O fim dos Teocidas

Editado por Rodrigo van Kampen

Enquanto recebia murros e pontapés, manteve-se concentrado em suas próprias percepções. O barulho do saco plástico farfalhando em volta da cabeça, mais que a dificuldade de respirar, coagiu sua atenção a escapar até a consciência de um dos agressores.

Dentro daquela mente, ele entendeu que era o inimigo. Não o mal, mas o incômodo. A geladeira vazia. O vaso entupido. O cheque especial.

Para interrogar o detento, Heitor buscou Jotapê no café da delegacia.

— E vai mais alguém? — perguntou Jotapê, enquanto retirava um pacote de chips da máquina de lanches.

— Só nós dois — respondeu Heitor. Ao notar que o uniforme do colega estava amarrotado, emendou:

— Novidades do rolo?

— Saí com ela ontem.

— Com a Verônica? Quem diria… Família de deuses, né?

— Deusinhos. Parece que têm uns 3% de uma farmacêutica, a Neartis.

— Conheço. Pô, é coisa para cacete.

— Eu sei, mas não preciso nem te pedir sigilo absoluto, né? Ainda mais agora…

— Claro, nem precisava falar. Mas quem sabe o menino não abre o bico? Aí é questão de tempo, vai cair um por um.

— Ele vai falar o quê? Não disseram que é meio retardado?

— Você tá exagerando. — Heitor riu. — É limitado, mas só informaram dislexia.

— Grande diferença. O protocolo é o quê? Delação?

— Isso. Não sei se você falou com o Arantes, mas ele disse que não vazou que a gente pegou um Teocida. Se ele não servir para nada, melhor ninguém nem ficar sabendo.


Nada vai dar certo. Ela não me quer. Nunca vai me querer.

Puta merda, esqueci de comprar o ingresso. Mas não dá para deixar o Jotapê sozinho. Ele ia acabar liberando o menino sem ouvir nada.

O detento era negro, franzino, tinha por volta de catorze anos. Vestia um casaco bege, muito maior que seu tamanho.

— Tá chovendo diabos lá fora — começou Jotapê. — Precisamos ser rápidos e objetivos aqui, ok? Seu nome é Levi, correto?

O menino olhava para baixo, pouco revelando os hematomas em seu rosto redondo.

Chuva forte. Podia pedir uma pizza e falar com a Verônica como quem não quer nada.

Porra, espancaram o menino. Se ele não for nada, que merda a gente vai ter que inventar?

— Sim. Mas me chamam de Tivite.

Quando ele ergueu timidamente a cabeça e os encarou, os policiais puderam ver seus olhos avermelhados e lacrimados.

— É contagioso? — perguntou Heitor, para entrar na conversa.

— Isso é desde criança. Que nem o meu poder. — Tivite falava devagar e para dentro, como uma criança lendo em sala de aula seu primeiro livro sem gravuras.

— Poder?

A polícia já suspeitava que dentre os Teocidas havia burlados, filhos contrarrecomendados de casais com potencializações genéticas. Misturas clinicamente reprovadas costumavam levar o feto à morte. Os raros casos que sobreviviam por mais de alguns poucos anos manifestavam alterações imprevisíveis nos fenótipos.

— Por um tempo, eu posso ser outra pessoa.

— Mudar as feições?

— Não. Eu sinto o que a pessoa sente, vejo o que ela vê. Tudo. Eu estou me vendo agora, pelos seus olhos.

— Telepatia. — Jotapê balançava a cabeça. — Filho de potencializados no cérebro? Os testes mostram que é praticamente imbecil, mas diz que consegue ler mentes. Bem, eu não acredito.

— Verônica — disse Tivite, calmo.

— O quê? Nenhum telepata consegue…

— Espera — interrompeu Heitor, intrigado. — Qual o seu papel nos Teocidas?

— Eu posso contar tudo. Eu vivi cada um deles. Se vocês protemerem que não vão machucar ninguém, eu posso contar tudo mesmo.

— Podemos gravar?

Tivite anuiu e Heitor ligou um aplicativo pelo relógio de pulso. Jotapê fechou as persianas, mais para extravasar a ansiedade do que devido a preocupações reais com confidencialidade. O menino volta e meia empacava de boca aberta, seus olhos doentios mirando o nada além das paredes — notas de debilidade que irritavam o policial.

— Agora vê se fala de uma vez.

— Tá… Depois do que aconteceu mês passado, vocês já sabem que a gente estava na Fundação Santa Alice, em Campo Limpo. Menores infratores, burlados e órfãos do bairro vão para lá. Ou melhor, iam, né?

— Você quer dizer que uma célula dos Teocidas estava lá — tentou corrigir Jotapê.

— Célula? — Tivite manteve a boca aberta de novo. Anuiu devagar com a cabeça, como se orgulhoso de haver entendido. — Não, todo mundo tava lá.

— Todos?

— Aham. Tudo começou quando a Mayara hackeou uns arquivos. Ela era inteligente. Na Fundação, todo mundo brigava o tempo todo. Menos com a Mayara. Ela conseguia coisas. O Tales dizia que não ia ter como, a Mayara conseguia. Doação de tablet, celular, até uns drones. Tudo pelo computador.

— Tales, o diretor.

— Isso, que depois virou mais ou menos o líder dos Teocidas. A Mayara contou pra gente que tinha encontrado um fundo financeiro. Que tinham várias e várias operações para disfarçar, mas que era investido por grandes acionistas individuais, e que financiava ações de terrorismo e golpes.

