Tudo Sempre Igual

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Todo dia ela fazia tudo sempre igual. Acordava às seis horas da manhã e começava o longo ritual que seu pai lhe ensinara.

Uma toalha molhada em chá de hortelã por todo o corpo e sinais riscados em pontos estratégicos com borra de café juntavam-se aos movimentos milimetricamente ensaiados. Erguia paredes, escudos, entre sua magia e o mundo externo.

Ser mago naquele mundo era viver em pavor de ser descoberto, de ser escravizado ou catalogado – ou morto – pela Ordem. Seu pai nunca tivera uma gota de magia no sangue. Sua mãe também não.

Mas Cristina nascera com magia suficiente para três pessoas. E por isso seu pai dedicara a sua vida aos estudos de magia, no pouco tempo que a advocacia lhe dava de descanso. Isso lhe salvou a vida, que dedicava a ajudar aqueles menos afortunados que ela.

Quando terminou de se cobrir, quando escondeu toda a sua magia, começou a se vestir, com o mesmo cuidado. Prendeu os longos cabelos negros em um coque, passou uma maquiagem leve sobre pele morena, ajustou o vestido preto no corpo esguio. Tinha uma audiência naquele dia, enfrentando os advogados da Ordem. Estaria escondida à vista de todos.


— Bom dia, Cristina. O que vai ser hoje?

A senhora do outro lado do balcão era uma velha conhecida de Cristina. A padaria dela era a preferida dos seus pais e ela mantivera o mesmo hábito, de tomar o desjejum lá. O café ainda era coado no coador de pano, o pão não era pré-pronto e as laranjas para o suco eram frescas.

— Oi, dona Maria. O de sempre, mesmo.

Ela sorriu em resposta.

— Vou já preparar. Pode sentar que eu ou a Mariana levamos para você — e deu as costas, indo preparar o suco.

Cristina sentou, mas estava desconfortável. Era como se alguém a estivesse vigiando e isso a incomodava demais, depois de vinte e cinco anos de paranoia constante. Respirou fundo e olhou ao seu redor com cuidado. No balcão dos lanches, dois neotemplários lanchavam enquanto conversavam. Não era aquilo que a incomodava, pois suas barreiras eram fortes demais para que eles a detectassem ali. Dona Maria estava conversando no caixa com o marido, Seu Antônio, e nem olhavam na sua direção. Mariana não estava por ali.

Foi quando olhou para frente e viu o balcão de pão refletido no espelho. A padaria tinha poucos funcionários e Cris conhecia todos. Menos aquele que a encarava pelo reflexo. Ele era bem alto, sobrancelhas grossas sobre olhos negros fixos nela. O nariz adunco reforçava as feições marcantes.

Cris sentiu um arrepio subir por sua espinha. Ele era atraente de uma forma diferente, rústica, e mesmo pelo espelho parecia ver dentro dela e desvendar seus segredos. Estava prestes a se virar e perguntar se ele tinha algum problema quando Mariana chegou com seu pedido.

— Um suco de laranja pequeno, um pão na chapa e um café pingado. Além, claro, do jornal emprestado. — E com a intimidade de quem conhecia a advogada há anos, sentou na frente dela. — Tudo bem? Você tá com uma cara estranha.

Cris hesitou e quase falou o que a incomodava, então preferiu não ser direta. Olhou a primeira página, que estampava em letras garrafais mais um assassinato na região oceânica da cidade. Jovens mulheres estavam sendo assassinadas brutalmente nos últimos dois meses, e a polícia não tinha pista do criminoso.

— Nada não, só preocupada com uma audiência hoje. Gente, esse caso dos assassinatos está fora de controle. Soube de alguma coisa?

Mariana era a filha dos donos da padaria, uma adolescente de dezesseis anos ativa e tímida, que aos poucos tentava vencer a vergonha do corpo cheio demais para os padrões bestas da sociedade. Elas tinham estabelecido uma amizade fácil, apesar da diferença de quase dez anos entre elas. Curiosa, ficava sempre atenta às conversas dos policiais e dos neotemplários que costumavam frequentar o estabelecimento.

