Você vai lembrar de mim

Editado por Rodrigo van Kampen

Cacau chegou no fim da tarde, quando Sebastián Minami estava prestes a fechar o escritório que alugava mensalmente. Os dois tinham se falado por e-mail na semana anterior, e ela só havia revelado as seguintes informações a respeito de si: era uma imigrante brasileira, estava desesperada para encontrar um investigador particular, e não queria explicar seu caso sem conhecê-lo pessoalmente. Não que isso importasse. Estava prestes a tirar uma folga bem-merecida, e não havia motivo para saber mais. Ela podia — e deveria — encontrar outra pessoa para ajudá-la.

— Você conhece o Sr. Minami?

Sebastián olhou para os dois lados, tentando encontrar um secretário imaginário em seu cubículo desorganizado, e ajustou os óculos redondos ao rosto comprido.

— Eu mesmo.

— Ah — ela murmurou, tocando o vidro fosco da porta com as pontas dos dedos. — Desculpa, não foi minha intenção…

— Não importa. Todo mundo pergunta a mesma coisa. — Sebastián começou a arrumar sua escrivaninha. Ele se arrependia de não ter usado Callari, seu sobrenome paterno, o que evitaria esse tipo de confusão, já que todas as vezes que usava o sobrenome japonês de sua mãe, as pessoas faziam vários comentários desagradáveis, como: “Nossa, não dá nem para notar…” — Mas tenho más notícias para você, senhorita… Romero, certo? Sei por que você está aqui, mas eu estou saindo de férias e não vou poder atendê-la.

— Você não sabe por que estou aqui.

Correto. Ele não sabia. O que ele sabia, porém, é que sua cabeça parecia prestes a explodir, começando pela parte de trás de seu olho esquerdo, e tudo que podia fazer para tentar aliviar a dor era cobrir a região sensível com uma mão e tentar encontrar a cartela de remédios no bolso do seu blazer de lã.

— Sinta-se à vontade para me contar, então.

— Eu preciso de alguém para investigar o meu passado — Cacau falou, firme. — Eu não lembro de nada.

Sebastián colocou um comprimido cor-de-rosa entre os dentes da frente, e o engoliu sem tomar água.

— Sinto dizer, senhorita, mas memórias reprimidas estão além das minhas capacidades — Sebastián fechou o laptop e colocou dentro de uma bolsa transversal. — Por que você não tenta fazer a decodificação? Tem uma clínica aqui no prédio, se estiver interessada. Quarto andar, sala 43.

— Pela mesma razão que você não deve ter feito — Cacau apontou para a caixa azul que ele tinha escondido atrás de uma pilha de livros, enfeitada com os dizeres Dolofrix Forte, fosfato de codeína e paracetamol. — Não quero nenhum maluco que estudou três meses de neuroengenharia fuçando na minha cabeça. Pra que você precisa desses remédios?

— Um motivo válido, é verdade — Sebastián suspirou, e foi até a porta. Por ser muito mais alto que ela, teve que se curvar um pouco para manter o contato visual. — Você tem uma janta para me convencer por que eu deveria aceitar o seu caso. Mas você paga.


Gostava muito do restaurante na esquina da rua de seu escritório: era calmo, barato, com os mesmos garçons e os mesmos clientes, daquele jeito caracteristicamente porteño que o fazia se sentir em casa. Sebastián valorizava o conforto, a comida e a rotina, mas não tinha o costume de levar mulheres para lá. A clientela majoritariamente masculina era um dos motivos, é claro, mas também não era um local adequado para um encontro. Mas como esse não era o caso, pouco se importara com a escolha de estabelecimento.

Cacau olhava o tempo todo para os homens com o canto de seus olhos estreitos: o cozinheiro, os garçons, os clientes nas outras mesas. Finalmente, escolheu uma mesa perto da janela, distante de todos os outros.

— Sou todo ouvidos — disse Sebastián. O garçom deixou uma cesta de pães na mesa depois de trazer as bebidas. — Você já tem a seu favor que não é um caso extraconjugal.

— Começou quando me mudei de Porto Alegre pra cá dois anos atrás — Cacau tocou a garrafa de refrigerante de pomelo que borbulhava à sua frente, e ele pôde ver finas cicatrizes brancas cobrindo seus pulsos e dedos, criando rabiscos na pele amarelada. — O problema é que não tenho nenhuma memória dos primeiros seis meses que passei aqui. Cada vez que tento lembrar, é como se minha mente ficasse enevoada, vazia.

— Você lembra por que decidiu vir para Buenos Aires?

— Eu não lembro de absolutamente nada, Sr. Minami.

— Faculdade, talvez?

— Eu nem acabei o ensino médio.

— Quantos anos você tem?

— Vinte e três — Cacau respondeu. Ele ficou surpreso ao ver que ela não era tão jovem quanto tinha imaginado, mas ainda era jovem demais para achá-la atraente. Dez a menos que eu.

— Trabalho?

