Esperando Simone

0

Na total escuridão da madrugada, deu descarga e, ao lavar as mãos, se assustou quando os olhos vermelhos no espelho o encararam como um alvo a ser derrubado. Alex se abaixou e tateou a cintura e a perna enquanto abria o menu no visor ocular buscando a localização de Simone, companheira do destacamento de elite. Não havia arma, nem ninguém no sistema. Um segundo era a diferença entre lutar mais um dia e integrar uma longa lista de heróis. O barulho do reservatório da privada trouxe-o de volta. A guerra tinha acabado havia muitos anos. Ninguém queria matá-lo. O homem no espelho era só um velho com olhos que brilhavam no escuro caçando fantasmas.

Sorriu e fechou o menu.

De volta ao quarto, deitou-se e virou prum lado, pro outro, cruzou e descruzou os braços em busca de uma posição confortável. Encarou por um longo tempo o teto e as paredes até se voltar pro lado de Simone na cama de casal. Ela não estava lá para sorrir de volta ou pra dizer que ficasse quieto. Só restava o pijama perfeitamente dobrado sobre o travesseiro, exalando lavanda. Quando se deu conta, a lista de coisas a fazer no assistente tinha trinta e cinco itens pendentes, doze deles relacionados à Simone.

Sem sono, Alex resolveu levantar e escovar os dentes. Acendeu a luz e deu uma longa olhada nos próprios olhos vermelhos antes de apagá-los. Abriu o armário e resvalou na escova dela. Estava gasta, com o marcador azul abaixo da metade. Comprar cabeça da escova, salvou no implante mental.

A tela da sala acendeu com o Presidente fazendo o discurso do dia. Estava de saco cheio da cara dele, que parecia a mesma desde a eleição, no fim da guerra, quando Alex nem tinha rugas.


Arrumou a mesa pra dois. Simone ia gostar de comer uma comida caseira depois daquele longo tempo fora de casa. Mas ela não veio de novo.


A noite caiu, mas o calor nunca cedia. As costas suadas desgrudaram do sofá de courino quando se levantou pra ir até a sacada. Deslizou a porta de vidro e foi envolvido por um mormaço, como se estivesse dentro de uma boca gigante.

Mormaço, que palavra idosa.

Os jornais diziam que o calor era culpa do governo anterior, que tinha acabado com a proteção natural do planeta. Isso não fazia o menor sentido. O mundo estava deslizando pro buraco do inferno havia muito tempo, desde antes da guerra, e o problema era mundial. O Presidente, sorridente e confiante como um vendedor, garantia que os melhores cérebros do governo estavam trabalhando para reverter a situação.

Alex fechou os canais e procurou por notícias atualizadas sobre o Carcinoma de Vichy. Em destaque, apareceu uma pesquisa do Consórcio Glasgow-Windhoek. “Progresso na cura” era o título. Expandiu a notícia e afundou no sofá enquanto avançava na leitura. Os pesquisadores conseguiram estender o tempo de vida das células cultivadas em laboratório, uma vitória, embora elas continuassem apodrecendo de dentro pra fora.

Cansado, apagou a tela da sala e foi pro quarto.

Tocando o pijama de Simone, murmurou:

— Não vejo a hora de ter ver de novo.


2

Na frente do seu prédio, Alex se assustou com a buzina e pulou do banco.

— Esses carros que não fazem barulho, puta que pariu. Um dia você vai me matar, Mônica — disse assim que abriu a porta pra entrar no carro.

— Pai, não fala palavrão.

— Que palavrão?

— Pê, quê, pê — ela sussurrou.

Mônica fez uma curva brusca e Alex buscou, sem sucesso, um apoio pra se segurar.

— Putaquepaliu, putaquepaliu — o menino no banco de trás repetiu e riu alto.

— Ele curtiu. — Virou-se pro menino. — É puta que pariu, com erre forte, assim, como caraca ou coração.

— Ca-ra-ca.

— Isso. — O velho bagunçou o cabelo macio do menino.

Ela fez uma careta e digitou alguma coisa no painel do carro.

— Pai, você está bem? Está comendo direito?

— Não cozinho grande coisa, mas me viro. Pelo menos até sua mãe voltar. — De acordo com a placa luminosa na rua, já estavam chegando.

— A mãe? Pai…

— Põe a mão no volante e olha pra frente! — Ele se afundou no banco.

Ela sorriu. — Não preciso pôr a mão no volante. Esse carro que a gente comprou se dirige sozinho.

— O Carlos bem gosta de gastar com bobeira.

— Eu paguei pelo carro.

Alex só resmungou. Mônica pegou um caminho mais longo, mas ele resolveu não falar nada a respeito.

— Chegamos. Tenho que resolver umas coisas, mas se quiser posso subir com você. — Ela deu uma apertadinha no seu braço, aquele aperto de estou-com-dó-da-sua-senilidade-mas-preciso-ir-ao-banco.

— Não precisa.

— Fala tchau pro vovô — disse a mãe.

