Nabu

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Editado por Soraya Coelho

Mamãe dizia para não brincarmos com inteligências artificiais, mas Nabu era muito burro.
Eu o encontrei nos mares de lixo enquanto buscava coisas que a gente pudesse vender no Verde. Ele estava escondido embaixo de pedaços enferrujados de naves, transmissores, conduítes, escâneres, circuitos emaranhados e mais um monte de tralha. Eu vi uma perna primeiro. Ela brilhava, mas quase tudo no Lixo brilhava sob o nosso sol. O que me chamou a atenção foi que a perna terminava num pé redondo com garras, diferente do pé de qualquer robô que eu já tivesse visto. A perna também era bem menor e mais fina do que a de um robô comum.

Desenterrei o resto do corpo. Tinha mais que duas pernas, e no lugar de um rosto humanoide havia um focinho. Então entendi: era um animal. Eu nunca tinha visto um animal de verdade, mas os habitantes mais ricos do Verde tinham arti-animais que imitavam aqueles do planeta natal. Mamãe tinha me contado sobre eles. Era coisa de terráqueos: quando os animais de verdade sumiram, as pessoas começaram a fabricar uns de mentira, que imitavam perfeitamente os antigos. Mas arti-animais não tinham muito lugar no nosso mundo — não havia nada que pudessem fazer melhor que androides. Então o que aquele bicho estava fazendo ali?

Ele era puro metal — sem pelos ou penas —, como se alguém tivesse largado o serviço no meio. Era pequeno — nem chegava à minha cintura — e não tinha juba, então concluí que não era um leão. Ele tinha três pernas (uma das traseiras tinha caído e pendiam fios do buraco) e duas orelhas que apontavam para cima.

Um coelho?

Não. Coelhos eram pequenos, não eram?

Coloquei o bicho de pé (ele ficou parado, apesar da perna que faltava) e olhei de um lado para outro. Ninguém à vista. Comecei a apalpar as placas de metal até encontrar um botão perto da barriga e apertei.

Ele vibrou e os olhos sem pálpebra brilharam com vida e inteligência. Ou algo do tipo.

— Oi! — eu disse.

Ele me olhou em silêncio, inclinando a cabeça para o lado. Será que estava solta?

— Que bicho é você? — Nada. Ficamos nos encarando por um tempo. Os olhos eram de um azul incandescente. Fiquei pensando se seria arriscado demais tocá-lo, e por fim catei uma barra no chão e o cutuquei à maior distância possível.

Oooooiiiii. Você tá quebrado?

— Au!

Dei um pulo para trás e caí sobre uma placa aberta que espetou meu traseiro em dezenas de pontos. Meu coração quase saiu pela boca. Ele estava funcionando.

— Então você fala?

— Au!

— Que língua é essa? — O som que saía dele era algo que eu não lembrava de já ter ouvido. Ele continuou fazendo o barulho. — Espera, isso foi um latido? Você é um cachorro?

O possível cachorro veio até mim sobre as três patas, tropeçando nas dunas de lixo. Ele tinha uma antena curta entre as pernas traseiras que ficava abanando sem parar, e isso com certeza tinha que ser alguma pane de circuito. Isso e o fato de não responder às perguntas. Que tipo de IA não falava?

Meu irmão coletava chips de informação no Lixo, que a gente rodava em um tocador em casa, e lembrei de um que ele tinha me mostrado muito tempo antes, sobre animais terráqueos. Tentei recuperar a memória. Eu estava bastante certa que aquilo era um cachorro. Tinha quase certeza de que cachorros não comiam gente, mas por segurança me levantei e me afastei uns passos. O cachorro me seguiu, mas não me atacou. Só ficou perto de mim, com a cabeça erguida e uma língua de metal pendendo da boca.

— Você… faz alguma coisa? — perguntei.

Ele inclinou a cabeça de novo. Suspirei.

— Sistema de direcionamento? Escaneamento radioativo? Qualquer coisa? Ah, você tá quebrado. É melhor eu te desligar.

Mas não fiz nada. Ele tinha começado a andar de novo e ficava tropeçando nas peças. Era meio patético, mas ele parecia estar tentando e… bem, eu só não desliguei. Ele me seguiu pelo resto do dia enquanto eu catava e, quando via que eu estava cavando, vinha cavar do meu lado. Para isso as garras eram úteis. Não tão boas quanto uma empilhadeira, verdade, mas era melhor que nada.

— Sebo! — chamou uma voz conhecida.

Droga.

Eu não tinha ouvido meu irmão chegar. Ele olhou para mim, então para o animal.