— Trabalho em casa, então não faz diferença.

— Área?

— Ilustrações.

— Família?

Ela comprimiu os lábios, como se pensasse um pouco mais a respeito do assunto.

— Não, meus pais morreram faz tempo.

Sebastián apertou os olhos cor de mel por trás dos óculos. O garçom apareceu com duas milanesas: uma de carne para ele, e uma vegetariana para ela, ambas com salada, limão e batata frita. O problema era fascinante, é verdade; ele deduzia que o rombo na memória dela tinha sido causado por alguma espécie de evento traumático, mas não tinha conhecimento psiquiátrico para saber se isso era suficiente para apagar seis meses inteiros da vida de uma pessoa.

— Olha, Srta. Romero, seu caso até que me interessa, mas…

— Espera — Cacau interrompeu, encarando a mesa cheia de trabalhadores falando alto e gargalhando do outro lado do restaurante. — Aqueles caras estão tirando fotos?

— Fotos?

Sebastián virou para trás. Pelo uniforme, era um grupo de pedreiros comendo pizza depois do expediente e tirando fotos da reunião. Nada de especial: apenas risada, conversa e muita cerveja.

— Acho que sim.

— Preciso ir — ela resmungou, ficando de pé imediatamente. Cacau jogou vários pesos na frente dele e correu em direção à porta.

— Senhorita… — Sebastián tentou dizer, mas parou ao ver a mesa. Ela tinha deixado muito mais dinheiro do que o necessário e mal havia comido. Com pressa, procurou um dos garçons, pagou a conta, e foi para o lado de fora do restaurante para tentar encontrá-la.

Cacau estava ali, sentada na calçada, parecendo uma sombra sob a luz suave dos postes. Seus olhos pretos estavam focados nos carros que iam e vinham e nas pessoas de passo rápido, mas pareciam incapazes de absorver as figuras à sua frente, fazendo-a parecer mais uma estátua do que uma pessoa viva.

Sebastián pegou um maço de cigarros doblazer e colocou um entre os lábios antes de sentar ao seu lado.

— Você fuma?

Cacau não respondeu. Suas mãos seguravam a parte de baixo de sua camiseta vermelha, torcendo o tecido entre os punhos. A fumaça do cigarro dançou com o vento, lembrando Sebastián que era frio demais nessa época do ano para ficar brincando na rua.

— O que foi que aconteceu lá dentro? — Ele colocou o dinheiro entre os braços dela, observando os pesos caindo sobre o jeans surrado do macacão de Cacau.

— Eu não gosto de fotos — disse Cacau, sua voz incapaz de transmitir qualquer tipo de sentimento. Ela virou para ele, encarando os sapatos de Sebastián ao falar. — Detetive?

— Sebastián.

— Você se importaria de me acompanhar até minha casa?

Um pedido estranho, mas Sebastián decidiu não questioná-lo. Chamou um táxi e repetiu o endereço murmurado por ela, que ficava em um prédio antigo e bonito em Caballito. Achou que a noite acabaria por ali, mas ela agarrou sua manga, e apontou para a porta com seu queixo.

— Quer entrar?

Aconteceu rápido demais. Cacau o guiou até o elevador e o beijou, Sebastián desprendeu as alças do macacão e levantou sua blusa, pressionando-a contra o espelho. Cacau sorriu e abriu sua braguilha, não parecendo em nada com a menina encolhida que tinha encontrado na rua.

— Isto é consideravelmente antiético, srta. Romero — Sebastián disse, levantando-a pela coxa e fingindo que era a primeira vez que fazia algo assim.

— Talvez eu goste de antiético — Cacau respondeu. — E você?


O sol se esgueirava pela janela da sala de estar, forçando Sebastián a abrir os olhos. Pelas cores, já era de manhã cedo: rosa, laranja e branco se misturavam no céu, lembrando-o de onde estava. Havia dormido na cama de Cacau até o meio da noite, mas acordou com uma dor de cabeça insuportável e, após andar de lá para cá por quase uma hora, acabou cochilando no sofá.

O apartamento dela era alegre e colorido, com estantes cheias de livros, almofadas de crochê, copos de plástico azuis e verdes sobre a mesinha de madeira, e quadros decorando as paredes. As pinturas eram todas de mulheres nuas, delicadas, desmembradas; vísceras emoldurando as expressões etéreas, sem sangue, suaves, como se não soubessem que eram cadáveres.

— Você quase me matou do coração — uma voz suave quebrou sua linha de pensamento. O cabelo preto e muito curto de Cacau estava bagunçado, e ela vestia apenas a camisa de Sebastián e uma calcinha preta. — Eu esqueci que a gente trepou ontem à noite.

— Não foi minha intenção te assustar.

— Tudo bem — Cacau fez um sinal para ele ir até a pequena cozinha ao lado da porta de entrada. Ela serviu suco de laranja para ele, e bebeu o que sobrava do gargalo da garrafa. — Eu não costumo deixar os caras com quem eu fico dormirem na minha casa, então foi meio estranho. Desculpa por ontem à noite, aliás. Não sei o que deu em mim.

