Um Convite Para o Jantar

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Inspirado em uma lenda de Grace O´Malley

— Mas papai, por que colocar novamente um outro lugar a mesa para o jantar? — Perguntou a jovem Samira, com o olhar curioso que somente uma criança pode expressar.

Kalil observou a filha com ternura. Por toda a sua vida ela testemunhara um dos criados colocando um prato a mais na mesa, sem que ninguém jamais viesse ocupar aquele lugar. Ele se lembrava de si mesmo fazendo a mesma pergunta a seu pai quando tinha sete anos, a mesma idade que sua filha completara há pouco.

— É uma dívida que seu bisavô tem com uma pessoa, Sami, uma capitã que testemunhou a queda das nossas riquezas e influência em todo o reino de Shunaq.

A garota permanecia confusa, um olhar perdido de quem certamente não teria a maturidade de compreender aquela história. Kalil a colocou em seu colo, acariciando os longos cabelos negros enquanto se lembrava da história repetida tantas e tantas vezes por seu pai.

Há muito tempo houve uma guerra entre dois reinos antes amigos, um confronto que por anos dividiu o mundo como o conhecemos e ameaçou destruir para sempre o equilíbrio que reinava nos mares. Por séculos os reinos de Aldarian e Azhir desempenharam seu papel no comércio mundial. Aldarian como a principal potência mercantil do hemisfério oeste e Azhir com o monopólio do único canal que unia as duas metades do mundo, cortando Ixaan, o continente central de Mirr, e evitando as turbulentas Águas Sombrias.

Um dia os soberanos desses reinos se desentenderam, trocando acusações e iniciando uma guerra pelo controle dos mares. A Companhia, o braço mercantil do reino de Azhir, decidiu por fechar a passagem do canal para os capitães de Aldarian, que em retaliação passaram a atacar seus navios em busca de compensação por suas perdas.

Omar Abbud foi um proeminente mercador em Ixan e por anos negociou com os capitães do reino de Aldarian. Porém, com o início do conflito, o mercador se viu obrigado a ceder à pressão da Companhia, precisando deixar de fazer negócios com aqueles considerados criminosos para que não sofresse consequências. Habitando uma pequena fortaleza em uma enseada próximo à capital de Azhir, cidade portuária de Al Mina El Gharbia, Omar e sua família acreditavam estar seguros da guerra que se desenvolvia no mar, até uma jovem bater à sua porta.

— Diga ao dono que a Capitã Rosa, fiel súdita da coroa de Aldarian, está aqui. Represento a amizade que meu antigo Capitão Jack Fletcher, morto durante a guerra, possuía para com o senhor dessa casa.

O criado a porta olhou confuso, estranhando que uma jovem simplesmente aparecesse no meio da noite com uma história como essas. Ele permaneceu imóvel, esperando que a suposta capitã lhe desse melhores argumentos para que importunasse seu patrão. A capitã sacou sua espada, mostrando ao criado o pomo de rubi.

— Supondo que seu patrão o tenha treinado bem, estou certo de que sabe reconhecer o símbolo de um capitão quando o vê, não é mesmo? Diga a ele que busco santuário em sua casa e qualquer ajuda que ele possa oferecer a seus aliados.

O criado reconheceu o símbolo, usado pelo Capitão Fletcher em suas outras visitas, e, ainda contrariado, resmungou:

— Verei o que posso fazer.

Alguns minutos se passaram até que o homem voltasse com a mesma expressão desinteressada que havia partido.

— Meu senhor lamenta não poder recebê-la, capitã, mas no momento ele está jantando. Ele pede que retorne em algum outro momento mais oportuno.

Aquela era sem dúvida uma das piores desculpas que ela já havia ouvido e estava certa de que havia algo mais ali. Ela sempre ouvira falar tão bem da amizade que seu antigo capitão tinha pela família Abbud e o quanto essa família de mercadores costumava honrar suas alianças. Foi então que ela notou um pequeno sinal acima da porta, uma marca que demonstrava que ela não fora a primeira a contatar Omar e que explicava porque o homem se recusava a receber alguém representando Aldarian. As três cimitarras negras unidas por seus pomos e as letras CMA eram um recado claro para qualquer um que ousasse bater ali.

“Companhia Mercantil de Al Azhir. Esse desgraçado se vendeu.”

