O causo do cemitério

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Editado por Enrico Tuosto

Essa história que você perguntou, há muito tempo não conto. Ainda mais depois de vir pra cá, pro asilo. A última vez foi para um moço, ele queria saber do causo do cemitério. Quem lembra, diz assim: “causo”. Mas foi história acontecida mesmo. Aquele moço me ouviu calado, o tempo todo. Só no final ele me falou umas coisas e eu fiquei pensando, vai ver ele matou a charada. Mas vamos lá. Foi assim:

Naquele tempo, eu mexia com gado. Tinha umas reses, coisa pouca, mas garantia a vida da gente. Gado de leite dá trabalho, mas tem uma vantagem: o dinheiro entra todo mês. Com lavoura, você só vê a grana na colheita. E, justo na época da colheita, o preço cai. Aquilo que te custou caro, você vende barato. E agradece a Deus se não veio uma geada antes pra acabar com tudo. Gado é muito mais seguro.

Hoje o povo reclama. Também, esses laticínios grandes não querem pagar o valor certo do leite. E não existem mais os pequenos laticínios. No meu tempo, eu me virava bem, sem luxo, mas com fartura, como se diz, e vendia uns bezerros de vez em quando. Dava para apurar uns trocados.

Pois, uma vez, eu juntei uma bezerrada e levei pra vender em Embu da Peste. Já ouviu falar dessa cidade? Com esse nome, não se podia esperar coisa boa, né? Nunca mais passei por lá, mas não deve ter crescido muito. Era só uma corrutela, um punhado de casinhas… As construções maiores eram a igreja, o cemitério, todo murado e bem caiado, pois lá se respeitava muito a morada derradeira, como descobri depois, e um sobradão grande, que o povo chamava de “casa do húngaro”. O dono, diziam, era um barão da Hungria que veio para o Brasil ainda na época da escravidão. Depois que ele morreu, a casa ficou abandonada e pegou fama de mal-assombrada.

Lá chegamos eu e meu primo Vicente, que veio me ajudando a tocar a bezerrada, numa noite de quaresma, debaixo de chuva forte, com a estrada derretendo sob os cascos dos animais. O rio Taboão, pouco maior do que um riacho quando corria no seu leito habitual, subiu e já tinha golfado água nas vazantes. Era a enchente das goiabas, como o pessoal falava, porque acontecia na época da goiaba. Costumava ser menor do que a enchente de dezembro, mas a chuva veio atrasada naquele ano e queria se despejar toda de uma vez.

Enfiamos os bezerros e nossas mulas no curralzinho da praça — lá era um ponto pra venda de gado, por isso tinha um curral na praça — e fomos pedir pouso. Quem nos recolheu da chuva foi padre Chico. Botou a gente num quartinho da casa paroquial, simples, mas arrumadinho, com três camas, uma cômoda, bacia e gomil com água, sempre pronto a receber hóspedes, como se via.

Antes de dormir, Vicente e eu fumamos um cigarrinho e conversamos um pouco à luz da lamparina. Vicente era da mesma opinião que eu: padre Chico não tinha cara de padre. Era um sujeito mais enrugado do que realmente velho. Parecia forte, do tipo que seria um bom vaqueiro, e conversava com a gente de igual pra igual, sem firula.

Não sei quanto mais eu conversei com Vicente. A chuva tamborilava no telhado, mas a um ritmo cada vez mais vagaroso e, por fim, restou só o gotejar das telhas me embalando — em algum momento, peguei no sono e só acordei quando o padre chamou para o café. Tinha broa e café com leite na mesa da cozinha. Ainda estava escuro.

Comemos, agradecemos ao padre e saímos. Quando chegamos ao curral, a bezerrada toda se ariscou, o que era estranho. Mas um ficou deitado de lado. Cheguei perto e vi que o bicho estava morto. Olhei para o Vicente, que coçava a cabeça, confuso. A primeira claridade do dia já vinha subindo no céu, mas a cidade permanecia às escuras, a não ser pelas lamparinas acesas em casa de gente já desperta para o café e para o trabalho.

Morrer um animal é coisa que acontece. Às vezes, você tem uma vaca boa de leite e, um dia, ela cai num valo e se quebra toda. É prejuízo grande, mas a gente tem de estar preparado pra isso. Morrer um bezerro não é fim de mundo. Mas aquele, a gente estranhou. Tinha uns furinhos no cangote, como mordida de bicho. Não parecia ser cobra. Vieram uns curiosos a dar palpite, falaram que era lobisomem. Já tinha acontecido outras vezes. E época de quaresma, então, era quando o monstro andava à solta. Meu primo levou a sério, ficou impressionado. Eu duvidei.

