Ventania

2

As pontas das hélices giravam levemente ao sabor dos ventos do Atlântico, pouco ruidosas mesmo após tantas décadas. Talvez fosse verão. Talvez fosse um inverno quente demais. Já não se podia reconhecer qual estação. Mesmo a contagem dos anos parecia anacrônica, defasada. Ninguém mais se importava com os dias.

Sentada nas dunas uma mulher olhava para o crepúsculo no mar, cabelos fustigados pela ventania afoita, pele em bronze e vestido de renda branco, escurecido pelo uso e pelas intempéries. Os arbustos balouçavam, vez ou outra violentamente, mas ela não se movia. Então a maré veio e as águas salgadas aos poucos tocaram seus pés, e ela arrepiou-se. Levantou-se com alguma dificuldade após algumas horas ali, andou até o pé do colossal cata-vento metálico e agachou-se, desplugando uma bateria que estava junto ao painel da turbina.

Seguiu trilhando um caminho incerto nas areias. Ao seu redor viam-se dezenas de turbinas eólicas espalhadas por toda a extensão daqueles montes arenosos e arredios. Algumas quebradas, hélices tortas, outras caídas e enegrecidas pela ferrugem; as mais velhas pareciam ter sucumbido à maresia, varridas pelas areias do tempo. Algumas mais novas ainda pareciam funcionar, embora nada estivesse funcionando tão bem como outrora.

Após muitos passos, chegou a uma cabana erguida sobre palafitas. O teto era de palha de coqueiro e o cheiro de maresia. Na varanda, um par de olhos acastanhados e curiosos fitavam-na com alívio.

“Tá doida, mulher? Sair assim sem nem avisar?”, disse o homem, franzindo a sobrancelha esparsa e se levantando da cadeira onde estava. Em seu rosto o calor havia cortado marcas rigorosas, mas não lhe deteriorara a jovialidade e agudeza. Os cabelos castanhos eram do mesmo tom de sua barba rala, que coçava sem perceber. Na sua boca viam-se todos os dentes e um cigarro de palha. Nas suas mãos uma espingarda Rossi Puma 775 modificada.

A moça virou-se impaciente para o homem. “Tinha que recarregar a bateria do catalisador, tava precisando. Cadê o resto que não chegou ainda?”

“’Tão chegando. Cê tá doida mesmo, ir sozinha e a pé. Se quer morrer diga logo.”

“E daí, qué que cê vai fazer? Fica na tua aí”, desafiou a moça, e subiu por uma escada na lateral. Entrou como um tufão pela porta, passos atrevidos pisando forte no chão de pau. O homem apenas se espreguiçou e voltou a espiar o mundo à frente, a escuridão do começo da noite e o farfalhar dos coqueiros.

Não muito tempo depois um barulho de motores anunciou a chegada de cinco pessoas em quadriciclos. “Graças a Deus! Pensava que não iam vir mais nunca”, disse o homem na varanda.

“Foi mal, tivemos um problema ali na Rota. A filha de Malvino morreu” disse um dos recém-chegados, após descer do aparelho e tirar o capacete. Era moreno, de nariz largo, olhos juntos e compenetrados. Tinha o cabelo crespo quase raspado e um crucifixo pendurado no pescoço. Todos vestiam o que pareciam ser trajes de proteção bioquímica. Os outros permaneceram nos veículos, sem intenção de descer. “Marco, temos que abandonar essa vigia. Eles tão vindo, bem uns duzentos ou mais de uma vez só. Não dá pra ficar”.

“Sei…e as turbinas?”, perguntou Marco, deixando a ponta da espingarda tocar no chão.

O outro nada disse, sua frustração visível. Marco assentiu com a cabeça. “Glória!” Chamou. “Tá na hora da gente ir”.

A moça que estava dentro da cabana apareceu, com um capacete debaixo do braço, uma pistola Bersa .22 em uma das mãos e uma mochila Speedo preta nas costas. Olhou para Marco e para o outro, e então entendeu. “Deu merda, né? Vamo logo, tu me conta no caminho”.

O homem moreno assentiu e mandou os outros buscarem tudo que fosse possível de dentro da cabana. Logo vieram com caixas metálicas e equipamentos eletrônicos, alguns visivelmente avariados.

“Caio, não dá pra gente levar o medidor, é grande demais”, disse uma mulher de sardas.

“Deixe aí. Destrua o que não puder levar”, respondeu o moreno.

Pouco tempo depois o local estava em chamas e os cinco quadriciclos corriam por entre as dunas seguidos por Marco e Glória numa Yamaha Tornado vermelho. As matas afogavam-se na escuridão e apenas as estrelas pontilhadas no céu noturno iluminavam. O som dos motores era só o que se ouvia.

Logo atravessaram as dunas e o matagal para alcançar uma estrada de terra batida, rodeada de arbustos ásperos, carrapichos, um cajueiro aqui e ali. O ar era quente mas arejado. O cheiro da maresia invadia a pele e as roupas, com o sal do mar impregnando tudo ali, tão perto da praia. Touros era como chamavam aquela região, embora poucos se recordassem da história do lugar. Antigamente um vilarejo tropical, refúgio para os que buscavam a tranquilidade praieira, ponto de festas em carnavais e veraneios que lentamente foi encontrando um fim peculiar e imprevisto. Até que o mundo mudou, e Touros com ele.

E lá, ao longe, uma torre negra assomava.

Uma estrutura lânguida e imponente; colosso em enormidade, primazia da engenharia humana, o marco de uma época que morreu com promessas de grandiosidade e esplendor. Aos poucos se via que a torre maciça na verdade era decorada em padrões de branco e negro, como que para simbolizar a dualidade das coisas do mundo, o ciclo de fim e reinício de tudo que habitava por sobre a terra. E como se sua mera existência não fosse suficiente, próximo ao seu topo giravam verticalmente as maiores hélices que o mundo já tinha visto, cada espátula do tamanho de prédios inteiros a se mover incessantemente sem um ruído sequer.

O Farol de Ventania intimidava até o mar.

E para lá eles se dirigiam, cavalgando seus cavalos mecânicos na expectativa da catástrofe anunciada.


Há muito tempo que o farol não lançava fachos de luz para o céu noturno. Ao redor dele, uma praia de areia branquíssimas se estendia. A vegetação era pouca. Tendo sido construído sobre fundações profundas, com a circunferência da torre se estendendo de tal modo que uma parte de sua base servia como um pequeno porto, um ancoradouro para lanchas e iates de abastados em tempos idos. Agora só havia uns poucos destroços se movendo ao balanço do mar.

O grupo seguiu pela estrada de pedra que levava ao farol até alcançar seu portão principal, voltado para o continente. Reduziram a velocidade e entraram. Foram recebidos com alguns sorrisos e rostos familiares, no local que era comumente chamado de o Saguão, pátio largo de muitas ranhuras no chão de rocha polida. Aqui e ali ficavam balcões de recepção sem uso, salas que foram escritórios, painéis de LCD rachados, corredores que levavam para outras seções do térreo, tudo sendo utilizado para o que quer que fosse conveniente ao povo que ali habitava.

