Casa de veraneio

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Editado por Enrico Tuosto

Imagem após imagem, os dois olhavam o monitor. Pareciam fotos de um conto de fadas, algo tirado da imaginação de alguém, de tão belos que eram os cenários.

— Então, o que vocês me dizem? — perguntou o primeiro, cheio de expectativa.

— É espetacular, realmente espetacular! Um achado! — respondeu o outro.

— E olha que não é fácil encontrar um lugar assim. Nem procurando consegui achar coisa tão bonita, foi muita sorte esbarrar com isso aqui, estava no fundo do nosso catálogo!

— Uma beleza, uma beleza! Veja quanta terra boa, dá para plantar e colher aqui. E tem água, muito verde, e os animais, quanta coisa colorida! Nem sei quanto tempo faz que eu não vejo algo assim disponível.

— É pequena — disse a mulher.

— Como é?

O sorriso do corretor perdeu um pouquinho do vigor.

— Pequena. Uma propriedade mínima. E o que são essas coisas? Não parecem… naturais.

— É… Bom, é um tipo de praga.

— Praga? — A mulher torceu o nariz, mas o marido arregalou os olhos com nítido interesse.

— Sim, sim, mas não passa de um probleminha…

— Sei, eu sabia que tinha alguma coisa errada — reclamou a mulher. — O lugar está infestado!

— É verdade — concordou o primeiro, pensativo. — Mas nada que um bom exterminador não resolva.

Exterminador? Isso está por toda parte! Vai levar um tempo enorme pra conseguirmos nos livrar dessas coisas, e tenho certeza de que nunca vamos limpar completamente o lugar. Sempre vão aparecer mais.

O homem coçou o queixo ainda olhando para as fotos, pensativo.

— Pode ser um problema… E parece que onde quer que eles estejam, o lugar está infectado. Veja como fica a terra onde essas coisas constroem seus ninhos… Coisa curiosa, poucas espécies fazem colônias usando formas geométricas…

Percebendo o desânimo dos possíveis compradores, o corretor resolveu agir. Não podia perder aquela venda, estava com aquele lugar encalhado há séculos no catálogo.

— Ora essa, vocês são um casal novo, cheio de energia! Uma praga boba não pode desanimá-los! Vejam: eles gostam de se aglomerar em grandes colônias. Um bocado de pesticida, um tanto de fogo, e tudo se resolve.

A imagem piscou na tela, uma ampliação da vista de uma das janelas, e, desta vez, não era bonita.

— O que é isso? — a mulher exclamou, horrorizada. — Que coisa nojenta!

O corretor se apressou a mudar a imagem na tela antes que os clientes mudassem de ideia.

— Não é nada demais, senhores, nada mais que umas pequenas amostras…

— Amostras? — o marido indagou, interessado. — Quer dizer que estas são imagens amplificadas?

A mulher soltou um muxoxo e revirou os olhos.

— Parece uma coisa saída de um pesadelo! É como se eles… comessem tudo ao redor, até embaixo da terra! Você não vai deixar esta sua obsessão de biólogo interferir na compra, não é?

Ignorando completamente a esposa, o homem voltou a olhar para o corretor.

— Que espécie é essa?

— Na verdade — o vendedor se moveu incomodado, em seguida teve uma ideia e mostrou-se animado de novo. — Não sabemos. É uma espécie não catalogada, algo fora de nosso conhecimento. Será um desafio entendê-la e, se não quiserem ficar com a propriedade, tenho certeza de que o outro grupo ficará satisfeito em adquiri-la.

— Outro grupo?

— Sim, de estudiosos!

— E isso quer dizer o quê?

— Quer dizer, querido, que não sabem o que é essa coisa, e que isso pode ser perigoso! Se construirmos aqui, e se chegarem perto da casa… Não vamos comprar isso aqui, muito obrigada.

— Achamos que seja uma espécie… Invasora — instigou o corretor.

— Invasora do tipo…?

