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Equipamento de rádio-pirata e um notebook. Não era o que gostaria de ter enquanto trinta zumbis tentavam arrombar a porta do apartamento que nem era o seu. Gabriel suspirou enquanto confirmava o que impedia a entrada: a estante de metal e tudo o que encontrou pela frente. Minutos para evitar o fim onde tudo começou.

O bloco com rabiscos estranhos, notebook ligado e a canção em uma língua exótica. A mesma que todos os zumbis falavam, ponto em comum além de ouvidos sangrando. Olhou para fora e viu dezenas deles na frente do prédio. Não dava mais medo do que o que via no terraço em frente: zumbis construindo uma antena. A canção sairia da comunidade e ganharia o asfalto. “Uma canção, um comando e uma mente”, concluiu em um raciocínio que quase não era seu. Ainda tentava entender porque ele e André não foram afetados.


Desde crianças, André resolvia. A dupla arranjava problemas, Gabriel ponderava e André executava. Desafiou o Meleca no recreio e inscreveu os dois na oficina de criptografia. Foi a última coisa que estudaram juntos. Veio o vestibular, faculdade e outros interesses. Ainda lembrava da primeira aula. “A criptografia tem diversos objetivos, entre eles a integridade da mensagem, sem a qual nada pode ser feito.”

Matemática era mais um hobby do que profissão. André analisava e discutia tudo pensando na sociedade. Estudou economia. Gabriel pensava em estrelas, virou físico.


Começou no apartamento de Sinatra. Sua rádio-pirata de sucesso virou o sustento do rapaz de voz de veludo. Ninguém sabe como chegou ao estranho código anotado no bloco ao lado do computador. Símbolos quase impronunciáveis cantados em cada alto-falante da comunidade e na frequência da estação. O efeito foi crescente. Todos conversavam de um jeito que ninguém entendia. Ouvidos sangravam, corrompidos pela melodia alienígena.

A primeira ação foi depredarem uma mercearia com a ajuda do proprietário. Todos eram zumbis, pessoas com olhar vazio e sem vontade. Não pareciam esperar ou pensar. Até o Tique-Taque, famoso por gestos compulsivos, não piscava e nem repetia “bom dia”, padrão do seu TOC. Estava tudo dominado em minutos. Cada andarilho sem vontade ocupava alguma área de dois metros quadrados ao seu redor. Não havia pedaço de calçada sem um deles de guarda.

Os dois ficaram paralisados no apartamento de Marcel, que havia descido para comprar bebida e agora participava de tudo. Não foi preciso muita imaginação para entender a ligação com a música, mas só Gabriel relacionava aquilo à chegada de alienígenas. André acreditava em uma ação para justificar uma nova chacina na favela.


Tique-Taque piscava e falava duas ou três expressões compulsivamente. Coçava a nuca, mas sua compulsão corporal sumiu. Foi a primeira constatação após puxá-lo da rua para a portaria.

O que houve? Por que estão fazendo isso?

A resposta vinha quase inaudível, mas em um padrão fonético e matemático. O amigo ainda os entendia, mas não se comunicava mais. Respondia naquela língua, sem personalidade visível. O amarraram e demoraram horas até encontrarem o padrão. Entender criptografia ajudou tanto quanto entender que Tique-Taque costumava ficar repetindo o “Bom dia”, “Como é?” e “Fala tu”.


Usava uma lógica familiar se não fosse distante de qualquer língua conhecida. Havia poucos fonemas, mas mudavam de sentido a cada vinte minutos. Logo, certas palavras e assuntos só poderiam ser pronunciados em certas horas. As pausas definiam o equivalente às vogais de cada palavra. O “”a”” era mencionado no espaço de uma respiração, o ““e”” de duas, e assim por diante, até levar cinco suspiros para definir o “u”. Uma lógica muito humana para não ser terrestre. Mesmo com um efeito tão alienígena.

Não faziam ideia de como escrever, então só poderiam supor que a música e o rascunho no bloco tinham algo em comum. Tentaram traduzir para decidir o próximo passo, mas cada palavra vinha de uma enorme dor de cabeça e forte otite. Pararam quando o ouvido de Gabriel começou a sangrar. Entender completamente a ideia do que era cantado parecia ser a senha para serem dominados. Sem chegar ao final, já entendiam que a música dizia algo sobre a unidade se tornando um zero, para que juntos todos fossem uma unidade mais poderosa.

Era algo perigoso. “Quase nazista”, disse o economista. E foi André que sugeriu que invadissem o prédio de Sinatra usando o carro de Marcel. Não era comum: André não tinha as ideias.