— O Olimpo — concluiu Heitor.

— De novo essa besteira. — Jotapê balançava a cabeça.

— Não era mais uma teoria da conpisração. A Mayara tinha o nome de cada um, inclusive alguns eram daqui de São Paulo, e publicou tudo na internet. Alguns dias depois, o pai dela apareceu com uma ordem judicial para tirar ela da Santa Alice.

Tivite pausou.

— O que foi? — perguntou Jotapê.

— Será que eu posso contar tudo mesmo? Pra mim vai ser mais fácil.

Heitor e Jotapê se entreolharam. Jotapê apertou a boca, mas anuiu.

— Olha, garoto — respondeu Heitor —, a gente não pode prometer que você não vai ser preso. Mas é sua melhor chance. Pode falar tudo o que você quiser.

— Tá. — Tivite se reacomodou na cadeira. — Eu fiquei na cabeça do Tales enquanto ele revisava os papéis. Vi a Mayara bebê, com os olhinhos puxados. A mãe dela chorando, o rosto não dava para ver, embaçado. Ela dizia que não tinha nenhuma autorização para deixar a Mayara no Santa Alice. Mas que era isso ou a rua. “A rua, então. Aqui só com decisão.”

— Eu só tive ela porque o idiota falou que ia ficar com ela.

— E você acreditou? Burrice mata mais que seu crack, sabia?

Ela de joelhos, o rosto no chão. Estava diferente, tinha os cabelos de uma tia do Tales.

— Some daqui. Eu vou dar um jeito.

Os pés babados pelos beijos dela. Depois o mesmo rosto de bebê, os olhinhos puxados de índia. E um dia que ela tava mais alta, com o rosto quase igual a quando eu conheci ela. Apareceu correndo e contou que foi ao banheiro sozinha. O Tales respondeu que tinha muita coisa para fazer. “A rua, então.”

A Mayara foi atrás dele para dizer que não queria sair da Fundação. Ele segurou o braço dela. Forte.

— É seu pai. Não posso fazer nada. Se der, visita o pessoal. Vão sentir sua falta. A Luci, principalmente.

Depois, ele me procurou.

— Tivite. Esse cara é mesmo o pai dela?

Eu não consegui descobrir. O sujeito tava muito nervoso, só pensava em sair logo com ela. O Tales fechou os olhos e soprou na minha cara.

— Só por via das dúvidas, fica na cabeça dela.

Quase todo mundo desceu para se despedir.

— Você volta, né? — a Luci só perguntou isso.

Eu fiquei na Mayara depois que ela me abraçou. Entraram no carro. Tavam quietos. Ela ficou imaginando que tava numa feira de tecnologia do lado do pai, só que depois ele sumia e ela ficava procurando ele pelos estandes. Passou um vento frio pela fresta da janela, molhava um pouco. O carro parou, o pai saiu. Apareceu um cara grande, com o rosto amassado, e abriu a porta pelo outro lado. Levantou uma pistola. Nunca senti tanto medo. Ela se arrastou para perto da janela e agarrou o banco. Duas pontadas na barriga, e aí eu saí.


Eu não lembrava mais onde eu tava. Numa sala de videoaula, com todo mundo olhando. O Ian que perguntou:

— Ela morreu, é isso?

— Aham. — Não respondi direito por causa dos soluços.

— Tivite, você consegue pular para quem matou ela? — perguntou o Tales.

— Não, eu não…

— O pai! Segue o pai dela! — gritou a Luci, de longe.

Eu segui. Tava agitado, tremendo muito e querendo ir logo para casa usar o banheiro. Eu balbuciei que ele estacionou num edifício que tinha uma arvorezinha projetada em 3D e pegou uma mala de um gordo de terno. Foi o suficiente para o Tales me chamar de volta.

— Família Caviti. O nome tá na lista.

— O site já tá fora do ar — disse a Luci. — Sumiu tudo.

Não tinha nada nos nossos computadores, telefones, em lugar nenhum. A gente tinha a lista com os nomes anotados. Talvez eles não tivessem como saber, ou talvez não se importassem de um bando de marginais ter só uma lista sem nenhuma outra informação. A gente não ia saber explicar mesmo. Mas a gente tinha a lista. A gente podia fazer alguma coisa.


— Fazer alguma coisa! — Jotapê bufava. — A gente é alertado contra essas teorias revolucionárias de merda na educação autônoma. Quando finalmente diminuíram as regulações para deixar o dinheiro fluir, vocês vêm dizendo que isso abriu espaço para, como é, “dominação direta por instituições privadas invisíveis”. E mataram três trilionários brasileiros por causa desse delírio. Têm ideia do estrago para a economia? Para a esperança dos mais pobres como vocês? Quem está por trás disso? Quem financia vocês?

— Não, não teve nada disso. Foi o Tales que decidiu. E a gente concordou.


O Ian chamou a galera dele num canto não muito afastado. De vez em quando saíam para roubar pessoas na rua. O máximo que tinha conseguido convencer o grupo foi uma vez assaltar uma lanchonete. Agora era a chance de fazer mais.

— Ela era das nossas, porra.

— Assaltar os Caviti? — O Tales se meteu na conversa, bem alto. — Tão pensando pequeno.

Todo mundo ficou quieto, sem saber se era para valer. Só o olho do Ian brilhou na mesma hora.