— Todo mundo está super perdido com esse caso… Ah, lembra daquela ideia que falei com você, do blog? Comecei ontem!

Em um outro dia, Cris teria se impressionado e tentado convencer Mariana a desistir. Aquele projeto era perigoso demais: era um blog de denúncias dos exageros e abusos da Ordem do Novo Templo. Claro, existia ‘liberdade de expressão’, mas ela seria vigiada de perto, a espera de um erro. Mas naquele momento seus sentidos estavam sobrecarregados.

— Bem, boa sorte. — Ela continuava com os olhos fixos no espelho. O homem ainda a encarava, sem disfarçar o interesse. Não resistiu e perguntou diretamente. — Funcionário novo?

Mariana levantou o olhar por cima do ombro da amiga.

— Ah, sim. É o Zé. Chegou em Niterói semana passada, é conhecido do Pedro, o gerente da padaria perto do túnel. Começou aqui hoje.

— Entendo…

Mariana franziu a testa, apertando os olhos.

— E me parece bastante interessado em você. — Para o imenso constrangimento de Cristina, Mariana acenou para o balconista que pareceu despertar do transe em que estava e foi para o interior da padaria, deixando o balcão sozinho. — Gente, que estranho… Vocês já tinham se visto?

— Não, nunca o vi nesta vida.

Mas tinha a sensação de talvez tivessem se conhecido em outras.


Durante a semana, ela acabou se acostumando com a encarada taciturna do empregado novo da padaria. Esforçava-se para não se importar com isso, afinal tinha coisas mais urgentes ocupando sua mente. Mas os olhos negros e ferozes pareciam a acompanhar durante o dia. E principalmente, passaram a assombrá-la durante a noite. Se bem que assombrar não era a palavra certa. Seduzi-la seria mais adequado.

Sábado ela não saia de casa. Dava a si mesma um descanso das muitas e muitas camadas de proteção cotidianas e se defendia da investigação contínua da Ordem do Novo Templo dentro dos escudos permanentes erguidos em seu apartamento. Para sua sorte, a padaria tinha entrega a domicílio.

Ficou tentada a pedir a Mariana que não mandasse o novato. Porém, não quis ceder ao que achava ser uma cisma boba e sem sentido. E talvez, só talvez, ela tivesse sorte naquele dia e fosse outra pessoa a fazer a entrega.

Mas quando se nasce maga em um mundo que odeia a magia, contar com a sorte é burrice. A campainha tocou e ela deu de cara com Zé.

— Boa tarde. Pode deixar as sacolas em cima da pia, por favor? — Ela falou rápido demais, tentando não transparecer seu nervosismo. Deu as costas, virando-se para a mesa enquanto procurava a carteira, e ouviu a porta bater. Manteve a calma e pegou uma faca afiada na mão, voltando a encará-lo lentamente. — O que você acha que está fazendo?

— Precisamos conversar. — As sacolas estavam na pia e ele estava encarando, bloqueando a porta, os braços cruzados no peito. Era realmente muito alto, e agora que olhava de perto podia ver que era mais forte do que parecia à distância.

— Desculpe, mas não acho que nos conhecemos o bastante para precisar conversar — ela apertou o cabo da faca, escondida em suas costas. – Nem nos conhecemos, para falar a verdade.

Ele a ignorou e deu um passo à frente.

— Você fede a magia…

Ela se afastou, batendo na mesa às suas costas.

— Do que você está falando? Olha, acho melhor…

Com mais um passo, ele estava tão perto que ela podia sentir o calor dele. Engoliu em seco, ignorando os arrepios que sentia.

— Sua sorte é que esses soldadinhos da igreja são incompetentes… — Quando ele se inclinou para farejar o seu pescoço, Cristina finalmente saiu do transe e reagiu, colocando a faca no pescoço do estranho.

— Olha, não sei quem ou o que você é…

Um rosnado baixo, parecido com uma risada, foi a sua resposta.

— Sabe, mas não quer admitir. — Ele ficou parado, encarando-a, sem se intimidar com a lâmina no seu pescoço. — Vamos, diga.