— Vamos dizer que foi um começo incomum para uma investigação. — Sebastián sorriu de lado, esfregando os olhos. Agora eram seus ombros que doíam, causando pontadas de dor que iam do pescoço até a lombar. — Podemos começar quando você quiser.

— Se você vai me ajudar, pega uma factura — Cacau ofereceu um saco de papel pardo cheio de doces de padaria: pãezinhos de leite, bombas de creme, canhõezinhos de doce de leite, e algumas medialunas em forma de crescente.

Sebastián escolheu uma coberta de açúcar, e mordeu uma das pontas.

— Você está fugindo do assunto ou é impressão minha, senhorita?

— Se você já me viu pelada, pode me chamar de Cacau — ela respondeu, dando de ombros. — O que você vai precisar?

— Primeiramente, gostaria de ver o que você tem aqui no apartamento. Contas, passagens, diários, qualquer coisa que possa me ajudar a reconstruir a vida que você tinha dois anos atrás.

— Tudo bem, mas você vai ter que ignorar o fato de que eu sou um meio acumuladora — Cacau foi até seu quarto, e Sebastián a seguiu, levando junto o suco e as facturas. — As coisas podem ser difíceis de achar.

O quarto dela era muito parecido com a sala de estar: paredes coloridas, colcha estampada, um colchão no chão de madeira, luzinhas natalinas penduradas na cabeceira, e muitos blocos de desenho. Havia caixas de mudança que nunca foram abertas dentro do guarda-roupa, junto com roupas, material de arte, alguns bichinhos de pelúcia em uma gaveta, bonecos de plástico e milhares de outros pequenos objetos que não pareciam ter motivo de existir além de formar coleções sem sentido.

— Essas são as coisas que eu trouxe do Brasil — Cacau mostrou as três caixas. — Eu nunca abri tudo isso porque é só papel, e eu não sabia onde botar tanta tralha.

Sebastián colocou os óculos, amarrou o cabelo castanho em um rabo de cavalo baixo, e os dois sentaram de pernas cruzadas no chão.

— Quando você notou que tinha esquecido de vir para Buenos Aires?

— Alguns meses atrás, tomando banho. — Cacau lambeu a ponta dos dedos depois de comer outro doce. — Eu tava lavando o cabelo, e acabei desmaiando sem motivo aparente. Depois, quando acordei, comecei a pensar sem parar a respeito disso, e notar que não lembrava nada dos primeiros meses que passei aqui.

— Você desmaiou no chuveiro? — Sebastián ergueu as sobrancelhas já arqueadas por natureza.

— Acontece — ela falou. — Mas não é nada sério, eu nunca me machuquei.

— Pode continuar.

— Aqui diz que eu aluguei o apartamento meio ano depois de chegar — Cacau esticou seu pequeno corpo para abrir outra gaveta, e colocou os papéis na mão dele: contratos, aluguel, passaporte, o bilhete de ônibus da viagem. — O problema é que eu não sei o que eu fiz ou onde eu fiquei antes disso.

Sebastián leu os papéis rapidamente, e parou ao encontrar uma foto 3×4, que mostrava Cacau com a cabeça raspada, antes de pegar uma pilha de cadernos. Essa seria a única foto que encontraria na casa dela, incluindo em seu computador e celular. As caixas não tinham nada muito pessoal, também: várias eram blocos de desenho, com o mesmo conteúdo perturbador que tinha visto nos quadros, enquanto outros cadernos nunca tinham sido abertos.

— Você tem certeza que nunca fez uma decodificação? — Sebastián perguntou. Cacau olhou nos olhos dele por um instante, antes de focar em um ponto do chão. — Desmaios são um efeito colateral normal, especialmente quando o processo é feito em uma clínica clandestina. Também é uma consequência comum em viciados; você pode sentir uma repulsão intensa, ou mesmo desmaiar se entrar em contato com o vício.

— Acho que eu saberia se tivesse feito — Cacau franziu o cenho. — Todo mundo que faz sabe, não?

— Tem também a questão do dinheiro. Você não parece ter condições de pagar por uma decodificação — Sebastián escolheu uma bomba de creme do saco. — Não a remoção de memórias, ao menos.

— Você sabe bastante coisa sobre o assunto. Por quê?

Sebastián suspirou.

— Eu quase fiz uma.

— Para a cefaleia em salvas?

— Como você percebeu?

— Intuição. Além do mais, eu tive isso por muitos anos. Passei boa parte da minha adolescência indo pro hospital — Cacau sorriu, orgulhosa de sua dedução correta. — Seu olho cai, sua voz muda, você toma remédios pra dor o tempo todo, e você fica cobrindo constantemente seu olho com a mão — ela adicionou, fingindo que ia arrancar o próprio globo ocular com os dedos. — Eu fazia a mesma coisa.