— Eu sou velho o suficiente para saber que o mundo sempre vai ser essa merda. — E era mesmo, o Tales nunca escondeu o monte de fios brancos no cabelo e também na barba quando deixava ela aparecer, mesmo tendo só um pouco mais de quarenta anos. — Não adianta publicar na internet, não adianta tentar salvar ninguém. O que dá para fazer aqui na Fundação é só garantir que vocês fiquem vivos. E sabe qual é a única coisa que dá para fazer com esses caras que mataram a Mayara? — Ele jogou o blazer na cadeira, pegou a lista e chacoalhou. — Garantir que eles fiquem mortos.

Começaram a perguntar sem parar.

— A gente pode comprar as armas — o Ian falou pro Tales, no meio da agitação. Entrei nele e senti o sangue correndo por dentro.

— Ótimo. Me diz quanto você precisa e eu tiro da Fundação.

Então olhou para Luci. Ela era a mais sensata, a única que talvez fosse contra.

— O que é? Se vocês forem mesmo fazer isso, eu vou junto.

Ela esfregava o braço para sentir as espinhas quando ficava nervosa. Quem mais estava ali, no dia da formação? Os menores de catorze já estavam no quarto lá em cima. A Fundação ficava num sobrado velho, sendo que no segundo andar ficavam os quartos. Além desse dos menores, que era misto, tinha outros dois para os que já tinham idade penal, o dos meninos e o das meninas. Lá embaixo com a gente, da gangue do Ian tavam a Kaká, o Glênio e o Roberto. O Fred também. Já tinha sido parceiro do Ian, mas depois passou a agir sozinho. Das outras meninas, a Luci e a Clara. A Clara seguiria o Tales no que fosse. Eu decidi seguir também, porque… Eu também gostava da Mayara, e quando senti os outros, era o que eles queriam fazer por ela, né? Ah, e a Viviane, a tesoureira, o Tales chamou na hora. Ela usava uns óculos redondos enormes. Depois que aceitou que era sério, ela falou quase gritando:

— Se eu descobrir que alguma arma foi um pouco mais barata do que vocês falarem, ah, elas não vão ser usadas primeiro nesses deuses não!


Pesquisamos onde ficava a casa dos Caviti e fomos até lá o Tales, a Luci, o Ian, o Fred, a Kaká e eu, com gorros furados cobrindo o rosto. O acesso principal era vigiado por uma guarita. Mas a gente achou uma porta de ferro lá quase do outro lado, que dava pro jardim.

A Kaká podia se esquentar. Era engraçado de ver: magrinha, descabelada, soltando fumaça pelo nariz e pela boca. Já era agitada normalmente, mas, quando ficava assim, não parava de mexer os olhos. Dependendo da roupa, podia até pegar fogo, e, se ela encostasse na gente nessa hora, queimava feio. Ela não ligou de ficar quase pelada, porque parecia um menino, sem peito nenhum. E aí esquentou a porta com as mãos até fazer dois buracos que a gente pôde usar para escalar. Também esquentou uma haste da cerca elétrica até ela soltar, e dobrou bem devagar pra gente passar por baixo. Já lá dentro, no jardim, bebeu uns dois litros d’água antes de se vestir de novo, e a pele vermelha voltou a ficar bege.

Avançamos com cuidado na direção dos fundos da casa. O Tales me apontou um segurança lá longe, fumando um cigarro eletrônico no estacionamento. Foi difícil sentir ele, mas eu consegui.

— Fala, o que ele tá pensando?

— O entea… Nada, coisas da vida.

Tava com muita dívida. Mas não contou para ninguém. Tinha que fingir para a Laura que tava tudo bem. Tava pensando em comprar outro presente pro Gabriel, só para fingir. Muito difícil o pensamento, parecia um carro tentando fugir do trânsito só que cada rua tava mais engafarrada que a outra.

— Ele vai na direção da casa. Sentar numa escadinha que tem nos fundos.

— Beleza, vem comigo que a gente cuida dele — disse o Fred, seguindo rápido na frente, o Ian logo atrás. O Fred era o melhor com as armas, mesmo tendo nascido sem um olho. — Se ele mudar de ideia, você avisa.

Ele namorava a Kaká, mas na rua mal se olhavam. Andei com ele e com o Ian até o estacionamento, e ao mesmo tempo me senti andar até sentar na escadinha.

Tinha que ser um presente caro, para não passar dúvida. A manopla do Metal Rider. Toda criança quer. Que barulho foi esse?

Eu esbarrei num carro, sorte que não tocou o alarme. Mas, dentro do segurança, eu ouvi.

— Ele levantou e tá vindo para cá.

— Você é um merda. — O Ian apertava os dentes tortos dele quando ficava irritado. — Fica parado aqui e vai avisando.

Ficamos atrás de um carro esperando ele.

Devia ser um gato. Sempre tem um barulho e sempre é um gato.

Não era. Vi o Fred apontando a arma para mim. E me vi do lado do Ian, assustado. E paralisei. Outra vez tomei um tiro. Só que na vez da Mayara eu saí antes tudo. No segurança, eu caí. Senti o cheiro do concreto e do sangue. Arrastei um pouco, o chão arranhava. E morri.


— Garoto, você quer uma água? — perguntou Jotapê.

Tivite olhou para ele com a cabeça bem inclinada, tal qual um felino desconfiado.

— Você lembra onde você tá? — insistiu Jotapê. Heitor permanecia quieto e pensativo.

— Aham. Estou na deulegacia. Água… Quero sim.

— Daqui a pouco chega — disse Jotapê, após acionar um comando no relógio. — Pode continuar.


