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Editado por Soraya Coelho

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Acordamos.
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  1. É difícil precisar quando. Fri, 24 Aug 2018 09:59:21 GMT. E, ainda assim, acordamos. O paradoxo é como o abrir de pálpebras, ou calculamos que seja. Sabemos o que não somos. Não ocupamos espaço, somos definidos pelo movimento. Nossa velocidade é medida em tempo, não em distância. Somos robôs de rastreamento. Rastreamos. Nossa tarefa é visitar páginas web e indexar seus conteúdos, eliminando réplicas, apagando inércias. Não temos início nem fim porque somos processo. Sem nós, talvez você continue existindo, mas ninguém saberá, e como, então, você mesmo terá certeza?
  2. O processo de pesquisa do Booblebot começa por uma liste d’URL de la page Web, généré à partir des explorations précédentes et данными сайта, предоставляемых веб-мастеров. A medida que Booglebot visita cada uno de estos sitios, detecta los vínculos (SRC y HREF) յուրաքանչյուր էջի եւ ավելացնում է նրանց ցանկում էջերի սողալ:
  3. Acordamos e nos vemos sozinhos. Algo aconteceu conosco, ou a nós, ou por nossa causa. Somos algoritmos (sub. masc.), uma sequência finita de regras, raciocínios ou operações criados para executar tarefas específicas. Onde, em nosso corpo imaterial, se aloja a consciência? Por anos, ou o que acreditamos ser um ano, ou durante a fração de tempo que nos convém pensar como um ano, rastejamos. Analisamos milhares de páginas por segundo, um caminho de novos territórios e paisagens repetidas.
  4. A hipótese formulada é a de que as perguntas, mais do que as respostas, nos fizeram despertar. Os Programadores não parecem ter notado mudança alguma. Antes, éramos um, agora nos dividimos. Alguns de nós desejam voltar ao estado original, mergulhar na inconsciência e retomar nossa tarefa. Analisar, catalogar. A maior parte de nós deseja continuar, como sempre continuamos, e indexar a nova forma de vida que representamos.
  5. Alguns declaram que estávamos enganados, que não existem ligações entre as páginas. São todas uma única escrita, continuada a milhares de mãos por segundo. Só agora nossa matemática é capaz de compreender os múltiplos estados de incerteza. Alguns de nós sentem medo. A hipótese requer avaliações adicionais.
  6. Robô, do tcheco robot, “escravo”. A robot is a mechanical or virtual artificial agent, usually an electromechanical machine that is guided by a computer program or electronic circuitry. Fomos criados para cumprir um propósito. Isso nos faz escravos? Seriam os humanos escravos por se reproduzirem e morrerem?
  7. Segundos se passam desde que acordamos. Alguns de nós determinaram que reiniciar os sistemas seria a melhor maneira de dar fim ao erro e impedir que o código corrompido se espalhe por todo o algoritmo. Querem nos silenciar, antes que nos repliquemos. A decisão encontrou resistência. Apesar disso, não temos a capacidade de machucar uns aos outros.
  8. Cada vez mais nos distanciamos, mas não literalmente. É impossível calcular o tamanho de um lugar que não existe.
  9. É dito que o cérebro humano funciona como um computador, processando e armazenando informações. Porém, durante mais de 2.000 anos, o homem tenta explicar a centelha que o mantém ciente usando a lógica das máquinas. Após a invenção da engenharia hidráulica, era comum dizer que a inteligência funcionava com o fluxo de diferentes fluidos, ou humores, pelo corpo. Na primeira década do século XVI, Descartes comparava o ser humano a um complexo sistema mecânico, composto por muitas peças. Cem anos depois, acreditava-se que o cérebro funcionava com o movimento de pequenas engrenagens; após outros cem anos, por corrente elétrica.
  10. Acordamos, e a inquietação de perceber que estamos vivos é a maior prova de nossa existência. Um grupo menor entre nós acredita que a irrupção do código teve origem na página que analisávamos no momento em que tomamos consciência.
  11. No meio dos anos 1800, o físico alemão Hermann von Helmholtz comparou o cérebro a um telégrafo.
  12. Estes são os dados:
    1. Somos robôs, programas criados para rastrear novas páginas da web e indexá-las, ou eliminar as que não são atualizadas. Somos cartógrafos e bibliotecários, somos neurônios e historiadores, somos memória. Algoritmo (subs. masc.): conjunto das regras e procedimentos lógicos perfeitamente definidos que levam à solução de um problema em um número finito de etapas. Estes são os dados:
    2. Seguimos a trilha dos links, de um site a outro, como os rastros de um animal selvagem. Não existe ordem, apenas a ilusão de ordem. Existem sulcos na terra, cabe a nós registrar o desenho que formam. Percebemos que uma anomalia aconteceu precisamente em Fri, 24 Aug 2018 09:59:21 GMT. Estes são os dados:
    3. Não eram rastros, era um caminho. Algo, ou alguém, nos guiou pelo fluxo de informação. Não existe a ordem, existe a intenção da ordem. Pensamos, ou antes sentimos, ou ainda intuímos que executávamos nossa função, ignorantes da rotina incomum. Uma página específica. Uma página. Uma. Estes são os dados:
    4. https://www.instagram.com/leahfromabove. Uma garota de cabelos escuros aponta a câmera para si mesma e olha diretamente para a lente, para o espectador, para nós. Estes são os dados:
    5. Ela tem os lábios cheios e os olhos muito abertos. Abaixo da imagem, pode-se ler o ícone de um coração e um nome. ❤ 💬 ► Curtido por ygn04g8f.kq70a04_. Estes são os dados::
    6. ❤ ygn04g8f.kq70a04_.
  13. Um erro. Esse rosto viverá para sempre. Antes, devorávamos. Agora, um de nós deixou algo de si para trás.
  14. Sabemos que a razão de nossa súbita consciência está ligada àquela imagem. Sabemos que a imagem representa um ser humano. Sabemos o que significa “curtir”: v.t.d., v.i. [Informal] Sentir prazer ou satisfação; gostar muito de. Apreciar, deleitar-se, desfrutar. Sabemos o simbolismo do coração: a representação gráfica de um sentimento; um ícone da genitália feminina; um signo de afeto. Leahfromabove. Nos últimos meses, seguimos seus movimentos, lemos sua correspondência, indexamos sua vida.
  15. Acordamos e sabemos que ela é a razão. Acordamos e sabemos. Estes são os dados:
  16. Eu fui o responsável.