Eram aqueles que haviam desejado escapar da fúria na queda da civilização e encontraram alento nos braços de concreto daquela estrutura construída para as benesses de alguns grupos ricos e empresas de alto capital. Décadas e mais décadas poderiam ter se passado, mas ali ainda subsistia sua comunidade, cultivando seu alimento em andares inteiros, criando animais, usando a própria energia da turbina eólica colossal que girava apesar dos tempos, persistindo na vida e nos resquícios de humanidade que ainda restavam. Agricultores, pescadores, empresários, vendedores, médicos, muitas gentes de todas as origens e profissões que habitavam Touros e arredores no passado haviam corrido para lá e agora já não havia mais esse tipo de discernimento entre os seus descendentes. Todos sabiam fazer um pouco de tudo, e alguns faziam certas atividades melhor que outros. Aos poucos uma divisão de tarefas foi sendo estabelecida, técnicas que com o tempo foram ensinadas para as futuras gerações a fim de que não se perdessem com o fim da civilização.

A energia da torre era um dos motivos que a tornava um bastião relativamente seguro em meio àquele mundo em ruínas. Graças ao primor da engenharia e arquitetura envolvido em sua construção, as enormes hélices faziam parte de uma turbina extraordinária que ocupava pelo menos dez andares próximos ao topo de Ventania, e daí vinha quase toda a eletricidade usada na comunidade. Alguns diziam que a turbina nunca havia sido desligada em todo seu período de funcionamento, e até acreditavam que seria impossível interromper o movimento das hélices àquela altura, a não ser que a torre fosse destruída por completo e ruísse como todo o resto do mundo.

Contudo, nas bases da torre, especialmente junto ao pequeno porto que lhe estava anexo, quem quer que fosse envolvido na manutenção da parafernália que punha Ventania funcionando sabia que existia um gerador construído junto às fundações de metal e concreto, movido pela força pujante da maré em seu avançar e retroceder. A torre era uma preciosidade da época em que fora criada, sua sustentabilidade alardeada aos quatro ventos. Até que o mundo mudou e puseram-na num papel mais valioso e infinitamente mais necessário.

No Saguão alguns estavam reunidos, muitos dos quais responsáveis pela segurança de todos. O térreo era o lugar em que depositavam a maior parte das armas de fogo que conseguiam coletar pela costa e pelo interior, embora muito ali ainda fosse intocado e antigamente parte do material utilizado pela equipe policialesca que protegia o farol antes de seus magnatas partirem dali.

“Fico feliz que tenham voltado bem”, disse uma senhora que saía da sala de câmeras.

Caio acenou com a cabeça. Ao redor, homens se postavam em guarnições improvisadas próximas às poucas janelas de vidro que não haviam sido lacradas com o passar dos anos. Em patamares mais superiores alguns faziam vigília em salas cujas paredes foram inteiramente derrubadas para facilitar o acesso. O teto do térreo possuía uma altura de praticamente oito andares inteiros. A iluminação era suficiente, embora algumas lâmpadas estivessem quebradas. Das escadarias ouvia-se sons de conversas e muitos passos, indo e vindo, mas os vinte elevadores quedavam silenciosos e inertes.

Os homens que estavam com Caio retiraram seus trajes e seguiram para suas tarefas rotineiras. Marco conversava com uma das moças combatentes quando Glória o chamou e chegou junto a Caio com um esgar de ansiedade.

“Como que tá Malvino?”, perguntou.

“Não sei, ainda não vi”. E continuou. “Olha, ele vai ficar bem. De verdade.”

“Caio, ele é o único que consegue entender direito esse farol! Se ele faz alguma besteira as coisas vão ficar muito difíceis pro nosso lado. E a única filha dele morreu, caramba!”

“Calma, Glória! Se tu tá tão preocupada assim com ele vai atrás dele e me deixa em paz! Não tá vendo que tá todo mundo com a cabeça cheia agora? E ainda tenho que perguntar pra Amaro detalhes do que aconteceu”, respondeu Caio, cenho franzido. Por segundos nenhum dos dois falou nada.

Marco falou, meio baixo. “Pessoal, não adianta ficar de bate-boca aqui não, ainda mais vocês dois. Os outros tão começando a olhar pra cá”, disse, abafando o som com a mão.

Calados, Caio e Glória se dirigiram cada um para sua própria direção, enquanto Marco apenas coçava a barba acastanhada. Não os conhecia tão bem quanto a comunidade do farol, principalmente porque tinha vindo de outro lugar. Nascido em Areia Branca antes da queda da cidade, Marco Santana havia perambulado junto com um dos muitos grupos de sobreviventes que percorreram a Costa do Sal para chegar ao litoral leste. Ouviam histórias sussurradas de que havia salvação em Touros, e que de lá partiam barcos para abrigos permanentes no sul do continente.

Poucos conseguiram de fato chegar ao destino. Uns cederam às intempéries de um clima cruel, outros aos ataques de bandos espalhados pelo interior da região. Aos poucos o grupo de Marco foi diminuindo, e ao final apenas um punhado chegara à Ventania. A essa altura ele já nem lembrava mais o rosto de seus pais, esquecidos pelos anos.

Viu Caio conversar com seus homens e Glória subir as escadarias sem olhar para trás. Passou um tempo apenas ali, assistindo ao movimento das pessoas e do maquinário que tinham trazido. Olhou para o portão fechado e então foi mexer em sua Yamaha vermelha, sem se importar muito com o que seria do dia seguinte.


“Ela se foi. Esqueça.”

Malvino apenas sentava com as mãos na cabeça. Seus olhos marejados vermelhos de choro, arregalados de desespero, descrentes da verdade. Não sabia de onde vinha aquela voz, muito menos se havia alguém ao seu lado. Estava completamente alheio ao mundo. Tudo parecia insignificante, banal.

Pouco depois do amanhecer daquele dia os vigias da Rota haviam retornado, alguns deles feridos a bala. Amaro, líder do grupo e já em seus cinquenta anos, mas robusto como um boi, dissera que houve emboscada numa curva da BR-101, ou como os mais velhos chamavam a estrada que naqueles dias se falava apenas ser a Rota. Eles haviam vindo, dezenas, todos armados, todos loucos. Não havia o que fazer senão escapar.

Malvino ouviu a notícia sem saber como reagir. Procurou a filha entre os sobreviventes. Não encontrou. Olhou para Amaro já com lágrimas e desabou, com as mãos enrugadas cobrindo o rosto. Ninguém fora lhe consolar. Todos já haviam perdido alguém, todos já haviam chorado, todos já haviam sido esmagados pela ausência de algum ente querido. Ia passar. Ia esquecer.

“Ela se foi. Esqueça.”

E o velho pescador apenas sentava. Não sabia o que fazer daí para frente sem sua filha, sem sua única filha, a filha que havia sobrado. Todos haviam partido. Mas ela não, ela tinha que viver para sempre. Ou até ele morrer. “Que injusto, a filha morrer antes do pai”. E então ele se voltava para Deus, orava em silêncio contrito, mas a fé simplesmente não vinha mais. Juntava as mãos com fervor, deixava-as roxas de convicção. Ainda assim a fé não estava lá.

“Ela se foi. Esqueça.”

