanhado de brusca ventania. Era Babu, com o manto vermelho, o corpo e a energia da Rainha da Tempestade, que lhe caíam muito bem. Viu do alto o agito e as luzes da cidade e gargalhou de euforia.

— Funcionou! Eu mudei! Me sinto forte… poderosa!

Tão alto subiu que viu no horizonte o clarão do incêndio. Ordenou aos ventos soprarem naquela direção e os cavalgou, o mais rápido que pôde. Ao chegar perto, viu que um helicóptero rodeava a plataforma, mas não tinha como fazer muita coisa. Naquela forma, nem ela. Sabia como provocar um aguaceiro capaz de apagar o incêndio, mas isso não resolveria os problemas mais importantes e atrapalharia o resgate dos sobreviventes. Precisava de outros poderes.

Odoiá!

Um relâmpago azul a atingiu, ela tomou a forma da Rainha do Mar e mergulhou nas águas oleosas com um tchibum digno de uma baleia. Tá, baleia era exagero, mas estava, sim, rechonchuda, de seios tão grandes que a atrapalhariam se não estivesse dentro d’água, com as pernas transformadas numa potente cauda de sereia. Mergulhou fundo no abismo que, segundo a tevê, tinha mais de mil metros, respirando e enxergando no escuro sem dificuldade. Era agora o seu elemento.

Encontrou o tubo rompido quase no fundo, soltando um jorro de petróleo horroroso. Tentou contê-lo com as mãos, mas não deu certo. Tinha de usar a cabeça. Desceu mais um pouco e encontrou uma espécie de registro, mas não fazia ideia de como consertá-lo. Podia tentar descobrir para uma próxima vez, mas agora precisava de uma solução mais rápida. O jeito foi ser brusca: pôs as mãos no fundo do mar e o mandou sacudir-se num ritmo lento e crescente. Provocou um terremoto submarino, não tão grande que criasse um tsunami, mas o suficiente para bloquear e soterrar o poço.

Agora, salvar as pessoas. Nadou até a superfície e chamou botos para ajudar a manter à tona os trabalhadores que tinham pulado n’água e o helicóptero tardava a resgatar. Os tucuxis precisavam de coragem para enfrentar aquela água suja. Mesmo assim, acataram a ordem da embaixadora extraordinária e plenipotenciária de sua rainha. Para limpar o estrago antes que a mancha chegasse às praias ou aos Abrolhos, Babu convocou bactérias capazes de devorar o petróleo, vindas de milhares de quilômetros ao redor.

Sentiu, então, a dor de dois homens presos na plataforma, desesperados. Naquela forma não tinha como ajudá-los. Babu saltou para fora d’água com todas as forças e gritou:

Xirê!

Uma faísca alaranjada apanhou a forma de Iemanjá no meio do salto e a transformou numa guerreira robusta e musculosa, ainda assim menos pesada que a forma de sereia. O impulso do salto a levou alto o suficiente para se agarrar na plataforma. As chamas não a assustavam, pois esse corpo era invulnerável. A não ser pela maldita orelha esquerda mutilada, que doía feito uma desgraça. Babu fez uma careta, cerrou os dentes e meteu as caras. Nenhum orixá, nem Xangô, tem tanta força física quanto Obá. Rasgou o casco de aço quente como uma folha de jornal velho e abriu caminho na marra até onde estavam os operários presos, atravessando labaredas e derrubando obstáculos com mãos e pés nus. Encontrou-os quase sufocados pela fumaça e pelo calor. Devem ter achado que estavam delirando quando aquela negrona de mais de dois metros de altura os agarrou, um debaixo de cada braço, abriu um rombo no convés com golpe de calcanhar e mergulhou com eles no mar. Tratando de mantê-los com a cabeça fora d’água, nadou só com os pés até um bote salva-vidas de borracha onde um sobrevivente mais afortunado esperava por resgate e os largou lá, não sem quase matar o coitado de susto.

