Um ladrão de cores

1

Uma planície coberta por cinzas que se estende até o infinito. Cinza abaixo e branco acima, da névoa densa que se espalha a poucos metros do chão e bombardeia os sentidos com uma overdose de monocromos. Sem visibilidade, sem lugar para caminhadas despreocupadas ou relaxamento sob céus azuis. Sem pessoas, sem vozes; aqui, há somente o calmo e constante ruído da ventania que empurra as cinzas de lá para cá e soa, mesmo aos ouvidos protegidos de um soldado, abafado e distante como o fundo do oceano.

No meio da paisagem, um ladrão de cores. Não é facilmente reconhecível. Uniforme de oficial, completo com o sobretudo cinza escuro por cima da farda cinza claro; fechos de zíper prateados por baixo de tiras de tecido a ligar as roupas do fim do tronco à base do pescoço; calças grossas, botas escuras, encardidas, poucas vezes lavadas.

Na proximidade, um rosto cansado escondido atrás de uma máscara: branco, um único olho cinzento, lábios descoloridos e cabelos sem melanina. Camuflado, ele caminha passo a passo pelos pequenos redemoinhos de areia e cinzas, os sons abafados pelo capuz e pela máscara, os odores acres da solidão dissipados por seu filtro. Quanto mais longa a caminhada, mais se ouve o ruído cortante dos ventos dando lugar a outro, mais preciso: líquido contra sólido. Velocidade, propósito; o som de água corrente, que a princípio se insinua baixinho pelo ouvido coberto, apenas para lentamente se erguer, como se perdesse a timidez.

Rio: um largo corpo d’água que surge à distância, similar a um oceano, apenas distinguível por um fim absoluto, por um outro lado; a continuação cinzenta da planície que se estende a partir de sua outra extremidade.

Pés nas margens, o reflexo de um ladrão de cores sobre águas determinadas. Agora pode-se ver, com a clareza borrada de um espelho em movimento, a máscara prateada que esconde as feições do militar. O fundo do rio é invisível; seu fluxo só reflete o que há acima, na superfície, e em seus véus de ilusão desaparecem os resquícios do que há nos confins daquelas profundidades.

Uma mão enluvada que se aproxima da superfície do rio. A serenidade persistente do fluxo fluvial interrompida pelo couro cinza. Águas desviam de um pulso submerso, abrindo caminho como se lutassem contra um inimigo esquecido. A temperatura gelada da névoa na nuca, a temperatura gelada do rio em suas mãos, uma tentativa de encontrar um fundo, uma pedra, uma alga, qualquer coisa. Nada: apenas água corrente, a força natural que lhe impulsiona para o oeste, para as quedas, para a foz.

Um rio que se estende até onde a vista toca. Em sua margem oposta, a terra dos outros.

O rio, a fronteira.

Passos de outros que não fazem barulho. O ladrão de cores se levanta, passando a mão molhada no sobretudo, como que para secá-la rapidamente. Duas mãos que ajustam a máscara no rosto. Vira os ombros: outros três mascarados, todos de cinza, todos de prata, todos de preto. A névoa que lhes ocultava sobe em direção aos céus, desfazendo-se conforme as silhuetas se tornam mais nítidas. Apenas dois círculos cobertos por plástico escuro onde deveriam estar olhos; fendas no couro onde deveria haver uma boca; marcas esculpidas onde deveriam haver feições.

Três vultos que se aproximam do primeiro. Um caixote cinza, carregado como maleta na mão do soldado da esquerda. Parece pesada, parece dura. É fosca e escura e parece guardar em seu interior todos os males do mundo. Cada aresta e cada quina deve ter fio suficiente para decepar mãos, para ferir os desavisados.

A maleta é colocada no chão. Uma silhueta abaixada ao seu lado desfaz os fechos sem barulho. As outras três olham para o rio, para a terra dos outros que fica na margem oposta, para terras nas quais jamais pisaram, que jamais pisarão. Terra proibida, local tabu.

