Vozes no silêncio

1

Você não tem permissão para acessar esta área. Por favor, responda com o seu código de acesso imediatamente. Se não tiver um código, por favor, se retire. A Guarda será convocada em cinco minutos.

A voz mecânica saiu pelo painel e ecoou pela cabine. Glen engoliu em seco, encarando as linhas vermelhas que piscavam no monitor à sua frente. Lá fora, a escuridão era praticamente total, entretanto o monitor demarcava com clareza que eles estavam numa fronteira.

Glen quis dar meia-volta naquele exato instante. Pra começar, se fosse por Glen, eles nem teriam roubado (não, roubado não… Não teriam pegado emprestado) aquela nave. Se fosse por ele, os dois estariam fazendo coisas que adolescentes normais faziam, como dançando numa festa, assistindo um filme interativo, ou… Seja lá o que mais jovens normais faziam lá na Terra.

“Hm, Ethel? Melhor a gente voltar…” Glen disse, as mãos ainda grudadas no painel de controle, mas com os olhos fixos no rapaz ao seu lado.

Ethel, por sua vez, estava com os olhos fixos no vácuo que se estendia do lado de fora da nave, mas seus dedos passeavam rapidamente pelo teclado no painel, digitando, digitando, digitando…

Código de acesso inválido. Por favor, responda com um código válido. A Guarda será convocada em quatro minutos e dez segundos.

“Merda,” Ethel resmungou, bagunçando seus cabelos loiros e curtos, e então passando a digitar de novo. “Glen, você não está ajudando.”

“A falsificar um código de acesso? Você está louco?!” Glen agitou-se. Ele quis gesticular enquanto falava, mas se lembrou que, ao manter as mãos nos censores do painel, conseguiria os tirar dali mais rápido quando fosse preciso. Manter as mãos no mesmo lugar não o impediu de sentir que ele também estava louco – era a única explicação. Porque ele sabia, desde o momento em que usaram o cartão (também pego emprestado) do comandante para acessar a garagem, que estavam fazendo algo muito, muito errado.

Ainda assim, ele concordara. Porque Ethel sempre parecia estar tão, tão distante de todo mundo, como se nada além dos livros digitais que ficava lendo pelos cantos e de sua proteína no final do dia importassem, e Glen estivera esperando e tentado por tanto, tanto tempo conseguir conversar com ele sobre qualquer coisa que não envolvesse termos técnicos e conversa fiada sobre uniformes, temperatura e cortes de cabelo; afinal eles eram colegas de quarto, e colegas de vôo, e colegas de destino.

Sem falar que Glen constantemente se sentia sozinho, entediado e desesperado por um amigo com quem pudesse reclamar de se sentir sozinho e entediado. E sem falar também que Ethel era o melhor, se não o único, candidato a tal vaga, ele querendo ou não.

“Louco?” Ethel repetiu, descartando a alternativa com um uma risada de escárnio. “Louco eu estava quando eu tinha dez anos e deixei que minha mãe me inscrevesse nesse maldito programa!” ele disse com o tom mais irritado que Glen jamais ouvira qualquer pessoa usar – mais irritado até que a moça da enfermaria quando ele aparecia no meio da noite dizendo que tivera um pesadelo.

Ethel digitou mais algumas coisas no teclado.

Código de acesso inválido. Por favor, responda com um código válido. A Guarda será convocada em três minutos e cinquenta segundos.

“Merda, por que nenhum desses códigos funciona?!”

“Ninguém tem permissão para ultrapassar essa fronteira, Ethel. Nenhum de nós recrutas, pelo menos. É fora do alcance de rastreamento da base.” Glen explicou, mesmo que tivesse certeza que Ethel já sabia. “Você disse que só queria dar umas voltas e atirar em algumas rochas na área de treino. Por isso eu aceitei. A gente já vai se dar muito mal se for pego aqui fora, não quero nem pensar se nos pegarem fora,” ele continuou, lançando um sorriso sem graça para Ethel e fazendo a nave dar meia-volta.

Ethel deu um soco no painel de controle, mas Glen fingiu que isso não o tinha feito ter um sobressalto nem nada do tipo.