Foi rápido. Pelas três da madrugada, Babu entrou na própria casa pela janela, feito uma ladra sorrateira, liberou Panjira para retornar ao Orum — ela caprichava no disfarce, até fingia dormir do jeitinho dela — e recobrou sua cama. Apesar de tanta atividade, acordou leve e descansada à hora do costume, com a sensação do dever cumprido.

— Novidades, minha tia? — Perguntou ela, toda alegrinha, à mesa do café.

A tia suspirou.

— Sim, uma boa e uma ruim. A boa é que o vazamento de petróleo de ontem foi contido. A plataforma está arrasada, mas o óleo parou de escapar, ninguém sabe o porquê, a mancha está sumindo com uma rapidez que surpreende os cientistas e as praias estão salvas. De manhãzinha, os sobreviventes estavam contando histórias engraçadas na tevê, falavam que golfinhos e uma giganta negra socorreram vários deles…

— Que bom! — Aplaudiu.— Então é pra comemorar!

— Mas agora tem a outra. Ciça conta que seu avô piorou. Não vai mais sair da UTI… — Bateu na boca, ao perceber o que dizia. — Quero dizer que não por enquanto, eu acho.

Babu gelou, ficou branca. Tinha salvado um monte de gente e muitos milhões de bichos, mas não tinha como ajudar a pessoa que mais queria bem. Ou tinha? Não era para aquilo que as iabás tinham lhe emprestado seus poderes… mas se havia esperança, tinha que arriscar. Pediu licença, dizendo que tinha perdido o apetite e saiu o mais rápido que pôde. Enquanto caminhava, conferia no celular a localização exata do hospital do Voinho. Escondeu-se no mangue do Buranhém, pensou em Panjira e ela surgiu à sua frente, uma gêmea com o mesmo uniforme de capoeira.

— Fala, nega! — Disse a aparição. — Quer que eu tome de novo o seu lugar?

— Não só isso — sussurrou, como se receasse ser ouvida pelas orixás — Me diga o que você acha de eu tentar salvar meu avô com magia. Tem algo errado nisso?

Panjira inclinou a cabeça, como quem pondera as palavras com cuidado.

— Babu, não tenho certeza. As iabás lhe deram poderes para ajudar quem precisa por confiarem em sua responsabilidade e autonomia e ficarão muito zangadas se você fizer algo egoísta ou estúpido que leve a um mal maior, mas não podem decidir cada passo seu, até porque nem sempre estão de acordo em tudo. Depende de como você agir. Lembre-se também de que nesses assuntos de doença e morte a última palavra não é delas, é do Dono da Terra, você sabe quem. Você pode ser punida por contrariá-lo, tome cuidado.

— Eu vou. Tome o meu lugar. Eu tinha ficado de encontrar a galera da capoeira às nove para jogar na Praça da Bíblia. Frente ao estádio, aqui pertinho. Sabe onde é?

— Claro. Só não sei se jogo que nem você — ela sorriu. — Vou tentar não fazer feio.

— Tudo bem. Qualquer coisa, eu estava meio mal hoje por causa do Voinho.

— Alguma recomendação mais?

Babu pensou e respondeu:

— Se Claus aparecer, trata ele com educação, mas sem dar corda. Tô de mal. Nem um torpedinho ele mandou pra se desculpar! Epa hei!

Outro relâmpago vermelho chamuscou o mangue e a forma de Iansã tomou de novo os ares. Subiu ainda mais alto desta vez, para criar e cavalgar correntes de ar na estratosfera com a velocidade de um jato sem causar um furacão capaz de derrubar tudo no caminho de Porto Seguro a Salvador.

Pousou num matagal e pensou no que fazer. Não podia voltar à forma de Babu, talvez não deixassem entrar menores desacompanhados e se vó Ciça a encontrasse lá, ia se complicar. Não podia entrar como Iansã, abrindo caminho no grito. Obá era pior, ia matar pacientes de susto, botar médicos e o pessoal da enfermagem para correr e fazer os seguranças abrirem fogo… Ora, a solução era simples!

Orê ieiê ô! — Entoou.

