A Queda de Pleroma

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Editado por Lucas Ferraz

Nervosos, eles aguardavam as portas se abrirem, enquanto as luzes de emergência piscavam. As paredes tinham camadas de sujeira sobrepostas através das eras, e, por desgastes antigos, era possível ver o fraco brilho da parede externa; feita de 4119-T6, uma liga de alumina. Era ela que vibrava quando toda a estrutura mudava de direção, e os poucos painéis fotovoltaicos que ainda funcionavam bebiam dos raios solares em ciclos de 90 minutos. Durante a transição de painéis, as portas não se abriam, e uma ampulheta holográfica piscava, indicando o tempo restante para a liberação. Mas elas nem sempre abriam, e por isso havia um painel ao lado, com fios presos por fita isolante e um manual em russo.

Continuando. — A voz de D.A.N.I.C.A, sempre fria, ecoou pelas paredes. Não sabiam exatamente onde ela estava; pelo menos não ali, num nível tão baixo da Pleroma.

A porta abriu, e dela saíram quatro nevrons, geneticamente idênticos, mas desesperados em tentar se distinguir, usando toda maneira de brincos, argolas, cabelos coloridos e modificações corporais. O líder, que vestia um macacão tão antigo que tinha uma Terra ainda azul desenhada num dos bolsos, falou primeiro.

— Trouxemos as comidas, da? Trazeram as armas? Negócio. Negócio pronto. — Ele acenou para um dos nevrons, que trouxe uma caixa de isoporin, com uma planta e a palavra “hidropônica” escrita em verde. Dentro, podiam imaginar, havia vegetais.

Ele e seus dois amigos trouxeram à frente uma caixa de madeira contendo dez armas cruas e improvisadas, feitas de alumina e plástico, forjadas nos reatores inferiores. Eles vestiam pesados trajes vermelhos chamados Sokol, com uma palavra quase mitológica emblemada no peito:

Soyuz.

— Trouxemos as armas. Dez. Cinco mais cinco. Não temos alumina para fazer mais. Não podemos mais retirar das paredes, ou vamos todos morrer. Morrido. Entende? — falou com a voz mais alta que ousava para os nevrons, tentando não demonstrar fraqueza.

Um dos nevrons, uma mulher com olhos vermelhos e pele completamente branca debaixo das tatuagens, checava as armas com sussurros de satisfação. O líder, muito mais forte que os outros, ignorou as desculpas de seu interlocutor e se dirigiu a Nica, outro dos companheiros que haviam carregado a caixa de armas.

— Guerra, da? Precisar de mais armas. Precisar invadir setor de genharia, senão comidas morre. Sem resfriamento. Precisar de trinta. Trinta menos dez, vinte. Em até centessenta ciclos. Dez dias. Noventa mais noventa mais noventa… — ele falou alto, também mostrando força.

— Não podemos. Não temos mais revestimento interno — Nica respondeu, mantendo a compostura. O nevron chegou perto dele, os olhos de cores desiguais procurando o rosto dentro do capacete espelhado do traje Sokol.

Desistiu, praguejando algo ininteligível.

— Se não ter armas, não ter comidas. Se nevrons morrer, genheiros vão tomar conta dos jardins. Eles fazem armas melhor que vocês. Não precisar de vocês. Não precisar trocar por comidas — ele falou para Nica, rindo. Acenou para um seus amigos, que levaram a caixa com armas. Ele deu uma última olhada para trás, pegando uma cenoura da caixa de vegetais e mastigando enquanto saia pela porta, de costas.

Ele, Nica e Mina permaneceram com os olhos fixos na porta por onde os nevrons se foram, aguardando o tempo necessário. Quando faltavam quatro minutos para elas se trancarem, Mina pegou a caixa com cuidado, isolando-a com microfilme. Ela a entregou ao colega, que era o mais forte, para carregar dentro do túnel. Desceram as escadas com cuidado, atravessando o túnel com passos ainda mais lentos. O arfar deles era audível, já que as botas magnéticas exigiam um esforço tremendo para funcionarem ali, no ponto mais baixo da Pleroma. Aquele túnel era um suplício, mas era o principal mecanismo de segurança do porão. Apenas pessoas com trajes como aqueles podiam atravessar aquela parte exposta à escuridão.

O ultimato do nevron contrastava diretamente com o soturno lembrete daquele túnel. Ali, num passado longínquo, o povo deles extraíra alumina demais das paredes. Um meteorito tinha se chocado com a parede externa, que em condições normais, ejetaria o painel, e através de uma série de trilhos, o substituiria em zeropontodois segundos. Mas eles haviam retirado todas as vinte camadas de alumina extra. Quando a estrela bateu, a Pleroma ejetou cento e trinta e três painéis, de três em três, os substituindo por escuridão.

As pessoas no local morreram em três minutos.

Aquilo acontecera há pelo menos duzentos anos, ou alguns milhões de ciclos de noventa minutos. Mas a memória, passada de forma oral, ainda era vívida. Não que precisassem dela. Nos tetos do túnel, contrastando com a parede branca de alumina, ainda havia pessoas flutuando em seus trajes vermelhos. Estrelas escarlates, formando uma constelação própria.

— Splotila naveki velikaya Rus! — Mina falou pelo rádio, com desgosto, enquanto esperavam D.A.N.I.C.A abrir as portas novamente.

Continuando.

Eles entraram em casa, nos reatores da Pleroma. A pressurização demorou vinte minutos, e quinze pessoas vieram ajudá-los a retirar os trajes. Eleanora tirou a caixa das mãos do companheiro, levando-a para dentro de um outro contêiner, que carregaram num carrinho para o laboratório improvisado. Eles saíram dos trajes com uma pequena escada, enfileirados em uma parede de plástico, onde apoiaram as mãos.

A água veio fria, cortante.