— O que você está sugerindo é impossível…

— Se você quiser uma prova, venho na próxima Lua Cheia. Mas você provavelmente tem um feitiço para isso…

E ela tinha, claro. Poderia usar um que o faria responder uma pergunta com a verdade ou outro, mais doloroso, que revelaria sua verdadeira forma. Como não sabia qual seria a reação do estranho, preferiu usar o que não o machucaria.

Era um encantamento simples, algumas poucas palavras murmuradas.

— O que você é?

— Um lobisomem.

Ele confirmou seus temores. Cristina continuou a encará-lo.

— Eu poderia entregá-lo para a Ordem…

— E eu também — os olhos dele não se desviaram dos dela.

— Provavelmente, eles acreditariam em mim e não em você — ela deu um sorriso irônico.

— Quer pagar pra ver? — Podia ser impressão dela, mas os dentes dele pareciam ser mesmo mais afiados.

Ela baixou a faca, mas manteve-a preparada.

— O que você quer de mim, afinal?

— Preciso de ajuda…

Ela chegou a rir alto.

— E é assim que você me pede?

— Você preferia que eu tivesse perguntado na padaria, na frente de todo mundo? Onde vários templários tomam café?

Ela assentiu. Fazia sentido.

— Ajuda em que? — Largou a faca, mas a manteve por perto. Apesar de todo o seu conhecimento, sentia-se mais segura assim.

Ele se afastou, relaxando visivelmente ao ver que ela estava disposta a dialogar.

— Minha matilha foi sequestrada.

— Desculpe, mas… como assim? Como alguém sequestra uma matilha de lobisomens? — Mesmo contrafeita, ela estava curiosa. A existência de lobisomens tinha sido uma possibilidade teórica para ela durante toda a sua vida. Saber que eles existiam mesmo era algo completamente fascinante.

Ele rosnou, percebendo o deboche na voz dela.

— Meu pai era o Alfa e foi morto. O assassino dele simplesmente reuniu os outros membros da matilha e saiu do nosso território.

— No Ceará — ela completou.

— Sim. No interior do Ceará, no sertão. A ordem está muito mais preocupada com as capitais, então para nós e as demais criaturas mágicas restou o interior… – ele fechou os olhos por um instante e Cristina conseguiu respirar.

— Vocês são como lobos?

— Um pouco — e voltou a encará-la, os olhos agora em um tom de âmbar.

— Então, não é assim que funciona? Alguém mata o chefe da matilha e assume o seu lugar? — Sentiu uma pontada de dor no estômago e lembrou de que não tinha comido. Já que não havia mais nenhum perigo imediato, resolveu que iria seguir seu cronograma. — Quer café?

— Obrigado. — Ela não sabia se ficava mais surpresa com ele ter aceito ou por ter oferecido, mas manteve o convite e ligou a cafeteira enquanto preparava um sanduíche.

— Voltando ao assunto — Perguntou com a cabeça se ele estava servido e a resposta foi positiva. — Não sei no que posso ajudar você. Me parece que é um assunto interno.

Colocou o sanduíche de presunto e pão francês em um guardanapo e o serviu. Ele começou a comer com mais educação do que ela esperava dele.

— Não é um assunto interno porque ele fez uma emboscada para o meu pai, usando uma bruxa — ele rosnou a palavra, como se tivesse raiva daquelas letras naquela ordem. — Além disso, ela usou seus poderes para controlar a mente dos outros e convencê-los a segui-lo. Então, preciso de alguém que o desfaça.

— Contrate alguém, tem magos de aluguel — O café ficou pronto e ela colocou em uma caneca grande que ele aceitou. Depois, pegou uma para si. — Eu não trabalho com magia.

— Não conhece nenhum mago por aqui em que possa confiar.

— E em mim, pode?

— Mariana confia. Isso para mim basta. — Ele terminou o sanduíche e segurou a caneca com as duas mãos e Cristina por alguns segundos encarou os dedos grossos e curtos. Teve vontade de ceder e ajudar, em parte por curiosidade, em parte por sua atração inexplicável pelo lobisomem. Porém, prometera ao pai que jamais usaria a magia fora daquelas paredes.