Um corisco amarelo caiu ao lado do viaduto. E do mato surgiu uma mulher deslumbrante, de maquiagem suave, brilho nos lábios, curvas assassinas, braços e pernas de gazela, olhar e andar de pantera. Turbante, bata translúcida, short, sandálias, brincos e pulseiras, tudo resplandecia em tons de dourado sobre a pele de ouro marrom.

Estava de parar o trânsito e fechar o comércio. Não era maneira de dizer. Carros freavam de repente e quase batiam, tão pasmos ficavam os motoristas ao ver que uma mulher assim podia existir fora de uma superprodução de Hollywood. Lojistas saíam à calçada para ver, tão embasbacados que ninguém se atrevia a assobiar ou dizer bestagem. Era areia demais para o caminhãozinho de qualquer um. Parecia até pecado profanar aquela beleza com uma cantada fuleira. Pensavam que aquela aparição tinha algo de divino — e tinham razão.

Ela entrou na recepção e se fez um silêncio respeitoso para vê-la desfilar até o balcão de atendimento. Muitos coçaram a cabeça, se esforçando por recordar de onde a conheciam. Devia ser uma estrela de cinema, uma supermodelo… tinham a impressão de ter o nome na ponta da língua, sem conseguir se lembrar. Claro que tinham, pois todo mundo em Salvador sabe quem é Oxum. Só nunca a tinham visto em carne e osso.

Foi à recepcionista e tirou os óculos escuros. A loura falsa ficou hipnotizada pelas íris cor de mel, que mexiam com as mulheres quase tanto quanto com os homens.

— Bom dia! Por favor, eu gostaria de fazer uma visitinha rápida ao senhor Armando de Sousa, que está internado na UTI. Sou sobrinha dele e moro muito longe — a voz e o perfume exótico eram ainda mais perturbadores que o visual.

— E-e-e.. De-desculpa, o horário de visitas da UTI é das onze ao meio-dia e das…

— Puxa, mas estou só de passagem em Salvador! Às onze preciso estar no aeroporto e não sei se vou ter outra oportunidade de vê-lo. Quebra essa! Por favor, minha linda, é só um minutinho… Serei eternamente agradecida! — Deu um sorriso de arrasar corações.

Tinha de inventar. Se esperasse as onze, Voinha ia aparecer e querer saber, tintim por tintim, quando e como o diabo do Dinho tinha conhecido uma mulher como aquela.

A moça não discutiu mais, só pediu um documento. Babu não tinha pensado nisso, mas os encantos de Oxum estavam à mão. Fez de conta que tirava alguma coisa da bolsa e a moça acreditou que via a identidade de uma tal Maria da Imaculada Conceição de Sousa, a única mulher do mundo que era sedutora até na foto três por quatro.

Chegou à UTI sem mais incidentes, a não ser por um auxiliar de enfermagem que, ao vê-la no corredor, deixou cair o queixo e a bandeja de remédios. Fechou a cortina do box. Voinho estava deitado, cheio de tubos e fios. Parecia dormir. Ela lhe acariciou a mão e o rosto e ele murmurou, como no meio de um sonho:

— Babu… — Não abriu os olhos, estava muito sedado.

Ela quase caiu no choro, mas se segurou. Não podia chamar a atenção e precisava pensar rápido, tinha pouco tempo. Ali, as ilusões de Oxum não iam servir de nada.

Saluba — sussurrou baixinho. Proporcional ao tom de voz, a faísca violeta foi sutil a ponto de se confundir com o piscar e o zumbido de algum aparelho médico.

Babu se viu na pele de uma mulher imensamente velha e sábia. Tão velha que se lembrava dos primeiros macacos a caminharem eretos nas savanas da África e de milhares de milênios de esforços de seus descendentes para inventar e dominar as artes de lascar ferramentas de pedra e falar como gente.

Nanã ainda desconfiava de novidades como a escrita e os metais. Sempre tinha achado que aquelas modernagens iam acabar mal e exigia oferendas preparadas com facas de pedra e vasilhas de barro. Ao ganhar acesso ao seu saber, Babu continuava sem entender patavina daquelas luzes e botões, mas conhecia tudo de ervas e doenças, vida e morte.