Seus olhos se arregalaram.

— Isso é um cachorro?

— Não é um cachorro — eu disse.

— Au! — latiu o cachorro.

— Shhhhh. — Cobri o focinho de metal com uma mão. Os olhos brilhavam verdes agora. A anteninha prateada abanava devagar.

— Desliga ele já! — mandou meu irmão.

— Não — rebati. — Ele é meu agora. — O chip contava que os terráqueos tinham animais pessoais que os seguiam por toda parte, como ajudantes, e gostei da ideia de ter um bicho só meu.

Ele franziu as sobrancelhas, que se uniram no meio da testa. Seria intimidador se ele não fosse só um palmo mais alto que eu e magro como arame.

— Sebo.

— Sem.

Mamãe nos chamava de uns sons estranhos que não queriam dizer nada, mas entre os catadores nós tínhamos outros nomes. Eu era Sebo porque quando era ainda menor caí numa poça de combustível vazado e fiquei toda ensebada, da cabeça aos pés. Meu irmão era Sem Braço, o que não era muito adequado porque ele tinha braço. Só um, mas mesmo assim.

Aconteceu quando eu nem tinha nascido: ele encontrou um androide nas dunas e achou que sabia consertá-lo. O negócio era um robô de colheita, e a primeira coisa que fez quando foi ligado foi estender uma foice e fatiar o braço do meu irmão.

Por isso mamãe não gostava muito de IAs.

O que importa é que, quando eu era bem pequena, não conseguia falar Braço, então só o chamava de Sem. E ficou assim.

— Ele pode valer uns trocados — Sem disse.

— Você não vai vender meu cachorro de estimação!

Ele revirou os olhos.

— Ele fala?

— Não muito…

— Ele nem tem uma perna.

— Ele consegue andar nas três.

— Como ele chama?

Pensei depressa.

— Nabucodonosor, o Conquistador.

Quê?

— A Nabucodonosor foi a primeira nave que chegou aqui — eu disse, me sentindo satisfeita ao não tropeçar no nome e ainda ensinar alguma coisa pra ele.

— Eu sei o que é — rebateu Sem, que tinha que ser um sabe-tudo —, só que é um péssimo nome de cachorro.

— Por quê?

— Nomes de cachorro eram curtos! Pra você chamar e eles virem!

Cruzei os braços e o encarei.

— Desde quando você é especialista em animais?

O sol era como uma prensa e o suor escorria pela minha camisa fina, costas, braços, testa. Eu e Sem ficamos nessa batalha silenciosa por alguns segundos, então ele jogou a mão pra cima.

— Que seja. Mas você cuida dele! — E antes de se virar: — E não deixa ninguém saber disso!


Nosso planeta se chamava LM-246 e ainda estava em processo de terraformação. Quer dizer, era pra estar. As partes do meio tinham mais água subterrânea e foram escolhidas para ser terraformadas primeiro, enquanto os desertos ao redor foram deixados pra depois. Só que o depois não chegava nunca. Quando uma faixa — o Verde — ficou habitável, eles meio que deixaram o resto pra lá. Jogaram tudo que usaram no trabalho nos desertos, inclusive os trabalhadores que tinham construído o novo planeta. Meus ta-ta-taravós estavam entre eles.

A nossa parte era o Lixo (oficialmente, a Pe-ri-fe-ria, uma palavra muito longa e muito chique pro negócio de verdade). O Lixo era basicamente areia, calor e muita, muita tralha.

Quando o Verde começou a ir bem — ar bom, água fresca, colheitas abundantes —, mais humanos foram chegando para colonizar LM-246. Aí começaram os problemas. Pelo que diziam, o pessoal que não estava no comando queria estar no comando, então precisavam dar um jeito de expulsar o pessoal que estava no comando. Para isso eles precisavam de armas.

E os primeiros colonizadores tinham jogado fora muita coisa boa. Pelo menos, muita coisa que podia virar algo útil — ou perigoso. Nosso trabalho era encontrar qualquer peça nos mares de lixo que desse para vender. Às vezes eu pensava no que ia acontecer quando não sobrasse mais nada, mas Sem dizia para eu não me preocupar. Ele era bom com tecnologia: arrumava várias coisas que a gente achava e ficava assistindo chips de informação e me contando um monte de fatos que eu não entendia bem sobre o universo e viagens espaciais. Acho que ele pensava em montar uma nave um dia e sair de LM-246.

Mas, até lá, a gente tinha que catar.