— Desculpe, mas realmente não posso ajudar. — Pegou uma nota de cinquenta e entregou a ele. — Pode ficar com o troco. Acho melhor você ir, seu Antonio daqui a pouco me liga perguntando de você.

— Mas…

— Bom dia. — Abriu a porta, indicando definitivamente que a conversa estava encerrada. Ele pousou a caneca na pia e a encarou por breves segundos antes de sair.

Cristina se odiou por ter ficado tão mal ao ver a decepção no olhar dele.


Domingo era dia de visitar a família, mas segunda a rotina voltava. Cotidiano repetido, tudo sempre igual. Os feitiços, as roupas, os cumprimentos e o café. Até mesmo o arrepio e o incômodo de estar sendo observada pelo lobisomem já estavam se juntando ao quadro. As notícias também pareciam se repetir. Mais assassinatos, mais jovens mortas, seus corpos destroçados. Cristina ainda tentou descobrir alguns detalhes com seus poucos contatos na polícia sem nenhum sucesso.

Por causa da sua passagem na delegacia, chegou mais tarde do que gostaria na frente do seu prédio. A iluminação da rua estava precária, oculta pelas árvores do Campo Bento, e um arrepio subiu pela sua espinha. Tinha algo de errado ali, um embotamento de sentidos. Os sons pareciam ocos, as cores menos vistosas. Apertou o passo, se condenando por economizar o aluguel de uma vaga na garagem.

Um ruído estranho, quase um rosnado, fez com que ela deixasse a vergonha de lado e saísse correndo, disparando pela calçada que estava estranhamente vazia para as oito horas da noite de um dia útil.

Uma mão imensa tapou sua boca enquanto outra a puxou pela cintura. Naquele momento, sua mente deu um estalo e ela se recriminou mentalmente. Tinha descoberto que lobisomens existiam e que havia um vivendo em Niterói, ao mesmo tempo em que relatos de mortes horríveis enchiam os jornais.

Zé podia ser um assassino.

A acusação enchia sua mente enquanto era arrastada para trás de uma caminhonete, longe da visão de quem passasse pela rua. A mão soltou a sua boca e a virou bruscamente, segurando-a pelos ombros. Preparou-se para encarar Zé, mas estava olhando para um completo estranho.

— Quem é você?

— Curiosa demais… — Ele cheirava a suor e sangue seco. Era baixo, quase da sua altura, o cabelo louro sujo chegando nos ombros. – As outras não fizeram tantas perguntas.

Em uma coisa ela acertara. Estava frente a frente com o assassino. Pensou no que fazer. Não podia usar magia ali, tão perto de um posto da Ordem. Tinha um spray de pimenta na bolsa, o problema seria conseguir pegá-lo. Um golpe nas pernas talvez o desequilibrasse por tempo o suficiente para poder fugir. A questão era tempo.

— Quem é você? — Caprichou na expressão assustada, arregalando os olhos e respirando rápido, repetindo a pergunta em voz trêmula. Se o mantivesse falando, poderia descobrir mais sobre ele e ganharia tempo para decidir um curso de ação.

Ele riu, um som rouco e animalesco que arrepiou Cristina.

— Vai insistir nisso? O importante não é quem eu sou, mas o quê. Venha, vamos sair daqui.

Ele começou a puxá-la e ela reagiu no mesmo momento.

— Não! O que você está fazendo?

Virou-se para ela e arreganhou os dentes.

— Se gritar, morre aqui e agora. – Com um movimento brusco, abriu a porta da caminhonete e ia jogá-la lá dentro. Porém, de repente, Cristina foi solta e seu captor jogado ao chão.

Ela quase revirou os olhos ao erguê-los e ver Zé ali parado, de calça jeans, casaco de moleton e a expressão cansada de quem tinha passado o dia na frente da casa de alguém vigiando. Aproveitou a confusão e pegou a lata de spray de pimenta na bolsa.

— Ora, então é verdade que você veio atrás de mim. Tinham me falado, mas eu não acreditei… Até comecei a matar essas putas para ver se chamava a sua atenção.