— Você seria uma boa investigadora, mas não está completamente certa — Sebastián respondeu. — Já ouviu falar do Assassino de Ezeiza?

Os olhos gatunos de Cacau brilharam quando ele disse o nome, parecendo muito mais interessada do que quando procurava informações pessoais nos papéis antigos.

— O que estuprou e matou seis mulheres? Os corpos foram encontrados perto do aeroporto, né? Eu li sobre o caso — Cacau disse, empolgada demais para alguém que tinha lido casualmente sobre o caso. — Ele foi preso depois de sequestrar um policial.

— Sim, eu.

Você?

— Não o assassino, é claro — Sebastián deu uma risadinha. — O policial.

— Você trabalha pra polícia?

— Como você já deveria ter percebido, não. Não mais. Fui demitido depois desse incidente.

Cacau engatinhou até ficar ao lado dele, seus olhos fixos no rosto de Sebastián.

— Pelo sequestro? Isso é injusto!

— Claro que não — Sebastián respondeu, e suas têmporas começaram a latejar. — Eu fui demitido por desenvolver um gosto exagerado por morfina e por me recusar a decodificar, não por culpa dessa situação em particular.

— Ah.

— Só estou te contando isso porque você não é lá muito ortodoxa — Sebastián sacudiu uma folha com um desenho particularmente violento. — Com essa sua obsessão por serial killers e tudo mais.

— Foi aí que você começou a ter dores de cabeça?

— Por que, as suas começaram depois de alguma coisa?

— Não sei — Cacau respondeu. — Não lembro quando elas começaram.

— Bom, eu lembro. É um pouco patético, em retrospectiva — Sebastián fechou os olhos, ainda sonolento. Às vezes, mesmo quando estava feliz e produtivo, sentia como se uma mão invisível estivesse afundando as garras em seu olho esquerdo, tentando puxar o que quer que estivesse dentro dele para fora, do jeito que Cacau tinha descrito. E, então, ia embora, tão rápido quanto apareceu. — O médico disse que o estresse provavelmente causou a cefaleia em salvas e a fibromialgia, e que ambas podem ser no mínimo suavizadas com a decodificação.

Tinha tentado soar o mais casual possível, mas o nó na garganta aumentou, e a dor piorou. Eu não me importo, ele disse a si mesmo, como se fosse um mantra. Eu não me importo mais, eu posso falar sobre isso. Mas, ao contrário de Cacau, ele lembrava o que tinha causado seu estresse, e seu rosto, e seus olhos, e seu suor, e o teto do galpão no qual passou seis horas preso, e cada parte do seu corpo que doeu, e permaneceu doendo sem razão mesmo depois de tanto tempo.

— Por que você não fez, então? Não tinha dinheiro?

— Não, meu departamento estava disposto a cobrir todos os gastos. Foi um escândalo, sabe como é. — Seus dedos longos e pálidos tocaram um caderno que ainda não tinha aberto. — O lado negativo é que eles teriam acesso a todas as minhas memórias a respeito do caso, o que achei… Desagradável, por assim dizer.

— Mas…

Senhorita Cacau — ele interrompeu, cansado de falar a respeito de si, e mostrou três papéis de presente intocados, com uma embalagem de um ano atrás. — Você não é “um pouco” acumuladora. Você é totalmente.

Cacau abriu a boca para responder, mas foi interrompida por um pequeno pedaço de papel que caiu de dentro de um dos rolos que ela segurava. Sebastián segurou a tirinha diante de seu rosto: o bilhete tinha sido dobrado várias vezes e mostrava sinais do tempo, mas a letra ainda era legível, e pertencia a Cacau, sem dúvida alguma. Ali, escrito repetidamente como se ela não quisesse esquecer de algo importante, havia uma série de códigos estranhos, com leves variações: mariadagraça01, mariadagraça02, mariadagraça03…

— Quem é Maria da Graça?


— Javi, preciso de um favor seu — Sebastián começou, segurando seu último cigarro na boca enquanto olhava para a tela de seu celular. O homem do outro lado da linha grunhiu.

— De novo? É só pra isso que você me liga hoje em dia: favores, favores, favores! Daqui a pouco eu vou virar seu sócio lá na agência.

— Você sabe que não tenho muitos amigos — sorriu, tentando encontrar o isqueiro. — Vai, anota o que eu vou dizer.

— Pode falar.

— Eu preciso de qualquer informação que você tiver a respeito de uma imigrante brasileira chamada Cacau Romero da Silva.

— Quem? — Seu antigo companheiro de trabalho era a única pessoa com quem ainda falava com certa frequência, e não era incomum que o ajudasse em investigações particulares.

— Cliente.

— Cacau é nome? Parece apelido.

— Acho que significa chocolate em português, não significa? Algo assim — Sebastián respondeu.

— É a mesma história de sempre, né? Você só pede pra eu ajudar quando você transa com a cliente, seu íncubo promíscuo.

— É importante, eu juro.