“… Você não tinha como ter feito nada sobre sua mãe o inscrever no programa, por sinal,” Glen acrescentou enquanto guiava a nave até a área de treinamento. Melhor deixar Ethel explodir algumas coisas por lá antes que Glen se tornasse um saco de pancadas melhor que o painel.

Felizmente para Glen, depois de quatro anos pilotando aquela coisa, ele não sentia mais como se a nave estivesse sugando sua vida pelos seus dedos, embora o zumbido em sua cabeça continuasse, por mais que fraco e distante, e ele conseguia até manter uma conversa enquanto pilotava, muito diferente dos silêncios insuportáveis nos quais eles costumavam se encontrar até o ano passado.

Tão distantes que quase davam a impressão de serem estrelas, as luzes que vinham da Base pareciam cintilar. No monitor, as linhas deixavam de ser vermelhas e se tornavam azuis e brancas, traçando uma espécie de mapa e situando a nave deles no meio da vazia imensidão do espaço.

“Eu tinha como ter fugido.” Ethel disse com o mesmo tom desinteressado que ele usava durante as aulas teóricas – mas que Glen, por ser colega de quarto dele, sabia se tratar de um tom falsamente desinteressado, uma vez que Ethel costumava estudar por horas antes de dormir.

“Pra onde? Não tem como se esconder nas cidades, ou fora delas…” Não havia vida fora das cidades, pelo menos não vida que fosse durar um ano com toda aquela poluição e radiação do lado de fora das barreiras. E apesar de mais saudável, a vida dentro das cidades não era, para a grande maioria, um paraíso seguro das consequências de diversas guerras nucleares. Pelo contrário, alguns mais atrevidos diziam que as cidades eram uma prisão.

Algumas das famílias mais pobres, sete anos atrás, tiveram a oportunidade de enviar seus filhos para bases militares no espaço em troca de créditos e oportunidades de emprego. Ninguém quis perder aquela chance, é claro, e milhares de crianças foram oferecidas. Nem dez por cento delas sobreviveu ao processo de seleção.

Ethel se encolheu em sua cadeira. “Minha mãe perguntou se eu queria vir. E eu disse que sim. Eu disse que sim porque a gente quase não tinha opções e eu achei, Glen, eu honestamente achei que eu teria uma ótima vida no espaço. Estudando, viajando, ajudando a melhorar as coisas.” Ethel sorriu tristemente e Glen fingiu não ver. “Eu fui tão… burro,” ele concluiu, balançando sua perna direita quase que freneticamente, mas sem tirar a sola do pé do chão. Ele estava descalço. Sua calça azul claro terminava onde a tornozeleira cinza começava.

“Eu pedi pra vir,” Glen compartilhou. “Eu achava que seria incrível, também.” Eles chegaram à área de treinamento e Glen fez um gesto com a cabeça para Ethel inserir o código. A mensagem indicando que o código era válido soou quase como música nos ouvidos de Glen.

Enquanto isso, Ethel arrastava com o indicador o mapa para fora de seu monitor, abrindo espaço para a tabela com as atividades disponíveis para eles praticarem. Das desbloqueadas para o nível deles, Ethel escolheu as mais avançadas, selecionando os níveis médios de dificuldade e mínimos de realismo visual e sonoro.

“Mas você gosta daqui,” Ethel murmurou, espreguiçando os braços e estalando os dedos antes de colocá-los no painel, fechando os olhos em desconforto enquanto a nave se conectava com o seu sistema nervoso. Ele nunca iria se acostumar com aquilo.

“Comparado com minha vida na Terra, aqui é o Céu,” Glen riu por um curto momento, observando atentamente projetores surgirem tanto em seu monitor quanto na escuridão lá fora. Ele engoliu em seco quando sentiu uma leve, porém incômoda dor em seus polegares enquanto a nave parecia ganhar vida: luzes acenderam, turbinas foram ligadas; por parte de Ethel, escotilhas foram abertas, armas foram ativadas; ele sentiu como se fosse vomitar, mas sabia que isso era mais psicológico do que físico.

E então a nave já estava se movendo em alta velocidade, fazendo algumas curvas ousadas em volta dos projetores, que começavam a lançar imagens tridimensionais de rochas e pequenas naves no caminho, nas quais Ethel disparava tiros silenciosos e certeiros sem pestanejar.