— Estou aqui agora, Moreira. E vou retomar o que é meu. — Na meia-luz, ele parecia ainda maior e mais sinistro, porém o arrepio que Cristina sentiu dessa vez não foi de medo.

— Me deixe terminar com a franguinha e depois a gente discute isso…

O rosnado de Zé dessa vez foi tão alto que ela ficou admirada de ninguém na rua ter escutado. Ele mostrou as presas para seu inimigo.

— Você vai deixá-la em paz!

O esgar no rosto de Moreira deixou claro que ficara contente em ter descoberto um ponto fraco de seu adversário.

— Ah, você se interessa por ela? Então, eu vou…

Nesse momento, Cristina finalmente chegou ao seu limite. Pegou o spray de pimenta e jogou nos olhos do desconhecido, que se contorceu, uivando de dor. Ao seu redor, era como se uma nuvem tivesse se dissolvido. Um feitiço de ocultação protegia o lobisomem e se desfizera com o seu ataque. Isso explicava como ele tinha conseguido atacar tantas mulheres sem ser descoberto.

Sem esperar a reação de Zé e sabendo que com o fim do feitiço Moreira teria que sair dali antes que a Ordem viesse investigar, Cristina virou-se na direção do prédio. Não tinha dado três passos quando sentiu uma mão pesada no seu ombro.

— Olha, lobo, não estou a fim de mais confusão hoje. — Ela deu uma resposta genérica, com a mão no spray de pimenta, torcendo para que fosse o Zé.

— Desculpe, mas preciso saber se você está bem… Me deixe acompanhá-la até seu apartamento. — Zé a olhava, preocupado e triste. Sem forças para brigar e querendo chegar logo em casa para deixar aquele assunto para trás, Cristina concordou.

Esperava não se arrepender.


Ela colocou a chave na porta e se virou para seu acompanhante.

— Olha, já estou em casa…

— Ele pode ter entrado aqui. — A expressão dele deixava claro que ele não iria aceitar ser dispensado antes de ter certeza de que ela estava segura. Com um suspiro, abriu a porta e deixou que ele entrasse na frente. Não ia sequer insistir e falar que seus feitiços de proteção iriam impedir qualquer invasão.

Ficou na cozinha enquanto ele examinava o resto do apartamento. Pegou uma lata de refrigerante e esperou, impaciente. Quando ele finalmente voltou, não conseguiu se segurar.

— Será que o grande lobo mau permite que eu entre na minha própria casa?

O sarcasmo o irritou e ele a segurou pelos ombros.

— Você acha isso engraçado? Acha? Pensa que é legal ser o alvo de um lobisomem enlouquecido, que já matou mais de quinze mulheres só para me irritar?

Ela estava no limite.

— Olha, eu cansei dessa sua atitude agressiva. — Com um gesto da mão direita conjurou força mágica suficiente para jogá-lo para longe, arremessando-o na porta da geladeira. — Quem você acha que é para ficar me vigiando? Me protegendo?

De um pulo, o lobisomem ergueu-se e foi parar na frente dela, o nariz quase encostando no seu. Cristina podia sentir o calor do corpo dele e novamente teve que lutar contra a atração que sentia por ele.

— Você não entende!

— Nem quero! Não dê mais um passo! — Ela ameaçou.

— Ou o quê? — Em desafio, ele deu um passo à frente e encostou a barriga na lâmina fria de uma faca que ela empunhava. — Você não teria coragem…

— Tente.

A petulância e a raiva sumiram do olhar dele, substituídos por algo mais quente e mais carinhoso.

— Por que você resiste tanto, se é algo que nós dois queremos? — Ele empurrou a faca para o lado e deu mais um passo. Estava a pouquíssimos centímetros dela, o calor que os envolvia era quase entorpecente. Sendo muito mais alto, abaixou a cabeça, seus lábios quase roçando os dela, mas resistindo a vencer aquela distância final até ter certeza de que ela também queria.

Certa de que tinha enlouquecido, Cristina jogou a cautela para longe e o beijou, sentindo os lábios quentes e secos contra os seus. As mãos grandes a envolveram e ela falou, ofegante.