Muitos anos depois, eu vi essas notícias de chupa-cabra. Quando eu era novo, não existia esse nome, mas já aconteciam coisas estranhas. Hoje, não desacredito mais nem de história de lobisomem. Agora, o que o povo chama de chupa-cabra, ninguém sabe direito o que é. Esse moço, esse que eu te contei, deu outra explicação. Mas não vou adiantar qual. Vai ouvindo a história e depois você me diz a sua opinião.

Enquanto eu estava lá no curral, encafifado, o Vicente me contou que tinha saído à noite. Disse que estava tão cansado que não conseguia dormir. Estranho, né? O Vicente era assim, todo fora do usual. Ele caminhou pela praça, fumando seu cigarrinho, espiou os bezerros. Até aquela hora, estava tudo calmo. Já não chovia e havia muita cerração. Ele foi andando pela cidade. Tudo quieto, tudo escuro, afinal, eram horas mortas. Caminhou até o casarão do húngaro e ficou lá em frente observando. Era uma construção grande e bonita de se ver. A cerração era tanta que encobria o telhado da casa. De repente, ele pensou ter visto uma pessoa, uma mulher, na janela, lá no alto. Quando ela percebeu que meu primo estava olhando, sumiu.

Bom, isso não vinha muito ao caso. Eu estava preocupado com os bezerros. Se foi cobra ou lobisomem, atacou depois que o Vicente voltou para a Casa Paroquial. E como desgraça pouca é bobagem, logo soubemos que a ponte do Taboão tinha caído com a cheia. Embu da Peste estava quase isolada.

Imagine o meu dilema. Contava com o movimento no comércio no sábado pra vender os bezerros, porque, no sábado, muita gente vinha da roça pra fazer compras e vender a produção. Era então que se fazia negócio. Conforme a ocasião, arranjava-se até leilão de gado. Com aquela cheia, pouca gente ia conseguir chegar à cidade. E pra gente sair? Ou dava uma volta muito grande, ou esperava a água baixar pra tentar vadear o rio.

Passamos aquele dia, uma sexta-feira, no boteco. Não porque fôssemos de beber — não mais do que o normal —, mas pra puxar conversa com um e outro e tentar passar os bezerros nos cobres. Acabou foi que a gente bebeu além da conta. Chegamos de fogo à Casa Paroquial e o padre Chico nos recebeu de cara feia.

Durante todo o dia, o Vicente não tinha parado de falar na moça da janela. Ele botou na cabeça que era bonita. Mas como podia saber, se estava escuro e com neblina? Pois foi justamente isso que eu disse. E ele respondeu que a moça “tinha jeito de bonita”. O certo é que o Vicente era um baita mulherengo e nem fazia questão de muita beleza. Ficou com ideia fixa.

No bar, quando comentamos qualquer coisa a respeito, recomendaram cautela. O casarão era assombrado. A tal moça devia ser uma aparição, a “noiva da colina”. Foi o que disseram. Mas meu primo não se assustou. Eu sabia que ele ia se levantar de novo e ir ao casarão, mesmo achando que tinha lobisomem na cidade. Eu também não liguei, que não tinha filho daquele tamanho pra cuidar. Lobisomem, noiva da colina… Naquele tempo, eu pensava que isso tudo era crendice. Então, pulei na cama e não vi mais nada.

Eu jazia assim, num sono pesado, quando o padre Chico me chamou. Estava um breu, sem nenhuma vela acesa na casa, e fui me levantando meio confuso. O padre me apressava com uma fala esbaforida. Percebi uma agitação lá fora e perguntei o que tinha acontecido. Ele respondeu que meu primo havia aprontado e o povo queria nos botar pra correr da cidade debaixo de relho.

Corri lá com o padre. Tinha um ajuntamento na porta do cemitério. Um monte de gente, homens e mulheres, falando ao mesmo tempo, muito palavrão, muita ameaça. Eu não entendia nada. Onde estava o Vicente? O padre foi abrindo caminho no meio do povo e me puxando. Falou que eu era o dono dos bezerros e vinha resolver o problema. Cheguei a levar um pescoção no meio do tumulto. O padre me puxou pelo braço pra junto dele e ralhou com o povo, que violência não ia resolver nada.