— Omar! — Berrou a capitã. — Sei bem que pode me ouvir, e essa traição não ficará impune. Você irá pagar caro por vender sua alma para aqueles porcos.

O silêncio só demonstrou à capitã que ela estava certa, que um dos aliados de seu mentor havia se rendido a pressão de seu inimigo.

Contrariada, retornou a seu navio, oculto em uma ilha próxima, a fim de pensar o que fazer para reverter a situação e conseguir os suprimentos que tanto precisava. O Aliança, seu bergantin de três mastros, precisava de reparos e sua tripulação de viveres frescos e materiais para seguirem a jornada. Omar era considerado uma certeza até então, e a ausência de outros contatos na região poderia comprometer toda a operação da capitã.

Rosa subiu visivelmente irritada, ignorando as saudações de seus homens e entrando em sua cabine, a porta batendo atrás de sí. Laura, a contramestre e fiel confidente da capitã, percebeu a situação e, após passar sua tarefa para outro marinheiro, adentrou a cabine.

A capitã estava em pé, andando de um lado para o outro de forma impaciente.

— Algum problema com nosso contato? — Questionou a jovem, sabendo da resposta.

— Ele se rendeu, Lau, Omar se rendeu à Companhia e não há muito o que possamos fazer. Eu realmente contava com a ajuda da família Abbud, que por tanto tempo apoiou Fletcher. Não temos suprimentos e condições de sair para o mar e pilhar a Companhia, nem mesmo para nos reabastecer.

Laura puxou uma cadeira, encarando sua capitã.

— E o que foi que ele disse quando você chegou lá?

— Que não poderia me receber pois estava jantando! Pode acreditar nisso?

— Isso foi tudo o que ele disse? Que estava jantando e não poderia lhe atender?

Rosa assentiu com a cabeça. A contramestre continuou.

— Eu não conheci esse Omar ou sua família, mas para mim está claro de que foram ameaçados. É óbvio que ele não irá nos receber de bom grado, mas talvez possamos forçar uma situação onde ele será obrigado a conversar.

A capitã sorriu, na certeza de que sua aliada tinha algo em mente.

— E o que você tem em mente?

— Bem, capitã, nós sabemos o quanto um mercador tem apresso por suas posses, ainda mais alguém tão rico quanto esse tal Omar.

— Pretende roubá-lo? — Disse Rosa, observando o plano de Laura se formar.

— Não pensei em roubar quinquilharias, mas estou certa de que ele deve ter algo que lhe seja tão precioso que não possa ser substituído, algo que o obrigue a vir até nós para reaver.

— Muito bem, Lau, e do que você precisa?

— Apenas alguns dias, capitã, e estou certa de que consigo nossa entrada na residência dos Abbud.

Na manhã seguinte, Laura partiu levando um dos botes do navio e um grande barril vazio, remando até a propriedade dos Abbud. Três dias depois, retornou ao Aliança.

— Capitã, consegui algo, peça aos homens que ajudem a içá-lo até o navio.

Yetu, o mestre de armas, com a ajuda de mais dois marujos, içou o pesado barril, colocando-o sobre o convés.

— Muito bem, rolem este barril até a cabine da capitã e sigam com suas tarefas.

— E o que há nele? — Questionou John McCoy, o tanoeiro do navio.

— Algo que nos trará muitos outros suprimentos e talvez algum ouro. Agora façam o que digo sem mais perguntas.

Os marujos deram de ombros, executando a tarefa como pedido. Tão logo o barril foi colocado na cabine, a contramestre se fechou lá com a capitã, que observava o barril com estranheza.

— O tal objeto de valor que você estava buscando está aí dentro, Laura? O que é? Bebida? Como um barril irá abrir as portas da casa de Omar?

A jovem sorriu, arrancou a tampa com a ajuda de um ferro, e com um chute derrubou o conteúdo. Um corpo amarrado e amordaçado caiu para fora, se contorcendo e tentando inutilmente gritar.

— Apresento-lhe Samir Abbud, filho mais velho de Omar e oficialmente nosso refém.

Rosa arregalou os olhos, espantada com a surpresa que sua contramestre havia lhe preparado. Era visível que, apesar de alguns arranhões devido ao transporte no barril, o jovem estava bem.

— Você sequestrou o filho de Omar? Quando você disse que traria algo insubstituível, não pensei que seria um membro da família. Como conseguiu?