— Sei — Javier suspirou, parecendo desproporcionalmente cansado. — Só isso?

— Outra coisa — Sebastián disse, e a fumaça cobriu seu rosto. — Eu também preciso encontrar uma pessoa chamada Maria da Graça.


Sebastián e Cacau estavam deitados no chão da sala de estar do apartamento dela, olhando para o teto. Os dois estavam sem camisa, e o investigador continuava tentando encontrar alguma pista sobre ela em seu celular.

— Você tem certeza que não conhece nenhuma Maria?

— Já disse que não — Cacau virou os olhos, espreguiçando-se. Havia fileiras de cicatrizes em seus braços, mãos, coxas, e uma ou outra no meio de suas pernas. — Esse é um nome bem comum, poderia ser qualquer pessoa. Por que você continua focando nisso?

— Intuição. Além do mais, aquele papel deve significar alguma coisa. Talvez fosse uma inimiga? — Sugeriu, sua palma esquerda cobrindo parte da sobrancelha e da dobra epicântica quando sua cabeça voltou a latejar. — Uma ex? Uma amiga que postou uma foto sua que você não queria em mídias sociais? Você ainda não me explicou por que não gosta de fotos.

— Eu só não gosto — Cacau suspirou, cansada da conversa. Ela subiu no peito dele, colocando o celular de lado. — A gente não pode continuar pensando nisso depois?

— Achei que você precisava que eu descobrisse o que aconteceu com suas memórias o mais rápido possível — Sebastián tentou ignorar os seios dela apoiados em sua barriga, e voltou a tocar na tela do aparelho.

— Acho que vou desistir — ela falou do nada, uma de suas mãos brincando com o zíper da calça dele. — Estou começando a achar que não tem segredo. Minha memória é ruim, só isso.

— Você está me dispensando?

— Se você estiver me comendo só porque eu tô pagando seus serviços, sim, lógico que tô — disse Cacau, voltando a deitar no chão. — Mas se você quiser continuar mesmo assim, não.

— Cacau — Sebastián tentou argumentar. — Tenho confiança que vou…

— Sabe de uma coisa? Eu inventei tudo isso — Cacau ofereceu uma réplica quase exata de um sorriso. — Desculpa. Acho que eu tava entediada.

Ela estava mentindo, e Sebastián conseguia ver em seu rosto redondo, em sua voz baixa, em seus olhos vazios. Ela não estava apenas mentindo; machucava ter que fazer isso.

— Não acredito.

— Eu minto, Sebastián — Cacau insistiu, sacudindo-o pelo braço como se ele não quisesse entender o óbvio. — Eu faço esse tipo de coisa. Todo mundo sabe disso.

— Quem é “todo mundo”?

O lábio inferior dela começou a tremer. Talvez estivessem mesmo no reino das memórias reprimidas, porque sentiu que havia tocado algo, um sentimento tão bruto e íntimo que ela não conseguiu esconder completamente, por mais que tentasse. Cacau cobriu o peito com as mãos, apesar dele não ter olhado para ela, muito menos pensando em tocá-la.

— Você não entende — Cacau parecia ainda mais frágil ao contorcer seu corpo pare que ele não pudesse vê-la. — Vou pagar pelo tempo que você perdeu com essa palhaçada, mas a investigação acabou. Não sou alguém como você, Sebástian, alguém que realmente passou por algo grave; minha memória é só ruim, não deveria nem ter te incomodado com isso…

— Eu quero continuar mais do que nunca — Sebastián disse.

— Mas não tem nada pra descobrir, não tem nada, nada, nada! — Cacau balançou a cabeça repetidamente, ficando mais agressiva conforme continuava. Os dedos dela, que antes só cobriam a pele clara, pareceram virar garras, agarrando a carne e criando linhas vermelhas em seus seios, como se quisesse arrancá-los. — Eu sinto muito por ter feito você acreditar em mim, eu sou uma idiota, idiota, eu sempre faço esse tipo de merda! Eu invento problemas só pra reclamar sobre eles depois, mas não tem nada, Sebastián!

Não foi nada, Sebastián lembrou dizer as mesmas palavras para si mesmo quando saiu do galpão. Não foi nada, você está surtando por nada.

— Você me deu provas suficientes para acreditar em você.

Cacau parou de falar, fitando uma das estantes com os olhos bem abertos. Depois disso, começou a rir.

— Que prova? Instinto não é prova, esse é o meu problema! Não tem prova nenhuma que eu sequer tenha esquecido um dia da minha vida!

Você é a prova! — Foi a vez dele de sacudi-la, segurando-a pelos ombros. — Existe um motivo para você ter esquecido, mas as provas estão escritas no seu corpo, nas suas reações, nas cicatrizes que eu vi, as que foram feitas por você, e as que não foram! Eu soube no momento que você fugiu daquele restaurante que…

— Para, para, para! Você precisa parar de deixar eu ser uma pirralha mimada, para de me tocar, para, para…! — Cacau tentou escapar dos braços dele e correr até a cozinha, mas Sebastián a pegou de novo.