Quando a gente chegou diante do portão do cemitério, vi lá dentro meus bezerros. Imagine o susto! Eu não atinava como a bezerrada saiu do curral e foi parar ali. Se estavam mortos? Não, não. Vivinhos! E o Vicente estava lá também, apalermado.

Esse era o motivo da confusão toda. As primeiras pessoas que saíram à rua naquele sábado, antes ainda do sol nascer, perceberam uma movimentação estranha no cemitério, que ficava na beira da cidade pelos lados do tijuco. Sabe o que é tijuco? É onde se tira barro pra fazer tijolo. Quando foram espiar, estava lá aquele monte de bezerros esparramados por entre os túmulos.

Um escândalo! Desrespeito! Blasfêmia! O povo se indignou.

Foi juntando gente. Alguém viu o Vicente meio escondido lá dentro. Chamaram, ameaçaram, mas ele disse que não saía. Só quando o dia raiasse. Mandaram tirar os bezerros de lá. Ele disse não. E a coisa foi engrossando. O portão estava fechado a cadeado, tentaram arrombar. Chegou o padre.

A custo, padre Chico conteve os ânimos do pessoal. Também pediu para o Vicente sair, mas ele recusou de novo. E não dava explicação nenhuma. A solução foi me chamar e ver se eu dava conta de desocupar o cemitério.

Fácil, não foi. O povo queria linchar nós dois. Nem perguntei nada ao Vicente. Eu estava com pressa de sair logo. O padre pediu ao povo pra liberar a passagem. Mandei meu primo abrir o portão. Dessa vez, obedeceu. Mas não por minha causa, como atinei depois. Foi porque o sol já havia despontado. Os bezerros foram saindo, tocados pelo Vicente. Até nossas mulas estavam lá. Montei e fui seguindo debaixo de palavrão, nem agradeci ao padre, tão desacorçoado eu estava. Escorremos para fora da cidade com a enxurrada, pegamos o rumo de casa e adeus, Embu da Peste!

Pois é, saímos de lá meio fugidos. Demos uma volta e tanto por causa da ponte. Foi minha pior viagem, longa, cansativa, encharcada e com prejuízo. Mas aquilo foi tão esquisito que nem senti raiva do Vicente. Eu estava era confuso e curioso. No caminho, ele contou tudo.

Saiu à noite para ir até o casarão, como eu sabia que faria. Não havia cerração. Ele ficou espiando um tempo e, por fim, a moça apareceu de novo. Os dois se olharam. E não é que era mesmo formosa? Segundo meu primo, pelo menos. Ele ficou muito tempo olhando a moça. E ela também olhava pra ele. O Vicente queria dizer algo a ela, um gracejo, como ele sempre fazia com mulheres bonitas, mas, por algum motivo, ficou sem jeito. Aí, a cerração foi surgindo de novo e foi embaçando a paisagem em volta. Logo, já não dava mais para enxergar a janela do casarão.

Que coisa engraçada, conforme meu primo narrou. Como já não conseguia ver a moça, virou-se pra ir embora, um pouco triste, mas deu de cara com ela. Estava em pé, parada, bem na frente dele. Era mesmo bonita de doer e muito nova. Conversou com meu primo.

Ele nunca me contou direito como foi a conversa. Só sei que ela sabia do bezerro morto e mandou Vicente ter cuidado, ou mais bezerros iam morrer. Não explicou o porquê e não respondeu a muitas perguntas. Meu primo disse que ia ficar de vigia no curral, mas a moça achou pior. Ele contou que tinha uma garrucha pra se defender. Não ia adiantar nada, disse a moça. Aliás, em vez de aparecer um bezerro morto no outro dia, poderia aparecer um vaqueiro morto. Então, o que fazer? Ela mandou levar os bezerros para o cemitério, o único lugar seguro onde se podia acomodar os animais.

Achei tudo loucura. Por que Vicente deu tanta confiança a uma desconhecida? Nem ele sabia explicar. Mas fez o que a moça mandou. E ela ainda ajudou a tocar os bezerros, com tanta habilidade que nenhum deles fez barulho. Foram todos mansinhos para o cemitério. Quando estavam os bezerros, as mulas e o próprio Vicente lá dentro, a moça passou o cadeado no portão e disse pra ele não sair até nascer o sol. Depois, sumiu.