A sabedoria de Nanã deixaria seu Dinho morrer se fosse o melhor para ele, ou se para salvá-lo fosse preciso torcer as leis da natureza, e Babu seria capaz de entender. Mas não era o caso. Era só desobstruir uns tantos vasos sanguíneos finos e frágeis, operação delicada demais para um bisturi, mas não para sua magia. Com uns dois meses de reabilitação ele voltaria a ser como antes e poderia viver o suficiente para ser bisavô, desde que a neta sobrevivesse a tudo que teria de enfrentar nos próximos anos.

Ela também viu que aquilo era bom e não só para o velho e para quem o amava. Se Dinho morresse, Babu ia mesmo morar no deserto do Texas. Seria menos feliz e ficaria muito mais difícil cumprir suas missões. Era uma terra de leis rígidas, costumes severos e vizinhos vigilantes e desconfiados de negros e de latinos.

Com os gestos certos e as palavras mágicas de uma língua muito mais antiga do que o iorubá, na verdade, a primeira língua articulada a ter sido falada por seres humanos, ela fez o que mais desejava fazer. O avô pareceu na mesma, mas dava para ouvir uma mudança sutil nos ritmos dos aparelhos que lhe monitoravam o coração e o cérebro. Dali para frente ele ia melhorar.

Saiu sem mudar de forma e ninguém olhou duas vezes para a pobre centenária que se arrastava toda curvada, apoiada num bastão. Exceto a vó Ciça, que cruzou com ela na porta do elevador e pareceu intrigada, mas só murmurou um bom-dia e foi ver o marido.

Ainda não tinha acabado. Havia alguém que podia desfazer o que Nanã fazia e tinha de conversar com ele. A velha bruxa claudicou até a margem do Dique do Tororó, de onde se viam as estátuas de oito orixás em torno de um chafariz.

Hihó! — Sussurrou Babu assim que se viu a sós, atrás das árvores.

Um raio verde a transformou de novo. Com sua nova forma, ergueu os braços e os separou com um movimento semicircular. Criou assim um pequeno arco-íris para servir de portal entre o Aiê e o Orum. Atravessou.

O lugar deslumbrava pelas cores e luzes, mas procurou por sua parte mais sombria. Era a terra dos eguns, os espíritos dos mortos. Aruanda. A maioria dos orixás a evitava. Por serem forças vitais em estado puro e ideal, tudo que tinha a ver com deformidades, mutilações, doenças e morte os enojava.

Assim, o orixá que ali reinava, o Dono da Terra, era o mais solitário. A própria mãe não queria vê-lo, os humanos temiam pronunciar seu nome verdadeiro e o mencionavam por rodeios, o artista do Tororó o omitira… Mas Babu tinha aprendido a lidar com essas coisas. Cuidara da mãe em seus últimos meses e vestira seu corpo, quando morreu. E três de suas representadas eram as únicas entidades em todo o Universo que sentiam carinho por aquele estranho eremita, coberto da cabeça aos pés por um capuz de palha: a mãe adotiva Iemanjá, a amiga Iansã e a esposa Euá, cuja forma ela tinha tomado.

— Atotô, Xapanã! — Saudou Babu, ao chegar a seu ilê, seu refúgio. Atreveu-se a usar o nome verdadeiro porque também preferia o próprio nome a apelidos.

Agachado no tosco banco de madeira que lhe servia de trono, o orixá chamado Obaluaiê ou Omolu pela maioria dos humanos mexeu ligeiramente a cabeça. Era impossível ver sua expressão, mas sua voz grossa e profunda soou intrigada e um pouco zangada.

— Axé, onilajá Babu! Sei que você não é a minha Euá, embora ela lhe tenha emprestado a aparência e a energia. O que a traz aqui? Espero que não seja para reviver sua mãe, isso não vou fazer. Ela tinha pulmões frágeis e fumou muito desde menina, pagou o preço.

— Não, eu entendo que isso não pode ser. Eu vim pedir pela saúde de meu avô Armando, que é importante para mim e para a tarefa que me foi confiada pelas iabás, enquanto a vida não se tornar um fardo pesado demais para ele.