— Quarto. — E o guiou pela casa, enquanto o beijava. A saia não chegou a sair da cozinha, a blusa ficou na sala, o sutiã no corredor. Zé estava nu quando chegaram ao quarto e ela só de calcinha e sapato alto. Com uma mão, abriu a gaveta do criado mudo para pegar uma camisinha. A outra estava tentando tirar o sapato.

— Deixe… — Ela deixou e o preparou. Deitou na cama, sentindo a boca dele em seus seios, a mão em sua cintura e suas pernas entre as dela. Arqueou as costas, deixando o pescoço exposto. No mesmo instante, sentiu os dentes dele na pele, bem no ponto onde o ombro se encontra com a garganta.

O choque fez com que ela processasse tudo muito rápido e se afastasse dele.

— O que aconteceu?

— Eu é que pergunto! O que estava acontecendo? — Ela cobriu os seios pequenos com o braço, enquanto procurava uma blusa por perto. — Os seus dentes no meu pescoço… não era só uma preliminar.

— Claro que não! — Agora era ele que parecia surpreso. — Achei que você tinha entendido que você é a minha companheira… Para ser a companheira de um alfa, você precisa ser marcada. Vem, vamos continuar agora que esclareci isso…

Ele tentou se aproximar de Cristina que ergueu a mão direita flamejante.

— Sai da minha casa. — Ela falou devagar, controlando a sua raiva. — Não vou ser marcada por homem nenhum. Eu nem te conheço direito.

— Você não entende… — Zé voltou a tentar, mas quando a olhou nos olhos, desistiu. — É isso mesmo o que você quer?

Esperou a resposta que não veio. Resignado, deixou a cama ainda bastante excitado – e fazendo Cristina quase se arrepender da sua postura – e foi procurar suas roupas. Não demorou muito para que a advogada ouvisse a porta do apartamento batendo.


Ela passou a evitar a padaria. Mandou uma mensagem para Mariana não se preocupar, avisando que a sobrecarga no trabalho estava exigindo que ela chegasse mais cedo, então passara a tomar café no escritório. Arranjou uma vaga na garagem para não ter mais que estacionar longe do seu prédio.

Tudo isso para tentar esquecer o que acontecera naquela noite. Duas semanas depois, ainda não tinha conseguido. Ela estava em casa, consultando o Código Legal Mágico para tentar defender um mago que tinha sido preso pela Ordem sob acusações falsas, quando ouviu um ruído na porta da sala. Em silêncio, pegou a arma que guardava na gaveta da escrivaninha. Ela se garantia com seus poderes, porém, não custava ser previdente.

— Quem está aí?

Ninguém respondeu, mas os ruídos continuaram. Cristina conferiu se seus feitiços de proteção estavam ativos e levantou-se. Caminhou em silêncio, saindo do escritório e indo até a sala.

Nada.

E o barulho tinha parado, o que a preocupou ainda mais. Preparou um feitiço de detecção mas antes que conseguisse terminar uma mão cobriu a sua boca e um braço prendeu os seus. A voz de Moreira e o seu cheiro azedo o identificaram imediatamente.

— Pode ficar tranquila, mocinha, vai acabar rápido. — Ele colocou algo na frente do nariz dela, fazendo-a perder os sentidos em poucos segundos.

Quando ela acordou, estava em um quarto escuro, cheirando a umidade e podridão. Sentia uma dor de cabeça horrível e o nariz ardia como se tivesse sido queimado por dentro.

— Tem alguém aí?

Não teve resposta, mas ela não estava mesmo esperando uma. Levantou-se com dificuldade, sentindo as pernas dormentes, e examinou o lugar assim que seus olhos se acostumaram com a falta de luz. Era um mero cubículo de madeira, sem janelas. A pouca luz entrava pelas frestas entre as tábuas. A porta parecia ser uma prancha colocada de qualquer jeito e presa por fora. Cristina suspirou. Sem saber direito onde estava, não se arriscava a usar magia ou poderia ser detectada pela Ordem.