— Cacau, você precisa me escutar — ele segurou sua cabeça com firmeza, forçando-a a olhar para o seu rosto. Quando fez isso, notou que havia algo debaixo de seu cabelo, um volume que não deveria existir ali.

Cacau não teve como responder. No momento que ele tocou na protuberância em seu couro cabeludo, os olhos dela ficaram brancos, e ela desmaiou.


Seu celular vibrou, e Sebastián olhou para a tela. O único motivo pelo qual ele atendeu foi porque viu o rosto de Javi debaixo de seu nome de contato, e porque precisava, mais do que nunca, acreditar que havia alguma pista a ser seguida no caso de Cacau.

— Você descobriu alguma coisa?

— Boa noite pra você também, otário — Javier respondeu.

Sebastián cruzou as pernas, sentado ao lado de uma Cacau que continuava dormindo na cama.

— Sim ou não?

— Estou encaminhando para você o que descobri a respeito da garota Romero, mas não foi muito. Só informações básicas, e algumas coisas que ela fez aqui. Nada ilegal.

— Ela decodificou?

— Hã? — Javier soou confuso. Sebastián respirou fundo antes de continuar:

— Neurodecodificação. Ela fez ou não fez?

— Não que eu saiba.

— Ok. E a Maria da Graça?

— É aí que as coisas ficam mais complicadas — disse Javier. — Pelo que entendi, é um nome bem comum no Brasil. Tem uma famosa com esse nome, e um bairro no Rio de Janeiro.

— Eu sei.

Mas conheço uns caras da polícia brasileira, e tô tentando falar com eles. Então fica atento, e presta atenção na sua caixa de mensagens.

— Obrigado — Sebastián desligou.

Olhou de novo para ela. Depois de Cacau ficar inconsciente, ele a vestiu, a levou até a cama, e verificou a parte de trás de sua cabeça. Ali, sob os fios grossos e escuros, ele encontrou três cicatrizes rudimentares com entradas para cabos, típicas de decodificação clandestina.

— Oi — Cacau murmurou, bocejando. Ela tinha olheiras marrons debaixo dos olhos, e seus lábios estavam secos.

— Você desmaiou.

— Eu sei.

— Cacau…

— Cicatriz de decodificação — ela falou, como se previsse suas próximas palavras. — Ela tem.

— Quê?

Eu. Eu tenho.

— Sim, você tem — Sebastián concordou, fazendo carinho na cabeça dela. Cacau colocou a mão sobre a sua, tentando encontrar as entradas.

— É por isso que eu desmaio. É o sistema de segurança.

— Bem, você queria uma prova concreta. Aí está ela.


Essa era a sexta clínica da qual Sebastián entrava e saía sem fazer progresso algum. Na última, suas esperanças de não ter que dirigir ou usar o metrô se esvaíram, já que uma das clínicas tinha sido a do seu prédio, e só algumas outras eram perto dali ou de sua casa, e agora tudo doía: pescoço, joelhos, costas, pulsos. Ele colocou um comprimido na boca e mastigou, sentindo o gosto horrível e amargo contaminar sua gengiva.

— Você já viu esta mulher? — Perguntou milhares de vezes, mostrando a foto 3×4 de Cacau com a cabeça raspada, pronta para fazer o procedimento. Só na oitava clínica ele obteve uma resposta positiva, desta vez vinda da secretária.

— Eu vi essa aí, vi sim — a mulher falou com voz preguiçosa. — Na faculdade.

Sebastián franziu o cenho.

— Pode me contar um pouco mais?

— Uma garota estranha. Sotaque forte — a secretária pegou a foto de sua mão, e traçou o rosto de Cacau. — Maria alguma coisa. Acho.

— Maria? — Sebastián repetiu, tentando manter a expressão neutra. A lista de nomes voltou à sua mente. — Sim, Maria. Vocês estudaram juntas?

— Não, não, eu só fiz uns bicos na biblioteca — continuou a mulher. — Ela estudava essas coisas tipo neuro, sabe? Sempre atrás dos livros de decodificação. Todo o santo dia. Começou a perguntar um bocado de coisa quando descobriu que eu trabalhava aqui. Daí um belo dia ela sumiu, e nunca mais apareceu.

— Você pode me ajudar em uma coisa?

Ela pediu uma pequena recompensação financeira por isso, como Sebastián já esperava que aconteceria. Com o cartão da mulher pôde acessar a biblioteca e ver não só os dados falsos de Cacau (Maria da Graça da Silva, 24 anos, Neuroengenharia), mas os livros que ela tinha levado para casa (O Cérebro como Software, O Cérebro como Hardware, Decodificação: Um Passo em Direção ao Transhumanismo).

Eis ali o “maluco que tinha passado três meses estudando neuroengenharia”: a própria Cacau. Sebastián empilhou os livros, e os levou ao apartamento dela, falando assim que fechou a porta:

— Eu encontrei Maria da Graça — Sebastián mostrou uma das capas. — Você.