— É pedir demais, minha filha. Não tenho nada contra seu avô, mas ele tem tanta vontade de viver que assim poderia passar dos cento e trinta. Não me comprometo com tanto. Em consideração à missão que sei ser importante para Iemanjá, Euá e Iansã, posso fechar-lhe o corpo até você chegar à maioridade ou morrer, o que acontecer primeiro. Depois ele terá de correr os mesmos riscos de qualquer mortal de sua idade.

— Mesmo assim, agradeço muito ao senhor…

— Espere, tenho uma condição: enquanto essa proteção durar, você virá me visitar pelo menos uma vez por mês. Sinto falta de um pouco de companhia de gente viva. Basta uma visita breve, dois dedos de prosa, me contar como vai sua incumbência. Talvez eu até possa lhe dar alguns conselhos…

— Ah, mas vai ser um prazer! — Respondeu Babu, sorrindo com convicção.

— Mesmo? — Estranhou o orixá.

— Sim, o senhor me parece sábio e bondoso. Me lembra um pouco meu avô.

A figura encapuzada fez um longo silêncio.

— Então estamos de acordo. Mas que da próxima vez chegue na forma de outra iabá. Sei que você não pode vir ao Orum com sua forma humana, mas ver minha filha de ajuntó na pele de minha esposa é… perturbador.

— Não seja por isso. Mas antes, quero fazer uma coisinha.

Se tinha alguma coisa que Babu adorava tanto quanto desenhar, inventar histórias e jogar capoeira era a música. O problema é que, embora ela dançasse muito bem, não sabia tocar nada mais complicado do que um berimbau. Com a forma da talentosa Euá podia, porém, criar ritmos e melodias e fazer a própria natureza cantá-los. Ou o próprio sobrenatural. Fez um gesto e uma música de dança agitada, contagiante e sensual como ela gostava, os envolveu do nada. Xapanã olhou em volta, admirado, e ela gritou:

Epa hei!

A música continuou após o trovão, pois a representante de Euá assim o determinara até ordem em contrário. E ao se ver Iansã, Babu convidou:

— Vamos dançar, Xapanã? Sei que o senhor gosta e eu quero comemorar!

Com uma alegria que não se via nele há séculos, o Senhor da Morte saltou para o terreiro em frente ao ilê para dançar com ela. E quando Iansã dança, sempre faz ventania. A palha de Xapanã voou e revelou o corpo e o rosto deformados de nascença e devorados pela varíola. Não se importaram, estava muito divertido.

Ao voltar a Porto, Babu perguntou-se sobre Panjira e soube que a encontraria num banco da Igreja de São Benedito. Foi lá e sentou-se ao lado dela.

— Tá servida? — Perguntou de boca cheia a guardiã, mostrando um acarajé mordido.

— Obrigada, mas já vou descer pro almoço.

— Que tal foi?

— Deu tudo certo! — Respondeu, feliz e aliviada. — Meu avô vai ficar bom!

— Maravilha! Por aqui também correu tudo bem. Acho que não estraguei sua reputação. Tinha um monte de turistas e eles aplaudiram e tiraram fotos.

— Beleza!

— Ah, sim, e Claus apareceu. E disse que queria muito falar comigo, quero dizer, com você. Lógico que eu respondi que naquela hora não dava, porque é assunto seu, mas tomei a liberdade de combinar um encontro hoje à tarde. Você resolve se vai, mas olha, se eu estivesse no seu lugar, daria mais uma chance pro rapaz. Ele me parece porreta.

Ela tinha razão, pensou Babu. Além de ser corajoso sem ser machista, coisa rara entre os meninos que conhecia, Claus ouvia seus sonhos e os levava a sério, o que era único.

— É… — Suspirou Babu. — Quando não me esquece… Talvez se eu aprendesse a ser como Oxum ele me desse mais valor.

— Nem pense nisso! Você não é de Oxum, é mi… Cof! Cof! — Panjira engasgou, de tão zangada. — …É de Iansã! Não adianta tentar parecer o que não é, você não vai ser feliz e ele vai se sentir enganado. Seja você mesma, é assim que tem de ser! E se o nego não gostar de você o suficiente, pior pra ele. Vai aparecer quem te queira melhor!