Finalmente, uma voz abafada por cima do som das águas:

— Será que eles estão nos observando do outro lado?

O rosto da esquerda se vira em direção ao do ladrão de cores.

— Não sei. Sempre tenho a impressão de que estão vigiando a gente quando saímos aqui fora.

Vira os ombros. Outro soldado de pé; uma longa luneta prateada, nova e reluzente, em suas mãos. O ladrão de cores debruçado sobre a maleta; binóculos na luva seca. O homem da luneta e o ladrão de cores, que só tem um olho, trocam de equipamento. Uma luneta erguida em direção à outra margem do rio, uma mão que ajusta a extremidade do aparelho para acoplar-se com a cavidade ocular da máscara.

— E aí? Estão vendo alguma coisa?

— Ainda não — responde o ladrão de cores. — Nada do outro lado.

— Só cinza e neblina — observa o homem dos binóculos. — Como sempre. Onde disseram que deveria surgir?

Um minuto de silêncio.

— Por aqui. Merda — diz o homem da esquerda. — Nem com os outros modos de visão?

— Termografia. Noturno. Nada — conclui o ladrão de cores. — Talvez eles simplesmente não estejam aqui hoje.

— Ou talvez eles estejam aprendendo a se esconder melhor — sugere o homem dos binóculos, sem virar o rosto.

Mais uma pausa.

— E o pessoal de rotina disse que não viu nada.

— Mas parece que estão bem desmotivados, hm? Nem se ofereceram para vir aqui nos ajudar…

Dois homens encaram a outra margem do rio com seus aparelhos, como se catando migalhas, procurando algo para continuar seguindo adiante. Outros dois homens olham para a frente e para o chão, pisando com suas botas e mexendo os braços para cima e para baixo, de um lado a outro, para matar o tédio.

— Se, pelo menos, tivesse mais gente… — diz o homem dos binóculos.

— Não faz diferença — retruca o ladrão de cores. — Só iriam atrapalhar. É bom que cada um fique em seu lugar.

O som constante da água interrompido por um ruído distinto. O homem da esquerda e o homem da direita olham para o rio, curiosos com os ruídos de estampidos e baques pesados, como se uma pedra fosse carregada pelas águas e batesse no leito. Um entreolhar entre dois homens. Você ouviu isso que eu ouvi? Um olhar sem ver olhos, por trás da máscara. Um entendimento mudo.

Agora a atenção está focada simultaneamente entre as margens das terras estrangeiras, além da fronteira, e nas águas do rio, que parecem trazer um presente. Uma rocha? Um fardo? Uma oferenda dos estrangeiros que vivem na outra margem?

Não.

Um…

— Olhem! Vocês dois!

O ladrão de cores e o homem dos binóculos desviam o olhar. Desenroscar de uma luneta, abaixar de um binóculo; agora, atenção focada cem por cento no que o rio traz. O ladrão de cores cutuca seu colega, que levanta novamente seus binóculos, ajusta, tenta ver melhor, ali, ali.

— Estão vendo? — É a voz do da direita. — O que é aquilo?

No centro das águas, um fardo enorme, balançando de um lado para o outro na costa, como se perdido, tentando se agarrar a algo. Há braços, há pernas. Quase não para de afundar. Quase é levado embora.

— Isso! Achamos. Um deles. — Um par de binóculos se abaixa com um sussurro. — É um deles! Rápido.

Agilidade. Um binóculo e uma luneta no chão, e quatro homens correndo em direção ao leito do rio. Um gancho no solo, um cabo se estendendo. Dois homens de apoio, dois adentrando as águas geladas de um rio em movimento. Braços que parecem encontrar uma salvação. O toque gelado de metal contra couro úmido, toque perpétuo, um rugido de confusão por cima do ruído das águas. Um grito de puxem. Puxem! Água em tudo o que é lugar. Corações batendo rápido, máscaras arranhadas, respirações ofegantes; um desejo insistente mas irrealizável de remover a proteção sobre o rosto, de deixar que se respire sem auxílio algum o ar poeirento e acinzentado, possivelmente letal, do ambiente inóspito.