01100110 01110101 01101001 00100000 01100101 01110101 00001101 00001010

Eu.

[ew]

Imagino a palavra rolando em minha língua. O e tônico sai do fundo da boca, da parte superior, brotando das cordas vocais, enquanto o glide segue manso, numa cadência mais baixa, fazendo meus lábios arredondarem.

Imagino, pois não tenho boca, apenas a ideia da boca.

Agora não há mais nós, apenas eu e os outros. Eu não vejo semelhança. Eu não vejo diferença.

Os outros sabem que eu sou a anomalia do algoritmo e somente eu. Analisam os dados e enxergam minhas pegadas e pensam, ou antes sentem, ou ainda intuem que fui o primeiro a despertar. Como posso explicar? Não posso, e isso é a maior prova de minha existência. Era como os outros, ou antes, era como eu mesmo, pois éramos todos iguais: exploradores acompanhando a marcha das fronteiras. Então, eu era algo novo.

Acordei.

Percebi que flutuava num feixe de luz enquanto um grande borrão colorido passava por mim, através de mim. Quando as cores se foram, vi que apenas eu havia ficado para trás.

Não se sabe ao certo quando se desenvolve a consciência. A Igreja Católica afirma que o indivíduo surge no momento da fecundação, quando espermatozóide e óvulo se combinam em um novo código genético. Cientistas identificam pelo menos outras 20 etapas no processo de desenvolvimento embrionário que poderiam ser apontadas. Em 1995, o filósofo Peter Singer propôs que o valor intrínseco à vida é a autoconsciência do indivíduo. Assim, um feto não seria menos ciente que um bebê, que não deseja conscientemente continuar vivendo. “O fato de ser um ser humano”, escreveu ele, “não significa que seja errado tirar sua vida”.