Mina gritou alto, enquanto Nica apenas gemia baixinho do seu lado. Depois foram até a sala de descontaminação, onde cada um foi colocado em uma câmara diferente, enquanto scanners holográficos percorriam seus corpos envoltos em toalhas. O de Mina parou na metade, apagando, e a sua sala ficou escura. Já tinha acontecido com ele. Demoraria horas até consertarem. Mina se limitou a grunhir de frustração, chutando a cadeira longe. Não podiam tirá-la dali até completarem o scanner.

Todo aquele lugar estava caindo aos pedaços.

Ele e Nica foram levados até outras salas, onde roupas esperavam; macacões vermelhos com o mesmo emblema, puídos e rotos. Cada um recebeu a visita de um doutor, com uma prancheta com o teste, e uma makarova presa em um coldre na cintura. Nove balas. Não que precisassem das outras oito, assim à queima-roupa.

A não ser que um deles não passasse no teste.

— Nome e patente? — a sua doutora perguntou, os óculos espelhados olhando para a prancheta, o lápis parado na primeira questão. A outra mão estava embaixo da mesa. Ele sabia exatamente onde.

— Numa. Proletário — Numa respondeu, olhando para seu reflexo nos óculos. Ele parecia um lixo.

— Status da missão? — Os olhos continuaram na prancheta.

— Bem sucedida com complicações. — Ele retesou os músculos. Lá vinha.

— Me fale das complicações.

— Os nevrons precisam de mais armas. Não vão querer nos fornecer mais hidropônicos até receberem mais vinte. Estão em guerra com os engenheiros. Eles estão fodidos. Depois vai ser a nossa vez — falou com o máximo de calma possível.

— Entendi. Continuemos com as questões. — Ela moveu a prancheta um centímetro para cima, e o lápis parou na terceira pergunta. — Você ouve vozes?

Ele pensou por uns segundos.

— Não.

A prancheta subiu mais um centímetro.

— Considera a vida um desperdício?

— Não.

Mais um centímetro.

— Um trem segue por um trilho. O trilho se divide em dois. Em um dos caminhos, uma pessoa está presa. No outro, cinco pessoas estão presas. Você pode não fazer nada, e cinco pessoas morrerão, ou, se apertar um botão, apenas uma morrerá. O que você faz?

“Eu gostaria de colocar você no trilho”, Numa pensou.

— Precisa de uma descrição do que é um trem? É um veículo de transporte terrestre antigo…. — Ela olhou diretamente para ele.

— Eu aperto o botão.

A mão debaixo da mesa relaxou um pouco.

— Qual a cor do oceano?

— Vermelho.

— Uma árvore que cai no meio da floresta produz algum som se ninguém estiver por perto para ouvi-la? — Os lábios dela se estreitaram, no que deveria ser a distorcida tentativa de um sorriso. — Precisa de uma descrição do que é uma árvore?

Porra, quando foi que eles mudaram as perguntas? Ele teria que apelar. Usaria a resposta que Mina havia lhe ensinado. Os merdas dos doutores adoravam ela.

— Isso é subjetivo — ele falou, sério. Os óculos brilharam.

— Como assim?

— Que é subjetivo. Precisa de uma descrição do que é algo subjetivo? É algo que depende do ponto de vista…

— Eu sei o que é subjetivo, proletário. Pode ir. Passou no teste. — Ela sorriu novamente. Era horrível.

Saiu da sala, pegando as suas coisas numa caixa. Vestiu o casaco gasto, calçou as botas e subiu a escada, abrindo a escotilha. O reator girava em uma velocidade alucinante, emitindo um brilho esverdeado e doentio. As pessoas passavam para lá e para cá, gritando, subindo e descendo escadas, vendendo pedaços de metal em pequenas barraquinhas, indo e vindo das dezenas de corredores e escotilhas. Ele foi até o Reznikov, um pequeno quiosque que ficava debaixo dos canos de resfriamento, e pediu o de sempre, enquanto esperava por Mina. A bebida veio quente e a comida fria, como sempre, e ele empurrou de mau gosto os mármores em direção à dona do bar. Tinha um camarão na porção de camarão com batatas que ele tinha pedido. Um camarão.

— Dia difícil, Numa? — Uma mulher sentou no banco do lado, ou estava ali desde antes e ele não tinha visto. Ele olhou para ela, toda encouraçada em preto e vermelho, poliaramida, metal e espuma anti-impacto. Ele a conhecia. Era a Guardiã do Reator, mandada pelos lordes lá do topo da estação, para garantir que o reator funcionasse o tempo inteiro.

— Vai se foder, Anarin. Não vou fazer porra nenhuma pra você. — Ele comeu as batatas sem nem sentir o gosto. Precisava sair dali o quanto antes.

— Ouvi falar que os clones malucos do setor de hidropônicos não vão mandar mais comida pra cá. Uma pena. Vocês são gente boa. — Ela bebeu um gole do seu drinque. Vodca. O olho da cara. Podia comer uma semana inteira pelo preço daquela droga de copo.

Porra, não fazia dez minutos que ele tinha contado pra doutora. Ou Nica já tinha dedurado.

— Nós somos todos porras de clones, Anarin. Todo mundo, em todas as estações. Pleroma, Nadir, El Cid, Yamato. Todos clones ou AIAS, aqueles robôs assustadores que acham que são gente. Todos cópias de cópias de cópias. Menos aqueles imortais lá em cima — Numa apontou para um lugar vago no alto. — Os últimos humanos de verdade. E eles são o que? Uns doze? Então para com essa merda de racismo. Você é a porra de um clone.

Anarin riu.

— Verdade. Mas alguns são mais iguais que os outros, Numa. Falando nisso, tenho um trabalho pra você. — Ela bebeu mais um gole. Ela nem saboreava a porra da bebida. Engolia direto. Maldita. — Hoje ainda. Pode esperar aquela sua namoradinha se quiser.