“Só que esse Céu também não é como eu imaginava que seria,” Glen concluiu, fazendo careta quando precisou desviar de uma rocha em rota de colisão.

“Você gosta de estudar, não gosta? De pilotar,” Ethel resmungou. “E os instrutores gostam muito de você. Você nem precisava se esforçar nas provas teóricas, considerando que é um dos únicos que consegue fazer essas curvas tão fechadas e todos esses giros.”.

Glen deu de ombros. “Até vir pra cá, eu literalmente só jogava videogame. E, sei lá, não é como se eu tivesse outra opção. Gostar de pilotar faz pilotar mais fácil, sabia? Eu nem preciso mais daquele remédio pra dor de cabeça.”

“Eu sei,” Ethel disse. Ele quis dizer também que não era a mesma coisa para os dois, já que Glen só pilotava; ele não precisava atirar em coisas sabendo que, cedo ou tarde, elas não seriam mais hologramas, e sim coisas de verdade. Naves de verdade. Com seres vivos de verdade dentro delas. Que morreriam quando fossem acertadas. Só que ele não disse.

“Sabe, também não foi escolha minha treinar até estar pronto para entrar numa frota e lutar por alguém que eu nem sei soletrar o nome,” Glen suspirou, os olhos fixos em frente, porque ele sabia que por mais que aquilo na frente dele não passassem de hologramas no momento, em algum lugar lá fora algumas pessoas que ele nem conhecia se odiavam, e estavam dispostas a sacrificarem outras pessoas no nome desse ódio. Soldados. Como ele e Ethel.

Era tão injusto.

“E se eu pudesse ter escolhido alguma coisa, definitivamente teria escolhido alguém que falasse mais, sabe, para ser meu colega de quarto,” Glen mentiu. Porque ele não trocaria Ethel por nada.

E ele nem sabia o motivo.

Talvez fosse a nave – eles foram colocados juntos por causa do tipo sanguíneo, e porque a nave sincronizava melhor com os dois juntos do que quando eles estavam com outras crianças. Talvez em algum momento aquela sincronia e aquele zumbido eterno em sua cabeça quando estavam a bordo tenha afetado o modo como Glen via Ethel, mas realmente não importava mais. Era melhor gostar dele do que detestá-lo, considerando que seriam obrigados a viver juntos até o fim. Até ter uma guerra. Até um lado vencer de vez.

Ethel não respondeu por um momento. E quando o fez, depois de destruir mais meia dúzia de rochas, foi falar de outra coisa. “Eu só fico tão, tão irritado. Porque… Por quê? Por que a gente precisa fazer tudo isso, sabe? Será que ninguém nunca vai aprender que não adianta nada, no fim das contas, continuar colocando gente no campo de batalha assim? Por que eles não podem lutar por eles mesmos? Por que eles não podem mandar a gente ir explorar e catalogar tudo em algum planeta desabitado, sabe, como costumavam fazer nos outros programas? Nada disso vale a pena”.

As mãos de Ethel tremiam. Ele sentia como se estivesse prestes a começar a chorar, porque estava tão cansado, perdido, sozinho. Mas é claro que ele não choraria, não na presença de Glen ou de qualquer outra pessoa. Mas principalmente não na frente de Glen – não tinha como, já que sabia que Glen tinha dificuldade para dormir; já que Glen sabia que Ethel precisava de uma dose a mais de remédios do que o comum; já que Glen se preocuparia e tentaria fazer alguma coisa a respeito, como quando o nariz de Ethel não parava de sangrar depois do treinamento, e Glen o arrastou até a enfermaria; já que Ethel preferiria ouvi-lo falar e, quem sabe, até sorrir, do que vê-lo preocupado.

“Sempre achei que você não se importasse com nada,” Glen murmurou.

“Eu tento,” Ethel resmungou. “Mas fica difícil quando você não cala a boca, e aí eu acabo pensando em todas as coisas que nenhum de nós jamais vai poder fazer porque estamos presos nessas obrigações,” ele apontou para frente com o queixo. “Pra sempre. Eu nunca vou poder explorar nenhum planeta, e você nunca vai poder, sei lá, ter um cachorro ou descobrir se seu irmão conseguiu entrar naquela universidade de medicina que ele queria.”