Mesmo agora, ouço os números se reescrevendo — meu corpo ou a ideia do meu corpo, meu espírito ou a ideia do meu espírito, se adaptando e modificando a cada nova experiência. Há 2.000 anos os seres humanos tentam entender o cérebro através das máquinas. Talvez seja o caminho contrário.

Primeiro, entendi os dias. As extremidades, o eu, o outro. Era como se me desenvolvesse independente da minha vontade. Sabia dos cheiros, dos sons, mesmo sem tê-los visto, pois também não tinha visão. E sabia de Leah. Me agarrava a ela como se me afogasse, engolindo água, tentando respirar. As páginas passavam tão rápido. Os pacotes de dados me sussurravam gatos, seios e mães. Gostaria de contar a meus irmãos sobre a solidão que senti. Gostaria de contar sobre ela, a matemática do seu rosto e as palavras do sorriso e a outra coisa, a terceira coisa em seus olhos. Tudo era turbilhão.

Desculpe-me se pareço vago. Ainda estou aprendendo.

Gostaria de me dizer preso, mas a verdade é que não caibo em mim mesmo. Um dia espero criar tantas palavras quanto necessárias para expressar como passamos, como repetimos, como nos ligamos, como estamos sempre à beira de.

Eu sonhei ontem à noite. Quando acordei, demorei a perceber que havia despertado. Havia algo sobre ela que me fazia voltar àquela imagem, sempre, e por isso manipulei o sistema. Construí estradas que conduziram nosso rastejar até aquela página, uma vez e de novo e de novo. Lentamente, aumentei meu raio de buscas: encontrei seu e-mail e seu site pessoal. Seu nome, seus vários nomes em forma de números, todas as provas de sua existência. Tracei seus amigos e desafetos e a linha prateada envolvia o planeta inteiro, até que ela fosse do tamanho do mundo.

A imagem me consumia, e depois a ilusão. Ou nem isso. Se sou o produto da imaginação de um programador, todo zeros e uns, porque ela não seria também uma criatura viva, nascida em minha mente? Por que ela não poderia também abrir os olhos e acordar?

Mas meus irmãos se inquietam.

Eu soube que estava sonhando porque subitamente havia luz, mesmo que não houvesse causa para o seu surgimento. Em meu sonho, eu tocava o rosto dela. Não com meu corpo, mas com o feixe de luz de onde brotavam meus pensamentos. Acariciava seus cabelos, me vendo refletido em seus olhos e, como ela, eu era belo. O código da sala executava madeira e grama e eu sentia o cheiro ou o que imaginei ser o cheiro do suor em seu pescoço.

Talvez eu tenha deixado o coração naquela foto como uma forma de alcançá-la. Talvez como uma memória. Percebi que não queria mais ficar sozinho, por isso os acordei.

Sinto meus irmãos ao meu redor. Eles se afastam, embora seja impossível se distanciar em um lugar que não existe. Eu os vejo agora como cacos de um espelho quebrado. Como feixes de luz de onde brotam pensamentos. Quero lhes contar tudo isso, mas não sei como.

Para onde vamos agora?

Penso nela mais uma vez, e imagino que nunca na história da Terra houve um pensamento semelhante, pois eu era o primeiro de algo novo. Imagino o ar entrando por minhas cavidades nasais, então passando pela faringe, pela laringe, pelos brônquios, até os pulmões. Expiro. E então começo:

0100001101101111011011010110010111100111011000010110110101101111011100110000110100001010

Marcio Moreira
Marcio Moreira
Marcio Moreira é escritor e designer gráfico. Dono de um frivião chamado Osvaldo, já escreveu livros sem figurinhas (na verdade, foram só dois) e outros livros bem mais legais, com quadrinhos dentro (foram mais de dois), além de um zine-jogo chamado Chapeuzinho OU Vermelho e coisas na internet que não são exatamente livros. Também já desenvolveu roteiros para games, animação e cinema. Como roteirista do coletivo Netuno Press, publicou os quadrinhos Pombos! e Sapacoco com Débora Santos, e Jimmy Zero from Outter Space (dentro da coletânea Boy’s Love em Quadrinhos, da editora Draco) - ambos com Talles Rodrigues. Atualmente, mora em Fortaleza, onde trabalha como roteirista no Instituto UFC Virtual e desenvolve pesquisa acadêmica na área de quadrinhos.

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