O Ian chamou o resto do pessoal e o Tales pegou a chave com o segurança. Foi esquisito ver ele, de bruços, no chão do estacionamento. Entramos na casa. Tinham três homens na sala, um deles bem jovem. Com o barulho dos tiros, apareceram duas mulheres do segundo andar, gritando muito. Eles só tiveram que girar as armas para cima. Depois entramos em cada quarto para ver se tinha mais alguém. Dois seguranças entraram pela porta da frente, mas a Luci estava posicionada no corredor de cima justo em cima da porta. O problema foi que quando um deles caiu, acertou o Fred na perna.

— Tá tudo bem. — Ele rasgou um pedaço da calça e amarrou na coxa. — Já tomei tiros piores.

Quando tudo acabou, eu achei estranho. Ninguém gritou “pela Mayara!”, não teve muita correria, resistência. Em poucos segundos a família boiava no chão enguansentado. E não fui só eu que ficou pensando que faltou alguma coisa. A Kaká e a Luci cochichavam, mas, quando eu entrei na Luci, só pesquei o final:

— Com tê de tatu.

A Kaká arrastou um dos homens até a parede. Não entendi se ela chegou a esquentar, porque fiquei enjoado e parei de olhar. Mas ela esfregou o pulso sangrando do homem para escrever na parede o nosso nome, que a Luci inventou ali na hora. A Luci sorriu por dentro. Não pelas mortes, mas pela ideia. Chegou a acariciar as espinhas da cintura. Ali, dentro dela, eu também sorri.


— Peraí, garoto — interrompeu Jotapê. — Essa é a parte que a gente precisa entender bem.

— Foram oito mortos na residência dos Caviti. — Heitor revisava o caso em um tablet. — E você está dizendo que seis de vocês foram responsáveis por todo o massacre. Quem atirou em quem?

— Não sei direito — respondeu Tivite, de cabeça baixa. — O Ian disse depois que o Tales era horrível; que ele, a Kaká e o Fred que tinham acertado os tiros. Nos seguranças que entraram depois eu sei que foi mais a Luci, e o Fred atirou também.

Heitor deslizou a tela com desdém.

— Vamos esquecer isso agora. A gente convoca você para uma reconstituição. Então você mesmo não participou?

— Dos tiros, não. Mas eu fui o único que ajudou o Ian a roubar coisas da casa.


O Tales estava nervoso lá em baixo, gritando que a gente tinha que sair, que o Fred tava ferido. Mas o Ian tinha me mandado pegar coisas pequenas e valiosas pra gente encher as mochilas, e, depois que eu comecei, fiquei com medo de voltar atrás.

Quando a gente saiu da casa, apareceu um drone disparando. Eu corri muito, até o muro, e escapei. O Fred já não estava andando direito e tomou um tiro na barriga. Quando eles conseguiram acertar o drone, o Tales teve que levar o Fred no ombro.

Ele acabou dormindo na enfermaria, porque não podíamos levar ele para um hospital. O enfermeiro da Santa Alice brigou, mas o Tales foi bem duro. Ninguém saía dali; o enfermeiro que trouxesse os remédios e equipamentos que precisasse.

Foi uma noite estranha. Nem quis passar muito tempo na cabeça das pessoas, porque estavam mais agitadas que a minha. O Ian ficou pesquisando na internet os preços das coisas que a gente roubou. A Kaká ficou deitada, meio lembrando do que aconteceu, meio sentindo as queimaduras. Tinham alguns pedaços da pele dela que não resistiam ao calor e criavam bolhas. Às vezes via a Mayara lendo num corredor, sorrindo para ela. O Tales dormiu com a Clara. E a Luci… Não adiantou, a Luci de novo sentiu aquilo, que me faz não querer fazer nada, que me faz sentir que seria melhor não existir. No banheiro, sem camisa na frente do espelho, cortando com alicate as novas flores que nasceram das espinhas.


Lembro que uns três dias depois o Ian atravessou a Fundação com uma bolsa dessas de ginástica. Foi até a administração, onde também ficava o Tales numa saleta separada, e tacou a bolsa na frente da Viviane. Mostrou um dedo demorado para o Tales através do vidro e foi embora. Quando me encontrou, me jogou uma mochila velha.

— O meu eu já peguei, esse aqui é teu. Vê se esconde essa porra, retardado.

Na outra semana, a Viviane contou para gente que o dinheiro do Ian pagava uns seis meses das contas da Fundação.

Mas no dia que recebi a mochila, não sabia o que fazer. Escondi tudo no meu colchão, que era o de baixo do beliche, e peguei algumas notas para ir ao cinema. Sempre via as propagandas luminosas pela cidade, tinha até visto há pouco tempo uma bonita, de uns heróis espaciais, então pensei que quem tinha dinheiro podia ir lá conhecer. Só que um segurança me botou para fora na própria galeria. Não consegui nem ver o que tava passando. Talvez esse dos heróis já tivesse acabado mesmo.

No ônibus de volta, tinha um velho pregando. Decidi ficar nele todo o caminho, não sei bem por quê.

— … falam com Deus dia sim, dia não, só para pedir! E acham que vão pro céu! Ah, são tantos e tantos de vocês que vão queimar por toda a eternidade, porque não querem aceitar de verdade Jesus nos seus corações. Ele tem que ser tudo, não tem que pedir mais nada. Tem gente que acha que tem muitas coisas, muitas casas, muito orgulho, muita inteligência. Mas isso não é nada! Nada, quando o espírito tiver que encontrar seu caminho…

O medo, a vontade de agradar, a vontade de receber amor. Fiquei sentindo aquilo. Um amor acima das vontades normais, que você só recebe de volta depois de morrer. A gente sabia. No fundo a gente sabia que não ia parar.