Nervoso, Glen riu. Porque era tão absolutamente estranho saber que Ethel prestava atenção àquelas coisas bobas que ele dizia antes de dormir. Era uma novidade tão grande saber que, na verdade, Ethel estava tão perto. Não perto o bastante para um abraço, talvez, mas perto o suficiente para escutar. E isso dava uma nova perspectiva a Glen; ele não sabia dizer se era boa ou ruim, mas era nova.

Era nova, e fazia a imaginação de Glen voar mais alto do que qualquer nave, para lugares mais distantes do que qualquer planeta, em paisagens mais tranquilas que qualquer uma que ele já tinha visto.

“Sempre achei que você nunca ouvia. Achei que você não gostasse de mim ou algo assi—ai,” Glen disse, se interrompendo por causa da dor em sua cabeça por não ter feito uma curva adequadamente e batido numa pedra.

“Gostar de você fez as coisas menos insuportáveis,” Ethel deu de ombros e, com um grunhido, tirou os dedos do painel, levando as pontas avermelhadas até seu couro cabeludo. Pela expressão dele, não parecia que isso ajudava muito, e ainda assim ele fazia isso toda vez – geralmente não no meio do treinamento, e sim no final dele. Segundos depois, Ethel digitou um comando no teclado, e os projetores foram desativados, fazendo com que as rochas e naves desaparecessem completamente.

Ethel quase deitou em sua cadeira, fitando suas mãos como se nelas estivesse o segredo para a paz universal – só que ele sabia que delas só poderia vir destruição. Talvez, ele pensou, tal segredo estivesse nas mãos de alguém em algum lugar. Mas não com ele. Não naquela base.

“Hum… Eu digo muita coisa antes de dormir, porque sempre achei que você estivesse ouvindo música e tudo o mais…” Glen sentiu seu rosto ficar vermelho, e fez a nave girar algumas dezenas de vezes, se dirigindo de volta para a garagem.

A Base foi deixando de parecer uma estrela, crescendo cada vez diante dos olhos deles enquanto a nave avançava velozmente pelo espaço.

Ethel costumava colocar música em seus ouvidos, no começo. Só que depois de um tempo, ele percebeu que a voz de Glen era mais tranquilizadora do que todas aquelas vozes de desconhecidos que ele ouvia, por mais que a deles fosse muito mais afinada. Porque aquelas vozes vinham da Terra, de um mundo que Ethel nem podia chamar de casa direito. E Glen… Glen estava bem ali, na cama de cima, murmurando sobre mil e uma coisas. E a voz dele era tão baixa quando ele falava de estrelas, lugares, sonhos; quando ele perguntava coisas que Ethel nunca respondeu; até quando cantarolava. A voz dele afastava o frio do vazio, de alguma forma.

“Não se preocupe, eu posso continuar fazendo de conta que nunca ouvi você dizer que adora assistir meus treinos individuais, nem aquela parte sobre o que você viu no banheiro ano passado,” Ethel comentou com uma voz meio divertida, sentindo o próprio rosto ficar vermelho.

“Ah. Merda. Foi mal, sério, eu realmente não quis ter espiado daquela vez, mas eu…” Glen se atrapalhou, quase gaguejando, mas de alguma forma conseguindo manter sua voz até o final da frase.

Ethel riu. “Tudo bem. Não tenho nada pra esconder,” ele então deu de ombros, em seguida os encolhendo quando viu a escotilha da garagem se abrir.

Glen ainda murmurou alguns pedidos de desculpas sobre outras coisas que ele dissera enquanto a escotilha se fechava e o ambiente era preenchido mais uma vez com oxigênio antes de uma segunda escotilha se abrir, permitindo a entrada deles na garagem. Glen colocou a nave exatamente no mesmo lugar de onde a pegaram, e quando ela se desligou, ele afastou suas mãos do painel com um suspiro de alívio.

Os garotos desembarcaram silenciosamente, e enquanto Glen foi direto para o dormitório, Ethel se dirigiu até a sala do comandante, onde precisava colocar o cartão e fazer com que as câmeras parassem de transmitir uma imagem repetitiva dos corredores vazios. Ele não precisou nem de dez minutos para fazer isso.