— Do tipo que não veio deste mundo, se está me entendendo. Veja, o padrão de comportamento que observamos, os padrões intrincados com que estruturam suas colônias, o jeito como corrompem o entorno em que vivem, não parecem ser compatíveis com criaturas provenientes deste ambiente, entende?

— Nós não vamos construir aqui! — exclamou a mulher, sobrepondo sua voz às dos homens, que tinham adotado um tom grave de cochicho cúmplice. O marido, no entanto, a ignorou.

— Uma espécie nova e alienígena! Seria um achado… E a água? O que você me diz da água? É limpa? Isso é importante.

O vendedor apertou alguns botões no controle e outras imagens apareceram. Ele explicou:

— Vejam bem: temos vários veios de água limpa ao redor do campo, vão poder construir e não vão depender de fontes externas de água, será tudo auto-suficiente.

O marido acenou satisfeito, mas a mulher cruzou os braços: estava perdendo a disputa.

— E essa praga não contaminou a água?

— Bem… Perto da propriedade não. Há algumas fontes mais distantes em que eu não colocaria minha mão — falou o homem. — Mas, como disse o senhor, nada que um bom exterminador não resolva…

Outra foto surgiu na tela, uma imagem do pôr-do-sol turvo sobre um amontoado daquela colônia.

— É o ar?

— É…

O marido ficou assombrado.

— O ar também?

— É que… Parece que liberam gases tóxicos.

— Então são venenosos!

— Não exatamente — falou o corretor. — Houve uma equipe aqui antes de mim, é claro. Testaram uma amostra. Não aconteceu nada. Parece que as coisas que liberam vêm de dentro das tocas, eu penso que talvez eles levem matéria viva para dentro e a decomponham de algum jeito.

— Precisaremos de uma análise biológica para ter certeza de com o que estamos lidando — o marido ponderou.

O primeiro mostrou um cilindro grande perto da mesa, onde uma pequena porção da praga estava isolada. A massa se movia vigorosamente, e parecia tentar sair, provocando calafrios na mulher.

— Antes de você chegar coletei um pouco para enviar para estudo. Mas já adiantamos alguns testes, por precaução. A imobiliária precisava ter certeza de que estaria segura caso estas coisas fugissem ao controle. Botamos fogo, e resolve: quando jogamos nas colônias grandes, tem área que até explode! Mas mantivemos as queimadas longe da área do campo, se não correríamos o risco de estragar o paraíso.

— Sei — disse o homem, mas franziu o cenho com os olhos cravados no frasco de amostras pulsantes. — Só que, se formos fechar negócio, terá que deixar isso para mim.

— O quê? — A mulher engasgou.

— Veja bem, não vou começar uma pesquisa sabendo que tem mais gente por aí fazendo o mesmo, será algo exclusivo meu, da minha propriedade!

— Começar… Estávamos procurando uma casa de veraneio! Não uma nova pesquisa! — Nervosa, a mulher segurou o marido pelo braço. — Escute: eu não quero morar aqui! Da última vez o acidente com suas brincadeirinhas de pesquisador me deixou doente por uma semana! E se for diferente aqui? E se isso for alguma coisa perigosa? E se invadir nossa casa? E se nos contaminar?!

O homem pediu um minuto a sós com a esposa e levou-a para um canto.

— Meu bem, são só umas coisinhas pequenininhas… São como ácaros!

— Não são tão pequenininhos assim, olha aquelas fotos! São asquerosos! Você não está entendendo? Seja lá que tipo de coisa forem, são como bolor. Vão crescendo e apodrecendo tudo ao redor!

— Não, meu bem, você é que não está entendendo: eu sou um cientista, é meu trabalho estudar coisas novas, e esses organismos… Pense bem: pode ser a cura do câncer! Ou pode ser que só faça crescer cabelo em careca, quem sabe? De um jeito ou de outro, eu fico rico, famoso, e você ganha uma vida de rainha.