— Tchau, vô.

— Até, pirralho.


Suspenso no ar por um emaranhado de fios, Alex sentia-se como uma mosca numa teia de aranha gigante. Híbridos caminhavam pelas ruas e pelo espaço e a medicina ainda furava as pessoas com agulhas. Sádicos.

Assim que foi conectado, o seu campo de visão dividiu-se: metade no mundo real, metade rodando simulações inundadas por números muito doidos.

— Seu Alexandre, rodei os testes de memória. O assistente está funcional, mas a vida útil está no fim.

Alex não gostava de médico. Só queriam inventar problema pra trocar peça à toa.

— O que pode acontecer de ruim?

— A princípio, perda de capacidade de armazenamento…

— Foda-se. Só tem bobeira gravada.

— E perda de memória. Incapacidade de manter lembranças.

Checou o arquivo mental: cinquenta e três pendências acumuladas, vinte delas com a Simone. Teria que vender uns títulos de investimento pra pagar o upgrade.

Doutor Sérgio, vinte e poucos anos, abriu um sorriso cromado e condescendente. Esse pessoal tinha tudo a mesma cara.

— O senhor tem que encarar o procedimento como um investimento em qualidade de vida.

Alex suspirou fundo. Esse papo de investimento era besteira, mas ele tinha que continuar vivo pra encontrar Simone.


3

O novo apartamento era pequeno, mas tinha armário embutido retrátil e ar condicionado. O vendedor disse que era pra jovens empreendedores. Pelo visto, o mercado ia mal.

Da sua mesa de trabalho, podia ver o pijama de Simone dobrado na cama.

Alex ajeitou os acessórios de checkup e a dúzia de adaptadores que tinha comprado online e, aproveitando o espaço mental extra recém-adquirido, baixou da rede tutoriais em vídeo com transcrições.

Aprenderia medicina sozinho. Não seria difícil pra ele, um dos últimos engenheiros eletrônicos graduados, que tinha até um diploma de papel enquadrado na parede. Um médico era nada mais do que um mecânico fracassado que cobrava pelo status.


Ataque cardíaco. Quando voltou a si na cama dura do hospital, recebeu o diagnóstico pelo software de segurança mental.

— Seu Alexandre, o senhor destravou o seu assistente, não foi?

— Hã?

— O chip assistente, o senhor quebrou a proteção de fábrica pra mexer nele.

Alex jamais se dobraria diante do inimigo.

— Nem sei do que o senhor está falando. Acho que minha cabeça não anda muito boa. Onde estou?

Doutor Sérgio se aproximou e abaixou a voz.

— Está tudo bem. Você não é o primeiro paciente a fazer isso e provavelmente não vai ser o último. Vou restaurar a última configuração estável e deixar de fora do prontuário esse deslize para o senhor não perder a garantia. Mas só porque é o senhor.

Como queria dar um soco naqueles dentes reluzentes.

— Muito obrigado, doutor.


Uma mensagem de Mônica apareceu no seu campo de visão: “O aniversário do Bruninho começa daqui a pouco. Ele faz onze anos, não esquece.”

“Nunca esqueço”, respondeu Alex. Onze anos. Uau, como o tempo voava.

A mesa de trabalho, ao contrário do resto do apartamento, era de uma organização que beirava um distúrbio psiquiátrico. Os adaptadores dispostos por ordem de amperagem e por tipo e quantidade de pinos, o mini-aspirador de pó, com os bocais guardados numa caixinha de tampo de vidro posicionada logo abaixo, os discos rígidos, as memórias, os replicadores de sinal, os multímetros, tudo dava à mesa um ar de centro cirúrgico.

Clonar o assistente num drive externo. OK, em progresso. Ativar a proteção de rede. Hum, foi aqui a falha anterior. A Simone teria se acabado de rir dele.

— Oi, bobo — ela disse num vídeo que abriu sobre seus olhos.

Ué.

— Desliga isso e vem pra cama.

— Peraí, estou acertando a abertura da câmera, a iluminação. — Era uma gravação da própria voz passando dentro da cabeça.

— Você prefere brincar com isso aí ou… — Ela desceu uma alça da camisola preta.

A imagem preencheu todo o campo de visão de Alex. Simone desceu a outra alça e a câmera caiu na cama. Alex se viu jovem, musculoso, avançando sobre ela, deitada, até que a imagem perdeu definição e blocos grandes e borrados preencheram tudo.

O vídeo travou e códigos de programação começaram a descer. Alex tentou continuar ou recomeçar o vídeo, mas o sistema não respondia. Fechou os olhos pra se concentrar e lançar novos comandos. Nada. A verificação de erros não podia ser abortada.

Ele se levantou rápido, derrubou a cadeira e topou o dedinho no pé da mesa.

— Caralho.

Minimizou a tela e viu que a energia elétrica havia caído de novo. A luz da lua e dos drones zunindo lá fora espremia-se por entre as folhas da persiana na escuridão. Alex ativou a visão infravermelha e o apartamento ficou verde.