— Bastou um pouco de observação e sorte para notar que a família possuía uma rotina bastante rígida e imprudente. Observei sua casa ao longo do dia e percebi que um dos meninos saía para cavalgar acompanhado de um criado ao final da tarde. Preparei uma armadilha no meio do caminho, rendendo os dois. Libertei o criado para que entregasse ao senhor Omar um recado avisando de que estamos com seu filho e que mais tarde chegaremos para uma audiência.

A capitã encarou sua amiga e, sem dizer mais nada, ajoelhou-se ao lado do garoto e falou:

— Lamento que tenha de passar por isso, Samir, mas há muita coisa em jogo aqui. Você será meu convidado em minha cabine, contanto que concorde em se comportar. Terá uma refeição quente e um lugar para dormir e, se tudo der certo, amanhã estará de volta a sua casa. Acho que posso remover essa mordaça e cordas, não?

O garoto assentiu e, como prometido, recebeu uma boa refeição e um lugar para descansar.

— Avise nossa tripulação para que se preparem. Lau, hoje será um dia inesquecível.

Omar olhava em desespero para o papel em suas mãos enquanto era confortado por sua esposa e outros membros de sua família.

— Como isso pôde acontecer — lamentava-se — aquela desgraçada teve a coragem de sequestrar meu filho… meu filho!

— Não se preocupe, meu pai — disse Saul, o filho mais novo. — O mensageiro a cavalo que enviamos até a capital para pedir ajuda as autoridades deve retornar em breve e estou certo de que virá acompanhado de reforços. Logo essa criminosa será presa e levada à justiça.

O mercador olhava o relógio sobre o aparador. O mensageiro já havia partido há algumas horas e deveria retornar a qualquer instante. Por outro lado, a tal capitã havia prometido uma visita hoje e o relógio já avançava madrugada adentro. Por volta das duas da manhã, ele ouviu alguém bater à porta, a mesma batida combinada com o mensageiro para alertar de seu retorno. Com a cabeça, sinalizou para que seu criado atendesse, esperando novidades sobre os reforços. O serviçal foi ate a entrada e, abrindo uma fresta para ver quem batia, viu o mensageiro em pé, um semblante assustado em seus olhos.

— Por favor, deixe-me entrar — murmurou de forma trêmula.

O criado ameaçou abrir, quando as portas duplas da casa foram violentamente empurradas enquanto o mensageiro era arremessado de joelhos no chão. Rosa e seus homens entraram a passos largos, ocupando rapidamente o espaço e assustando aqueles que estavam no recinto.

— Você deve ser Omar, não é mesmo? — Disse, se dirigindo ao homem atônito sentado em uma poltrona. — Pois bem, soube que durante minha última visita o senhor estava muito ocupado jantando, então decidi vir aqui para me unir a você.

O mercador permaneceu em silêncio, ainda tentando se recuperar do choque, quando a capitã prosseguiu.

— E então? É assim que recebe seus convidados? Onde está a comida? Meus homens estão famintos.

— Mas que tipo de absurdo é esse? — Retrucou Omar. — Já se passa da meia noite e meus serviçais estão dormindo! Você veio tratar do sequestro do meu filho e não é bem vinda aqui.

— Sim, eu sei, meu caro, mas não costumo fazer negócios de estômago vazio. Além do mais, meus tripulantes costumam ficar bastante inquietos quando estão com fome e não os culparia se acidentalmente incendiassem a propriedade na tentativa de cozinhar algo.

O mercador olhou para seu serviçal e deu a entender que a ordem deveria ser cumprida. O homem olhou assustado para a capitã e para os outros homens ali presentes e, sem opções, foi acordar a criadagem.

— Agora sim percebo que está aprendendo a receber convidados em sua casa. Não se importa se me servir de um pouco da sua bebida, não é mesmo, meu caro? — Disse a capitã, se aproximando de algumas garrafas em uma prateleira. — O ar seco de Shunaq tem feito minha garganta coçar.

— Sirva-se do que quiser.

— E quanto a vocês, homens? — Retrucou Rosa. — Isso é uma festa, não é? Sirvam-se daquilo que quiserem, cortesia do nosso bom anfitrião.

Rapidamente os tripulantes se espalharam pela casa, recolhendo pertences, bebidas e qualquer coisa de valor.