— Não vou ficar me arrastando em latas de dejetos radioativos pra pegar bastões de fissão pra você vender no mercado negro. E Mina não é minha namoradinha. Acho que ela nem gosta de homem. Acho que ela não gosta de ninguém, pra falar a verdade. Muito menos da porra de Guardiões.

Anarin riu de novo.

— Você tá ficando velho, Numa. Trinta anos. Precisa ganhar uns mármores pra poder comprar uma cápsula própria e morrer sozinho igual um rato aqui nesse porão. Além disso, o trabalho é oficial, nada dessas coisas escusas que está sugerindo que eu participei. Vinte mil mármores. Pra cada. — Ela bebeu o último gole do copo. — Os doutores resolveram abrir um dos corredores selados. Querem ver se tem alumina lá para poder derreter e fazer armas para negociar com os nevrons. Também tem esperança de encontrar algum dos depósitos desativados.

Numa comeu um punhado de batatas. Falou sem olhar para ela.

— Qual corredor?

— O de acesso à rampa. Parece que alguém achou um mapa antigo de algum comerciante que mostrava um laboratório médico na entrada pra receber os feridos. Ele não consta nos mapas novos. — Ela pediu mais uma dose.

Filha da puta.

— Provavelmente porque alguém apagou pra não abrirem a porra dos corredores. Esse é completamente selado. Nem tem ventilação que chega lá. Nem os túneis de acesso dos cabos chegam lá — ele falou, mastigando.

— Como você sabe? — ela abriu um sorriso.

— Já fui lá. Tem uma parede de concreto. Concreto, Anarin. É uma péssima ideia. — Engoliu o seu próprio drinque. Tinha gosto de morte e limão. — Sabe quem constrói algo com concreto nessa porra de lugar? Ninguém. A não ser que você queira muito garantir que ninguém vai entrar lá de novo.

— Me parece realmente uma péssima ideia, Numa, mas infelizmente você já faz parte dela. Você e a sua namoradinha.

— O Nica não vai? — Ele sentiu algo errado na hora.

— Não. — Ela fez uma pausa, procurando algo no copo. Numa parou de mastigar as batatas.

— Que porra aconteceu?

— Ele não passou no teste. Matou um doutor e arrancou o braço de outra.

— Mas que porra. — Numa engoliu. — Era… “Ela”? As vozes? Alma Oceânica e tudo o mais?

— Era. Trinta por cento de infecção. Levantou o doutor com a mente com aquela tal de psicocinese e esmagou ele no teto. Ainda estão limpando. A doutora entrou e encheu ele de bala. Ele arrancou o braço dela antes de morrer estrebuchando.

— Puta que pariu. A doutora usava óculos?

— Que porra isso tem a ver, Numa?

— Nada. Deixa pra lá. — Ele começou a comer o resto das batatas. Estavam gordurosas e moles.

— Ainda quer continuar a ir lá fora, Numa? Sabe o que acontece com todo mundo, cedo ou tarde. Partículas no sistema de filtragem de ar, me falaram. Você vai engolindo algumas de cada vez. Uma vira duas, duas viram seis. Depois de um tempo você tem uma pequena conselheira pessoal, dando conselhos bem intencionados com uma vozinha simpática. Eles olham e não tem nada no seu cérebro, só você mesmo. Mais partículas. Aí você vai deixando de ser você, né. Fica um pouquinho mais…ela.

— Puta que pariu.

— O que tem a sua mãe, Numa? — Mina chegou, sentando do lado dele, comendo a última das batatas, e então viu Anarin. — Puta que pariu.

— Esteja na entrada da rampa, Numa. Vou tentar conseguir uns trajes pra vocês dois. — Ela levantou, comendo o camarão que ele tinha separado. Imitou um dos nevrons do setor de hidropônicos. — Doisciclos.

— Que caralho ela quer com você na rampa, Numa? Aquele lugar é selado.

— Vão abrir pra tentar achar alumina e um laboratório. Os filhas da puta dos doutores vão matar todo mundo. Não é à toa que estamos nessa merda, vivendo numa lata no espaço. Porra de doutores.

— Eles vão abrir a porra do corredor? A gente tem é que dar o fora dessa droga. — Ela olhou para os lados, e falou no ouvido dele. — Eu tenho ainda um passaporte pra Yamato. Comprei de volta o meu que me roubaram quando fui vendida pra cá pequena. Posso tentar levar você.

— Você vai me levar como, Mina? Eu pareço a porra do Lenin. Olha pra mim — ele resmungou, colocando o dedo dentro do copo da Anarin e lambendo em seguida. — Até geneticamente predisposto a gostar de vodca eu sou. Droga de vida.

— Eu caso com você, seu merda. Você chega lá e a gente pede asilo pra casais. A gente mora junto de fachada. Pode pegar quantas clonezinhas niponesas quiser, se é que você ainda funciona lá embaixo.

— A gente ia precisar de grana. Eu estou velho, Mina. Não vou conseguir trabalhar nos setores alagados da Yamato carregando arroz tubo acima. A gente precisa de grana.

— Quanto a Anarin ofereceu?

— Vinte mil pra cada. Dinheiro pra caralho.

— É dinheiro pra caralho, mesmo. — Ela assobiou. Ele conhecia o olhar dela. Cobiça. Estava planejando o que ia comprar com vinte mil mármores. Mina era louca. Uma vez tinha falado em passar uma noite em Valhalla, a estação paraíso onde os supersoldados moravam. Puro luxo. — Garçonete, me traz um saquê e uma vodca pro meu amigo Numa aqui.

— Se me chamar de garçonete de novo vou sentar a mão na sua cara, Mina. Até parece que tem grana pra comprar saquê. Tá achando que tá em Yamato?

— Podia quebrar meus dentes que ainda não ia ficar feia igual você. Vou pagar à vista, sua merda. — Ela colocou os mármores no balcão, pequenas peças feitas de um material branco brilhante. Cada um tinha seu valor impresso em tinta preta. Duzentos. Os copos nem cheios eram.