As palmas das mãos suavam e o coração batia forte. Não podia ter um infarto, não queria morrer. Mas não tinha nenhuma dormência, nenhuma dor no braço. Era só pânico, puro pânico.

Simone estava no banco do passageiro, poucos anos mais velha que no vídeo. Ele fez um carinho no seu rosto pálido. Ela apertou levemente a mão dele e a beijou. Uma lembrança.

— Onde você está, Si?

Alex, olhando pro chão, cruzou as mãos atrás da cabeça.


O sistema demorou trinta e seis horas pra completar os diagnósticos. Tecnologia porca. Na guerra, conseguia rodar até mil e vinte e quatro programas diferentes, um em cada janela, além das sub-rotinas de fundo, com análise em tempo real das imagens de satélite e da movimentação das tropas inimigas.

Enquanto o assistente cerebral reiniciava, permitindo apenas gravação, aproveitou pra visitar o Vargas.

A recepção lembrava uma repartição pública antiga onde papéis dividiam espaço com as telas. Hóspedes conversavam e riam lá dentro enquanto esperava a autorização pra entrar.

A bunda doía na cadeira de vime. Quando levantou, ouviu os joelhos estalarem e sentiu uma pinçada na lombar. Ficar em pé também era desconfortável.

Fotografias emolduradas preenchiam as paredes, cedendo mínimo espaço às poucas molduras digitais. Não percebeu nenhuma ordem lógica ou cronológica. Numa delas, viu a ponte estaiada que ligava as duas partes de São Paulo antes de virar um esqueleto de metal retorcido; em outra, o sol riscado por projéteis enquanto uma família fazia um piquenique no parque.

— O senhor pode entrar — disse a recepcionista.

Em algum momento, “senhor” deixou de denotar hierarquia e se tornou uma expressão de condescendência pela idade.

A moça deixou-o à porta do quarto do Vargas.

— Em trinta minutos, começa o banho de sol. É só para os hóspedes.

Vargas, sentado ao lado da cama de solteiro, segurava um livro digital com os braços estendidos e os olhos apertados atrás dos óculos retangulares.

— E aí, cegueta?

— Alex, seu lixo. Vem cá. Só não levanto pra te cumprimentar porque, você sabe, minhas pernas ficaram lá nos campos da Namíbia. — Vargas riu.

— Por que você não deixa de ser teimoso e compra logo olhos novos?

— Tipo essas duas bolinhas vermelhas que você tem? Eles disparam laser?

Alex fez que não com a cabeça.

— Nunca gostei dessas coisas. Meus netos ficam conversando sozinhos com um monte de gente dentro da cabeça. Que mundo é esse em que você não tem um segundo de paz? Vou te dizer uma coisa, Alex: vozes na minha cabeça, só as minhas, inclusive as que não reconheço.

— Sua família está bem, então?

— Acho que sim, já que eles não estão aqui.

O quarto tinha um ar-condicionado potente, mas Vargas nunca se dava ao trabalho de ligá-lo.

— Vargas, você lembra da Simone?

— Quem?

— A Simone, minha esposa. Alta, mais alta do que nós. Longos cabelos negros…

Nada.

— Você foi meu padrinho, porra.

Vargas coçou o queixo e deixou o olhar se perder na janela, como se a resposta fosse passar por ali. Então explodiu numa gargalhada.

— A sua cara… Você devia ver a sua cara. “Será que o Vargas ficou maluco?” Como você é besta, Alex. “Hã, a Simone, a Simone, conhece a Simone?” Que que tem ela?

— Você sabe o que aconteceu com ela?

Vargas estalou a língua, mas Alex continuou sério.

— Esse treco na cabeça, isso não faz bem. A Mônica era bem pititica quando a Simone ficou doente… — Vargas disse.

— Doente?

— Você me chamou pra tomar uma cerveja naquele boteco perto do monumento ao soldado desconhecido. Contou da decisão, que não sabia o que fazer.

A busca combinada por “Vargas” e “cerveja” no arquivo mental retornou quatro entradas. A lembrança lhe dizia que dividiram muitas mais, mas o primeiro chip só veio depois da dispensa pelo Exército.

Teve a despedida de solteiro, com a Simone bêbada sentada no seu colo falando que o amava, “de verdade mesmo, como nunca amei ninguém, e que se dane quem me ouça: eu amo esse porcaria”.

Teve a vez em que o Vargas descobriu a traição da esposa e chorou em seu ombro, rodeado por latinhas de pilsen, e foi pra casa com o barman.

Teve a última vez, quando Vargas se aposentou da família e se mudou praquele hotel de idosos.

A terceira cerveja com o amigo, porém, estava bloqueada. Fazia vinte anos, de acordo com os atributos do arquivo.

— Vargas, me fala o que aconteceu com a Simone.