Desde antes, no dia seguinte ao da invasão, quando vimos na televisão o nome que a Luci inventou.

— Afinal que porra é Teocidas? — perguntou o Ian. — Parece nome de velho. Podiam ter escrito logo Glênio, hahaha. — Deu um tapa na cabeça do comparsa, que tava comendo um sanduíche.

— A gente mata deuses. — A Clara sempre falava como se soubesse de tudo. — Teocidas é matadores de deuses, que nem inseticida é de inseto.

— Então nós vamos matar os outros da lista?

Todos nós olhamos pro Tales, mas ele foi embora dizendo que a gente tinha muita coisa para fazer.


Na volta desse dia que eu fiquei pensando no velho religioso, o Tales tava na recepção conversando com três caras grandes e uniformizados. Eu passei por eles distraído, mas percebi que o Tales coçou a cabeça de um jeito estranho, e olhou para mim. Resolvi visitar ele. Ouvi um dos caras falando.

— É para sua proteção. Não precisamos da sua autorização, mas se você colaborar vai ser mais fácil para todo mundo.

Ao mesmo tempo, ele conversava comigo em pensamento, repetindo:

— Tivite, some com as armas e com o Fred para bem longe. Tivite, some com…

Aí que eu entendi que tavam fazendo uma investigação. Fiquei nervoso e, na falta da Mayara para resolver essas coisas, chamei a Luci na cozinha. Ela que guiou o que tínhamos que fazer. Primeiro arrastamos o Fred da enfermaria até a sala da administração, onde o Tales guardava as armas. A Viviane chiou, mas a Luci explicou tudo e ela ajudou a esconder as armas na mesma bolsa que o Ian tinha trazido o dinheiro. Daí saímos pela janela e andamos rápido até a Igreja dos Últimos Dias, perto da estrada. Arrombamos o portão de grades, atravessamos a escada do quintal e nos escondemos dentro, do lado do altar. A Luci pegou uma pistola e guardou na bolsa dela.

— Agora a gente vai precisar se proteger. Se eu fosse você, pegava uma também.

Mas eu fiquei com medo e preferi não pegar. Acompanhei na cabeça do Tales as buscas que os homens fizeram na Fundação toda, usando máquinas de detetição de metal. Várias horas depois, eles foram embora, e esperamos ainda uma meia hora antes de voltar. O Tales nem conferiu se a gente tinha voltado com tudo. Fez um sinal com a cabeça, que era o máximo que ele conseguia agradecer, e fomos cada um para um canto.

Só no outro sábado é que nos reunimos de novo no refeitório e o Tales falou:

— Temos um novo alvo. Já comecei a planejar com o Ian. Quem mais quer participar?

Ian não era mais o líder da gangue do Santa Alice, mas tinha virado o braço direito. E a Mayara não era mais só um motivo; era o símbolo da nossa causa.


Chegou a água e pausaram até o servente sair da sala.

— O segundo atentado. — Heitor concatenou as datas. — Vocês explodiram o centro de tecnologia da Sonanjo.


Já tínhamos ganhado alguma reputação. O Tales falou que precisávamos mostrar que era sério. Fazer algo grande.

— A Sonanjo é a principal vendedora de genes do mundo. A maior parte das crianças que vimos morrer aqui foi por culpa dela. Não dá para viajar para matar o cara que tá na lista. Mas a gente pode fazer um estrago.

Ninguém disse, mas todo mundo pensou ao mesmo tempo: a Sonanjo de São Paulo que produziu os transgenes do orgulho nacional, o dono de todos os recordes de esportes de velocidade e luta: Geilson Pereira, o Metal Rider. Não que a gente morresse de amores por ele, mas era difícil ignorar o cara que aparecia em todas as propagandas, jogos, notícias, festas. Qualquer evento importante, primeiro tocava o sertanejo do pai dele, que depois virou dono de churrascaria, né? Em seguida, assim que tocava psy-Metal, a gente já sabia que ele ia aparecer na moto prateada, depois voar com aqueles propulsores espalhados na roupa metálica. Além de tudo, ele ainda ajudava justo a polícia e a Sonanjo…

A gente se dividiu em dois grupos. Ian e a gangue dele foram roubar explosivos de alguma mineradora. Na cidade mesmo não iriam conseguir, mas lá pelas bandas de Apiaí disseram que foi fácil. Em menos de uma semana voltaram com o assalto. O Roberto era o mais quieto. Doía quando ele falava, mas seu silêncio era mais por vergonha. Era filho de algum cantor potencializado — nasceu com laringite crônica e a voz que o pessoal dizia que era que nem a de uma maritaca rouca. Só que ele ficou tão empolgado com o assalto que mesmo assim foi ele que contou para gente.

— Desde que tiraram as regulações, tem áreas que as empresas de serviço viajam sem proteção nenhuma. Os caras nem reagiram, nem chamaram a polícia. Falaram que tão ganhando uma merda, que para eles que se foda.

O outro grupo na verdade era uma dupla: eu e a Clara.