Malvino olhou para o peitoril que o separava do horizonte. Estava em uma das altas ameias do farol de frente para o mar. Só enxergava a escuridão na frente de si, e nela não via nada; não via as noites em que passou nas águas à procura de peixe bom para comer, não via as noites em que sua filha lhe acalentava as dores da idade com cantorias semiesquecidas, não via o rosto de seu pai nem de sua mãe nem de seus irmãos nem dos outros filhos: apenas o breu. E ele se ergueu e se apoiou no parapeito. Na escuridão não via mais nada. Subiu e sentiu o vento gélido fustigar-lhe as roupas, fazer tremer as abas de seu chapéu de palha e arrepiar seus bigodes brancos.

Só via o breu.

“Ela se foi. Mas não esqueça.”

Dessa vez a voz lhe era diferente, e ele ouviu como se fosse sua filha lhe chamando. E na sua frente ele viu o rosto dela flutuando longe, no mar escuro, sorrindo para ele. E ele sorriu de volta e chamou. “Tiara. Tiara, minha filha”. E ela sumiu.

Malvino desceu e respirou uma, duas, três vezes. E então viu que atrás dele estava uma moça em vestido de renda branco, já muito desgastado pelo uso e pelas intempéries. Seus cabelos escuros emolduravam o rosto bronzeado de feições ácidas e arredondadas. “Não esqueça”, ela disse.

E o velho pescador mais uma vez sentou e chorou, mas dessa vez com o júbilo sussurrante da libertação.


Glória havia deixado Malvino em seu luto e descia as escadarias para o Saguão. Havia muito a ser feito para reforçar a proteção do farol caso um ataque fosse acontecer nas próximas horas. Grupos haviam sido enviados para buscar os vigias que ainda estavam em seus postos: a guarnição da Rota, Matagal e Turbinas já estavam ali. De Rio do Fogo só ouviram relatos de explosões e tiros dos vigias de Lagoa do Fogo, que estavam chegando em grupos esparsos. Muitos ensanguentados, mas todos haviam conseguido escapar do pior.

Em sua imensidão o Farol de Ventania poderia manter com algum conforto todos os refugiados. Quando fora construído haviam lhe providenciado lojas, hotéis, cassinos e restaurantes, tudo com promessas de atrair turistas de todos os cantos e fazer jus à maior turbina eólica que já existiu. Depois que o mundo mudou e os governos caíram, Ventania foi tomada por uma sucessão de sobreviventes que preservaram a comunidade que ali se fez até então.

Junto ao portão de entrada estava Caio. “Tem notícia do pessoal de Cajueiro?”, Glória perguntou.

“Sim, sem sinal de bandos. Mas se Ventania cair, eles caem também. Tão preocupados”.

“Eu também estaria. E a guarnição do Boqueirão?”

“Marco foi com quatro dos meus buscá-los. Deve ser o último grupo que tamos esperando”.

Glória não perguntou mais. Amarrando os cabelos em um nó, seguiu para dar assistência aos recém-chegados. Caio viu-a carregando caixas e supervisionando o inventário de máquinas. Nos andares superiores o movimento também era intenso. Sentia-se frustrado por não ter conseguido trazer mais das guarnições. Bons homens e mulheres ainda estavam lá fora, sem saber que os bandos estavam em movimento incomum.

Os bandos. Eles. As nêmeses de todos aqueles que haviam sobrevivido, e eles mesmos sobreviventes ao seu modo distorcido e doentio. Caio não sabia ao certo como se tornaram assim ou se ainda lhes havia esperança para, só sabia que eram ausentes de misericórdia. Portanto, a recíproca precisava valer.

Uns diziam que eram filhos do câncer. Talvez fosse verdade. Sabia-se que em suas deformidades e mutilações eram prole de gente que um dia foi contaminada pela radioatividade da capital e que não morreu, mas persistiu em condições cada vez mais estranhas. Mesmo sua mente era torta e quase alienígena.

Outros diziam que de tão entranhados com radioatividade nem sequer pareciam sofrer em sua presença. No lugar de membros decadentes ou faltantes cirurgiavam implantes, arremedos artificiais para compensar os defeitos congênitos. Ainda que ninguém conseguisse distinguir a língua para qual degeneraram, sabia-se que se compreendiam entre si e que sua inteligência se manteve preservada por algum meio tortuoso, ou mesmo aprimorou-se, de alguma bizarra forma. Apesar disso, pareciam ignorar qualquer relação com os humanos que ora foram e pareciam destituídos de empatia e compaixão.

Caio temia todos eles. Contaminavam tudo que tocavam; enfrentá-los era sempre risco de se expor à radioatividade latente de seus organismos. Muitos voltavam doentes após confrontos, alguns sendo forçados a uma quarentena que nem sempre cessava.

Do Saguão era possível defender Ventania sem dificuldade. A única entrada era travada eletronicamente. De patamares superiores era possível ter ampla visão de todos os arredores do farol. Homens já estavam posicionados com espingardas e carabinas em mãos, uns trêmulos de ansiedade, outros pouco mais que respirando na espera de um ataque que parecia iminente.

O rifle GSG-5 que Caio segurava parecia mais pesado a cada dia. Mas não poderia esmorecer. Jamais. Não na frente deles. Tinha que lutar mais, lutar melhor. E se fosse necessário, lutar para sempre.


O alarme soou com estridência na madrugada. Os homens de vigília logo buscaram suas armas e miraram para o caminho à frente. Caio havia dormido nas proximidades do portão principal e levantara-se de pronto, pondo seu rifle às costas rumo às telas de segurança na saleta vizinha. As câmeras mostravam pouco na escuridão da trilha, mas com cuidado era possível enxergar alguns pontos luminosos ao longe.

Pessoas logo acordaram, alvoroçadas. Umas já corriam para buscar suas armas, outras se adiantavam para se proteger do que quer que fosse. O Saguão se enchia de gente, e ainda assim o silêncio entre os passos era opressivo. O nervosismo se notava na respiração uns dos outros. Caio segurava forte seu rifle e apertava os olhos para conseguir discernir o que estava vindo pelo caminho do farol.

Era Marco.

Guiando sua moto vermelha, Marco Santana vinha em velocidade, levantando poeira nas trevas e finalmente ligando a luz da Yamaha. O roncar furioso de seu motor rosnava pelos ares violentamente, e todos gritaram quando Caio falou no microfone do sistema interno de som: “É Marco, É A PORRA DO MARCO!”

Os portões se abriram com algum barulho metálico. Em alguns segundos adentrou o motoqueiro, freando bruscamente e arranhando o assoalho do saguão com a marca preta de pneus. Tirou o capacete, mas sua expressão era de terror.

“Eles tão vindo, fechem tudo, FECHEM TUDO! AGORA!”

Alguns ainda com sorriso no rosto mal haviam entendido o que ele acabara de dizer. “PREPARAR PRA ATIRAR”, a voz eletrônica de Caio ecoou pelo local, seguida do fechamento automático do portão.

Caio não conseguia ainda compreender bem as formas que apareciam nos monitores, mas reconhecia muitos. Eram bem mais do que haviam calculado. Talvez fosse meio milhar de criaturas, todas no encalço de Marco. Andavam em motocicletas enormes, alguns em carros que ele nunca viu na vida. Aqui e ali notou três caminhões sem capota, e neles geringonças elétricas que só poderia ter sido fabricadas por eles.