Um corpo caído no chão, uma visita que se move, a balançar os braços em simulacro a um homem afogado em meio ao seu martírio. Três rostos se viram em direção ao homem que outrora segurou binóculos, indagações mudas em seu rosto. Ele dá de ombros e se curva sobre o corpo pesado removido da água.

— Vocês sabem que eu sou médico dos nossos, não é? — Voz abafada, caída, descida, como se a neblina a borrasse. — Não sei fazer nada se ele estiver afogado.

— A técnica estava ocupada. Se tivesse vindo… — diz o homem da esquerda. — Temos que levá-lo logo pra dentro.

Aceno de cabeças do homem da direita e do ladrão de cores. O dos binóculos passa a mão pelo corpo caído no centro de todos e sua superfície se enche de partículas das cinzas e da água, misturando ambas em uma mescla lamacenta tingida de escuro.

— Isso aqui ficou um nojo — diz o homem, tentando limpar a cabeça do caído. — Todo pastoso. Mas acho que não está muito ruim. A técnica saberá dar um jeito nisso.

Os braços param de se mexer. O homem da direita concentrado em algo na máscara, a mão no ouvido, como se fosse ajudar. É a conexão, o contato com a base.

— Sim, o temos. É pesado. Sim, dá. Sim. Não. Precisamos ver com a técnica, ou algum equivalente. Qualquer coisa, mas… Sim. O mais breve possível. Não, provavelmente não.

Ele parece terminar.

— Falei com o pessoal lá embaixo. Temos que levá-lo. E pra já. O de sempre.

Um momento de silêncio enquanto as convulsões do outro, por fim, cessam.

— Está morto? — pergunta o homem da esquerda.

— Não. Deve estar só inconsciente — responde o ladrão de cores.

— Não importa — interrompe o homem dos binóculos. — Ele estar aqui já é o suficiente. Se estiver vivo quando chegarmos, ótimo, tanto melhor. Se não, damos um jeito.

Três acenos de cabeça em concordância.

Um ladrão de cores olhando para a eterna desolação de uma fronteira em guerra eterna.

Quatro peregrinos em um deserto de cinzas, um fardo dividido em meio ao nada. Apenas o som das respirações mecânicas por trás de máscaras gastas, sem vida. A fronteira fica para trás. Um visitante inconsciente, pingando com consistência, marca uma trilha por cima da zona de risco.

O ladrão de cores vai atrás, segurando um dos braços e a cabeça do visitante. Enquanto anda, repara em seu lento pendular da esquerda para a direita, até perceber algo em seu pescoço que não um brilho, que não a superfície metalizada e translúcida de seu corpo. Algo a mais. Um pequeno pingente azul-claro, desgastado, quase a ponto de escorregar pelo pescoço até a cabeça e cair nas cinzas, para ser enterrado pelas eras.

Um ladrão de cores não pode deixar isso acontecer.

Eles estão focados andando para a frente. Uma mão discreta, um espasmo de dedos, um movimento ágil para desengatar a corrente e deixar que o pingente caia em suas luvas cinzentas, que se fecham com força por cima do objeto circular. E, assim, desaparece. Eventualmente.

Eventualmente, uma parada.

Eventualmente, um assovio, um código.

Um alçapão desliza pelas cinzas em direção ao subterrâneo, onde o mundo de verdade espera pelos quatro homens e seu fardo. Luzes se projetam debaixo para cima, de dentro para fora, enquanto pequenas quantidades de cinzas caem pelo vão. Mal os homens descem pela rampa, ainda carregando o outro em seus braços e ombros, o alçapão volta a se fechar. Não surge um sentimento de perda e desejo pela superfície.