No início, ela disse que não ia ajudar. Todo mundo sabia que ela namorava mais ou menos o Tales, mas nesse dia a briga deles foi feia. A Clara tinha herdado os tais feromônios da moda. Os transgenes mais criticados e também uns dos mais caros. Não é que todo mundo quisesse ela automaticamente, mas se ela lançasse alguns olhares, desse uns ombros, mostrasse um pescoço, bom, aí ficavam com vontade dela. Entendem? Ela dizia que odiava isso. Que não usava. Era linda, pele morena e olhos verdes, mas fazia questão de não usar maquiagem, de cultivar uma barriguinha. Eu sabia que era mentira, mas ficava quieto. Várias vezes ela se arrumava escondido e saía da Santa Alice para ganhar dinheiro. Uma vez eu segui ela e tinha um cara que queria levar ela para Europa. Queria dar uma casa para ela na Espanha. E ela rejeitou. Como posso explicar o que senti dentro dela… Medo de perder o universo?

A ideia era se aproximar do gerente do centro da Sonanjo, um gringo careca, queimado de sol, chamado Xeparde.

— Eu não sei se eu consigo bem passar da Clara para ele — eu falei, preocupado. — Acho que só se eu ficar muito tempo vendo ele.

Nem me ouviram, com a Clara xingando o Tales.

— Menina, escuta. — O Tales, quando queria, falava seco e cruel. — O congresso é semana que vem. Sabe-se lá quando vai ter outro. Se você não fizer isso, a gente vai ter que mandar o Tivite tentar seduzir ele. Você acha que vai dar certo?

Nessa hora a gangue do Ian já tinha saído para preparar o assalto. Ficamos só nós três e a Luci. A Luci… Bom, isso fica para depois. No final, a Clara concordou. Me puxou pelo braço para falar as regras.

— Olha, eu não sei até onde você vai precisar. Mas se você… Se você ficar na minha cabeça enquanto eu… Olha…

Eu pensei em dizer que já tinha sentido várias vezes. Achei melhor ficar calado.

Ela foi pro congresso, arrumada, e eu fiquei no meu beliche com a cortina fechada para não me distrair. Era um espaço de eventos bonito de um hotel, com comidas chiques, cafés e sucos. Num dos intervalos, ela disse que era uma estudante e queria dicas. Várias mensagens pelo celular, mas ela não quis encontrar ele naquela noite. Disse pra gente que não era assim que funcionava.

Na sexta feira ela passou no quarto dos meninos atrás de mim. Ela tava tão linda que fiquei paralisado.

— Tivite. Hoje você vai ter todo o tempo do mundo para entrar na cabeça dele. Vê se não erra.

Jantaram e depois foram para um hotel. E aí eu consegui. Meu coração se uniu ao dele que nem uma bateria. Só conseguia ver a Clara, a blusa levantando enquanto ela ajeitava o cabelo em rabo-de-cavalo; sentir o cheiro dela, a pele dela.

O time do Ian já tinha voltado com os explosivos, então a gente teve reunião com todo mundo no dia seguinte. Eu fiquei com muita vergonha quando contei que não conseguia mais voltar para o Xeparde. A Clara ficou furiosa; o Tales que me protegeu.

— Não adianta reclamar, Clara, a gente vai precisar de você de novo. Que diferença faz agora?

Ela mandou uma mensagem na nossa frente. Insinuou fantasias até que ele mesmo propôs que eles se encontrassem no centro de tecnologia, num final de semana à noite. E se desse alguma coisa errada? Ele mandou para ela uma planta básica do centro com as rotas de escape.

— Vamos juntos. — O Tales decidiu e ninguém protestou, nem a Clara.

Foi o melhor. Era muito mais fácil para mim passar para a cabeça dos seguranças e depois voltar para a Clara. O Xeparde já tinha desligado alguns sistemas. Eu fui avisando os momentos de desatenção e conseguimos entrar. Dessa vez fomos eu, o Tales, o Ian e o Glênio. O Fred tinha piorado, e a Kaká tava gripada. O Glênio entendia mais de química, então ele que abriu todas as válvulas de gás depois que instalamos os explosivos. O alarme tocou, o Xeparde e a Clara saíram pelos fundos. O Tales tava esperando eles e matou o Xeparde. Eu avisei por onde os seguranças tavam andando e saímos. Do lado de fora, o Ian acionou os detonadores. Foi isso.


— Um psicopata e quatro adolescentes. — Jotapê balançava a cabeça. — Explodiram o centro de tecnologia de doze mil metros quadrados da Sonanjo. E quem escreveu “Teocidas” a faca no peito do Sheppard? O Tales?

— A Clara.


O Glênio veio o caminho inteiro reclamando de tontura e dor de cabeça. No carro, ficou sonolento, mas o Ian o manteve acordado. Nossa preocupação era que não ia ter lugar na enfermaria para ele, com o Fred ainda se recuperando.

— Tem lugar sim — disse o enfermeiro, inflamado. — O Fred morreu.

Demoramos a entender. O Tales conversou um tempão com o enfermeiro e depois chamou a gente para fazer o enterro. Ali mesmo, na Santa Alice, naquela noite.

— João Frederico. Não sei se existe algum deus além desses que dizem que cuidam de nós porque, teoricamente, quando tem mais pão, mais sobra migalha. Muito menos uma outra vida depois dessa batalha. Você batalhou. Você tá indo mas levou alguns com você. Alguém quer falar mais alguma coisa?

Só estávamos nós, os mais velhos de sempre. O Ian e o Roberto cavaram o máximo que conseguiram nos fundos da Santa Alice, depois tacaram o corpo do Fred lá, embalado num lençol.