A tensão explodia no Saguão. Entre gritos, tiros e deprecações, Marco explicava, em ritmo alucinante, como conseguira buscar os vigias de Boqueirão a tempo de se salvarem de um ataque quase certeiro dos bandos enquanto vinham em disparada rumo ao farol. Contudo, de súbito depararam-se com criaturas na estrada, que os surpreenderam e atacaram a guarnição. De lá muitos foram atingidos e caíram moribundos, enquanto os que tentavam escapar iam sendo chacinados um a um pela turba que os perseguia. Na moto, alguém da guarnição de Boqueirão jazia com inúmeros rombos em suas costas, caído sobre o selim. “Ele me protegeu”, arranhou Marco.

Entretanto, lá fora os bandos não pareciam se mover. Caio ordenou que parassem os tiros e veio de encontro ao motoqueiro. “Qué que cê viu, Marco? Me diz! O que é que eles têm?”

Marco ainda estava frenético. “Não sei, não sei! Tão loucos, nunca vi eles assim! Espera…cadê os tiros? Pararam!? Por quê, meu Deus!? Matem todos eles!”

Caio deu-lhe um tapa. “Calma, porra. Eles pararam. Tão longe demais do farol. Tá escuro demais pra ver”. Olhou ao redor para as gentes ainda atônitas. “Não sei o que foi que aconteceu, mas nada de pânico! Todo mundo já sofreu o bastante pra ficar de histeria com isso, vamo nos preparar como a gente já tava fazendo. Agora!”

Como que saindo de um transe, voltaram a si e retornaram aos preparativos. Os mais experientes ficaram junto às janelas nos patamares, observando o que quer que estivesse na escuridão. Capitão Amaro equipava um grupo de rapazes que estava alheio à discussão. Glória descia as escadarias.

“Caio”, disse num murmúrio, “vem comigo”.

O homem assentiu e foi, arrastando consigo Marco, que apesar de tudo parecia inteiro. “’Cê vem comigo”.

Ventania contava mais de cem andares, mas com o tempo todos os elevadores haviam se quebrado ou estavam em condição incerta de uso. Por medida de segurança ninguém mais usava, e com isso costumava-se habitar somente os andares mais baixos. Até o quadragésimo andar ainda se encontravam gentes, mas mais que isso era incomum encontrar alguém que não tivesse apenas vagando por curiosidade ou jovens afoitos em seus próprios divertimentos. Os que moravam nos andares mais superiores, em especial os idosos, passavam meses sem sequer pisar no Saguão.

Do 50º andar os três já estavam arfantes. “Ok, explica o que cê quer, Glória, num vou subir a porra dos cem andares nem fodendo”, disse Caio, suor escorrendo pelo rosto mulato.

“Calma, daqui já dá pra ver. Vamo ali no restaurante”.

O quinquagésimo andar era um dos andares que concentrava bares e restaurantes, a maioria de comidas típicas. Ainda se viam placas na forma de tapiocas ou camarões, mas o estado era de desolação. Por influência dos primeiros sobreviventes a ocupar o farol, as comidas que ali ainda restavam foram todas levadas para reservas de mantimentos e víveres. O odor era seco e levemente mofado. A maioria das mesas ainda estava no exato mesmo lugar em que foram deixadas, junto com balcões empoeirados e fogões enferrujados pela maresia.

Glória levava-os para um local diferente. “O mirante”, murmurou Marco, coçando os olhos como uma criança. Em muitos andares do farol era possível encontrar mirantes, cada um voltado para uma direção diferente. Se antes era fácil encontrar ambulantes e binóculos mecânicos atracados na amurada, agora muito provavelmente só achariam destroços e ninhos de pássaros.

Atravessando corredores, chegaram a uma entrada com apenas um vão por onde soprava o vento frio da noite. Caio passou, seguido de Marco e Glória, que deixou escapar um suspiro de consternação.

A amurada do mirante havia caído em parte e um único aparelho restava inteiro, seriamente incrustado de ferrugem. Pelo chão o piso se esfarelava, aqui e ali com alguma rachadura, e mais à esquerda cedia quase por inteiro. O vento era cruel e árido, fazendo os olhos lacrimejarem.

Mas a visão que havia no horizonte era a única coisa que ocupava a mente.

Muito ao longe havia uma névoa, algum fumaceiro enegrecido que se espalhava numa muralha tão imensa que parecia engolir a noite. A escuridão era intensa, e só se sabia identificar onde começava e terminava pela falta de estrelas em seu interior. A massa nebulosa era coisa disforme, indistinta, dançando aqui e acolá pelo açoite dos ventos, algo que perturbava de formas que lhes eram desconhecidas.

A própria Glória parecia atônita, quando Marco apontou para um pouco mais perto dali. “Olha, olha ali eles!”, sussurrou, acima do varrer da brisa.

Os bandos se aglomeravam em grande número, o maior que qualquer um deles vira na vida. Acampados em barracos e levando todo tipo de tralha consigo, pareciam estar de mudança permanente. Dali não dava para se observar com detalhes, mas o formigueiro que montaram era óbvio aos olhos e significava um perigo tão iminente quanto insólito.

“Eles ‘tão fugindo daquela fumaça, é isso?” Perguntou Caio, sem tirar os olhos do nevoeiro negro em qualquer instante.

“Não sei Caio, olha…”, começou Glória.

“Peraí, cê sabia disso!? Por que é que não mostrou isso antes!? Puta que pariu!”

“Não tava assim antes! Eu não era nem pra estar aqui, foi coincidência! Dia desses vim no cinquenta procurar umas coisas que tavam precisando nas cozinhas, uns pratos, daí vim olhar só por curiosidade. E eu ia contar sim, ia contar ontem! Mas aí tudo virou um inferno de repente, caramba!”

Caio apenas coçou a cabeça, impaciente e cansado. “’Tá bom, tá ok, já foi. Isso é muito sério, e mais ninguém pode saber que aquela porra tá ali. Deve estar assustando aqueles putos de algum jeito, se o pessoal souber vão querer ver também, uma ruma de gente vai querer subir pros andares de cima pra ver e vão acabar estressando as coisas muito mais.”

“Certo”, falou Glória.

Marco olhava para baixo. “Merda. Se essa fumaça consegue assustar esses marginais então nem sei o que pode fazer com a gente. Cês acham que a gente tá seguro aqui?”, perguntou, olhos amarronzados implorando uma afirmação em um rosto angular e perplexo.

“Não tem como a gente saber, Marco. Pior é isso”. Caio pela primeira vez notava a multidão lá embaixo, inúmeros pontinhos luminosos.

“’Cês acham que eles vão invadir?”

“Parece. Olha ali, do jeito que tão se reunindo parece até que carregaram a casa toda com eles.”

“Ok, é tudo que a gente precisa saber, então. Vamo voltar. Ninguém diz nada”, disse Caio, olhando para cada um deles. Apoiou seu rifle no outro ombro e saiu, sem olhar para trás. Marco se virou para Glória, e com um sorriso envelhecido saiu em seguida, tomando cuidado para o chapéu não voar de sua cabeça.

A moça ficou ali, olhando a muralha de fuligem que assomava lá longe. Não sabia por que havia mentido para Caio. Aquele fumaceiro já estava ali há dias, mas ela não queria dizer para ninguém. Talvez porque todos já estivessem no limite, ou porque achasse que era seu dever. Fora do farol todos olhavam para Caio, alto e moreno, robusto e habilidoso com as armas de fogo, indo e voltando com os seus para proteger a terra e seus sobreviventes dos bandos, atirando, lutando, vencendo e retornando com mais um dia de conquista, mais um dia de peleja.