— Não me oferece seu lugar para eu me sentar, meu caro? Onde foi parar o cavalheirismo nos dias de hoje?

Omar se levantou, dando o sinal para que a mulher sentasse na confortável poltrona. Tão logo se acomodou, colocou as pernas sobre a mesa baixa próxima e, com a garrafa de bebida apreendida no armário, começou:

— Pois bem, temos um resgate a discutir!

— Como sabia? — Questionou um Saul ainda surpreso com toda a situação.

— Este deve ser o seu mais novo, não é? Tem os olhos do pai, mas imagino que esse nariz aquilino tenha puxado da mãe.

— Responda a maldita pergunta! — Disse Saul.

— Se refere ao rapaz a cavalo aqui? Realmente você achou que eu não teria nenhum de meus homens vigiando a estrada que liga sua propriedade à cidade? Quanta ingenuidade da parte de vocês!

— E o que você quer pela vida de meu filho?

No instante que dizia isso, alguns serviçais começaram a sair da cozinha trazendo pratos, na sua maioria queijos, pães, pedaços de carne e um caldo aquecido às pressas. Os homens atacavam as bandejas com voracidade enquanto a capitã permanecia sentada apreciando sua bebida.

— Antes é preciso discutir a razão pela qual você decidiu trair a amizade que tinha pelo bom Capitão Fletcher.

O mercador respirou fundo, irritado com a petulância de sua convidada, e respondeu:

— Esperava mesmo que minha família apoiasse ladrões e assassinos?

Rosa se remexeu na cadeira, visivelmente incomodada com o que acabara de ouvir.

— O que sabe você sobre ladrões e assassinos, meu bom mercador? Isolado aqui em sua casa, consumindo o que há de melhor, o que entende um burguês sobre o que acontece além de sua porta?

— Entendo, capitã, que se tive de isolar a mim e minha família atrás dessas portas, é devido a oportunistas como vocês que decidiram tomar o que não lhes pertence. Sim, nós tivemos noticias do que houve no Oeste, da guerra entre sua nação e Azhir, da queda de seu regente e de como alguns de seus capitães decidiram iniciar uma campanha de vingança contra aqueles que acreditam tê-los prejudicado.

— Não é vingança, é justiça! — Disse a capitã, erguendo um pouco a voz.

— Justiça? Atacar pessoas inocentes? Roubar o produto de seu trabalho? Destruir suas embarcações e ameaçar suas vidas? Esse é o conceito de justiça em sua terra, capitã?

— A Companhia prejudicou nosso comércio, fez com que marinheiros e capitães perdessem seu trabalho e se vissem obrigados a seguir uma vida de crimes!

— A Companhia — disse Omar, com certo sarcasmo. — Vê como rotula a mim e a meus companheiros? Coloca-nos como se todos fôssemos um monstro malvado devorador de navios. A Companhia é uma instituição secular que por gerações vem defendendo os interesses dos mercadores de Azhir e dos reinos vizinhos, mas ela é formada por pessoas de carne e sangue como eu e você. E são essas pessoas que estão sofrendo por conta da decisão de dois soberanos em resolver suas rusgas pegando em armas.

Rosa ouvia com atenção as palavras do velho mercador, um homem já salgado pela vivência no mar e que, pela idade, poderia ser seu avô. Por um momento ela deixou seu sarcasmo de lado, tentando ver a situação por um ângulo diverso. Por meses ela alimentara um ódio irracional por aqueles que ostentavam o símbolo das cimitarras unidas sobre o triângulo vermelho, mas nunca havia visto aqueles homens como vítimas de suas próprias circunstâncias. Ainda assim, ela entendia que havia uma guerra a ser lutada lá fora e que sacrifícios precisariam ser feitos.

— Um dia talvez você entenda o motivo de minha luta e perceba o quão errado estava em apoiar Azhir.

— E um dia a capitã talvez entenda que antes de lutar por uma causa perdida, de ver homens de minha terra sofrerem nas mãos de alguém que confunde vingança por liberdade, eu preferi defender minha família. E sobre o preço pelo resgate de meu filho?

A capitã engoliu seco, aprumando a voz e disfarçando o desconforto.

— Vimos um de seus navios aportado nas proximidades. Estou certa de que ele e sua carga serão suficientes para cobrir os custos desse empreendimento.