4

Na mesa da cozinha, passou a mão nos cabelos cada vez mais ralos e ficou remexendo no vaso de cerâmica que tinha o nome “Simone” e duas datas, a de nascimento dela e uma outra, além de palavras que não conseguia decifrar. Procurou uma tradução na rede, que retornou mais palavras indecifráveis. Podia ser um problema no chip assistente ou no próprio cérebro. O avô e o pai tiveram Alzheimer; tinha medo de ser o próximo. Aliás, devia ver aquela pinta esquisita nas costas.

Reviu a conversa com Vargas. A parte mais importante do vídeo estava corrompida. Anotou palavras soltas, como “Carcinoma de Vichy”, “clínica” e “conta bancária”.

Um número familiar veio à mente. Mônica devia saber o que era.

— Oi, pai, como estão as coisas?

— Tudo bem, e o menino?

— No fim do ano o Bruninho vai ser embarcado. A convocação do Exército veio no começo da semana.

— O Bruninho já fez 16 anos? Nossa. Não se preocupe, vai dar tudo certo, filha.

— Você acha?

— Vai sim. Mônica, eu tenho uma conta de banco aqui, será que você conhece?

— Manda.

— Está aí.

— Pai.

— O quê?

— Isso de novo?

— O que foi?

— Essa conta é… era da mãe. — Mônica suspirou. — Você tem que superar isso, seguir em frente. A mãe morreu, pai.

— Não fale besteira.

— Quer que eu dê um pulo aí?

— Não precisa, não. Manda um abraço pro menino e pro Carlos.


Alex calçou o tênis, vestiu a bermuda, abriu o sensor cardíaco no campo de visão e saiu pra correr com uma garrafinha d’água presa ao cinto.

Sentia falta do suor do esforço físico e dos músculos reagindo ao movimento. Tinha se descuidado. A lombar doía cada vez mais, a pele estava flácida e o peitoral, do qual se orgulhava na juventude, parecia ter derretido sobre a caixa torácica.

Começou devagar, prestando atenção na calçada. Pequenos drones deslizavam entre as pernas numa velocidade que o deixava zonzo.

— Alex, para com isso, cara. Não vai acontecer nada, esses negocinhos com rodas têm mais sensores do que os tanques que você pilotava — falou sozinho.

Escureceu os olhos pra se proteger do sol inclemente que refletia nos edifícios espelhados.

Enquanto acessava a lista de músicas do assistente, notou que poucas pessoas andavam a pé. Todos uns acomodados.

Uma mulher passou por ele dentro uma bolha, como um hamster, e o olhou esquisito.

Alex a cumprimentou com um aceno de cabeça e seguiu em frente.

Britney Spears, “Oops, I did it again”. Um clássico.

Alex procurou pelo semáforo de pedestres até lembrar que foram desativados anos atrás. Os carros passavam o tempo todo, sem pausa. Uma jovem do outro lado da rua pôs os pés no asfalto e abriu caminho como um Moisés num mar de metal.

Alex ajeitou o boné e decidiu seguir o exemplo. Ao iniciar a travessia, sentiu uma fisgada na virilha que o pegou desprevenido. Os carros continuaram avançando, apenas corrigindo o curso prum lado e pro outro. Um dos carros falou: “saia do meio da rua, andante.”

Quando chegou na outra calçada, estava encharcado de suor. O visor ocular mostrava “zero” batimentos cardíacos, embora a visão não estivesse turva. Encostou dois dedos no pescoço e decidiu que não estava morto.

Abriu o ícone de ajuda do monitor cardíaco e descobriu que esquecera de iniciar o aplicativo. Aliviado, deu três passos, tropeçou numa rachadura na calçada e apagou.


Uma mulher de longos cabelos negros cobrindo o rosto estava numa cadeira no canto oposto do quarto. As lentes de Alex não conseguiam foco.

— Simone?

A mulher se levantou apressadamente.

— Pai.

— Ah. Filha, pode me dar um pouco de água?

Segurando sua cabeça, Mônica deu-lhe de beber aos poucos.

Finalmente a visão voltou. Ela estava com olheiras profundas e os olhos vermelhos, uma cara de quem não dormia direito fazia muito tempo.

— O que te deu, pai? Andar num calor de cinquenta graus na rua sem nada, sem nenhuma proteção, sem roupa apropriada.

— Andei como sempre andava, de bermuda, tênis e camiseta especial. Até pus um boné.

— Santo deus.

— Eu te criei melhor que isso.

Mônica ajeitou o cabelo de Alex e sorriu. — Você andava assim em que época? Dois mil e vinte? Vai dizer que passou protetor solar também?

Não, mas só porque não tinha achado pra vender. Tentou articular uma resposta inteligente, mas só deixou escapar um resmungo.

Quis se sentar, mas não conseguiu. Não encontrou as pernas. Por baixo do lençol, seu corpo não ia além do quadril.

Jogou a cabeça pra trás e encarou o teto branco de sempre; encontraram-se tantas vezes que já estavam virando amigos.

— A sua bacia quebrou com a queda. O médico achou melhor aproveitar e remover as pernas. Questão de custo-benefício, ele disse.