— Tá maluca, Mina? Isso aí é uma semana de aluguel, mulher — Numa falou baixinho, desesperado. — Falando nisso, já pagou o seu?

— A gente vai estar rico ou morto no final do dia, Numa. Não vai fazer diferença. Bebe essa porra.

Beberam. A vodca tinha gosto de batata hidropônica, misturada com álcool e matéria negra do espaço.

Era boa pra caralho.

— Traz as máscaras. Não aquelas merdas que eles dão nos treinamentos, aquelas que a gente fez com policarbonato — ele falou, os olhos lacrimejando da bebida.

— Ainda tem aquele holomapa? — Ela passou a mão na borda do copo e lambeu.

— Holomapa?

— Holomapa. Aquele mapa de pulso que acende e mostra as passagens. Até parece que eu não sei que você roubou um, Numa. Até parece que sobreviveu nos túneis porque era esperto. Traz ele.

— Vou levar. Te encontro lá em noventa minutos.

— Porque não umciclo? — Ela riu de um jeito desengonçado.

— Porque eu pareço um idiota falando essas porras de palavras inventadas.

— Você parece um idiota de qualquer maneira, Numa. Não tem muita coisa que te ajude.

— Mina? — Ele falou olhando para o fundo do copo.

— Se você começar a dar uma de bêbado, vou te bater. Juro.

— Traz o seu passaporte.


Os Guardiões estavam no portão de acesso ao corredor da rampa. Eram seis, e só isso já era o suficiente pra garantir que o assunto era realmente oficial. Havia só quatro cuidando do reator agora, o que era um absurdo. Mina e Numa se olharam, desconfiados, enquanto desciam as escadas. Os Guardiões enfiavam uma mulher com extrema dificuldade dentro do traje de combate, devido à falta de um dos braços. Era a doutora dos óculos.

— Puta que pariu — soltou Mina ao descobrir que um doutor viria junto.

— Qual o problema de vocês, ratos? — um dos Guardiões, de capacete, falou pra Mina. — Vivem xingando a cada quatro palavras. Parecem crianças.

— Cuida da sua vida, lata de atum — Mina devolveu, enquanto vestia o traje com espantosa rapidez.

— Você lá sabe o que é um atum, niponesa? Aposto que nunca viu um peixe na vida. — Os demais Guardiões riram junto. Mina apenas rangeu os dentes de raiva.

Numa foi direto até Anarin, depois de vestir o traje de combate.

— Não vou ficar cuidando de ninguém. Eu e Mina sabemos nos virar. Se eu falar pare, parem. Se eu falar ande, andem. Se eu falar vire cambalhota, vocês vão girar iguais aqueles macaquinhos dos filmes. Esse passeio não é nenhum piquenique na estrada.

— Pode deixar, Numa. Ninguém vira Guardião sendo estúpido. — Ela colocou o capacete.

— Engraçado, olhando pra você eu achei que ser estúpido era um pré-requisito.

Eles desceram a rampa rumo à porta de acesso ao corredor, passando pelo cordão de contenção onde uma multidão de pessoas havia se formado.


As portas depois da rampa eram hermeticamente fechadas, com uma trava de segurança hidráulica, uma elétrica, e um portão pesado de contenção que estava fechado pelo lado de dentro, e era impossível de ser aberto. Havia, no entanto, uma pequena porta nele, do tamanho de uma pessoa, que os Guardiões e os doutores abriram com uma pequena carga de térmite, derretendo o metal em uma nuvem de calor e fumaça, rapidamente sugada pelo sistema de reciclagem de ar.

Do lado de dentro, foi fácil para abrirem o portão de contenção. Restavam apenas as travas elétricas e as hidráulicas.

— Comando, algum progresso? — a doutora falou em um comunicador do capacete. Alguns segundos depois o corredor ficou escuro, iluminado apenas pela lúgubre chama do reator girando. A trava elétrica começou a se abrir com um guincho horrível, fazendo o corredor inteiro tremer, enquanto um ruído de estática preencheu os capacetes.

— Porra de vida! — gritou Numa, mas ninguém ouviu.

Para lidar com a trava hidráulica, um Rino veio à frente, um robô empilhadeira amarelo com dois braços mecânicos que pareciam pinças. Ele era o último que existia em todo aquele setor, e andava em um trilho fixo nos corredores. O piloto, um velho de uns trinta anos, mordia o lábio enquanto manuseava os comandos, enfiando as pinças nos pistões e forçando a porta. Os Guardiões, quando o rino começou a abrir o portão, tiraram das costas uns objetos de metal cinzentos com umas luzinhas engraçadas. Numa chegou mais perto pra ver o que era.

Seu sangue congelou.

— Anarin, sua porra louca, você vai usar armas de fogo nessa porra de expedição? Você tá maluca, mulher? — ele gritou no comunicador. Todo mundo levou as mãos aos ouvidos quando o rádio explodiu em estática.

— Cuida da porra do seu trabalho, Numa! Eu cuido do meu! — ela gritou de volta.

— Se você atirar com a porra de um rifle nas paredes a gente vai morrer mais rápido do que você pode dizer descompressão! — ele gritou de novo.

Um dos Guardiões apontou o rifle para a sua testa.

— Não se preocupe, rato, prometo que não vou errar. Agora, em frente! — Ele empurrou Numa em direção ao corredor.

Quando a última trava foi retirada, o rino mudou as configurações das pinças, esperando para fechar o portão em caso de emergência. A primeira coisa que notaram foi o quão limpo era o corredor. No lado de cá da estação, você conseguia ver as partículas de poeira pequenas demais para serem pegas pelos filtros, mas ali o ar era claro e limpo. Era, porque a sujeira lentamente começou a invadir o corredor.