Comecei a levar Nabu comigo. Ele fazia várias coisas:

  • vinha quando eu chamava (pelo apelido ou o nome inteiro);
  • corria atrás de coisas que eu jogava (e trazia de volta, então eu tinha que jogar de novo, e de novo, até ele deixá-las lá finalmente);
  • puxava coisas que eu estava segurando (e que eu queria na mão);
  • me encarava enquanto eu comia (não sei bem por quê);

  • cavava a areia (às vezes sem motivo, às vezes para enterrar objetos — inclusive alguns que eu já tinha separado pra levar);
  • corria em círculos.

Apesar de ser uma IA, ele não era nada bom em obedecer a comandos. Mas toda manhã acordava comigo (se acostumou com meus horários sem eu falar nada) e me acompanhava com seus clacs e plocs de metal. Por algum motivo, eu adorava passar tempo com ele.

Amarrei uma fita para cobrir os fios da perna faltante. Tentei consertar a cabeça, que às vezes ainda pendia pro lado, mas não parecia ter nada solto nela. A antena — que chamava “rabo”, de acordo com Sem — também continuava balançando. Achei que fosse um defeito, mas meu irmão (que passava tempo demais comigo e Nabu pra alguém que não tinha interesse em arti-animais defeituosos) disse que os cães de verdade faziam isso.

— Por quê? — eu perguntei. Estávamos sentados à sombra de um cargueiro abandonado e Nabu tentava cavar um buraco numa placa de metal. Como eu disse: muito burro. As garras faziam tec-tec-tec.

— Por quê? — ele repetiu. Obviamente não sabia, e Sem odiava não saber as coisas. — Era pra… indicar o sentido do vento. Escuta, Sebo. Eu acho que ele é um cão de primeira geração.

— Um o quê?

Ele se inclinou pra frente, com aquela cara de quem ia começar a falar um monte de coisa que tinha assistido em chips.

— Quando as pessoas começaram a fazer animais artificiais, lá no planeta natal, elas pensaram em fazer os bichos do jeito que eles eram mesmo. Personalidade e tudo. Eles nem falavam.

— Que nem o Nabu!

— Isso. Eles queriam animais pra substituir os que tinham morrido, entende? Mas daí pararam de fazer eles assim.

— Por quê?

— Acho que viram que eles não serviam pra muita coisa.

— Au! — protestou Nabu.

— Os cachorros protegiam as casas — eu disse. Isso eu lembrava. Não entendia bem por que os terráqueos tinham cachorros de guarda, em vez de tigres ou velocirraptors, que pareciam ser mais eficientes, mas deviam ter algum motivo.

— É, mais àquela altura as pessoas já tinham sistemas de segurança automatizados — disse Sem. — Ninguém precisava mais de um latido pra avisar de nada. Depois, surgiram os arti-animais como a gente conhece, com a aparência idêntica aos animais conhecidos, mas muito mais evoluídos. Inteligências artificiais, na prática. Ajudavam a cuidar das crianças, com os negócios e tudo mais. Eu dei uma olhada nos circuitos do Nabu…

— Sem!

— Não machuquei ele, fica calma. Ele é diferente de qualquer IA que eu já vi. Mais simples, e mais complexo ao mesmo tempo. Não sei explicar. Só sei que ele não foi feito pra falar, e parece ter todos os instintos de um cachorro de verdade. Ele deve ser muito antigo.

— Será que alguém trouxe ele da Terra?

— Provavelmente. Devia ser alguma herança de família. — Sem se levantou e passou a alça da sacola sobre o ombro. — Vem, vai escurecer daqui a pouco. Mas antes… olha o que eu encontrei.

Ele tirou algo da sacola — um pedaço de metal que parecia o antebraço de um androide, com fios vazando de um lado. Parecia coisa boa — os fios não estavam desencapados e o metal estava polido, tinindo. Tinha mais ou menos a altura das pernas do Nabu.

— Eu vou fazer uma quarta perna pra ele — disse Sem.

— Onde você achou isso?

Ele se virou pra Nabu.

— Ouviu? Eu vou te consertar!

Nabu deu um latido metálico e veio mancando até nós, o rabo indicando o sentido do vento.


Os catadores no Lixo eram divididos em grupos e gangues com territórios bem definidos. Mamãe, Sem e eu morávamos num agrupamento pequeno, com cerca de cinquenta pessoas, descendentes de agricultores de primeira leva. Nosso território tinha principalmente coisas pequenas e não-inteligentes, como varredores de dunas, localizadores, bússolas e arados eletrônicos, e fazia fronteira com o território dos Exploradores.