Corredor cinzento iluminado por luzes laterais; sons de botas cobertas de poeira por um chão liso. Um chão repleto de pequenas partículas de cinzas caídas do corpo dos soldados. Portas deslizam, uma surge à direita. Os quatro deixam o fardo no meio do corredor, entre as cinzas; caminhando, em fila em indiana, para a abertura que acabou de aparecer. A porta fecha com um estalo. Jatos d’água inundam o ambiente, limpam as cinzas, transformam partículas inóspitas em uma massa grossa, escura e inofensiva. Ao fim, um cômodo quadrado branco. Um soar agradável de apitos.

Quatro máscaras deixam a cabeça dos soldados, caindo no chão molhado com baques baixos. Ouvem-se respirações satisfeitas de quatro homens livres de suas amarras, como se estivessem aproveitando o ar diretamente pela primeira vez.

O ladrão de cores agora tem seu rosto visível; os cabelos quase platinados amassados, a pele alva e pálida de quem jamais viu a luz de uma estrela, o único olho cinzento que avalia todos os seus arredores com a indiferença cansada de quem já esteve ali muitas vezes. O homem dos binóculos tem a mesma cor e dois olhos, mas um cabelo que se estende até o fim do pescoço de safra avermelhada e castanha, uma cor de verdade. O homem da direita e o homem da esquerda ambos têm cabelos pretos no mesmo corte, os mesmos olhos castanhos, as mesmas feições, os mesmos rostos.

O ladrão de cores tira o sobretudo e os outros o seguem no ato, para depois sair por uma porta à esquerda que não é a mesma pela qual entraram. Outro corredor, branco e largo. Chão límpido, desta vez sem cinzas e, enquanto pingam de frio, os quatro são movidos por uma esteira até onde poderão se trocar. Uniformes secos. Os usados, para lavagem. E lá estão os quatro, de novos uniformes, secos com toalhas reutilizáveis, tomados por um frio dilacerante que, mesmo com a mão no rio, o ladrão de cores não costuma sentir.

Um labirinto de corredores. Branco que emana das paredes, cinza que emana dos tetos, pequenos corredores estreitos que levam de um extremo ao outro através de inúmeras curvas e voltas desnecessárias. Conexões inexpressivas, redundância burocrática, andares e mais andares de serviço a serviço de um bem maior, a serviço de uma proteção nacional. E por ligações curtas entre pontos A e pontos B, um corpo metálico e ensopado é carregado por homens de cinza até o seu ponto de encontro, até a mulher responsável por cuidar desta parte de um trabalho complexo. O ladrão de cores e um de seus colegas — não os gêmeos, mas o homem que um dia usou binóculos — atravessam corredores atrás de sua caça. Nós que o encontramos.

Azul-claro em suas mãos.

Em um pequeno pingente, a lembrança de dias deixados para trás, dias que jamais existiram. Longe da fronteira, a quilômetros e quilômetros das cinzas infinitas e do rio ruidoso, há uma cidade. Uma cidade grande e alta, de prédios amontoados e separados, quadrados, retangulares, angulosos. Filas e filas de prédios e ruas que se movem sozinhas. Ali há mais casas que pessoas, mais prédios que amizades, mais ruas que amores. Pintada de negro, cinza e branco, há longe dali uma cidade de silêncio onde as pessoas olham para os lados e para trás, sempre com medo do que repousa para além da fronteira, e enviam mais e mais de seus colegas para uma guarnição, para um quartel onde possam defendê-los de uma ameaça metalizada. Há, afinal, uma cidade que se esvazia conforme seus habitantes se movem para a fronteira, para as instalações de defesa, para longe de seus afetos, para longe de suas cores.

Azul-claro não há, vermelho-escuro, rosa-choque, púrpura, o verde forte de um papagaio. Não.