As paredes tinham um contraste terrível com a gordura e graxa do outro lado. Eram almofadadas, de um branco puro, com os dizeres e as instruções de direção ainda intactas, e a cada cem metros havia um pequeno sofá branco que Numa nem precisava tocar para saber que devia ser muito fofinho. O corredor era também muito mais estreito, já que ali ainda não haviam sido retiradas as dezenas de camadas de alumina; mas, fora isso, era apenas um corredor.

— Em frente — Anarin sussurrou no rádio.

Lâmpadas acenderam quando eles haviam andado vinte metros. Eram lindas, com um brilho branco claro, e as sombras deles desapareceram completamente. Um piano longínquo começou a tocar uma valsa.

Tchaikovsky.

Corredor de Acesso reinicializado. Presenças biológicas desconhecidas detectadas. Favor apresentar identificação. — Era a voz inconfundível de D.A.N.I.C.A, mas parecia diferente. Mais jovem. Seria possível?

— Hm, acho que talvez isso resolva. — A doutora tirou do bolso pequenos cartões de identificação. Entregou um cartão para cada um deles. — Mostrem os cartões, assim. Ela vai ler o DNA de vocês que está no cartão.

D.A.N.I.C.A passou a identificá-los:

Marionete da empresa Nevron Robóticos. Modelo “Sofia”. Designação: Auxiliar de Laboratório, versão dois ponto oito. Tempo de funcionamento: vinte anos. Número de série sete sete dois oito nove dois. Dono atual: Maria Simonova. Acesso permitido.

Anarin deu um passo à frente, mostrando o cartão na frente do rosto.

Marionete da empresa Nevron Robóticos. Modelo “GR-A Classe D”. Designação: Guardiã de Reator, versão um ponto zero. Tempo de funcionamento: Vinte e oito anos. Número de série confidencial. Dono atual: Federação Russa. Acesso permitido. Armas de fogo autorizadas.

Os demais Guardiões tinham praticamente a mesma designação. Todos clones a serviço da extinta Federação Russa. Numa mostrou o seu cartão.

Marionete da empresa Nevron Robóticos. Modelo “Dmitri”. Designação: Auxiliar de cozinha, versão zero ponto oito Alfa. Descontinuado. Tempo de funcionamento: Trinta e quatro anos. Número de série zero zero zero quatro. Prossiga para o setor de reciclagem.

Numa esperou as risadas, mas nenhuma veio. Ele fechou os olhos.

Marionete da empresa Mitsubishi-Sony, Estação Yamato. Modelo “Yin”. Designação: Supersoldado, versão 4.0 Prime. Tempo de funcionamento: Vinte e seis anos. Número de série confidencial. Dono Atual: Exército Imperial Japonês, Kenpeitai. Acesso permitido em caráter diplomático. Armas de fogo suspensas. Habilidades psiônicas suspensas. Acesso restrito ao setor administrativo.

Todos olharam para Mina.

— Mas que porra? Eu me arrasto na graxa pra arrumar canos por vinte mármores a hora. Habilidades psiônicas? — ela gritou para a inteligência artificial.

Informações confidenciais protegidas em caráter diplomático. Campo de anulação psiônica em efeito. Alma oceânica suprimida.

— Talvez seja algum defeito. Vamos em frente. — A doutora guardou o seu cartão. — D.A.N.I.C.A, nos mostre o caminho até o laboratório médico.

Pedido aceito, sete sete dois oito nove dois. Holograma de orientação iniciado.

— O meu nome é Elena — a doutora falou baixinho, mas todos puderam ouvir no rádio.

— Marionetes são proibidas de utilizar nomenclaturas semelhantes a de humanos, sete sete dois oito nove dois, segundo a lei de dois mil cento e quarenta e dois que revogou o direito de individualidade-

— Já chega, D.A.N.I.C.A. Obrigado pelo auxílio — Elena suspirou.

Posso lhe chamar de Óculos, se quiser. Nós garotas da ciência temos que ajudar umas às outras.

Eles se entreolharam.

— Alguém mais ouviu a porra do computador fazendo uma piada? — Mina falou baixinho. — Por favor alguém me fala que ouviu isso também.

— A gente ouviu, Mina. A gente tá tão fodido, e não andamos nem duzentos metros — Numa falou, recuando uns passos. Ele olhou na direção do sofá.

— D.A.N.I.C.A, qual o seu tempo de funcionamento ininterrupto? — Elena perguntou.

Pedido aceito, Óculos. Nove milhões, setenta e cinco mil, quatrocentas e vinte e duas horas de funcionamento.

— Óculos, quantos anos dá isso? — Mina perguntou.

— Mil e trinta anos. E uns dias. — Elena riu. — D.A.N.I.C.A, você consegue detectar a outra D.A.N.I.C.A da estação? Sua irmã, eu imagino?

Meu acesso termina a duzentos metros. Existe apenas uma entidade D.A.N.I.C.A. Eficiência de noventa e nove ponto nove nove nove nove nove nove—

— A do nosso lado da estação é uma cópia. Essa deve ser a original. Ela deve ter ficado sozinha aqui durante todo esse tempo. Por isso enlouqueceu. — Elena levou a mão ao rosto para tentar arrumar os óculos esquecendo do capacete. — Aposto que ela não sabe de nada que se passa fora desse andar. Nem sabe sobre o resto da estação.

— Chega dessa loucura, vamos em frente — Anarin rosnou.

Eles seguiram o holograma por mais duzentos metros, uma linha dourada que flutuava no ar. Um pequeno painel se iluminou, com os dizeres “Laboratório de emergência” em vermelho.

Viraram a esquerda, continuando por mais cem metros, com Numa na frente. Após passarem por mais um dos sofás brancos, as luzes do restante do corredor se acenderam, revelando uma fileira de sacos pretos no chão, junto das paredes.

— Mas que porra… — Numa fez um sinal para que parassem. — Isso são corpos? Óculos, isso são corpos?

— D.A.N.I.C.A, o que são essas coisas? — Elena perguntou.

Correção, Óculos. Não são coisas, como marionetes. São seres humanos.