Os Exploradores originais era um pessoal que tinha descido em LM-246 quando a atmosfera ainda era tóxica. Muitos ficaram doentes naqueles primeiros tempos, e quando as coisas finalmente começaram a melhorar e mais colonos desceram, eles eram poucos e fracos e perderam o poder. Seus descendentes ainda se chamavam de Exploradores, embora eles fossem só catadores de lixo, que nem todo mundo ali.

A área dos Exploradores tinha uma grande concentração de IAs usadas nas primeiras etapas da exploração. Depois elas tinham sido substituídas por IAs mais complexas e elegantes, mas tinha surgido um interesse nessas IAs originais no Verde porque eram resistentes e bruscas. Os Exploradores enriqueceram — na medida em que alguém enriquecia no Lixo — comercializando essas máquinas, e eram muito territorialistas. Eles não pegavam nosso lixo, e esperavam que a gente não pegasse o deles.

Eu não percebi que Sem tinha encontrado a nova perna de Nabu no território dos Exploradores até que ele já a tivesse instalado.

Ele desligou Nabu para colocar a perna, que de algum jeito ele havia deixado parecida com as outras. Quando religou o cão, a perna zuniu, vibrou e se integrou ao conjunto.

— Na verdade, ela é bem melhor que as outras — comentou Sem, rindo. — Ei, Nabu! Não deixa ela sair correndo na frente.

— Au!

— Sem… — eu disse. — Isso não é coisa daqui, é?

Ele pareceu desconfortável, mas deu de ombros e afagou meu cabelo.

— É só lixo. Ninguém vai reparar. Ninguém nem sabe que Nabu existe.

Só que eles sabiam, sim, e tinham reparado. A gente descobriu no dia seguinte, quando saímos pra catar, eu, ele e Nabu, e alguém chamou de uma duna:

— Sebosa. Sem Braço.

Reconheci aquela voz imediatamente. Era o Carapaça.

Ele tinha mais ou menos a idade de Sem, mas era mais alto — e bem mais largo. Era chamado assim porque tinha criado um tipo de armadura que usava no calor insuportável e o deixava ainda mais ameaçador. Uma placa de metal curva cercava sua cabeça por trás e pelos lados, como um capacete aberto. Ele estava usando a armadura completa agora. Sem entrou na minha frente. Eu entrei na frente de Nabu.

— Carapaça — disse meu irmão. — O que está fazendo aqui?

— Vim pegar o que é nosso.

Som de passos sobre metal. Dois outros catadores apareceram atrás dele, uma garota e um garoto que eu não conhecia, mas que tinham cara de poucos amigos.

— Do que você está falando? — perguntou Sem.

Carapaça deu mais alguns passos até a gente.

— Do seu cachorro. Achou que a gente não ia reparar que entrou no nosso território? Tem vigilância em toda a fronteira. Só não te paramos porque a gente imaginou o que você ia fazer. — Ele foi pro lado; Sem e eu giramos ao mesmo tempo, formando uma órbita, mas Carapaça viu Nabu e apontou. — Ele vai dar um belo presente pra alguma menininha querendo brincar de terráquea.

Olhei pra Sem, assustada. Meu irmão balançou a cabeça para Carapaça.

— Ele é nosso. Encontramos no nosso território!

— Essa perna é minha — disse Carapaça. — E está ligada no cachorro. Então não vai ter jeito.

— A gente te paga pela perna — disse Sem, mas eu sabia que a gente não tinha como pagar por nada e que mamãe ficaria furiosa se soubesse que ele fez a oferta.

Carapaça balançou a cabeça de novo. O capacete raspava nas placas dos ombros quando ele fazia isso. Ele chegou mais perto até ficar bem na frente de Sem e o encarou de cima, parecendo três vezes o tamanho do meu irmão.

— O cão é nosso.

— Vai embora, Sebo, e leva o Nabu — ordenou Sem.

— Não vou! — eu disse. Estava com tanto medo que não conseguia nem me mexer. Eu não queria dar Nabu, mas e se eles machucassem Sem?

— Vai embora, Sebo!

— Ela não vai pra lugar nenhum! — berrou Carapaça.

Ouvi um som estranho e percebi que vinha de baixo — de Nabu. Ele estava… vibrando, a boca aberta, enquanto mostrava os dentes de metal. Não. Não era uma vibração, era um rosnado.

— O que ele está fazendo? — perguntou a garota atrás de Carapaça.

Carapaça falou pra Sem:

— A gente não quer machucar vocês, então não façam nada idiota.

Foi aí que Sem resolveu fazer algo idiota.