Os dois detestavam escrever. Gostavam de ler, mas não de exercitar as palavras, embora as aulas de sintaxe – e as que levassem a uma compreensão lógica do português –os fascinassem. Se conhecessem um professor de linguística na época, talvez seguissem outro caminho. Viveram instantes de terror quando uma professora os obrigou a escreverem sobre amizade. Em uma disciplina que você não gosta, é a senha para uma recuperação e muitos finais de semana de castigo. Corriam risco de vida. Ao menos da vida que queriam. Apresentaram uma pequena crônica. Falava sobre os dois de uma forma quase intuitiva.

O Victor gosta de matemática. E o André também. A gente sabe que um mais um são dois, mas descobrimos que dois pode ser três, quatro, cinco… O Victor na escola é um. Mas minha mãe diz que ele é meu irmão e meu amigo. Já são dois. E eu ouvi do pai do André que pareço muito com o irmão dele, então posso me considerar tio do meu amigo. Um mais um já são quatro.

A nossa amizade não é matemática, mas dá mais número que qualquer conta.

Tia Waniça fazia o tipo sentimental e profetizou que poderiam ser escritores. Não foram. A pequena redação virou totem. Andavam com uma cópia do texto em todas as carteiras que teriam. Por muito tempo se esqueceram disso mesmo que guardassem o papel surrado.


André acelerou contra o prédio de Sinatra destruindo a porta da garagem, mas um carro estacionado ali fez seu automóvel não entrar completamente. Do lado do passageiro, Gabriel estava dentro do edifício, mas do lado do motorista o carro ainda estava fora. André estava preso no cinto de segurança e encurralado por uma multidão sem vontade.

“Vai você!”, disse, no que seria sua última ação. Foi fuzilado por tiros de alguém com ouvidos tingidos do próprio sangue. O carro bloqueando a entrada e Gabriel caindo assustado no chão antes de pegar as escadas. Ainda ouviu outras balas atingindo seus rastros. Estava só com suas ideias e teria que executá-las sozinho. E ainda lhe faltavam ideias.


O apartamento estava aberto. Trancou e bloqueou a porta. Encontrou o rascunho e, sem compreender o conteúdo, entendeu que era a única coisa alienígena que poderia explicar o fenômeno. Interromper a programação não adiantou: era permanente, como um vírus. O cérebro era o sistema operacional invadido.

Contabilizou as horas e refez os cálculos da sintaxe exótica. Voltou-se para a janela e berrou o conceito de “rendição” e, por um instante, a multidão parou. Entendeu que estava na métrica certa, mas não confundiria os zumbis por muito tempo.

Refletiu sobre a mensagem sem tentar seguir a lógica que estava acostumado da programação comum em “0” e “1”. O código binário anulava os zeros e levava ao unitário. O conceito de zerar qualquer individualidade em torno de uma única vontade. De forma lógica, tentou ver aquilo como a invasão de um computador. Um antivírus poderia resolver. Mesma língua e mensagem.

Olhou o relógio e tinha poucos minutos para o próximo quarto de hora, quando os fonemas mudariam. A estante foi atravessada por um tiro.

Não sabia como criar uma estrofe naquela língua. Precisava de algo simples. A redação na carteira era a bula que tinha. Reescreveu enfatizando os números e a morte do amigo. Tentou cantar no ritmo mecânico. Ouviu um “clique” do fim da munição de alguma arma no corredor, junto com livros caindo e a estante se retorcendo, cedendo junto aos móveis quebrados. Manteve o tom monocórdio apertando o papel às mãos. Ao final, cantava que mesmo com um a menos, André continuaria vivo de alguma forma enquanto sua lembrança estivesse naquela canção. Dois menos um era dois.

Lá fora, a multidão desmaiava em um colapso coletivo instantâneo.


A multidão acordou. E não lembrava o que aconteceu. Tique-Taque não piscava mais. Foi o primeiro a gritar por ajuda para a reconstrução. Muitos se ofereceram. Em horas, boa parte estava reconstruído ou próximo disso, graças ao trabalho de um mutirão incansável. Todos os feridos foram hospitalizados. A morte de André permanecia obscura. Mas morte obscura na favela nunca foi prioridade policial. E aquilo foi esquecido.

Todos voltavam a ser os mesmos, sem a língua estranha. Agiam sem nenhum tipo de organização, mas com uma disposição enorme em ajudar. Contam que naquela comunidade, todos eram como irmãos. Às vezes alguém falava do economista que viveu ali. Ele tinha um irmão. Os nomes pareciam familiares. Gabriel nunca quis tocar no assunto. Volta e meia comentava que em uma língua onde fonemas mudam a cada passagem do tempo, certos assuntos só são possíveis em horas específicas. E dissertava por horas a respeito. Isso o deixou isolado e sozinho.

Afinal, nem todo mundo vive bem em comunidade.

Tiago Cordeiro
Tiago Cordeiro
Tiago Cordeiro é jornalista formado pela PUC-Rio em 2005. Aprendeu a escrever antes de saber quem era ou entender direito o que lia. Tenta jogar tudo o que escreve no site tcordeiro.com.

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