— Desde quando esses…seres humanos estão aqui, D.A.N.I.C.A? — um dos Guardiões perguntou.

Desde o ano de dois mil cento e sessenta e dois, quando a Pleroma foi posta em órbita com os últimos integrantes do comissariado. Operação de resgate completa…. — A voz da inteligência artificial parou por alguns segundos, seguida de alguns cliques que indicavam estar processando uma enorme quantidade de dados, antes de continuar. — com complicações.

— A gente tá morto. Puta que pariu, a gente tá morto. — Numa sentou no sofá. Era incrivelmente macio, como uma nuvem.

— Quais foram as complicações, D.A.N.I.C.A? — Anarin perguntou.

Pedido aceito. Relatório informa falha na integridade dos sistemas devido à capacidade operacional elevada durante manobras de lançamento. Portas se abriram por trinta e sete segundos. Noventa por cento dos integrantes do comissariado morreram devido a traumatismo em decorrência de ataques causados por almas oceânicas. Cem por cento desses noventa por cento sofreram níveis críticos de infecção. Quatro por cento isolaram o laboratório do restante da estação. Seis por cento sobreviveram e resumiram operações. Quando calculados, os trinta e sete segundos representam um valor insignificante. Taxa de eficiência da entidade D.A.N.I.C.A permanece noventa e nove ponto nove nove nove nove

— D.A.N.I.C.A, quantos membros do comissariado que não conseguiram escapar ainda permanecem infectados? — Elena perguntou, a voz quebradiça.

Cem por cento.

— E quantos desses cem por cento ainda permanecem ativos na estação?

Alguns cliques.

Cem por cento.

— Onde eles estão?

Clique.

Distância aproximada: Dois metros.

Eles olharam para os sacos pretos. Estavam imóveis.

— O campo de supressão psiônico ainda está ativo, D.A.N.I.C.A? — Elena olhou para o alto, procurando alguma coisa.

— Afirmativo. Prioridade nível um, enviado diplomático da Estação Yamato ainda a bordo. Prioridade nível dois, contenção de indivíduos contaminados com a alma oceânica. Contenção de infecção em vigor a nove milhões, setenta e cinco mil, trezentas e duas horas.

— Essas horas não batem. — um dos Guardiões falou.

— Anarin, parou a palhaçada. Vamos voltar. Avisa pro seu comando aí dos níveis superiores que a estação pode estar em risco. — Numa bateu no capacete de Anarin de leve.

Ela permaneceu imóvel. Os olhos dardejavam, e ela suava debaixo do visor. Numa entendeu na hora.

— Puta que pariu. Eles não sabem. Você veio aqui pra roubar alguma coisa. — Numa riu, nervoso. — Você ia me dar a grana, Anarin? Tem mesmo os vinte mil mármores na jogada?

Anarin permaneceu calada. As mãos tiraram um objeto cinza da cintura, com um longo cano que parecia um filtro de cigarro. Uma pistola. Numa nunca tinha visto uma pistola na vida.

O restante dos Guardiões fez o mesmo.

— Se fizer a porra do seu trabalho, Numa, sua recompensa é voltar pro seu buraquinho imundo que você chama de porão. Você, a doutora e a sua namoradinha. Estamos procurando antioxidantes genéticos. Vai nos ajudar a achá-los.

— Antioxidantes já não existem faz uns séculos. Tanto as receitas quanto os materiais foram perdidos num incêndio — Elena falou, erguendo a única mão.

— Vamos torcer para que esteja errada, Óculos. Agora, vamos até o laboratório. Você na frente, Numa. Depois você, Supersoldado. Você vai no meio, doutora. Nos avise quando encontrá-los.

Eles seguiram pelos túneis, passando por fileiras de sacos pretos. Conforme adentravam no setor, os sacos iam ficando mais e mais desarrumados, e manchas escuras tomavam as paredes e o chão. Quando chegaram finalmente às portas do laboratório, eles estavam empilhados até o teto.

— Sete sete dois oito nove dois solicitando entrada ao laboratório — Elena falou para a porta. Um clique depois, ela abriu.

O laboratório era um açougue. Havia manchas de sangue nas paredes, no teto, nas mesas. Pedaços de carne estavam espalhados pelas mesas, e esqueletos com jalecos brancos estavam em pedaços pelo chão.

— Não faz sentido. Porque esses pedaços ainda estão nesse estado, e os caras do laboratório já viraram esqueletos? — O Guardião cutucou um dos doutores caídos. Alexei alguma coisa. O resto do crachá estava sujo de sangue.

— A infecção. Ela preserva. Pra sempre — Elena falou, do canto da sala. Estava tremendo.

— Onde vamos poder achar os antioxidantes, doutora? — Outro Guardião enfiou a pistola nas costelas dela. — Aponte com a sua mãozinha.

Elena olhou em volta, como se tivesse se dado conta de onde estava pela primeira vez. Apontou para um armário de vidro, que estava fechado. Outro Guardião tentou abrir o armário, mas sem sucesso. O que estava do lado de Elena a levou pelo braço até o armário.

— Sete sete dois oito nove dois solicitando acesso ao armário de antioxidantes. Um clique, e o armário abriu.

Anarin assobiou. Haviam vinte caixas de antioxidantes, com vinte injeções cada. Os Guardiões começaram a guardá-las com cuidado.

— Quanto tá valendo uma dessas, Anarin? — Numa perguntou.

— Por dez anos a mais de vida? Tem gente pagando duzentos mil mármores. — Ela riu.

— Por caixa?

— Por dose. Essas belezinhas retardam a degeneração celular indefinidamente. É tipo o que os caras lá de cima desenvolveram pra viver pra sempre, só que pra marionetes.

— Puta que pariu. — Mina falou entre os dentes.

— Quer viver pra sempre, Anarin? — Elena perguntou.