Babu seguiu o conselho e quando Claus apareceu na hora combinada, não fez dengo.

— E aí, o que cê queria me dizer? — Disse ela de cara séria e braços cruzados, recostada no parapeito do píer.

— Vim pedir perdão pra você — respondeu, aflito. — Fui muito besta naquele dia, mas nunca mais vou esquecer quando tiver um compromisso com você.

— Hum… não foi só uma, nem só duas vezes…

— Foi a última. Você agora vai estar sempre em primeiro lugar, eu juro, Babu! — Ele soava sincero, parecia a ponto de chorar.

— Por que você não me mandou nenhuma mensagem esse tempo todo?

— Desculpe. O computador de meu pai quebrou, ele tava sem um puto pra consertar, o celular de minha mãe tava sem crédito e eu não achava você em lugar nenhum!

Ela o estava evitando e os pais dele eram meio sem vintém mesmo. Nascido de um casal de hippies holandeses que viera para Porto nos anos setenta, o pai só sabia fazer bijuterias. A mãe o ajudava, mas precisavam correr atrás das modas e caprichos dos turistas e tinham aluguel da casa e da barraca para pagar.

— Ah, o seu brinquedinho favorito quebrou e cê veio se consolar com a segunda opção, né? — Perguntou ela, meio séria, meio brincando.

— Não é isso! Meu pai arrumou grana e o computador já foi pro técnico, volta hoje. Mas se o problema é esse, juro que nem volto a tocar nele, a não ser pra fazer lição. Você é mais importante que tudo no mundo pra mim, Babu querida!

Aquele jeito de falar acabou de convencê-la. Ficou toda derretida.

— Não precisa jurar nada, Claus. É só mostrar no dia a dia que me dá valor. Desta vez, tá perdoado. Mas se ligue, que se me fizer de boba de novo, acabou, tá ouvindo?

— Tô ligado. Posso dar um beijinho agora?

— Dá logo um beijão, seu abestalhado!

Abraçaram-se com força e se beijaram de tremer as pernas, pois ela também estava com muita vontade. Quando pararam para respirar, ele perguntou:

— Babu, me diz se tem algum agrado que você queira de mim pro seu aniversário!

— Precisa dar nada, não… Ah, sim, tem uma coisa que eu quero de você!

— O quê?

— Que você vá passar o fim de semana comigo em Trancoso. Catona já me convidou. A gente vai sábado no primeiro busu e passa o dia na praia. De noite tem baile com concurso de lambazouk e eu preciso de você pra ganhar. Cê topa?

— Claro que topo! Deixa só eu avisar minha mãe…

— Então tá combinado. Mas se me der bolo de novo, como o seu fígado com farinha! — E sacou o celular, para digitar os recados que precisava dar.

Deu tudo certo. Babu e Claus ganharam o primeiro prêmio na categoria juvenil e ela foi dormir feliz. Quando o sono veio, tinha na cabeça uma das músicas da banda Aíxa que acabara de dançar:

Tem que ter coragem pra recomeçar
Tem que rastejar, tem que voar
Tem que atirar e da bala se esquivar
Tem-se que morrer quando matar

Antonio Luiz M. C. Costa
Antonio Luiz M. C. Costa
Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e foi analista de investimentos e assessor econômico-financeiro antes de reencontrar sua vocação na escrita, no jornalismo e na ficção especulativa. Além de escrever sobre a realidade na revista CartaCapital, é autor da série de romances Crônicas de Atlântida, de dezenas de contos e novelas e de livros de não ficção publicados pela Editora Draco. Twitter: @aluizcosta

Gostou desse conteúdo? Seja nosso padrinho ou madrinha e nos ajude a trazer mais autores e autoras na Trasgo! Com a partir de um real por mês você colabora com a revista e tem acesso a cursos, promoções e mais!

padrim-site Clique no banner ou acesse padrim.com.br/trasgo

Comente

Antes de enviar um comentário, por favor leia os Termos de Uso.