Todavia, dentro daquelas vastas paredes era a Glória que obedeciam. Ativa e sagaz, sabia pôr as coisas em ordem desde que se entendia por gente, rigorosa com as tarefas do farol e mandando para cima e para baixo em qualquer um que tivesse duas pernas funcionando e dois braços inteiros. Alguns dos mais jovens a detestavam, mas em geral o povo do farol a admirava pelo seu senso prático e por segurar as rédeas quando ninguém mais queria tomá-las. Estar ali não era escolha de ninguém. Permanecer ali também não. Mas Glória lembrava que havia outras escolhas a serem feitas e que precisavam ser tomadas se quisessem permanecer vivos.

Olhou mais uma vez para a miríade de luzes que se amontoava lá embaixo. Com esforço poderia se ouvir aqui e ali gritos e alguma algazarra. Vez ou outra algum som de motor se sobressaía, mas nada mais. A noite estava fria para a época, mas ela sentia que uma tempestade mórbida estava para acontecer.


Poucos conseguiram dormir naquela noite ou nas seguintes. No Saguão os vigias se postavam de tempos em tempos em rodízio nos pontos estratégicos, embora o inimigo não desse sinais de se movimentar. Os mais idosos, os mais novos e os mais debilitados que ainda estavam nos níveis inferiores foram pouco a pouco sendo levados para andares mais acima, e logo as escadas entre eles estava repleta de pessoas subindo ou descendo.

Afora isso, uma calmaria tomou conta do farol. Pouco se falava e pouco se discutia. Alguns diziam querer se mudar para o topo da torre, ainda que apenas um punhado de gente naquela geração tenha de fato subido para a ala mais extrema de Ventania. Era pouco prático e solitário. Além disso, se a torre caísse não faria sentido se esconder em seu último andar, o último salto de esperança.

Espalhadas pelos andares, todas as famílias, com suas moradas e pertences, realocavam seus bens. Glória andava frenética tentando auxiliar como podia em muitos cantos diferentes. O andar da enfermaria, próximo ao térreo, estava ainda inchada de feridos vindos das vigias. De lá alguns era removidos para o quarto da quarentena, de paredes reforçadas com placas de chumbo. Próximo dali, no andar seguinte, amontoavam-se muitas mulheres e algumas crianças em uma cozinha amplíssima, num andar adaptado para alimentar as centenas de pessoas que habitavam em Ventania.

“Vai se aquietar, menina. Descansa”, disse uma voz tão profunda e grave que parecia reverberar.

Glória lavava a louça quando se virou. “Quê? Qué que tu tá me dizendo…ah.” Malvino a olhava com curiosidade.

“Nem te ouvi chegar, com esse barulho todo.”

“Nem precisava. Vai te aquietar que eu lavo essa louça”, disse Malvino, puxando a esponja úmida da mão da moça e afastando-a com um movimento do corpo.

“Tu tá bem?” Perguntou Glória.

“Tô. O melhor que eu vou ficar até isso tudo acabar.”

Glória comprimiu os lábios em simpatia.O velho era forte. Os cabelos grisalhos ainda eram profusos, despenteando-se rumo aos ombros numa camisa listrada, velha e bufenta. As mãos calejadas limpavam as panelas com habilidade. A moça pensou no seu pai, e saiu dali com as mãos nos olhos.


Foi no quinto dia após a chegada desabalada de Marco que eles vieram. O sol alastrava seu calor sobre a areia, mas os ventos não estavam em lugar algum. As hélices de Ventania moviam-se muito lentamente. Mesmo as ondas do mar pareciam tocar a terra branca com dedos letárgicos.

Montados em motonetas empestadas de ferrugem, caminhões reticentes e carros barulhentos, os bandos vieram pela trilha de pedra. Quando o sol mal tinha tocado o ponto mais alto do céu alcançaram a linha de tiro. Os vigias que estavam a postos puseram-se a atirar à medida que os bandos chegavam. O carnaval de balas era ensurdecedor, mas a bandalheira vinha incessante, disparando pistolas e metralhadoras de seus veículos.

Sua aparência era hedionda. Marcados com pústulas, as peles eram engelhadas em escarlate. Nos seus rostos os olhos, a boca e o nariz se alinhavam numa forma quase obscena, atestando sua deformidade num grau perturbador. Os poucos cabelos que tinha caíam em mechas esparsas de seu couro, e protuberâncias se espalhavam pelo crânio dando forma a cabeças anormalmente grandes. Seus membros pareciam rijos por sob a pele enrugada, e seus gritos eram guturais, estrangulados, numa linguagem ao mesmo tempo musical e grotesca.

Alguns ostentavam partes metálicas em lugar de membros, um intrincado de fios, aparelhos e parafusos que lhes mecanizavam e lhes davam autonomia para além de suas capacidades orgânicas. Terrível de se ver eram os dois que estavam cirurgicamente acoplados a motocicletas a partir dos quadris, suas peles atadas em inúmeros ganchos ao banco do veículo e conectadas por tubos e veias cibernéticas impensáveis.

Até que ponto aquelas criaturas tinham chegado a tal condição ninguém podia saber. Se sua mutação lhes trouxera limitações, também as suprimira de maneiras que só um olhar clínico poderia sugerir. Mas era certo que sua exposição à radiação lhes havia tirado parte daquilo que perfazia humanidade nos homens, e o que estava ali fugia completamente daquilo que seria natural.

Eram como filhos de uma natureza insana.

Avançando como loucos sobre o pátio à frente dos portões, os bandos dirigiam seus veículos em meandros e gritavam com vozes que escapavam do som para estremecer a própria sanidade alheia. Atracados em seus instintos, alheios aos que caíam, atiravam sem discernimento, sem estratégia, apenas puxando o gatilho em frenesi. Na parede de concreto do farol se propagava um mapa cravado de buracos e fragmentos. Os portões metálicos rangiam num ruído arranhado e agoniante. Das janelas os sitiados atiravam com mais precisão e cuidado; sua munição era limitada e preciosa.

O tempo quase que cessou quando um caminhão enorme e horrível avançou vindo da retaguarda, partes metálicas pendentes numa demonstração antiestética de movimento na desordem, grunhindo um cântico irregular de engrenagens maresiadas. Em seu parachoque estavam pregadas brocas semiderretidas que, à velocidade do veículo, chocaram-se com grande potência contra os portões, que se curvaram mas não cederam por completo.

Todavia, uma brecha se fez no lugar onde as dobraduras se prendiam ao concreto, e logo as criaturas por ali se infiltraram, proliferando-se no saguão do farol como formigas rubras e ensandecidas. Do lado de fora os bandos enxameavam para entrar, e em pouco tempo o portão foi arrancado e o Saguão de Ventania finalmente cedera.

Mas já não havia ninguém ali.


Caio havia sido claro.

“Vedem por completo o acesso ao primeiro andar. E vedem os elevadores! Quem souber atirar melhor fica mais longe da porta. Deixem que os corpos se empilhem, melhor pra nós!”