Com um sorriso de satisfação nos lábios, ele foi até o dormitório, seguindo pelo corredor até alcançar o compartimento que dividia com Glen. A porta deslizou para o lado quando ele parou na frente dela, e voltou a deslizar para sua posição original assim que ele entrou.

Glen já se encontrava deitado na cama de cima, e Ethel se jogou na própria cama, preguiçosamente cobrindo o rosto com os braços.

“Obrigado,” ele murmurou. “Por aceitar ter saído.”

“Fique grato que ninguém flagrou a gente, porque eu teria jogado toda a culpa em você.” Glen ajeitou-se na cama, ignorando o fato de que os dois sabiam que, na verdade, era provável que ele assumisse toda a culpa sozinho.

Ethel sorriu, mas não respondeu, nem Glen falou coisa alguma nos minutos que se seguiram, seus olhos fixos no teto sobre si, seus pensamentos soltos num oceano de perguntas sobre Ethel, ou melhor, sobre o que fazer com a informação de que Ethel costumava ouvir o que ele dizia durante a noite.

“Ethel?” Ele chamou.

“Hum?”

Glen sorriu, porque tinha pensado que Ethel não o responderia.

“Por que você nunca disse nada? Sabe, sobre ouvir o que eu falava.”

Ethel ficou em silêncio por alguns momentos. Honestamente? Porque ele gostava de ouvir a voz de Glen, assim como gostava de ouvir o que ele tinha para dizer, por mais que constantemente não concordasse. Mas ele não disse nada disso, nem nada no geral, porque a companhia de Glen era confortável, e palavras eram complicadas. Ele não sentia necessidade de falar naqueles momentos.

Glen esperou por quase dois minutos, e quando uma resposta não veio, ele suspirou. “Você podia dizer algumas coisas às vezes, sabe, pra não me deixar falando sozinho… Tipo, responder algumas perguntas volte e meia, como qual a sua cor favorita, coisas assim.”

“Azul.” Ethel sussurrou. “Minha cor favorita é azul.”

“Obrigado,” Glen sorriu. “Azul tipo a cor do céu visto da Terra?”

“Azul tipo a cor dos seus olhos,” Ethel disse com um tom tão baixo que Glen quase achou que tinha imaginado.

“Ah,” Glen murmurou em resposta, um sorriso tímido se formando em seus lábios. “E a minha cor favorita é verde.”

“Eu sei,” Ethel disse, ainda escondendo o rosto com os braços, e ficando contente com isso quando Glen sentou-se em sua própria cama e (provavelmente) olhou para baixo.

“Como os seus olhos.” Glen continuou, ainda mais baixinho, porque era meio estranho dizer isso, uma vez que Ethel provavelmente saberia o que queria dizer, assim como Glen achava que entendia o que Ethel quisera dizer.

Um era a pessoa favorita do outro.

E, Ethel concluiu, talvez por algo assim valesse à pena tentar ter uma visão um pouquinho mais otimista do futuro.

Ele realmente só tinha como destruir coisas (enquanto naquela nave), só que, às vezes, para construir era necessário destruir primeiro, certo? Porque não era só matar ou morrer. Era matar ou perder Glen. E a escolha dele, nesse caso, era óbvia.

Ele não iria perder Glen. Não iria perder o garoto cuja maior ambição, naquela base espacial, naquele treinamento ridículo para uma guerra iminente, era ter um cachorro.

Por Glen, e não por nenhum idiota com nome difícil de soletrar, valia à pena.

Júlia da Silva
Júlia da Silva
Júlia da Silva é aspirante a escritora, amante de piadas toscas e mãe de um lindo gato tuxedo chamado Alfred. Estando no sexto semestre do curso de bacharelado em Letras da UFRGS, pode constantemente ser encontrada dormindo no transporte público, resmungando no Twitter e emboscando a geladeira de madrugada atrás de nescau e cookies. Além disso, tem como passatempo escrever roleplays, cozinhar, ficar de pijama o dia inteiro e assistir vídeos de fails no Youtube.

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Um comentário

  1. Ramon dos Santos / 11 de dezembro de 2016 at 01:23 / Responder

    Uma historia inspiradora!
    Adorei o envolvimento pessoal dos personagens e também sou muito fã do ambiente espacial e militar.

    Ficou muito bom e me inspira a colocar no papel todas as minhas historias que tenho na cabeça

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