Alex fechou os olhos.

— Você está bem?

— Quero pernas novas com porta-copo.


5

O novo apartamento de Alex media vinte passos quadrados. Os ecos dos pedestres lá fora só não eram mais irritantes do que o ranger das novas pernas. O par top de linha, um presente de Mônica, exigia uma bacia da mesma marca chique, o que ele prontamente ignorou ao arrematar uma peça baratinha num leilão online.

O corretor de imóveis não parava de falar quando o vídeo começou sozinho na cabeça de Alex.

— …o dinheiro vai servir para o tratamento, Leco. É só ter paciência.

Uma conta bancária. Isso lhe era familiar.

— Esse papo é muito mórbido, Si.

— A gente tem que encarar as coisas como são.

— A vida é foda. Quando parece que você conseguiu tudo, que tudo está dando certo, ela vem e te dá um tapa na cara. Tanta gente escrota por aí e isso vem acontecer com a gente agora.

— A vida não funciona assim.

Mônica apareceu no quarto fazendo caretas e rolando no chão.

— Paiê, olha eu aqui. Aqui, ó.

— Vem cá, pirralha.

— Alex.

— Seu Alexandre — interrompeu o corretor —, esse apartamento tem quinze metros quadrados, meia cama embutida, paredes deslizantes, forno com micro-ondas.

— Banheiro?

— Tem uma pia.

— Digo, a privada. O aparelho sanitário.

— O banheiro é um cômodo barroco localizado numa área extrojetada do apartamento para maximizar a experiência do habitante.

— É compartilhado então, no corredor.

— Extrojetado. Mas, olhe só, há quem opte por uma solução orgânica. Existem drágeas disponíveis no mercado que digerem o bolo alimentar e dispensam a excreção tradicional.

— Maravilha. Quase me sinto um jovem empreendedor.


Não imaginava que sentiria falta da varanda, de se apoiar contra a grade e levar uma baforada do planeta naquele horário do finzinho da tarde em que o céu ainda não decidiu se quer ser dia ou noite.

A parede desvelou uma TV antiga de LED. O Presidente falava de como o Projeto Abrigo apresentaria uma solução rápida e inteligente de resfriamento da Terra nos próximos dias. A cara daquele homem nunca mudava, o discurso era sempre o mesmo, com as mesmas pausas e os mesmos sorrisinhos.

A mente de Alex saltou pra momentos aleatórios da sua vida, numa daquelas associações arbitrárias que o pensamento faz.

Lembrou-se do destacamento na Namíbia, onde conheceu Vargas e Simone. De uma noite de lua nova cuja luminescência deu-lhes um ar espectral às vésperas da tomada do Complexo Aquífero Presidente Lincoln. Enquanto moleques jogavam baralho e videogame, os três, sentados ao redor de uma fogueira improvisada, conversavam sobre tudo menos o medo de morrer dali a poucas horas.

Lembrou-se da primeira noite com Simone num hospital de guerra, quando achou que não passaria outro dia sobre as areias do deserto.

De quando se demitiu da firma pra acompanhar o nascimento da filha na maternidade.

Das primeiras manchas negras que se espalhariam pela pele castigada de sol de Simone.

Do último filme que viram juntos sob o cobertor da sala, iluminados pela tela, sozinhos, a cabeça de um apoiada na do outro.

Imagens nebulosas e embaçadas misturaram-se a fragmentos fidedignos de Simone e da vida dos dois.

— Bom dia, cidadão, parabéns por mais um dia de trabalho neste país abençoado pelos céus. Escalamos hoje mais um degrau na nossa democracia participativa com as transmissões governamentais diárias. Agora você sempre saberá, em primeira mão, tudo o que fazemos para melhorar a sua vida e engrandecer a nação.

Propaganda política intra-cerebral obrigatória. O fim da picada.


Com a lata de cerveja apoiada no porta-copos embutido na perna, apagou os olhos e buscou bem no fundo da mente. Imaginou-se minimizando o chip assistente e fechando todas as rotinas, vídeos e fotos.

As lembranças não tinham a mesma definição dos arquivos digitais, mas carregavam informações que não podiam ser mensuradas em bytes.

— Carcinoma de Vichy. É o que dizem os exames.

— Câncer. Tem cura, né? — Simone apertou a mão de Alex.

O médico inclinou-se.

— Certos tipos têm tratamento, mas o Carcinoma de Vichy ainda desafia a medicina. Há um artigo…

Alex sentiu um aperto na barriga.

— Tem cura ou não?

— Há caminhos a serem perseguidos, com certeza.

— Alex, calma — ela falou baixo.

Ele queria fazer um discurso, virar a mesa e apertar o próprio crânio até que tudo implodisse dentro do buraco negro dentro de si. Pensou em puxar Simone pela mão pra fora da sala e pra fora do mundo.

Não disse nem fez nada.

O médico subiu a receita no celular dos dois.