Uma sala com duas silhuetas. O ladrão de cores e seu colega adentrando o ambiente. De um lado, uma mulher de cabelos brancos e expressão cansada, com os braços sobre o colo e os olhos fixos nos dois que entram. De outro, atado a uma cadeira de metal fosco, o resgatado do rio, a coisa que precisam lidar.

O outro.

— Como ele está? — pergunta o dos binóculos-sem-binóculos.

— Acho que dei um jeito — responde ela. — Está reiniciando. Em breve, bem em breve, poderemos tirar algo de bom dele.

— Não é mais fácil abrir e pegar à força?

— Com esses, não. Muito complexo. Já não fazemos nada assim há décadas, e temo que ainda não possamos remover informações precisas de um sistema tão intrincado. Tão… como dizer? Sei lá, auto-melhorado.

O homem acena com a cabeça.

— Você é a especialista.

O ladrão de cores se senta em outra das cadeiras, encarando o ser à frente. Sente o impulso de perguntar há quanto tempo não se faz um daqueles. Há décadas. Um ser humanoide de braços longos demais, pernas longas demais. Uma cabeça lisa de metal fosco mas polido, redonda no topo e atrás, com um visor negro que ocupa toda a parte onde deveria haver uma face. Pescoço longo. Tudo prateado; nada de tinta, nada de chamar atenção, nada de cores. Em uma fronteira de cinzas, a melhor camuflagem.

Como enfeite, apenas um pingente azul-claro, agora um espólio de outro, para sempre tomado dele.

Pouco a pouco, luzes no visor preto. Luzes brancas que se compõem em padrões distintos e irregulares, formando geometrias e curvas, cálculos e ondas, como se um padrão pudesse tudo demonstrar, como se a morte fosse evitada por um mero piscar, duas vezes, três. A técnica observa sem pestanejar, esperando pelo fim, enquanto o homem dos binóculos agora parece entediado, andando de um lado para o outro, desconfortável em seu uniforme limpo e seco.

Por fim, convulsões em mãos de seis dedos, em pernas que se estendem até muito depois do chão. Guinchos, sons agudos; rugidos, sons graves. Cabeça para a frente e para os lados. Movimentos estranhamente humanos.

Fim. Voz.

— Hum. — Só isso. Só isso sai. Só o som grave de um tenor bem treinado.

— Você entende o que eu digo. — É a técnica.

— Sim.

— Você é agente da fronteira.

— Sim.

Corpo imóvel, cabeça imóvel. Sons que parecem sair por alto-falantes na nuca do outro.

— A última coisa da qual se lembra?

Silêncio.

— A última coisa da qual se lembra? — repete ela.

Novamente, nada.

— Não se lembra de nada?

— Lembro.

— A última coisa?

— Esta informação não é para você.

Um esgar de frustração comedida, um suspiro de quem já espera por isso.

— Não se argumenta com um outro — cede ela, resignada, enquanto se levanta e se posiciona atrás da cadeira do autômato. — Vamos ter que tentar desbloquear umas autorizações.

O ladrão de cores observa impassível a tentativa inútil de resistência, braços e pernas, pescoço e cabeça.

— Tentativas desengonçadas de interferir com minha programação, deve saber, podem me corromper irreparavelmente. — A voz de tenor do outro.

— É um risco que temos de correr, não é?

Mexe, mexe. Um cômodo semi-iluminado, silhuetas no aguardo, guinchos e rugidos que ninguém realmente quer ouvir.

— Agora vai?

— Não. Ainda não.

Mais, mais.

— Meu pingente.

Silêncio.

— O quê? — pergunta a técnica.

O homem dos binóculos parece levemente interessado.

— Onde está meu pingente?

— Que pingente?

— Azul. Meu pingente azul. Estava no meu pescoço.

— Isso importa?

Um ruído grave e constante. Não se sabe se é um grito de frustração ou engrenagens desalinhadas.