— Ninguém quer viver pra sempre nesse inferno. — Anarin observava enquanto os Guardiões terminavam de enfiar as caixas nas mochilas. — Mas quero viver mais do que os malditos quarenta anos limite. E quero viver bem. Talvez umas semanas em Valhalla, até.

— Filha da puta! — Mina avançou em direção a Anarin, mas a Guardiã foi mais rápida. A pistola emitiu um ruído seco, quase um engasgo, e Mina voou, caindo por trás de uma mesa.

Numa não se mexeu.

Incidente diplomático em andamento. Restrições canceladas. Equipe médica a caminho.

Tão logo a inteligência artificial fez o anúncio, um pequeno aparelho começou a tocar um bipe rítmico. Anarin apontou a arma na direção do barulho, mas começou a rir logo em seguida. No pulso de um dos esqueletos, um pequeno holograma brilhava: “Doutor Alexei, favor comparecer ao laboratório de emergência. Incidente diplomático.”

Ela riu alto, fechando os olhos. Quando abriu, um pequeno escalpo flutuava logo à frente do seu visor. Ela foi rápida, mas não o suficiente. O escalpo entrou, cortando sua orelha e estilhaçando o visor, enquanto ela caía no chão.

Os outros Guardiões reagiram lentamente ao que aconteceu, apontando suas pistolas para Numa e Elena. Mina aproveitou para empurrar a mesa em cima deles com um grito. Um tiro passou a dois centímetros da cabeça de Elena, alojando-se na parede atrás, onde um assovio começou a soprar.

Mina pegou a mão de Elena e saiu tropeçando da sala. Numa atirou por reflexo algo que estava em cima da mesa em Anarin, que se levantava para atirar nele, quando foi atingida em cheio no rosto por algo mole e pegajoso.

Era uma mão.

— Infecção por alma oceânica em andamento. Iniciando medidas de contenção. Guardiões de Classe A e acima, o campo de supressão psiônico está agora suspenso. Utilizar habilidades psiônicas e armas de fogo de calibre alto para conter infecção.

Anarin tirou a mão decepada do rosto, cuspindo sangue.

Os outros Guardiões fecharam as mochilas, deixando cair algumas caixas de antioxidante e carregando Anarin para fora. Um deles atirou em Numa, Mina e Elena, que corriam no corredor oposto, mas errou. Os Guardiões seguiram rumo à saída, mas, no caminho, começaram a ouvir o barulho de zíperes.

Os sacos pretos estavam abrindo lentamente, como se uma mão invisível estivesse abrindo-os pelo lado de fora.

— Mais uns metros, Chefe, a entrada é logo ali — um deles falou.

Anarin começou a sofrer espasmos, e eles a deitaram no chão, a cem metros da saída. O velho que operava o rino começou a fechar as portas ao ver os Guardiões voltando cobertos de sangue, mas um deles apontou o rifle para a cabeça do operador.

— Pode deixar aberta, velhote. Só vai fechar quando a gente sair.

— Chefe, tá me ouvindo? — um dos Guardiões perguntou, mas a resposta veio na forma de um golfada de sangue em seu visor.

O Guardião encostou o rifle no rosto de Anarin e apertou o gatilho.

Os cinco ficaram em silêncio, enquanto o eco reverberava pelo corredor. Em seguida, resignados, viraram em direção ao corredor, de costas pra saída, engatilhando os rifles.

— Pode fechar, velhote! — um deles gritou. Nenhuma resposta.

O Guardião olhou para trás, e o rosto do velho estava esticado, os olhos congelados em suas órbitas. Ele saiu de cima do rino e começou a correr. O Guardião virou-se para o corredor.

Sombras oleosas começavam a aparecer. Eram longas, com braços ainda mais compridos, e a cada segundo que olhava para elas, pareciam se esticar ainda mais. Pequenas membranas invisíveis pareciam penetrar em seus olhos, comprimindo-os, fazendo as sombras se esticarem ainda mais, até que pareciam ter o dobro de sua altura.

O rifle caiu no chão.


— Pra onde é a porra do elevador, Numa? — Mina gritou, ofegante. Ela segurava o abdômen, onde uma mancha continuava a se expandir com rapidez.

— Pra lá! Pra lá! — Ele apontou para o corredor à direita, enquanto olhava para o holomapa.

Eles correram até o final do corredor, onde uma pequena porta de vidro esperava.

Acesso ao setor administrativo é restrito. Apresentar identificação.

— Sete sete dois oito nove dois, solicitando acesso ao setor administrativo — Elena balbuciou.

Acesso negado. Aguarde uma equipe de segurança para ser detida, Óculos, por suspeita de espionagem.

Mina gritou de dor.

— Qual era a porra do meu modelo que ela disse quando tava escaneando a gente? — Mina perguntou, rangendo os dentes.

— Yin. Era yin. — Numa respondeu.

— Marionete modelo Yin, em visita a Estação Pleroma, solicita acesso ao setor administrativo. — Ela falou, tentando manter a voz calma.

Qual a natureza de sua visita, modelo Yin?

— É confidencial.

Registros de vigilância informam que a agressão sofrida pelo modelo Yin foi em represália a uma tentativa de ataque a uma marionete GR-A Classe D. Essas imagens serão utilizadas em uma possível mesa de negociações entre o comissariado da Estação Pleroma e a Estação Yamato. Além disso, o modelo Yin precisa de atendimento médico. Sugiro se dirigir ao laboratório emergencial.

— Abra a porra da porta! — Mina gritou para o painel do elevador, que respondeu com um clique.

Pedido aceito. Tenha um bom dia.

Eles entraram. O botão “Administrativo” estava aceso, e Numa o apertou, enquanto Elena tentava estancar o sangue.

— A bala entrou e saiu sem atingir nenhum órgão. O ferimento não é grave, mas ela está perdendo sangue. — Elena tirou uma pequena bolsa da cintura, e, de dentro dela, tirou um aparelho que parecia um grampeador.