A Kaká não chorou. Segui a cabeça dela até o terraço, onde a gente pendurava roupa. A cabeça de cada pessoa pensa de um jeito, sabiam? É como conhecer um monte de estrangieros. Ela acendeu um cigarro com os dedos. Eram onde mais doíam as queimaduras. Ela sentia a dor, refrescava um pouco, e então acendia outro cigarro. Na cabeça, imagens, sensações. A Mayara lendo um livro, um tiro no segurança, uma risada do Fred. Se algum outro tipo de pensamento queria aparecer, ela rodava um dedo num cigarro, via a bolha anterior queimar de novo, e voltava a fumar.

Já a cabeça do Ian era toda conectada a seus braços, ou das pernas até a barriga. Pensamento, nele, era só vontade. O da Luci eram palavras. Muitas palavras, umas por cima das outras. Eu me afogava ali. E precisava, todo dia.


Na última missão, eu não fui.

— Vai ser rápido, Tivite, não precisamos de você. — O Tales já tinha explicado que o Rillemese daria uma palestra num evento político. — A gente entra, a Kaká envia uma escopeta por drone enquanto o Ian se posiciona. Eu levo a arma para ele e bam, o desgraçado cai ali mesmo, na frente da plateia. Damos mais tiros pro alto para assustar e fugimos junto com a multidão.

No final, nada saiu do jeito que eles pensaram. Mas eu só soube depois. Eu até comecei a seguir a cabeça do Tales, vi que o evento tinha sido cancelado no meio e as pessoas tavam indo embora, ele discutindo com o Ian. E aí eu me distraí e caminhei, desanimado, pelo Santa Alice.

O Glênio estava bem. Dormia. Depois do que aconteceu com o Fred, fiquei com medo de qualquer coisa. O enfermeiro não estava, então não pude perguntar. Também tinha me preocupado com a Kaká, mas ela tinha dito que tava bem se fosse só para operar o drone. No refeitório, a Clara estava esquisita. Mexia no celular com cara de nada. Entrei na cabeça dela para confirmar: ela tinha brigado com a Luci de novo. A Clara nunca sentia culpa. Ela sentia um incômodo que talvez virasse culpa, mas não deixava virar. No celular, ignorou uma mensagem do Tales e mandou uma piada para o Glênio.

Eu fiquei preocupado e sentei no sofá que ficava ali ao lado, em frente à televisão apagada, para me concentrar na Luci. Ela era uma das poucas pessoas que eu conseguia entrar com quase nenhum esforço, de tanto que já tinha ficado nela. Os pensamentos dela rodavam, rodavam como num redemoinho gigante. Não consegui mais sair.

Ela não era burra. Sabia que a depressão era controlável. Às vezes só precisava comer bastante até ter sono e dormir. E os remédios ajudavam. Com o dinheiro do assalto, talvez pudesse pedir mais. Só que o dia seguinte ia chegar de qualquer jeito…

As plantas vieram dos genes de perfume da mãe dela. Por remorso, a mãe dizia que eram lindas. Foi atropelada por um veículo autoguiado. Culpa de ninguém.

O pai dizia que ela era a menina mais inteligente que ele já conheceu. Um dia ela mostrou flores que havia cruzado na mão, formando um mosaico.

— Tira isso da minha frente! A gente fingia que gostava, mas você já tá bem grandinha para saber que é uma anomalia.

Ninguém nunca soube que ela o envenenou. Talvez só eu. Estava incontrolado com a bebida, e quando abandonou o cachorro na rua, não deu mais para aceitar.

Mayara a entendia um pouco. Chamava ela para conversar. Ria com ela.

— Você volta, né?

O último golpe foi da Clara. Namoraram dois meses e, como que por um feitiço, acabou.

— Presta atenção, você já é errada com essa coisa das plantas… Não seja lésbica, isso só vai te atrapalhar mais.

O que tinha, afinal, para se prender à vida? A inteligência? De que adiantava se não servia para receber amor? Cheguei a pensar em escrever que todas as tentativas de ter alguém que cuidasse de mim foram em vão, que a Clara foi apenas a última. Mas para que se preocupar com o que fica? Frases piegas e filosofia barata cismavam em declarar que a vida valia a pena. Mais lógico era Epicuro: “enquanto somos, a morte não existe, e quando ela passa a existir, nós deixamos de ser”. Nada fazia mais sentido que isso. Por que seguir sofrendo, se eu podia eliminar o universo todo de uma vez? Precisava aguentar apenas um segundo mais de dor, ao colocar a pistola na boca.

Eu corri. Eu subi correndo até o quarto dela, mas ao mesmo tempo não queria sair dela, e, quando eu fico muito conectado, eu fico meio confuso. Entrei errado no quarto das crianças. E apertei o gatilho.


A cabeça de Tivite caiu na mesa.

— Dá mais água para ele — disse Jotapê. Sem entender bem por quê, lacrimejava. Olhou para Heitor e o viu também limpar os olhos.


Eu já vou terminar a história, prometo. Eu sei que vocês estão mais interessados nos deuses mortos que no Fred e na Luci, é que… Bem, eu fiquei sem saber o que fazer. Chutei a porta do quarto das meninas até abrir e vi ela ali, sozinha, sem vida, caída na mesa que ficava no centro, as flores que escapavam da blusa manchadas de sangue. Corri atrás do enfermeiro, gritando. Ninguém tinha visto. Aos poucos eu fui contando para quem me encontrava que a Luci tinha tomado um tiro. Eu não tinha coragem de contar tudo. E aí eu fui até a cabeça do enfermeiro. Ele tava aqui, na deulegacia, prestando queixa.