— Você quebrou algo nele? — O homem dos binóculos.

— Não. Sabe de que pingente ele está falando?

— Sem ideias. Não me lembro de nenhum com ele quando o pegamos. Você se lembra? — Vira-se para o ladrão de cores

Hesitação. Ombros balançando em indiferença. Sente mais do que nunca o peso do amuleto no bolso de seu uniforme, a única evidência de um crime inafiançável.

— Então sei lá. Talvez tenha caído no rio.

— Não. Estava comigo — diz o outro, depois de parar com o som.

— Então? Pode ter caído nas cinzas. No caminho para cá. Do que importa?

Silêncio.

— Importa? — insiste a técnica.

Silêncio. O ladrão de cores dá de ombros.

Em sua mente, uma explosão.

Em um mundo cinzento, uma explosão de cores se dá em pequenos pontos esquecidos pelas cinzas do chão e pelas águas do rio. Por cima dos inúmeros prédios que inundam a capital, que populam o mundo sob o céu nublado, há pepitas coloridas de diferença que dão a cada pequeno trabalhador, do sargento na fronteira ao auxiliar de escritório em um prédio de cinco andares, as razões para continuar a caminhar no dia a dia pelas esteiras lentas.

Na guerra contra os outros, eles roubaram nossas cores ou as perderam tanto quanto nós? Um ladrão de cores se lembra de um mundo só mostrado em livros e montagens, em projeções cada vez menos frequentes, de quando o céu era azul e a terra era amarronzada, de quando as roupas eram roxas e as paredes podiam ser amarelas; de quando as árvores eram verdes. Pouco a pouco, um pedaço aqui, um pedaço ali, as cores voltam, as cores transpassam as fronteiras para países desconhecidos, para além da selva cinzenta de rochas e as areias cinzentas infinitas do limiar entre dois mundos condenados a uma guerra esquecida.

Duas horas depois, por exemplo.

— Por que combatemos os outros?

— Porque eles querem nos destruir, é claro.

— E por que eles querem nos destruir?

— Ahn. Porque escravizávamos eles. Ninguém gosta disso.

— Somos os vilões, então?

— Só se você achar que a matança é justificada.

— E o que estamos fazendo com eles? O que a técnica está fazendo com ele?

— Você acha que uma máquina pode morrer? Elas só são desligadas.

Quem sabe, quando a guerra acabar, possamos ligá-las de novo.

— As máquinas não sentem nada.

— Ele queria o pingente.

O pingente em seu bolso.

— Não devia haver pingente nenhum. A técnica deve ter mexido na alavanca errada e ferrado com toda a programação daquele outro.

Agora vão ter que dissecá-lo por inteligência, por informação, por algum dado crucial que possa dá-los alguma espécie de vantagem competitiva, alguma posição estratégica. Qualquer coisa. Só queremos voltar para casa; para nossa boa e velha selva de pedra.

Um labirinto se repete. O ladrão de cores se aproxima de seu quarto quando tem uma espécie de epifania. O pingente azul-claro no bolso. Agora, o pingente azul-claro em suas mãos, a forma arredondada, meio oval, fosca e arranhada do objeto preso por uma cordinha. O impulso de abri-lo, seguido pela certeza de que não pode fazê-lo.

Então, em um rosto caolho, um sorriso. Um sorriso acompanhado do movimento do pingente de volta ao bolso e uma meia-volta. Uma virada à esquerda, outra à direita.

Várias salas: a técnica no refeitório; um sargento redigindo um relatório; o autômato em seu cômodo apertado, escuro, desligado. Não, espere; ligado. Luzes brancas piscando em seu visor, voz de tenor.

— Olá. Veio me dissecar?

— Não — diz o ladrão de cores. — É que achei seu pingente.