Pensou em gritar, só que também era perigoso. Não ia se conformar em ficar parada esperando, mas precisava encontrar algo útil. Foi quando reparou que o chão era de terra batida. Suspirou. Não tinha outra saída senão usar magia elemental. Era menos chamativa — e por isso menos eficaz — mas era a única solução em que conseguia pensar.

Tinha começado a juntar energia para um feitiço quando a porta improvisada rangeu e abriu. A luz do luar entrou pela porta e foi quando ela percebeu que era noite de lua cheia. A silhueta imensa que pode ver destacada contra a luz não era totalmente humana, apesar de bípede.

Pela primeira vez, Cristina estava tendo contato com um lobisomem.

— Venha – Pela voz pode identificar que não era Moreira, o que a deixou ainda mais nervosa. Com ele, ela sabia como lidar. Os outros eram uma incógnita. E nada, nada nos livros que seu pai lhe deixara falava sobre aquelas criaturas.

Foi puxada pelo braço e empurrada para fora do casebre. Estava no meio de várias cabanas com aspecto arruinado, cercada por várias criaturas peludas, de olhos vazios.

— Bonito lugar, hein? — Tentou disfarçar o nervosismo com sarcasmo, enquanto avaliava a sua situação. Eram mais de quinze lobisomens, provavelmente os maiores e mais fortes da matilha. A que a empurrou e ainda a segurava pelo braço era uma das maiores e estava bem ao lado de Moreira.

“Bom, ele não teria conseguido raptar uma matilha inteira sem ajuda interna”, refletiu, juntando os poucos detalhes que Zé lhe dera. “Provavelmente ela queria ser a beta e o ajudou no golpe.”

Nenhum deles falou ou respondeu. Nada ao seu redor dava pistas de onde estava, além de um leve cheiro de mar. Sendo Niterói uma cidade cheia de praias, isso não ajudava em nada.

— Eu sou a isca, Moreira? Se for isso, é uma péssima ideia. Não falo com o Zé…

— Desde aquela noite. Eu sei, tenho vigiado vocês. Mas ele vai vir. Você é dele.

Aquela declaração despertou toda a sua fúria feminina, que ela só conteve a muito custo. Preferiu ficar quieta e pensar no que fazer. Conjurar algum feitiço seria uma boa ideia naquele momento. Cercada por lobisomens, a presença da Ordem poderia funcionar ao seu favor. Aparentemente, nenhum dos outros lobisomens tinha detectado sua magia, pois não a tinham amarrado ou amordaçado – não que precisasse de gesticular ou falar alguma coisa para fazer um feitiço, mas aquele era o senso comum.

Um lobisomem aproximou-se, vindo de algum lugar além do círculo de casebres, e chegou perto de Moreira, cochichando no ouvido dele.

— Ele chegou, vamos.

A mulher mais alta sacudiu Cristina pelo ombro.

— E o que vamos fazer com ela?

O sorriso no focinho deformado de Moreira mostrou todos os seus dentes afiados.

— Traga ela junto.


Cristina sempre pensara em Niterói como sendo um grande centro urbano. Nunca lhe passou pela cabeça que fosse possível ter tanta vegetação dentro da cidade. Era quase uma selva. Ruídos estranhos preenchiam a escuridão e ela sentiu um arrepio na espinha.

Pararam um pouco antes de uma clareira, protegidos pela mata densa. Zé estava parado à luz da lua, ainda em forma totalmente humana, os braços cruzados no peito.

— Sei que vocês estão aí, Moreira.

O líder da matilha deu um passo à frente.

— Então, sabe que estamos com a fêmea.

Cristina ia gritar um “ei” indignado, mas a sua carcereira tapou a sua boca. Ficou se sacudindo, tentando se libertar, sem sucesso, e tendo a certeza de que os dois lobisomens na clareira sabiam de sua luta. Força bruta não ia dar em nada. Precisava pensar em alguma coisa e rápido.

— Vamos resolver isso de uma vez! — Zé rosnou, os dentes mais afiados do que o normal.

— E por quê? Pra mim, está tudo resolvido. Tenho a matilha e a mulher, além, claro de você.

— Eu? Não teria tanta certeza se fosse você — Zé rosnou. — Aliás, eu não teria certeza sobre nada disso…

A risada de Moreira soou como um latido que se interrompeu rápido demais.