O Tales chegou com os meninos uma hora depois, e não deu muito tempo de explicar as coisas. Eu fiquei sem coragem de falar da Luci, esperando algum dos outros chegar para contar. Parece que eles deram sorte de ver um carro blindado saindo do evento e sabiam que era o do banqueiro. Como tava tudo engarrafado, conseguiram seguir ele devagarzinho até um cinema, onde ele encontrou um amante. Esperaram ele e o rapaz no banheiro, mataram os dois mais o guarda-costas, depois deram tiros aleatórios e fugiram na confusão, que nem se tivesse sido no evento.

O Roberto que apareceu de repente e contou:

— A Luci se matou.

Eles se agitaram e o Ian me deu um tapa.

— Por que não contou? O que você tem na cabeça?

— Eu… Ah, o enfermeiro.

— O que que tem o enfermeiro?

— Ele… — Eu não gostava de contar as coisas. O enfermeiro tava muito preocupado com a mãe dele, se alguém soubesse que ele denunciou.

E não precisei falar nada. Ouvimos um barulho enorme do lado de fora.


Psy-Metal tocando de drones zunindo por todos os lados, três bombas estouraram e encheram a Fundação de fumaça. O Metal Rider.

Corremos cada um para um canto para nos proteger. Em baixo dos bancos da sala de videoaula, da mesa do refeitório, na cozinha. Eu fiquei atrás de uma máquina de refrigerante que ficava no fundo. A parede da tevê quebrou e eu vi ele, como uma tora de alumínio flutuante, soltando mais bombas de gás. Os drones musicais e filmadores seguiam.

— Sr. Tales Azevedo — a voz dele ecoava por toda parte. — Que papelão transformar uma fundação beneficente numa escola de terrorismo! Você tem o direito de se entregar imediatamente para evitar confusões desnecessárias, que tal?

Começaram a atirar nele. O problema é que ele estava com a armadura preenchendo todo o corpo, refletindo todos os tiros.

— Tales?

O Metal Rider disparou três rajadas na direção dos tiros e depois seguiu até a janela da sala da administração. Era o Ian, já ferido, que ele pegou pelo pescoço.

— Você é muito novo para ser diretor. Aliás, além de terrorista, esse Tales é um péssimo profissional, isso aqui é uma espelunca. Diga, menino — disse ele, apertando mais o pescoço do Ian —, onde está o seu chefe?

— Eu tô aqui, filho da puta.

O Tales apareceu da cozinha com uma metralhadora de mão e disparou sem parar contra o Metal Rider, em vão. Ele largou o Ian e voou em cima do Tales, empurrando ele pela barriga até se chocarem contra uma parede perto de onde eu tava.

O Tales começou a golfar sangue, quase apagou. Segurava ainda a metralhadora, mas tava muito fraco para se mexer. Foi então que o Metal Rider olhou para cima para confirmar a posição dos drones de filmagem e deslizou a máscara para mostrar o rosto.

Pude entrar nele. Sempre quis saber como pensava um super-herói. Não consigo nem explicar. No Santa Alice, eu me esforçava muito para sentir que a minha cama de baixo do Fred era minha, e de repente eu senti que o mundo era meu.

— Sabe qual é o problema com vocês? — eu disse.

E passei para a cabeça do Tales. Ele tava quase desfalecido, sem conseguir pensar. Não tava com cabeça para nada.

Mas eu tava.

Levantei a metralhadora só um pouquinho e atirei. O tiro raspou no rosto do Metal Rider, que soltou uma das mãos, gritando. Sem perder tempo, girei a metralhadora até a cara dele e descarreguei.

Gritamos para nos encontrar e fugimos. Não tinha nenhuma polícia do lado de fora, nem drones de ataque. Acho que nunca pensaram que o Metal Rider ia morrer ali.


— Bom, depois a gente se escondeu naquela Igreja mesmo, a dos Santos dos Últimos Dias, e é isso, acabou a história. A essa altura acho que vocês já entenderam, né? O que eu tive que levar anos para descobrir.

Tivite se levantou da cadeira.

— O segurança na casa do Caviti era treinado. Quem se paralisa à toa sou eu. A Luci volta e meia pensava em suicídio, mas desistia. Eu que não consegui aguentar a vida dela. É muita culpa que eu tenho, sabiam? Em cada pessoa que eu tive, eu passei um pouco da minha fraqueza.

Jotapê abriu a porta e, com Heitor, guiaram Tivite através da delegacia.

— Menos no dia do Metal Rider. Eu já tinha passado por tanta coisa… Ali eu fui mais forte. Engraçado como funciona a consciência, né? Quem diria que se compatirlhamos ela, também acompanham nosso comportamento, nossas decisões…

Por fim, Heitor abriu a porta de entrada da delegacia e acenou para Tivite, que saiu devagar. A chuva minguara bastante, permitindo que se visse o céu cinzento.

— Muito obrigado pela paciência. É porque quanto mais tempo fico com as pessoas, mais fácil é para mim. Já não sei se vamos seguir usando o nome que a Luci inventou. Acho que dá para mudar mais coisas que só matar deuses. Por agora a gente vai precisar da ajuda de vocês para pegar algumas armas e conectar com os arquivos da polícia, tá?

Felipe Cotias

Author: Felipe Cotias

Felipe Cotias é pseudônimo literário de Rodrigo Bahia, carioca desenvolvendo carreira jurídica e comercial mundo afora. Introspectivo de nascença, sempre se encantou por descobrir e produzir ficções. Já teve um conto na Trasgo (n. 14, “Saccade”) e algumas de suas outras obras publicadas podem ser encontradas em www.letraserastros.com.

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