O pingente azul-claro cai em direção ao outro, na altura de seus pés. A porta se fecha e se tranca, sela-se atrás do ladrão de cores enquanto ele caminha de volta para seu quarto, o pensamento que fazia o pingente pesar em seu bolso enfim solucionado, deixando-o finalmente com paz de espírito. Quando ele entra no dormitório, passando pela porta branca em direção à cama, resolve que quer dar uma olhadela em seus espólios, uma olhadela bem rápida. Enquanto ninguém entra pelas portas, enquanto tem um pouco de paz para si.

Está tudo claro em sua mente: aquele autômato não tem nenhuma informação.

Uma caixinha de metal, de aproximadamente cinquenta centímetros.

Os outros devem estar ficando cada vez mais desesperados para se rebaixar a isso.

Dentro da caixinha, seus espólios de guerra.

Talvez seja um movimento realmente desesperado, ou talvez eles queiram passar a impressão de desespero para que achemos que estamos em vantagem. Guerra psicológica é tão complicada.

Dentro da caixinha, todas as cores que roubou. Uma folha marrom de árvore. Uma mecha de cabelos laranjas. Um pano coberto de sangue rubro. Uma pétala murcha, amarela, de girassol. Uma faixa de tecido púrpura.

O som abafado de uma explosão. Um bam. Um alarme de emergência. Aquela sala é selada, o ladrão de cores bem sabe. Ninguém vai se ferir, ninguém se feriu.

Gostaria de ter adicionado um pingente azul-claro à sua coleção.

Era, precisava admitir, uma boa isca.

Nesse mundo preto, branco e cinza, deve-se roubar todas as cores possíveis para dar uma profundidade à vida, para evitar cair no marasmo depressivo ao qual tantos soldados da fronteira já cederam. Desde o tecido tingido de rubro deixado para trás por um dos caídos em batalha até a improvável pétala de girassol encontrada solitária ao poente próximo à cidade em uma das visitas para casa. Uma cor aqui, uma cor ali; nenhuma dele, mas todas apropriadas, roubadas; todas em sua caixinha, lembrando-lhe por que, dia após dia, continua a ficar naquele lugar esquecido pelos deuses e pelas pessoas: apenas para garantir que um mundo minimamente colorido, bonito, continuará a existir lá fora para pessoas como ele, para pessoas que puderem viver de roubar as últimas cores. É apenas natural que algo assim tão chamativo, tão propício a ser roubado, servisse de isca. Talvez o outro tivesse esperado um confisco, que quiçá alcançasse um general, um coronel, alguém importante — apenas para se decepcionar quando seu artefato foi devolvido.

Enquanto soldados passam correndo em frente ao quarto em direção ao som da explosão, o ladrão de cores pensa no pingente azul-claro. Bem que gostaria de tê-lo adicionado à coleção. Bem que gostaria. Mas, é claro, se o fizesse, agora estaria em pedaços. Múltiplos pedaços coloridos.

Seria ele mesmo um festival de vermelho.

Bruno Magno Alves
Bruno Magno Alves
Bruno Magno Alves é um paulistano de 21 anos fazendo vezes de carioca há quatro. Está para terminar a faculdade de Produção Editorial. É assistente editorial na Bertrand Brasil, revisor e preparador de texto freelancer e escritor nas horas vagas. Publicou contos pela Editora Draco e nas revistas Flaubert e Subversa. Também tem uma coluna sobre literatura no TagCultural.

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Um comentário

  1. Rodrigo Cronwell / 5 de novembro de 2016 at 13:38 / Responder

    Ha, gostei muito do conto, do clima, bem atual…diferente tb…
    talvez pela sincronicidade, tive que clicar em qualquer musica de minha playlist e comecei
    a ler o conto a partir da musica “Sollar Sailer”, do album Tron legacy da dupla Daft Punk, e deixei tocar na ordem
    do álbum e no ritmo da minha leitura… casou certinho.

    Meu primeiro acesso na Trasgo, belo começø!

    Prbns Bruno!

    Abs!

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