A caminhada até o estacionamento foi de uma cumplicidade silenciosa. Quando ele apertou o botão e o carro lhe deu bom dia, Alex chorou descontroladamente enquanto Simone lhe acariciava os cabelos.

Matou a cerveja de uma vez, e então se lembrou do contrato com a Vida Plena Ltda. E da conta conjunta.

Ao tentar salvar essas informações no assistente mental, apareceu um aviso de que esses arquivos já existiam.

Tudo parecia um sonho perdido, mas agora tinha que acordar. Tinha que conversar com a Mônica sobre isso.

— Mônica?

— Oi, pai, tu… 

— Rapidinho. Você sabe de uma conta bancária da sua mãe?

— Ah, pai. Está tomando os remédios certinho?

— Só me responde.

— A gente já teve essa conversa mil vezes.


Alex desencaixou um olho e o posicionou sobre a única mesa do apartamento até enxergar atrás da própria cabeça.

Trocou os dedos da recém-adquirida mão por bisturis. Testou no braço. Um fio fino de sangue escorreu entre os pelos grisalhos.

Fechou a mão numa garra e enfiou os dedos na base do crânio. Linhas de texto acenderam-se no campo de visão. Ele ignorou os alertas e cutucou fundo sob a pele, com calma, até encontrar o chip redondo e o desalojar do soquete.

O chip tinha perninhas metálicas pra evitar deslocamentos e remoções não autorizadas pelo fabricante.

O pescoço pulsava.

O sangue manchou o tapete de feltro cinza.

O processador era azul e brilhante, sem partes móveis, sem solda. Alex atirou a peça longe. Ela fez um arco, bateu numa borda da lixeira, ricocheteou em outra borda e então caiu dentro com um tilintar.

Desatarraxou os dedos-bisturis. Pronto.

Queria ser menos.

Queria ser ele.

Mas, mais que tudo, queria encontrá-la uma vez mais.


6

— Quando me avisaram, achei que era outra coisa.

— Achou que era ela, pode falar.

Alex mordeu o lábio.

— Tudo bem. — Vargas estava encolhido na cama. Parecia bem menor. — Você está diferente, Alex.

— Estou deixando partes de mim pra trás.

— Vamos, me ajuda a subir na cadeira de rodas.

— Não sei…

— Me ajuda aqui. — Vargas se segurou no braço de Alex e se ergueu até a cadeira.

— Quer ir pra onde?

— Quero sentir esse sol miserável bater na minha cara uma última vez.

— Ok.

— Viu qual é a última novidade de geoengenharia?

— Depois que vendi minha TV, tô por fora.

— E o seu chip?

— Comprei um celular.

— Fez bem. Enfiar um computador no cérebro deixa a gente maluco. Por ali. Bom dia, Lurdes. Enfim, o Presidente deu a notícia. As mentes mais brilhantes da humanidade decidiram jogar pedras de gelo gigantes nos oceanos para resfriar a atmosfera.

— Você está zoando.

— Nunca falei tão sério na vida. Helicópteros especiais vão transportar as pedronas amanhã.

Alex estalou a língua.

— Só lamento não ter um copo gigante com toneladas de açúcar e limão para fazer a maior caipirinha do mundo.

— Décadas de reuniões pra escolher a ideia mais idiota.

— As pessoas são idiotas. Elas gostam disso. É mais fácil. Isso, vamos parar aqui. — Vargas abriu dois botões da blusa de pijama e inclinou a cabeça pra trás enquanto o sol tocava o seu rosto e os pelos brancos eriçados.

Sob aquela luz, Vargas parecia uma folha de papel amarelada.

— Alex, olha só que luz. Um sol digno da Namíbia. Trouxe a cerveja?

Dos reservatórios embutidos nas pernas, Alex tirou duas garrafas, uma pra cada um.

— Valeu. — Vargas deu um gole, trêmulo. — Sabe, vivi mais do que três gerações costumam sobreviver nesse mundo de merda. Casei com uma mulher e depois com um cara que me largaram, casaram um com o outro e me convidaram para ser padrinho. Eu aceitei, bebemos e rimos juntos. Foi muito doido.

Eles beberam mais um gole.

Vargas continuou.

— Fui convocado pra lutar na Namíbia quando fiz dezesseis. Fiquei animado como um idiota, achando que a vida era um jogo, mas lutei em três campanhas e consegui voltar. Viajei, comi comidas diferentes, beijei bocas de vários formatos e gostos, briguei, atirei, fui esfaqueado e atropelado. Conheci você e a Simone, dois trastes que mudaram a minha vida.

Outro gole. Vargas estava com a voz trêmula.

— Tudo culminou neste momento, agora, com eu e você olhando esse fim de tarde nesse jardim meio ressecado nessa cidade quente pra burro. Você é meu melhor amigo, cara, meu verdadeiro irmão. O irmão que meus irmãos não foram. Obrigado. Por tudo.

Alex deu-lhe um tapinha no ombro.

Vargas levantou a garrafa.

— Até o outro lado.