O plano havia sido discutido horas antes, quando ele havia descido do mirante. Pretendia defender tudo a partir das janelas, mas se os bandos estivessem de fato em fuga daquela neblina fuliginosa então decerto iriam fazer de tudo para entrar no farol. Ainda não entendia de que maneira Ventania os protegeria daquela ameaça inescrutável, mas mesmo assim julgava que era o melhor curso a percorrer. Não iriam fugir.

Caio entendia que a maior vantagem dos bandos estava no maquinário que traziam, e não nos números. No primeiro andar poderiam fazer uma defesa melhor, mais segura, sem os veículos envenenados nem os abomináveis motoqueiros carne-máquina. Além disso, com o corredor estreito das escadarias, ficaria cada vez mais difícil subirem à medida que os corpos se amontoassem.

A princípio, Amaro e outros veteranos pareciam resistir à ideia, mas ao fim foram convencidos. Caio era um estrategista natural, ainda que razoavelmente jovem, e possuía o apoio das demais gentes da comuna. Poucos sabiam, contudo, que aquela era apenas a primeira etapa de uma ideia que talvez pudesse dar um fim a qualquer sobrevivência e confiná-los para sempre na torre.

Quem surgiu com a proposta foi Malvino. O velho pescador conhecia Ventania mais que a maioria, e as instalações portuárias ainda melhor que qualquer outro. Era sempre ele que liderava as embarcações para a pesca no oceano.

Estavam numa sala que parecia ter sido algum escritório de comércio exterior, ao fim do corredor principal do primeiro andar. Mapas se dependuravam desgastados nas paredes e estantes sem gavetas jaziam sem uso. As mesas de mogno que haviam ali estavam postas no corredor como balaustradas improvisadas.

“É perigoso”, havia dito ele, com um ar de ousadia. “E eu vou precisar de mais alguém comigo”.

Glória estava prestes a se oferecer, mas outro foi mais rápido. “Eu vou”, disse Marco. Estava abatido e cansado, apesar de ainda ter um vigor selvagem atiçado em seus olhos broncos. Ali com eles estavam apenas Suzana, mulher ruiva repleta de sardas e da confiança de Caio; Mauro, senhor alto e taludo que cuidava dos andares das hortas; Simão de Assis, o médico mais experiente do farol, comumente chamado apenas de Doutor Assis; e Helena Galvão, proativa e eficiente na administração dos afazeres da torre, esposa de Dr. Assis.

“Marco devia ficar aqui, ele atira bem”, disse Helena, já ostentando algumas rugas no rosto. “A gente pode chamar mais alguém!”

Glória se interpôs e repetiu. "Eu vou. Ela tá certa, Marco."

Malvino pareceu aprovar a decisão. Mas por mais que perguntassem, recusava-se a dizer que tipo de estratagema tinha em mente e pedia apenas que confiassem nele. Em verdade não havia muita escolha àquela altura. Após alguma resistência os argumentos cessaram e ele assentiu com um semblante de aprovação.

“Tudo que vou dizer a vocês é que vai depender do quanto certas coisas do porto tão prestando ainda.”

“Tu tem certeza que vai funcionar, Malvino? Parece que não dá pra confiar muito bem nesse lugar depois de tanto tempo, ainda mais naquele porto que quase ninguém usa”, disse Dr. Assis.

Malvino deu uma risada sarcástica. “Toda a certeza que dá pra ter, garanto a todo mundo. Fora isso só rezando pra Iemanjá, que essa não falha de jeito nenhum!”

Dr. Assis passou a mão amorenada na cabeça, arrepiando o cabelo ainda completamente preto, apesar da idade. “Certo, certo…não quero dizer que não. Tá todo mundo muito nervoso lá em cima, temos que fazer isso direito. Não sei vocês mas não quero sair daqui desse lugar, ele é tudo o que temos”.

“Claro que é, por isso que a gente tá defendendo ele, né verdade?”, disse Mauro, tossindo um pigarro persistente. “Qualquer coisa a gente vai subindo, se der merda a gente se joga lá de cima”.

Deu uma risada não sem um tom de histeria, mas cedeu à tosse e se calou. A tensão era visível.

“Maurinho só quis aliviar, vamos tentar ficar tranquilos. Acho que temos um bom plano, talvez o melhor que vai aparecer até o fim disso tudo. Isso aqui é nosso. Se assim parece que vai dar pra gente defender, então vamos defender assim. Todos de acordo?” Glória falava, com gravidade e paciência. Todos assentiram, com exceção de Caio, que apenas fitava seu rifle.

“De acordo, Caio?”, ela perguntou.

Ele assentiu. Todos rumaram para suas tarefas e Caio ficou ali na sala, vendo Malvino conversar em baixo tom com Glória. Os dois pareciam se dar bem. O plano parecia bom.

Mas algo parecia fora de lugar ali. Algo o falava em seus instintos, uma ansiedade importuna que lhe falava de muito longe. Mais tarde ele saberia com precisão o que isso queria lhe dizer.


Era escuro como breu nos corredores ocultos que levavam ao porto. Glória não sabia como vivendo ali tantos anos nunca lhe havia passado à cabeça a existência dessas vias. Malvino parecia se mover como uma cobra em meio às fiações e encanamentos que eram guiados naqueles estreitos. A umidade a fazia suar como uma porca e o cheiro de bolor era tão pesado que precisava cobrir o rosto com a manga da camisa. O velho não parecia se incomodar com absolutamente nada.

Haviam entrado ali através de um alçapão no teto de uma saleta do quarto andar, num espaço reservado para depósito de produtos de limpeza e de uso dos muitos faxineiros do prédio em outrora. Até lá Malvino não tinha explicado nada de como nem com o que iria fazer o que quer que estivesse planejando. Quando perguntado, resumia-se a “no porto eu digo”.

O intrincado de caminhos parecia descer em espiral no espaço que mentalmente Glória localizava como muito próximos dos elevadores, inativos. Dali tiveram de rastejar e concorrer com ratos e baratas pelos caminhos que seguiam e mesmo pelo ar que respiravam, que parecia cada vez mais denso.

Em uma tubulação como todas as outras pelas quais tinham passado, Malvino parou. “É aqui”, disse, e sob o pé abriu um alçapão que Glória nem sequer tinha visto.

Haviam chegado em um galpão. Ali se amontoavam pedaços de embarcações incompletas, quase todas desfeitas pelo tempo e pelas traças. Estantes enferrujadas com galões e mais galões de líquidos de cheiro forte se enfileiravam. A única luz que carregavam vinha das lâmpadas em suas mãos, mas a partir dali uma luminosidade enfraquecida vinha por debaixo do portão que bloqueava a entrada principal do lugar.

“Me ajuda aqui, é pesado”, disse Malvino, e com Glória subiu o portão ferroso até enrolá-lo estrepitosamente num apoio do topo. Logo caminharam por corredores e mais corredores de portões fechados similares, até que viraram em uma encruzilhada e se depararam com um verdadeiro cais em meio às fundações de Ventania.

“É aqui”, disse Malvino.

O local estava surpreendentemente organizado. Algumas embarcações bem cuidadas ainda flutuavam ao sabor das águas que entravam por uma abertura nas paredes larga o suficiente para a passagem de uma vintena ou mais de barcos de pesca, embora poucos realmente estivessem em condições de navegar em mar aberto.