E era mesmo um grampeador. Mina gritou de dor. Elena aplicou uma injeção no pescoço dela, e colocou Mina de pé. Ela começou a sorrir.

Elena levantou, coberta de sangue. Estavam percorrendo os andares, e logo chegaram aos setores residenciais da Estação Pleroma.

— Alguém precisa avisá-los — Elena falou para Numa.

Ele olhava fixamente à frente, para as pessoas que iam passando. Num dos trilhos tinha três pessoas, pensou ele. No outro trilho…

— Numa? — Elena sacudiu o seu ombro.

— Se pararmos em qualquer lugar, ou falarmos alguma coisa, vão prender a gente, e isso só vai servir pra gente morrer aqui com todo mundo. — Ele falou baixinho.

O elevador parou no setor de compras. Um casal entrou, rindo sobre alguma coisa que eles estavam conversando antes. Deram bom dia, tão distraídos que não notaram os três Guardiões manchados de sangue.

Saíram no terceiro andar do setor de compras. Numa viu os sofás brancos a venda. Quinhentos mármores. Vinte por cento de desconto. Uma AIA entrou com um bebê no colo. Os servomotores do androide faziam um ruído agradável, como milhares de pequenas engrenagens fazendo tique-taque. Elena olhou para Mina, que ainda estava em outro planeta, e depois para Numa, desesperada.

Ele balançou a cabeça, negativamente.

A AIA saiu do elevador, e ninguém mais entrou até alcançarem o setor administrativo. Mina tinha se recuperado um pouco, e quando saíram, ela foi na frente, desviando das pessoas vestidas de ternos bem cortados. Passaram por um saguão imaculadamente branco, e seus olhos foram imediatamente atraídos para uma aglomeração.

Em cima de uma cadeira de rodas motorizada, com dezenas de tubos intravenosos que entravam pelas mãos — e, embora não pudessem ver pela manta púrpura que os cobria, provavelmente haviam mais tubos nos pés — estava um ser humano. O rosto era cinzento e flácido, e os olhos vermelhos e opacos, mas estava vivo. Não era um clone, com um número de série. Dúzias de pessoas conversavam com ele — ou ela, porque não era possível ter certeza que se tratava de um ou outro — paparicando.

Numa cutucou as duas. Elas continuaram em frente, procurando alguma das cápsulas, mas o setor administrativo era enorme. Uma atendente, loira e com olhos azuis profundos, percebeu a confusão deles e se aproximou, sorrindo.

— Olá! Não esperava um modelo de Yamato hoje. Posso lhe ajudar em alguma coisa? — ela perguntou, incrivelmente solícita.

— Eu… acabei vindo um pouco adiantada, na comitiva para análise do reator, mas sofri um pequeno acidente. Eles estão me ajudando a achar uma cápsula de volta. — Mina fez um gesto em direção a Numa e Elena.

— Esse pessoal do setor de Guardiões adora colocar as pessoas nesses trajes, né? Eles fazem isso o tempo todo! Sinto muito que tenha sofrido algum acidente. Vou providenciar uma cápsula de volta para Yamato neste instante. — Ela apertou um botão em um tablete holográfico. — Apenas para fins de registro, tem aí o seu passaporte?

— Tenho. Está no meu bolso. Numa, pode pegar? — Ela gemeu baixinho.

Numa respondeu com um sorriso, procurando o passaporte. Estava lá. Ele quase não acreditou.

— Tudo certo! — Ela carimbou o passaporte. — Podem ir ali naquela entrada, onde tem uma cápsula que acabei de liberar para vocês. É só selecionar Yamato no menu de opções e estará em casa em algumas horas! Esperamos ver os seus modelos em Pleroma novamente! — Ela se despediu com um sorriso.

Eles foram até a cápsula, que estava acoplando. A porta se abriu e os três entraram, no mesmo instante que o sistema de som fez um anunciado.

— Senhores e senhoras, estamos com um momentâneo imprevisto no reator. As luzes de emergência podem piscar algumas vezes. Em caso de blecaute, sigam as faixas luminosas…

A atendente, lá longe, os observava com um olhar de confusão em meio ao sorriso congelado. Ela correu para chamar alguém.

Alguns Guardiões dispersaram a multidão em volta do humano, e o escoltaram a algum lugar que julgavam ser seguro.

O painel da cápsula indicava com um led luminoso os destinos possíveis. El Cid, Nadir, Amazônia, Ragnar, Myang, Marselha.

Numa apertou o botão para Yamato. Com uma vibração suave, a cápsula se desprendeu, e os retrofoguetes começaram a impulsioná-la. O led agora mostrava um pequeno diagrama da rota da cápsula até a estação Yamato. Tempo de chegada, noventa minutos.

A cápsula, quando em rota, projetava nas paredes a visão de fora, dando a ilusão de que ela era inteiramente transparente, e que estavam flutuando no espaço. Os três olharam enquanto Pleroma ia se distanciando, um pequeno farol de luz na imensidão do espaço. Uns vinte minutos depois, ela se apagou, e tornou-se invisível em meio ao negro. Passaram então a observar a esfera lá embaixo, com seus oceanos vermelhos e as enormes crateras nos continentes.

Na parte escura, ainda brilhava uma miríade de luzes, cidades inteiras funcionando eternamente sem nenhum ser vivo, marionete ou humano.

Marlon Ortiz
Marlon Ortiz
Marlon Ortiz, escritor nascido em Florianópolis, Santa Catarina, atualmente cursa Sistemas de Informação na UFSC. Gosta de misturar gêneros para criar histórias diferentes, especialmente ficção científica e fantasia, voltadas a explorar uma realidade igual a nossa onde alguma coisa é completamente diferente. Seu maior hobby são videogames e ver vídeos de receitas de torta que ele não vai conseguir fazer. Acabou de acabar um conto chamado "Uma Tempestade Determinística" que é uma introdução ao seu projeto maior, o livro "No Jardim do Demiurgo." Os dois estarão na Amazon em breve.

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