Já pensei, sim, que poderia ter sido uma brincadeira. Uma forma de pregar uma peça a um forasteiro mulherengo. Mas Vicente disse que viu e ouviu coisas durante a noite. Rondando o cemitério. Sentiu como se estivesse sitiado, que havia algo do lado de fora querendo entrar. Nunca soube explicar direito. Conforme me contou, não tirava o olho do portão, sempre com a mão na garrucha. O nevoeiro ficava cada vez mais denso, como se o diabo estivesse pitando e soprando a fumaça no cemitério. Parecia haver algo vigiando por trás daqueles rolos de neblina.

Os bezerros também pressentiam. Sobressaltavam-se de repente, davam pulos, berravam. Ora se espalhavam por entre as covas, ora se agrupavam num canto. Pisoteavam tudo e deixaram o cemitério em desarranjo. Vicente até desistiu de tentar controlar os bichos. Agachou-se atrás de uma lápide e ficou de guarda.

Imagine passar tanto medo uma noite inteira! E cercado de mortos por todos os lados, ainda que sossegadinhos em seus caixões. E mais: que proteção o cemitério oferecia contra o que estivesse lá fora? O portão estava trancado, mas o muro não era alto. Só quem viveu isso sabe como é. Só acabou quando a cidade começou a acordar, com uma lamparina acesa aqui e outra ali, fazendo cada casinha piscar um olho sonolento na escuridão. Aí, um ventinho veio varrendo a cerração, dissipou tudo e o ar voltou a ficar transparente.

Sim, Vicente bebeu muito naquele dia. Mas nunca antes tinha se comportado de forma tão esquisita. Houve mesmo uma criatura rondando o cemitério? Lobisomem? Chupa-cabra? Noiva da colina? Tatus brancos? Nunca ouviu falar dos tatus brancos? São índios vampiros, conforme o povo conta. Têm a pele branca porque vivem em cavernas e só saem à noite. É uma história que também já ouvi contar por aquelas bandas.

Você pode perguntar: e aquele esconderijo que a moça sugeriu, não estava mais para armadilha? Você acha que alma penada gosta de cemitério e eu também pensava assim. Pois o tal moço, pra quem eu contei a história, me deu uma explicação. Sabe qual? Embu da Peste era assombrada por vampiros. A tal casa do húngaro era a morada deles. Esse moço acha que os vampiros vieram da Hungria pro Brasil, talvez pra fugir de alguma perseguição.

Ah, o cemitério? Então, pensa bem, se você fosse vampiro, ia andar em cemitério? Com tanta cruz e imagem de santo em volta? Vampiro foge de cruz como o diabo foge de cruz… A frase não ficou boa, mas a ideia é essa. O cemitério era o lugar mais seguro para enfiar os bezerros, já que na igreja não ia ter jeito.

Pena é o Vicente não poder mais dar testemunho dessa história. Coitado, morreu pouco tempo depois. Ele gostava de gado, mas não queria ser vaqueiro. Achava um serviço sujo. “Sujo” de sujeira mesmo, lama, poeira, sabe? Foi trabalhar com o circo de touradas. Circo de touradas você conhece? Não existe mais? Olha, era um trem bem bobo. Nem usavam touro de verdade, só umas novilhas mansas e o peão dava pirueta por cima delas. Mesmo assim, um dia, o Vicente caiu de mau jeito e quebrou o pescoço.

Senti muita falta dele. Se não tivesse morrido, ele teria voltado a Embu da Peste de algum jeito, às escondidas. Não tirava a imagem da moça da cabeça. Dizia que não ficava satisfeito enquanto não visse um sorriso dela, pois ela não havia dado sorriso nenhum naquele dia. E se fosse vampira? Olha, se era vampira ou alma penada, não sei. Gente não devia ser.

Agora, veja. Se vampiros existem, estão por aí até hoje. Que chupa-cabra, que nada! É vampiro mesmo, importado da Europa. Não é pra se ter medo de sair de casa à noite?

Helton Lucinda Ribeiro
Helton Lucinda Ribeiro
Helton Lucinda Ribeiro é jornalista e sociólogo, servidor público, paulistano, 44 anos, casado com a Heloisa, leitor contumaz e escritor diletante, ex-jogador de RPG, estudioso do taoismo, consultor de I Ching, fã de faroestes e do Zé do Caixão, e, nas horas vagas, pesquisador na área de rádio.

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