Quê?

— Você falsificou sua identidade durante os meses que esqueceu usando o nome dela, provavelmente para se auto-decodificar — continuou, com o característico sotaque local que fazia todo o mundo falar cantado. — Ainda não tenho certeza o que as variações de nome significam, mas acho que é seguro dizer que você apagou a própria memória. A questão é: por quê?

— Sebastián — Cacau estava diante da porta, e tinha pego um dos livros, segurando-o com força contra seu peito. — Eu não sou uma cientista.

— Imagino que você tenha passado um bom tempo estudando. Talvez tenha começado no Brasil. Lembra do que você me disse quando nos conhecemos? Que você não queria alguém mexendo na sua cabeça? Pois então. Você decidiu que faria o trabalho você mesma.

— Mas isso é seguro?

— Me diga você.

— Não faço a menor ideia do que você está falando.

— Nós estamos chegando lá, Cacau! — O tom de Sebastián, antes calmo, começou a ficar nervoso. — Essa é a resposta que você estava procurando! Você apagou as próprias memórias, mas para lembrar delas de novo…

Cacau se apoiou na parede, como se seu corpo não pudesse mais suportar o próprio peso.

— Eu preciso fazer outra decodificação.

Sebastián suavizou sua expressão quando olhou para o rosto dela, tão triste e perdido, e sorriu com firmeza.

— Sim. E eu estarei lá com você, se quiser.


Cacau fechou os olhos, sentada em uma cadeira odontológica enquanto esperava o procedimento começar. A salinha era pequena, limpa perto do corredor imundo pelo qual tinham passado até chegar lá, com fios percorrendo parte do chão como finas cobras pretas. Sebastián estava sentado ao lado, observando o cirurgião conectar dois cabos grossos à nuca dela. Não sabia o que esperar daquilo; quase estivera na mesma situação, mas nunca tinha visto uma decodificação ao vivo.

— Estou pronta — Cacau respirou fundo, e ele tocou o ombro dela por cima da blusa listrada que estava vestindo.

— Vai ser rápido, já que ela já tem as entradas — o médico comentou, seus olhos focando apenas na tela diante deles. — A cabeça dela já tá preparada, então não precisa de cirurgia. O que é bom pra vocês, porque deixa o procedimento inteiro bem mais barato.

— Só isso? — Sebastián perguntou, preocupado. Ao contrário do que tinha imaginado, a tela não mostrava imagem alguma. Na verdade, era como um computador antigo, com fundo escuro e letras verdes, apresentando páginas com pastas e códigos que não compreendia. — A mente dela?

O outro homem deu uma risadinha.

— De certa forma, é — ele digitou números e palavras, mas não pareceu ir a lugar nenhum. — Vocês tem certeza da data dos arquivos deletados?

— Memórias — Sebastián corrigiu. — Mas sim, temos.

— Não tem nada aqui — rebateu o médico, digitando depressa em um teclado que cobria toda a mesa. — Não é que ela fez o serviço completo? Deixa eu só tentar mais uma coisinha.

Sebastián assistiu em silêncio, até uma longa lista de nomes começar a aparecer: mariadagraca01.dec, mariadagraca02.dec, mariadagraca03.dec…

— Esses! — Ele apontou para os nomes, sentindo seu coração bater mais rápido. — São esses os arquivos.

— Vou tentar restaurar tudo, então.

Cacau apertou a mão de Sebastián, não deixando ele se afastar em nenhum momento. Na tela, o primeiro arquivo começou a carregar, e o corpo dela convulsionou de leve, como se tivesse levado um choque elétrico.

— NÃO! — Cacau gritou, contorcendo-se na cadeira. — Não, não, cancela isso, não, não, não!

Ela tentou alcançar os cabos atrás de sua cabeça, mas os dois homens pularam para impedi-la.

— Não deixa ela fazer isso! — O médico avisou, visivelmente irritado. — Se puxar agora, ela pode ficar com dano cerebral permanente, e eu não quero ser preso!

Sebastián se agachou ao lado dela, e abraçou Cacau com seus braços.

— Cacau — sussurrou. — Você precisa ficar calma.

— Se ele não parar agora mesmo — Cacau avisou, com os olhos desfocados e a voz firme. — Eu vou puxar os cabos.

— Você escolheu fazer isso, lembra?

— Eu lembrei agora o que o nome significa — ela levou os dedos ao cabelo, segurando as mechas curtas para puxá-las. — Sei que falei que queria saber… E eu quero, eu ainda quero, mas não assim, não tudo ao mesmo tempo, não aqui…

Sebastián virou-se para o médico.

— Você pode parar, por favor? Ela não vai aguentar.