Ele ergueu a mão e deu um soco em Carapaça. O punho atingiu o lado do capacete e empurrou a bochecha de Carapaça, mandando a cabeça do garoto pro lado. O golpe pareceu doer mais em Sem que em Carapaça, mas o olhar do Explorador prometia vingança.

Carapaça fechou a mão num punho. Inspirou fundo. Fez um arco no ar com o braço.

Só que o golpe nunca o acertou — enquanto seu punho se movia, Nabu pulou.

Tudo aconteceu muito depressa. Com a boca arreganhada e os dentes afiados refletindo a luz do meio-dia, ele saltou sobre o braço de Carapaça, que berrou quando os dentes de Nabu atravessaram sua armadura e se enfiaram na carne por baixo. Ele agitou o braço pra tentar se livrar do cachorro, só que Nabu era um cão artificial – sem muita inteligência, mas com força de sobra.

— Nabu, solta! — gritei.

Um pedaço da armadura caiu na duna com um tinido. Sangue jorrava do braço nu de Carapaça.

Ele olhou com ódio para Nabu. O cachorro ainda rosnava pra ele, sangue escorrendo dos caninos de metal. Seus olhos brilhavam com uma intensidade que eu nunca tinha visto: o azul de costume se tornou um vermelho intenso.

Carapaça apontou um dedo pro meu irmão.

— Qual é o comando pra desligar essa merda?

— Ele não obedece comandos — Sem respondeu.

— Que merda de IA não obedece comandos? — Carapaça olhou pra mim. — Você, você sabe controlar ele!

— Eu não sei! — Era verdade, Nabu só obedecia quando queria.

Carapaça voltou os olhos furiosos para Nabu.

— Então essa merda não serve pra nada.

Ele fez um gesto com a mão ensanguentada e, um instante depois, ele e os dois outros Exploradores atacaram o arti-animal.

— Não! — gritei, indo para cima dos três. Mas um braço me segurou pela cintura: meu irmão, que me puxou com tanta força que caímos os dois para trás.

Nabu se defendeu com ferocidade: pulava de um dos Exploradores para o outro, rosnando, rasgando, arrancando sangue. Mas os três o chutavam e batiam nele, até que o garoto agarrou suas patas de trás e a garota tirou uma arma da cintura, uma pistola laser.

— Não, deixa ele! — eu berrei, ao mesmo tempo que ela atirou no flanco de Nabu.

Ele caiu na duna. Tinha um buraco no seu corpo agora, e os circuitos nus chamejavam. Carapaça olhou para gente. Sem ainda me segurava.

— Fica longe do nosso território — cuspiu ele —, senão eu volto aqui e te arrebento, entendeu?

E deu um último chute em Nabu. Os três se afastaram no mar de lixo, e assim que sumiram na duna seguinte, eu me desvencilhei de Sem e corri até Nabu.

O cão soltou um auuuu longo e triste que se dissolveu numa série de bipes e estalos. Os fios no interior chispavam; uma placa estourou e saiu voando nas dunas. Segurei a cabeça dele e uma língua metálica lambeu a minha mão. Seus olhos mudaram de cor depressa: verde, azul, rosa, laranja. Então branco, cada vez mais fraco. Então se apagaram.

Sem se ajoelhou ao meu lado.

— Sem, conserta ele! — pedi. — Conserta ele!

Mas não tinha jeito. Mesmo que entendesse os sistemas de Nabu, não tínhamos as peças para consertá-lo. Ele era terráqueo, uma tecnologia antiga e desconhecida. Era único.

E estava morto.


Enterramos Nabu atrás de casa. Cavamos um buraco na areia, deitamos seu corpo com cuidado e o cobrimos. Então ficamos em pé, olhando o montinho sobre a cova.

— Ele era um bom cão — disse Sem.

Eu desatei em lágrimas. Elas escorriam pelo meu rosto e deixavam um gosto salgado em meus lábios. Ele pôs o braço ao redor dos meus ombros.

— Sem — eu disse. Meu peito descia e subia, meus olhos estavam inchados e a garganta arranhava. Era como se um gancho me puxasse por dentro.

— Que foi, Sebo?

As palavras saíram entre soluços:

— Eu acho. Que. Descobri. Porque. Pararam. De fazer. Cães. De verdade.

Isa Prospero
Isa Prospero
Isa Prospero nasceu em Piracicaba e mora em São Paulo. Escreve no blog literário Sem Serifa, é coautora do romance juvenil Volto quando puder (2016) e publicou histórias de ficção especulativa na antologia Mitografias, na Superinteressante e na revista The Fantasist, entre outros.

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