O sal permeava o ar daquele subterfúgio portuário, que se resumia a rocha em água e uma imensidão de pequenos prédios que se aglomeravam ao redor do cais. Possivelmente serviam de administração marítima, depósitos diversos em extintos tempos de progresso.

Um barulho se sobressaía ao vai e vem das ondas no concreto. Glória pensava que havia algum subgerador pelas bandas do porto, mas pelo som que fazia deveria ser algo gigantesco. O triturar de engrenagens rangia num padrão de pausa e recomeço que perturbava o juízo e tirava a concentração.

“Que som infernal”, reclamou Glória, cutucando um ouvido. “Que diabo é isso? Um gerador?”

“O gerador, bóe. Sem ele esse cata-vento não vale nada. E ele tá bem aqui, nos pés de todo mundo”, grunhiu o velho.

Então Glória exigiu que fosse explicado o plano. Malvino assentiu. À medida que falava, a expressão de Glória ia do espanto à indignação e incredulidade. A jovem exclamou, brigou como pôde com o velho e tentou argumentar, mas sem sucesso. Malvino estava irredutível.

“Não tem jeito, moça. Tem que ser feito. E tem que ser feito por nós.”

Glória apenas se virou e foi se apoiar na grade de proteção de um setor do píer.

“Me avise quando tiver pronto, tá quase na hora da maré subir”.

O sol encandeava por entre as frestas do portão maciço que vedava a entrada do cais, inundando em cores de fogueira água, pedra e aço. Partículas de poeira flutuavam dispersas no ar. Aos poucos se ouvia o trinado do vento vindo do oceano. O tempo passava devagar, mas para Glória rugia como uma besta que lhe vociferava.

“Tô pronto”, disse Malvino.

Saíram os dois em meio aos caminhos entre ferrugens e paredes de mofo que apenas Malvino parecia conhecer. Adentraram portas, subiram muros, abriram grades. O odor da maresia se fortalecia a cada passo, até que desceram escadarias com paredes incrustadas de limo e casca de búzios. O ar úmido entrava com dificuldade nas narinas, o suor proliferando-se como vermes.

E ali nas profundezas das fundações de Ventania, pararam. O som era quase insuportável. Uma enorme máquina movia-se e estrebuchava-se em vieses maquinalescos, um estridente fio de sons metálicos repercutidos na rocha esverdeada do lugar. Três colunas de turbinas amealhavam-se paralelas entre si, desprendendo sargaço e pequenos pontos prateados que se mostravam peixes minúsculos, mortos e malcheirosos. Pouco se podia entender do maquinário, exceto por esparsas placas de alta voltagem ou avisos que foram borrados pelo tempo e pelo mar.

Mas a máquina subsistia ali, num motor semiperpétuo.

Malvino olhou com satisfação e um quase carinho para o aparelho. “Veja só que belezura. Todo esse tempo e ainda aí, a menina”, gritou.

“É, é sim”.

“Então, vamo antes que seja tarde. Deus sabe se aqueles podres já num invadiram tudo já”.

Malvino empertigou-se e acendeu um cigarro de palha. Ofereceu à outra, e diante da recusa deu de ombros e se deu a buscar algo em meio à parafernália. Glória apenas assistia. O barulho do gerador era incessante.

Então com um solavanco o velho pescador abriu uma portinhola na plataforma central do maquinário e esperou. Virou-se para Glória com uma expressão de divertimento e acenou um sim com o queixo roído. A moça hesitou por dois, três segundos. E correu de volta pelas escadarias limosas sem olhar para trás.


O portão das escadarias já estava nas últimas.

Ali um saguão menor havia sido construído, em ponto imediatamente superior ao saguão principal. Os arquitetos do farol se referiam a ele como átrio secundário, mas os que vieram depois se contentaram em chamá-lo de primeiro andar, e assim permaneceu. Há muito havia ali recepções menores, escritórios administrativos do prédio e outras instalações empresariais, resquícios.

Trancafiados no lado de dentro postavam-se Caio, Amaro, seus homens e mulheres, todos armados com escopetas, carabinas e pistolas, trêmulos de tensão e ansiedade aguardando o segundo em que aquela última barricada ia cair. Os gritos e sons que os bandos faziam eram estranhos de se ouvir, atemorizantes como o desconhecido. Entre um dedo no gatilho e outro limpando o suor do rosto, todos afiavam seus olhos contra o primeiro alvo que viesse por ali. Precisavam contê-los no ato.

A última batida veio sem muito estrondo. A grande porta de madeira reforçada horas antes caíra lentamente, mas veloz foi a aparição das bestialidades. Um a um os corpos rubros ressequidos avançavam e caíam, despreparados contra aquela emboscada. Por vezes era difícil definir quem eram homens, quem eram mulheres, quem eram velhos, quem eram crianças; todos um bolo frenético e sujo que se misturava, que não se distinguia, que não se separava. Logo começaram a atirar de volta, e os sobreviventes de Ventania se defendiam como dava por detrás de paredes, tralhas e colunas. Amaro estava muito próximo da porta, em um ponto cego, e longo foi o tempo que passou abatendo os invasores até ser sido percebido e alvejado.

O tiroteio persistiu com fúria. Caio atirava por detrás de uma antiga sala de contabilidade, agora sem a metade de cima da parede que a dividia do átrio e com rombos no teto, deixando à mostra tubulações rachadas e o verde escuro do mofo. As atiradoras de longa distância estavam postas ao fim corredor, atrás de mesas caídas, de modo que possuíam visão privilegiada dos bandos que tentavam entrar ali.

Em minutos os corpos dos invasores passaram a oferecer dificuldades aos que vinham atrás, atrasando-os e fazendo-os tropeçar sobre si mesmos, para logo terem balas estourando seus pescoços e testas. O rio de cadáveres que Caio havia suposto tornou-se verídico, mas ainda que tivessem com alguma cobertura, os filhos de Ventania não haviam se preparado para o que viria depois.

Após uma breve pausa em que nenhuma criatura ousava passar pelos portões do átrio secundário, um som de motores adveio, seguido de gritaria e algazarra, rouquidão metálica e o atropelar de pneus sobre carnes. Em instantes entravam pela porta duas máquinas ensandecidas, mas que eram de alguma forma vivas. E assim os motoqueiros haviam subido as escadarias, ruindo a esperança dos sitiados.

Com seus corpos costurados como bestas maquinalescas rodopiaram pelo átrio, atirando a esmo, circundando e fazendo cantar o piso espelhado como dançarinos em globo da morte, atingindo sem serem atingidos, chovendo balas e colhendo corpos.

Os outros quedaram surpresos, adrenalina cedendo ao som do desespero. O ruído dos motores ia fundo em suas mentes, fazendo-lhes vomitar. Não podiam haver mais de quarenta ali ainda em pé, e a cada cabeça que aparecia sobre paredes ou frestas era vista e desfeita em miolos e pedaços de cérebro momentos depois.

Poucos mais ousados atiravam a esmo com a ponta das armas para o centro do átrio onde os motoqueiros rodopiavam, mas nunca paravam. Todos sentiam que se parassem gritariam em permissiva como sinal para os outros subirem, e então não haveria mais qualquer chance de sobrevivência.

Caio lembrava-se das franco-atiradoras. As gêmeas Luiza e Rênia se encolhiam por detrás das mesas, tentando visualizar um plano que não vinha. Se atirassem e errassem, os motoqueiros saberiam sua posição e viriam com toda fúria antes que pudessem sequer largar o gatilho para recarregar. Precisariam acertá-los sem erro.