A mulher continuou de braços cruzados e carrancuda. Já estava saturada dos sonhos grandiosos do marido, e, principalmente, de como eles tendiam a dar errado. Ele então tomou as mãos dela entre as suas e prometeu:

— Se for muito difícil controlar esta peste, ou se alguma coisa fugir do controle, botamos fogo em tudo e vamos embora. Eu prometo. Afinal de contas, é só uma casa de veraneio!

— Então fechamos o negócio? — perguntou o corretor, os olhos brilhando.

— Com certeza!


— Alguma notícia do pessoal? — perguntou o garoto.

— De que pessoal você tá falando, dos nordestinos?

— Não, já fiquei sabendo. O Ceará todo está em chamas. Dizem que lançaram bombas sobre Fortaleza e arrasaram com a cidade toda…

— Então, de quem você está perguntando?

— Dos abduzidos. Não é por isso que estamos aqui? Porque o general tem notícias sobre eles?

— Acho que não, já faz meses, não deve ter ninguém vivo…

— Olha lá, ele vai começar.

Os rapazes aprumaram as costas, repetindo o gesto dos milhares de soldados agrupados nos galpões. Estavam perto do palanque, mas havia telões e caixas de som por todo o hangar reproduzindo o que se passava ali e também no resto do mundo. O líder não começou sua fala de imediato, mas parou em frente à televisão e assistiu, junto com a multidão silenciosa, à retrospectiva dos fatos dos últimos meses. A abdução de centenas de torcedores do estádio do Maracanã, lotado para a final do campeonato de futebol. O desespero de seus familiares. A destruição absoluta no ataque a São Paulo, que arrasou o bairro da Liberdade e explodiu postos de gasolina e shopping centers. A chegada da segunda nave, muito maior que a primeira. O voo histórico dos caças escoltando o objeto. O ataque da nave às maiores cidades do globo; a coleta de humanos; a aliança de países rivais em busca de uma solução; a aparição das criaturas colossais e o início da construção do que os homens pensavam ser um tipo de máquina ou acampamento alienígena. Tentativas infrutíferas de fazer contato, massacres, terror, caos e, enfim, luz: uma aliança antes impensável de todas as nações em um único exército mundial para ordenar uma investida sincronizada. Enfim o rompimento do escudo de força do objeto, a destruição dos alicerces da tal construção, a invasão à nave e a retaliação dos alienígenas: disparo de canhões incendiários nas megalópoles terráqueas.

— Sentido! — bradou o general, e a imagem da tela agora mostrava vários outros exércitos ao redor do globo reunidos de frente aos seus generais. — Senhores, bravos soldados e cidadãos que se voluntariaram para esta missão, nos reunimos aqui hoje no crepúsculo da civilização para a derradeira investida de nossa espécie contra estes invasores. Sua chegada nos pegou de surpresa, mas nós aprendemos rápido. Se vieram por nossos recursos naturais, ou se desejam estudar nossa espécie, nos fazer de cobaias ou se alimentar de seres humanos, nós não sabemos. O que sabemos é que não vamos permitir que esta escória se aposse do nosso planeta! Já destruímos a edificação que tentaram montar aqui, já corrompemos sua nave, agora é hora de enviar esta corja de volta para o buraco de onde veio! Ao ataque! E que Deus nos proteja!

Lívia Taisa Rolim Stocco
Lívia Taisa Rolim Stocco
Lívia Stocco nasceu e cresceu em Franca, interior de SP, seduzida pela fantasia desde muito cedo. Tímida, saía pouco de casa, e as aventuras das histórias lhe pareciam tão reais quanto o dia a dia. Lia, assistia e também criava desde menina - seu primeiro livreto ilustrado, chamado "O Azar", é guardado pela mãe até hoje, e foi feito quando tinha entre 5 e 6 anos. No entanto, levou muitos anos para que concluísse seu primeiro romance, e mais alguns ainda para que ela pudesse olhá-lo com um olhar mais crítico e profissional, e finalmente ter coragem para mostrar o que escreve para outras pessoas.

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