— Muito bem, capitã, darei ordens ao capitão e seus homens para que lhe entreguem o navio sem oferecer resistência. Se já tem o que precisa, acho que pode devolver meu filho e permitir que retornemos a nossas vidas e comecemos a contar os prejuízos.

— Seu filho irá retornar pela manhã, afinal alguém tem de trazer o cavalo de seu mensageiro de volta, não é mesmo? Homens, a festa acabou, devemos partir.

Os marinheiros olharam de forma reprovadora, acreditando que a comida e bebida durariam a noite toda.

— Vocês me ouviram senhores, é hora de ir.

Os homens largaram o que estavam fazendo e, de forma ordenada, foram se retirando da casa. A capitã foi a última e, antes de atravessar a porta, falou:

— Sabe, Omar, de certa forma entendo o respeito que Fletcher tinha por sua família, mesmo estando em lados opostos desse conflito. Talvez quando toda essa guerra acabar possamos sentar à mesa para jantar e seguir com nossa discussão. Estou certa de que sem o peso de um conflito em nossas costas, poderíamos chegar a um acordo.

O mercador observou Rosa longamente, ainda uma criança levada por seu ideal. Sua experiência de vida lhe permitia perceber que os jovens, muitas vezes, agem por impulsos, sem medir totalmente as consequências de seus atos. Ele imaginava que tipo de pessoa ela se tornaria no futuro.

— Estarei aguardando seu retorno, capitã, reservarei um lugar a mesa para esse dia.

Sem dizer mais nada, aquela que logo se tornaria a lendária Capitã Escarlate deixou o prédio para nunca mais voltar. Os prejuízos causados pelo navio roubado foram grandes, e com o fim da guerra e a perda do acordo comercial com Aldarian, a família Abbud nunca mais se recuperou. A grande propriedade, afogada em dívidas, foi vendida e substituída por uma casa mais modesta na cidade. O restante do dinheiro foi usado para que Samir e Saul iniciassem pequenos negócios, passados a seus filhos e netos sem grandes modificações até os dias de hoje.

Kalil olhou para a pequena em seu colo, profundamente adormecida. Com dificuldade, levantou-se da cadeira e a levou para sua cama no quarto. Ainda pensativo pelas lembranças da história de sua família, sentou-se em frente ao fogo para ponderar o que o futuro lhe reservava. Se preocupava que Samira se tornasse como ele, uma jovem de pouca instrução e destino traçado, mais uma vítima de uma escolha ruim tomada por seu antepassado.

Uma batida pôde ser ouvida e, em seguida, os passos de seu único criado caminhando para ver quem era o inoportuno visitante. Ele falou por alguns instantes na porta e retornou com um pequeno baú de madeira, colocando-o em frente ao mercador.

— Do que se trata isso, Amin? Quem está lá fora?

— Um homem veio entregar isso, meu senhor, disse se tratar do pagamento de mercadorias e de um navio adquiridos há muito tempo. Disse também que veio discutir um novo contrato e que o senhor saberia do que se tratava.

— Mercadorias? Contrato? Não me lembro de nenhuma dívida ou acordo pendente.

Kalil abriu o pequeno baú e logo seus olhos se encheram com o brilho cintilante de algumas centenas de moedas de ouro, uma soma imensa de dinheiro, suficiente para pagar pela carga de um ou dois navios inteiros. Mais dinheiro do que jamais havia visto. Ainda surpreso, Kalil perguntou:

— Este homem? Ainda está la fora? Disse mais alguma coisa?

— Na verdade sim, meu senhor, disse que veio para o jantar!

Cláudio Villa
Cláudio Villa
Cláudio Villa nasceu em São Paulo, em 1979, e sempre foi apaixonado por navios a vela e histórias de piratas. Em 2007, publicou seu primeiro romance de fantasia Pelo Sangue e Pela Fé. Desde então, publicou contos em antologias como Anno Domini (2008), Steampunk (2009), Galeria do Sobrenatural (2009) e Crônicas de Tormenta (2011) . Em 2012 seu segundo livro, O Vento Norte, se tornou o primeiro romance de literatura fantástica nacional a ser totalmente desenvolvido através de um projeto de financiamento coletivo (crowdfunding): catarse.me/pt/vento_norte . Conheça mais sobre o autor em fb.com/ventonorte e em seu perfil no twitter @mundosdemirr

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