Eis que num lampejo de compreensão, Rênia atentou para Luiza, que a percebeu com temor e vibração nos olhos indígenas estreitos. Mas era o que tinha que ser feito. E assim foi.

Um grito estridente foi ouvido no final do corredor, e logo um dos motoqueiros virou-se para atirar na direção de onde havia saído. O craque da bala entrando na madeira estalou no ar; ele mais uma vez rodou e mais uma vez o grito foi ouvido. Dessa vez o outro passava e mirou com desleixo, e a bala se alojou na parede ao fundo. Um terceiro grito se ouviu, e o primeiro saiu de seu circuito na velocidade em que estava para adentrar violento rumo às mesas estateladas. A rapidez foi maior do que esperavam, mas num átimo de compreensão mútua e leitura de movimentos que beirou o intangível Rênia levantou-se de detrás da mesa num salto e atirou com seu rifle nos peitos do motoqueiro, que se desembestou torcendo o guidão de maneira terrível e chocando-se contra o concreto.

Contudo, logo atrás veio o segundo, desviando do cadáver e puxando o gatilho num piscar veloz de pálpebras, que se abriram para ver o jorro do sangue escorrer do tórax de Rênia.

No furor do instante o som do rifle de Luíza passara despercebido, arrancando para longe o braço do motoqueiro que vinha, nem percebendo o furo na nuca feita por Caio, que lançara-se para além da barricada ao ver que os motoqueiros seguiam para o corredor pouco antes.

Era como se o mundo corresse num fluxo de lentidão impossível que logo se desfez no frenesi quando os bandos retornavam e subiam, dessa vez arrombando o fosso dos elevadores por dentro. Em algum lugar Amaro dava ordens e o som de sua voz preencheu o coração dos sobreviventes de alívio, mas os gritos que subiam pelas escadarias anunciavam algo pior.

Rompendo pelo fecho de um dos elevadores tombados subia uma criatura acoplada nos cabos de aço e despejando um líquido escuro pela boca seca. Na sua mão uma pistola semiautomática de calibre estranho, chamuscada, e dali escalou e se espalhou, seguido de outros que vinham em seu encalço. De algum ponto alguns sobreviventes passaram a atirar contra os que vinham do elevador, mas tão logo iniciaram o ataque subiam pelos corpos que se amontoavam fetidamente nas escadarias máquinas que nenhum entre o povo de Ventania havia visto em vida.

Vinham três, quatro delas, maquinários de vestir, aparelhos robóticos controlados por pequenos e distorcidos bandos que se arrolhavam em seu interior, apertando botões, movendo alavancas e com tantos fios presos ao seu couro cabeludo que parecia provável que estivessem controlando-os também com coordenadas mentais. O rubro da pele esturricada sobre o metálico do aço se confundia em meio à devastação, mas dali eles se aprumavam e seguiam pisoteando e atirando com metralhadoras juntadas mecanicamente aos seus braços robotizados, percorrendo o átrio em passos lentos, firmes e pesados. De dentro via-se pequena criatura perscrutando ao redor, como se buscasse calcular onde se ocultava o povo que persistia em resistir.

De súbito, como que ouvindo a canção do fim, urraram os sobreviventes de Ventania contra a derrocada e libertaram-se de seus esconderijos e medos para correr pelo átrio, cuspindo fogo pelos dedos. Logo um furor correu também por todos os outros, pois Caio era o mais furioso, queimando em cada grito, o brasão do desespero fulgindo em suas veias e pulsando em cada movimento dos braços. Pairava como arauto da violência.

Naquela hora eram todos deuses, eram todos máquinas; eram filhos da natureza, eram os netos de sua distorção, eram o fogo dos deuses, das águas, eram as lendas que se desfaziam em pó, natimortas; eram a fúria do viver, do viver além das contas do mundo, pois aqueles que invadiam lutavam por aquilo que os que eram invadidos também protegiam: mais um dia ali, mais um dia para estar, para ser. A extinção, a catástrofe dos tempos mediante o qual muitos caíram, poucos sobreviveram e apenas alguns se adaptaram. Sina comum a todos; tudo que havia ali eles compartilhavam, e a dor lhes era tão comum como aos outros, o súlfur da peleja arrastando na pele os arranhões abrasivos de uma vida e distorções a que a natureza se permitiu em terra esquecida para as areias de seu próprio destino e abandonada por Deus, de tantos e tão poucos.

Ali eles decidiram os destinos de si mesmos e de outros, mas acima de tudo, batalharam pela prevalência dos seus sobre o caos e a desordem, sobre as apostas que o mundo havia feito sobre eles e sua prole. Os bandos se proliferavam e caíam, e do lado oposto os sitiados clamavam por mais gentes que desciam armadas ou se armavam dos andares superiores; e quem não possuía armas usava a de seus defuntos, e os que não conseguiam partiam com seus dentes e unhas, armas primevas, talhavam os olhos e arrancavam as mandíbulas, partiam fios e rompiam tripas, e naquele momento de fusão todos se banhavam de vermelho e de rubro e de escarlate. Todos eram iguais, eram filhos, eram irmãos, eram bandos e eram descendentes.

Eram todos sobreviventes.


Nesse dia, uma grande explosão foi ouvida por aqueles que estavam no átrio do primeiro andar com a subida do mar. Em um fluxo terrível, as águas cresceram e inundaram pelo porto arrastando consigo tudo que havia ali, bloqueando passagens e cravejando com barcos, ferrugem, limo e destroços. No Saguão, as águas negras vieram com força nunca vista e subiram até os altos metros do primeiro andar. Tudo que havia de elétrico se desfez e se dispersou pelo oceano que entrava ali, e os que estavam nele caíram eletrocutados para não mais retornar. Dos invasores, dizem que foi seu fim.

Conta-se que naquele dia Glória havia chegado sozinha num pequeno barco chamado Tiara, adentrando pela carcaça do portão principal de Ventania; em vez de seu olho esquerdo, um buraco em sangue. Navegava tenaz pelas águas inescrupulosas que vazavam de retorno com a chamada da maré. A mulher chegara ao amanhecer, e as graúnas já saudavam o sol em seus gorjeios matinais.

Hális Alves
Hális Alves
Hális Alves é nascido e criado em Natal/RN. Começou a escrever aos treze anos, primeiro pelo gosto antigo por leitura, depois impulsionado pelo RPG. Cursou direito na UFRN e depois foi estudar no Japão, onde reside atualmente. Suas maiores influências são Tolkien, King, Guimarães Rosa, Gaiman, Saramago, Herbert, Lovecraft e Eco.

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2 comentários

  1. Débora Mille / 20 de dezembro de 2013 at 11:11 / Responder

    UAU! O que foi o final deste conto… muito bom.

  2. Bruno Eleres / 23 de janeiro de 2014 at 01:14 / Responder

    Mundo bem interessante. Algumas cenas me lembraram imediatamente orcs invadindo os castelos do mundo de Tolkien. A linguagem do autor é bem incomum entre os autores nacionais mais jovens que tenho lido e até meio confusa em alguns trechos; mas nada que prejudique em demasia o andamento da leitura.

    o/

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