Entrevista: Marcio Moreira

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Marcio Moreira é escritor e designer gráfico. Dono de um frivião chamado Osvaldo, já escreveu livros sem figurinhas (na verdade, foram só dois) e outros livros bem mais legais, com quadrinhos dentro (foram mais de dois), além de um zine-jogo chamado Chapeuzinho OU Vermelho e coisas na internet que não são exatamente livros. Também já desenvolveu roteiros para games, animação e cinema. Como roteirista do coletivo Netuno Press, publicou os quadrinhos Pombos! e Sapacoco com Débora Santos, e Jimmy Zero from Outter Space (dentro da coletânea Boy’s Love em Quadrinhos, da editora Draco) – ambos com Talles Rodrigues. Atualmente, mora em Fortaleza, onde trabalha como roteirista no Instituto UFC Virtual e desenvolve pesquisa acadêmica na área de quadrinhos.

O tema “bots” é um assunto atual e recorrente em vários canais, embora ainda um pouco obscuro quanto ao funcionamento. Por que você decidiu abordá-lo?

Sempre gostei da ideia de robôs que não são apenas pessoas de ferro – e o mesmo vale para inteligências artificiais. Afinal, se você tem infinitas possibilidades de design, por que criar um humanoide de metal ou um computador que pensa e se expressa como um ser humano? E bots são pura informação. Uma cadeia de comandos que cumpre uma função específica. Então o conto veio dessa pergunta: como seria se um algoritmo de busca se tornasse consciente? Como ele pensaria a própria materialidade? E como seria para ele saber tudo sobre como ser uma pessoa, mesmo não sendo uma? Ah, e claro que ele se apaixonaria e se tornaria um stalker!

Quais foram as suas principais influências e inspirações para a construção da história?

A ideia de começar o conto na primeira pessoa do plural veio de um livro chamado The Regional Office is Under Attack!, do Manuel Gonzales. No início, os robôs são uma unidade e o discurso é protocolar, bem organizado. À medida que a história avança, eles começam a se individualizar, então a prosa fica (um pouco) mais solta. Tem muita influência do cyperespaço do Gibson: essa imagem da web como um lugar físico onde os bots se movimentam. Também calhou de ser um tema que vinha sendo explorado em algumas obras bem bacanas nos últimos anos: a série Person of Interest, o filme Her e o Ancillary Justice vieram à mente algumas vezes quando imaginei o funcionamento da IA comparado ao do cérebro (nesse ponto, rolou muita pesquisa). Mas a parte mais assustadora de escrever sem dúvida foram as considerações sobre o que significa ser humano. Dois autores que me ajudaram muito foram Frank Herbert e Kurt Vonnegut, que são citados diretamente no conto (será que você consegue encontrar?).

Quanto às suas influências literárias, quais seriam aquelas que você considera essenciais?

Realismo mágico transformou a minha vida. Eu li e reli Marina Colasanti, García Márquez, Adriana Falcão e Machado na adolescência. Duna também marcou muito pro lado da ficção científica, além das esquisitices do Kurt Vonnegut, ou seja, eu sempre me identifiquei mais com a ficção do que com a científica. Nesse trabalho não fica evidente, mas curto escrever comédia, então sempre volto pros ritmos do Luís Fernando Veríssimo e das obras do Guel Arraes (que junto com a Adriana Falcão fazem os melhores diálogos em português), e do Terry Pratchett, que é o escritor que eu quero ser quando crescer.

Você segue algum processo de escrita? Foi o mesmo utilizado para construir Bot ou houve alguma diferença?

Em geral, as ideias chegam aos pedaços. Às vezes um conceito pode vir pronto, mas isso não quer dizer que seja uma boa história, então costumo começar por uma cena, uma fala ou um personagem que me parece promissor. Eu anoto e deixo tudo guardado enquanto o inconsciente trabalha (e às vezes dou uma pesquisada para ajudar, como foi no caso desse conto). Na minha cabeça, é parecido com andar no mapa de Age of Empires: à medida que vou avançando, o cenário começa a se revelar devagarinho. Quando tenho associações e ideias suficientes, aí sim consigo organizar uma série de ações (a parte mais difícil, pra mim). Daí eu escrevo e imediatamente tento esquecer o texto por um tempo (Bot começou a ser escrito em 2016) e depois tento voltar com uma nova perspectiva, reescrevendo até achar que ficou bom.

Se você decidisse criar um bot, qual seria sua principal função? Por quê?

Provavelmente cuidar das minhas redes sociais pra mim, porque eu gostaria muito de ser conhecido sem ter trabalho hehehe. Talvez desabilitar fake news e infectar o computador de quem produz esse tipo de conteúdo? Daí eu abriria uma loja de computadores para a direita e ficaria rico? Então minha riqueza me tornaria parte da elite e eu compartilharia fake news? Eu era o vilão o tempo inteiro???

Você está trabalhando em outros projetos no momento? O que podemos esperar? Fique à vontade para utilizar esse espaço para deixar sua mensagem aos leitores da Trasgo.

Faço parte do coletivo de quadrinistas cearenses Netuno Press. Lá, eu sou roteirista e já publiquei títulos como as hqs Pombos! e Sapacoco, com arte da Débora Santos, e o zine-jogo Chapeuzinho OU Vermelho. Você acha tudo na nossa lojinha, netunopress.iluria.com

Tenho um frivião chamado Deoclécio, então nem eu sei o que vem por aí! Mas até o fim do ano deve sair quadrinho novo pra CCXP e talvez um zine de micro-memórias e historinhas do cotidiano. Se você curtiu Bot, a melhor maneira de conhecer meu trabalho é colar no aquelemarciomoreira.tumblr.com e me achar naquela maravilhosa pracinha do apocalipse: twitter/facebook/instagram.

Soraya Coelho
Soraya Coelho
Soraya Coelho é natural de Fortaleza, mas mora em São Paulo há 4 anos. Pós-graduanda em Book Publishing pela Casa Educação, trabalha como analista de marketing digital na editora Somos. Além disso, é revisora na editora Dame Blanche. Especializada em revisão e preparação de ficção especulativa, escreve quinzenalmente na newsletter Cortesia da Casa.

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