— Até o outro lado.


Acordou ofegante com um número na cabeça.

Pegou o chip no cesto de lixo e, com um adaptador, conectou-o ao celular pra acessar a conta bancária de Simone.

Era a senha.

Quando viu o saldo, recalibrou os olhos e conferiu os zeros com o dedo. Uma fortuna.

O Exército continuou depositando a pensão de Simone nesses anos todos. O valor mensal não era grande coisa, mas décadas de juros compostos fizeram milagre.

Não havia movimentação no extrato.

A data de abertura da conta acendeu lembranças.

Digitou “Vida Plena”, “Simone” e a data.

O motor de busca retornou vários resultados e vídeos relacionados ao “Carcinoma de Vichy”. Um deles era uma propaganda antiga da Vida Plena.

— Todos os dias, novas doenças surgem e levam embora aqueles que mais amamos. — Na tela, apareceram palavras como “desnutrição aguda”, “supertuberculose” e “Carcinoma de Vichy”. — A cura pode vir amanhã, mas pode ser tarde demais. Nós da Vida Plena damos tempo ao tempo. — Um campo verde apareceu com uma criança abraçando os pais, um cachorrinho rolando na grama, um casal se beijando. — As pessoas dizem que nada é como antigamente. Nós acreditamos que nada é melhor do que o futuro.

Alex chamou um carro.

— Bom dia, andante, qual o destino?

— A minha esposa.


A mão direita não funcionava mais. Tentou consertá-la, mas a outra mão tremia.

Aos poucos, a ausência do chip trouxe de volta quem ele era, mas foi levando embora a pessoa que tinha ficado. Imagens e cheiros de Simone, do xampu de Mônica, dos bolinhos de chuva, tudo vinha em ondas, ressacas que lhe pegavam desprevenido.

Alex não conseguia ver Simone. A empresa não deixava.

— O setor de armazenamento é altamente controlado para a própria segurança dos clientes — o atendente insistira.

Buscou online preços de advogados até encontrar um que podia pagar; a mudança de humanos pra softwares não tornara a justiça mais acessível.

— A situação é complicada — o software falou. — Por um lado, a senhora Simone está legalmente morta. A ideia é que pessoas na situação dela não prejudiquem a segurança jurídica dos negócios.

Se não soubesse, Alex acharia que estava conversando com um advogado dos velhos tempos.

— Sob esse prisma — continuou o software —, nada impediria que o senhor movimentasse a conta bancária.

— Ótimo, como faço?

— Por outro lado, a conta bancária em questão é da modalidade fiduciária conjunta, de modo que é necessária a assinatura de ambos os contratantes para movimentá-la.

— Em outras palavras, estou ferrado.

— Salvo melhor juízo, sim.

— A não ser que ela volte.

— Ou não volte mais.

O celular de Alex tocou.

— Só um momento, doutor. Mônica? O que aconteceu? Calma. Respira fundo. Não estou entendendo. O que tem o Bruninho? Uhum. Como você sabe disso? Não morreu, não, calma, filha. Não fica assim, pode ser um erro, não saiu nenhuma notícia… Chegou hoje, agora? É bobagem isso aí, com certeza é um erro, todo mundo sabe que computador dá problema o tempo todo. Estou indo praí.


7

Não visitava a filha desde o funeral do neto.

— Hoje tem reunião do grupo — Mônica disse.

— Hã?

— Grupo anti-guerra. Pra acabar com essa violência estúpida.

— Na verdade, existe toda uma indústria que se beneficia da guerra sem fim. Fora os interesses políticos…

Mônica derrubou a louça na pia e o barulho ressoou na cozinha:

— Essa guerra tem que acabar.

— Eu sei — disse Alex.

Lá fora, o carro estava marrom de poeira. Talvez nem ligasse mais.

— Vou passar um café. Como você quer, pai?

— Bem forte, sem açúcar. Cadê o Carlos?

Mônica terminou de passar o café, encheu duas xícaras e trouxe até a mesa. — A gente está se separando.

Aquilo o pegou desprevenido.

— As coisas não estavam bem fazia tempo. Ele começou a chegar cada vez mais tarde em casa. As madrugadas viraram dias. Eu comecei a me oferecer pra fazer viagens cada vez mais longas no serviço. No fim, a única coisa que tinha sobrado entre a gente era o CEP.

— Você nem me falou nada.

— Não quis te encher.

— Mônica.

Alex quis abraçá-la, dizer que podia contar com ele, pedir desculpas pelas maluquices. Mas só conseguiu perguntar:

— E a casa?

— Vamos vender. Não tem sentido morar aqui sozinha. O Carlos queria que eu ficasse com ela, mas eu não quero. Não é justo com ele. — Ela rodou a xícara com as palmas das mãos. — Acho que vai ser bom começar do zero.

Alex soprou o café e bebericou um pouco. A mão tremia mais que de costume. Sabia que devia procurar um médico, mas sabia também que um chip seria a prescrição padrão.