— Ataquem.

Pelo menos dez dos lobisomens da matilha pularam de seus esconderijos. Zé agachou-se e transformou-se em um deles em questão de segundos, sendo derrubado por uma fera de pelo marrom. A luta era intensa e sangrenta, e Cristina mal podia acompanhá-la na luz fraca.

Ver Zé sendo massacrado daquele jeito fez surgir um senso de urgência dentro dela que jamais tinha sentido. Ia ter que se arriscar e usar magia, mesmo com o risco da Ordem lhe descobrir. Concentrou-se, olhos fechados e mente vazia, invocando a terra debaixo de seus pés. Tinha que ser rápida, pois teria pouco tempo antes da Ordem detectá-la.

Parou de se debater, fingindo um desmaio. A sua carcereira sentiu e afrouxou o aperto. Era só o que Cristina precisava para se soltar e jogar terra nos olhos dela. Aproveitou o momento de surpresa e usou o que tinha aprendido nas aulas de defesa pessoal. Um chute nos joelhos a colocou no chão, uma cotovelada na nuca a desacordou.

Moreira percebeu a movimentação atrás de si tarde demais. Cristina conjurou o vento para fazer um redemoinho ao redor do líder da matilha, forte o bastante para impedir que se movesse. Usou o controle sobre o ar para impedir que ele respirasse até ficar inconsciente.

Voltou sua atenção para a luta a sua frente. Zé tinha conseguido derrubar cinco, mas os outros três estavam quase conseguindo acabar com ele. Novamente usou o vento e jogou dois atacantes contra as árvores que caíram com o impacto. O que sobrou era realmente imenso e se recuperou rápido demais, avançando contra ela. Cristina se preparou para o golpe, mas ele nunca veio. Zé pulou ao ver que Cristina estava em perigo. Mesmo ferido, jogou-se contra o brutamontes e o derrubou.

Em poucos minutos a situação tinha se invertido completamente. Os lobisomens da matilha estavam derrubados, e Moreira estava debaixo dos pés de Zé.

— Você vai matá-lo? — Ela se escorou numa árvore, exausta.

— Sim. Mas vou levá-lo para o resto da matilha poder ver, assim posso tomar o lugar dele. Você está bem? — Ele estendeu a mão para ampará-la e ela aceitou.

— Não muito, mas vou melhorar… Usei energia demais. — Respirou fundo. — Aliás, era bom sairmos daqui o mais rápido possível, a Ordem vai vir atrás do sinal que devo ter emitido.

Por alguns segundos os dois se encararam em silêncio. Zé quebrou o silêncio.

— Olha… eu não sei agir muito diferente disso, é como fui criado. Meti você nessa confusão sem querer. Mas — ele gaguejou um pouco. — Eu realmente… sabe…

Cristina olhou ao seu redor. Tinha passado a sua vida inteira fazendo tudo sempre igual. O que era seguro e simples. Mesmo o seu trabalho, ela o fazia de forma a não se prejudicar. Zé era o desconhecido, o fora do comum. Era um risco.

— Eu nem sei onde eu estou, para começar, então vou precisar mesmo de uma carona. Depois que você resolver o seu problema aqui, você me leva em casa?

Zé ficou tão surpreso que só conseguiu acenar com a cabeça.

— Ótimo. Quanto ao resto, vamos ver o dia a dia. Duvido que com nós dois juntos os dias sejam iguais.

Virou-se na direção da aldeia, sorrindo para si mesma. Nem cinco segundos se passaram antes que ouvisse passos pesados atrás de si. Seu sorriso aumentou. Seria divertido pelo menos tentar.

Ana Cristina Rodrigues
Ana Cristina Rodrigues
Ana Cristina Rodrigues é escritora/ historiadora/ tradutora/ editora e mais algumas coisas, além de mãe de um adolescente hiperativo e duas gêmeas recém-chegadas a este mundo louco. Contista com vários trabalhos publicados em antologias no Brasil e no exterior, acabou de escrever um romance sobre um deserto e um cavalo sem nome que ainda procura uma editora.

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