— Sabe o que encontrei outro dia? — Mônica foi pra dentro e voltou com um porta-retratos. — Lembra dessa viagem?

— Nossa, isso foi quando?

— Logo depois que o Bruninho nasceu. Olha como ele era gordinho e bochechudo.

Alex segurou a mão da filha.

— Ele era bonito, como a mãe.

— E boca suja, como o vô. — Ela sorriu. — Viu a mamãe?

— Sim, ela está ótima — mentiu.

— Que bom. Eu quis visitá-la várias vezes, mas a ideia de vê-la daquele jeito me arrepiava.

— Vai dar tudo certo.

— Com certeza.


8

Depois do derrame, Alex se mudou pro apartamento de Mônica. Paralisado, conseguia apenas mover os olhos e digitar com uma das mãos.

Teve de vender o último apartamento pra bancar os equipamentos que o mantinham vivo. Mônica ofereceu ajuda mil vezes, mas Alex insistiu que era o mínimo que podia fazer. O dinheiro de Simone continuava congelado.

Ver TV no quarto era bem melhor do que ser submetido às transmissões intracranianas não autorizadas da época do chip assistente.

— A base Luna II confirma informações de que o subterrâneo do satélite natural contém água potável e minerais escaváveis — disse um repórter.

— Que boa notícia, hein, Sandra? — disse um dos apresentadores. — Pesquisadores anunciaram hoje cedo a descoberta da cura do Carcinoma de Vichy, um mal que vitimou milhões de pessoas…

A respiração de Alex acelerou. O sistema de suporte injetou-lhe um analgésico e a visão escureceu enquanto um homem de jaleco branco e covinhas no queixo falava na TV sobre a descoberta.


A notificação que acendeu no celular era boa demais pra ser verdade. Ele mostrou pra filha, que entrou em contato com a empresa. Quando ela sorriu, ele sorriu por dentro.

— Vou buscar a mamãe e já volto. Qualquer coisa é só me mandar mensagem. Certo?

Alex digitou “ok”.

Ele conseguia ler no vaso de planta sobre o criado-mudo o nome “Simone” e as datas de nascimento e de internação junto da frase “Humana em Atualização.”

Era seu aniversário, mas nenhum amigo viria porque amigos não existiam mais. Lembrou-se das noites frias na Namíbia sob a lua ainda imaculada.

Queria arrumar o cabelo, escovar os dentes e preparar o jantar pra Simone. Porém, só lhe restava esperar.

A cada minuto que avançava nascia uma insegurança.

Primeiro, a de que tudo não passasse de um mal-entendido, de que Mônica descobriria que a Vida Plena extraviara a esposa. Depois, a de que Simone estivesse diferente, de que todos esses longos anos a tivessem mudado por dentro. O que mais temia, contudo, era que ela não o amasse mais. Por que amaria? Ele não lembrava em nada aquele homem jovem e musculoso por quem ela havia se apaixonado e com quem tinha dividido todos os dias até o dia da internação.

Simone estava prestes a retornar com trinta e três anos de idade, uma fotografia de um caminho interrompido, enquanto ele continuou num descompasso de espera.

Quando ela o visse, que sentimento restaria? Dó? Asco?

A porta do quarto se abriu e ela apareceu.

— Oi, Leco. Parece que foi ontem que te vi. Sonhei com você o tempo todo.

“Eu também”, Alex digitou.

Simone sorriu, revelando o canino lascado e aquelas finas rugas no canto da boca. A pele tinha as mesmas marcas de sol de décadas atrás. Nem sinal das manchas negras.

“Te amo, Si.”

Os olhos dela brilharam sob um filme de lágrimas. Alex não tinha mais a capacidade de chorar pelos frios olhos vermelhos.

— Também te amo. — Simone sentou na cama e pegou na mão dele. A palma macia e firme dela roçou contra a sua mão fina e cheia de veias. — Fiquei com medo de você me esquecer.

Com o coração se debatendo no peito como uma ave, Alex suspirou: o calor de Simone era real. Pra ela, havia passado uma semana de distância; pra ele, uma vida. Antes da internação, quando não havia mais esperança para o Carcinoma, eles haviam decidido que era melhor bloquear as memórias do destino de Simone, mas não imaginavam que ele começaria a se esquecer dela por completo. Como erraram.

— Agora é a minha vez de reconstruir você — disse ela.

A boca de Alex se repuxou num sorriso.

O estômago de Simone fez um barulho. — O que tem pra jantar?

Rodrigo Assis Mesquita
Rodrigo Assis Mesquita
Rodrigo Assis Mesquita, [deletado], é adepto da pré-pós-verdade, da liberdade dentro da cabeça e do brigadeiro de colher. Autor principalmente de ficção científica e fantasia, com contos e novelas publicados e despublicados por aí, tem histórias no Leitor Cabuloso, na Revista Mafagafo e no Story Seed Vault. Criador do universo Brasil Cyberpunk 2115 e aluno da Clarion West 2018.

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