— O arquivo pode ficar corrompido se eu parar agora. Não sei se…

Nenhuma das explicações conseguia alcançar Cacau, que continuava imóvel, seus olhos perdidos em algum lugar distante que Sebastián desconfiava não ser nem a clínica, nem Buenos Aires. Aos poucos, o processo de restauração de arquivo foi cancelado, e os cabos foram removidos de sua cabeça. Cacau continuou sem se mexer por alguns segundos, as mãos escondidas entre as coxas. Os dois permaneceram em silêncio na rua e no metrô enquanto voltavam para a casa dela, até entrarem no elevador, e ela decidir falar:

— Eu nunca mais quero fazer isso. — Os dedos de Cacau mexeram na parte de baixo da camisa preta dele. — Não é o jeito certo.

— Quer conversar sobre o que aconteceu?

— Não — Cacau o puxou para perto pela roupa, apertando a bochecha contra seu peito e usando uma das mãos livres para abrir a calça dele. — Não quero falar sobre mais nada.


Alguém estava batendo na porta. Sebastián não queria levantar, mas forçou seus membros doloridos a irem até a entrada para olhar pelo olho mágico. A pessoa no corredor não era a que ele queria ver, mas sim Javier, assobiando e olhando para a parede. Sebastián destrancou a porta, ainda vestindo as mesmas roupas do dia anterior.

— O que você quer?

— Sabe, eu nem deveria continuar sendo seu amigo — Javier reclamou, batendo no rosto dele com uma pilha de papéis grampeados. — Você fala como se não estivesse te fazendo um favor.

— Desculpa. Não estou muito bem.

Não estava mesmo. Cacau tinha parado de falar com ele depois da última vez que transaram, e não respondeu nenhuma de suas mensagens. Na maior parte do tempo, não teria se importado com isso; passou anos dizendo a si mesmo que sexo casual era melhor do que relacionamentos estáveis, mas acabar com o que eles tinham, seja lá o que fosse, deixou um gosto amargo em sua boca.

— Talvez isso te deixe mais feliz — Javier disse, mas depois fez uma expressão estranha. — Ou não. Na verdade, não é uma leitura muito agradável.

— Do que você tá falando?

— Da Maria da Graça, é claro! — Javier sentou numa poltrona, e ofereceu um cigarro. — Eu encontrei ela.

Encontrou? Como assim?

Javier piscou várias vezes, como se Sebastián não estivesse falando espanhol. O segundo suspirou, e sentou perto dele.

— Escuta. Eu não estou mais trabalhando com ela. Ela me deu um pé na bunda.

— A Maria?

— Não, a Cacau — Sebastián grunhiu, tentando encontrar seu remédio. — Elas são a mesma pessoa.

— Ah, então você já sabe — Javier exclamou. — Você deve estar se sentindo horrível. Quer dizer, eu falei pra você! Não é uma boa ideia se envolver com clientes.

— Estou, sim, me sentindo um merda, obrigado por notar.

— Então você não vai ler isso — Javier escondeu os documentos, cobrindo a folha com o próprio casaco. — É deprimente, sério. E gráfico. Graças a deus que não trabalho com esse tipo de coisa. Acho que eu me mataria.

Sebastián estreitou os olhos, e puxou os arquivos da mão dele. Javi tentou pegá-los de volta, mas Sebastián era consideravelmente maior que ele, e não tinha vergonha de agir feito criança.

— Cara, é sério. Não é hora pra você ler isso aí.

— Obrigado por sua ajuda! — Sebastián disse com voz de atendente, e o guiou até a entrada, ignorando as reclamações de Javier. — Chispa daqui.

Sebastián trancou a porta e abriu o documento com pressa. Ele precisava ver, precisava descobrir e dar a ela as respostas que merecia, e que poderia até já saber, a essa altura. Uma parte dele — ou várias, ele por inteiro — estava desesperada para compreender Cacau, e tremia com medo e expectativa ao ler.

Mas determinação não o preparou para o sentimento de náusea alastrando-se por sua garganta quando ele leu o título do relatório. O texto descrevia uma operação policial de grande porte feita onze anos atrás, focada em desmantelar uma rede de pornografia infantil no sul do Brasil. Eles tinham conseguido prender sete adultos envolvidos na produção e distribuição de milhares de vídeos e imagens de crianças de 1 a 11 anos de idade por duas décadas.

Sebastián sentiu como se seu corpo estivesse se desmanchando aos poucos conforme lia, centímetro por centímetro, fio de cabelo por fio de cabelo. “Algumas das crianças entrevistadas…” dizia uma parte, “3 a 9 na escala COPINE”, continuava a outra. Essa não é a prova que eu queria dar, pensou, e o buraco em seu peito só aumentou. Uma das crianças mais velhas, cujo verdadeiro nome era C. R. S., era chamada de “Maria da Graça” no material apreendido, e tinha sido deixada aos cuidados da avó depois de seu pai ser preso na operação…

Sebastián engoliu dois comprimidos de codeína, e respirou fundo. Eu preciso falar com ela.

— Cacau — ele digitou. — Tenho alguns documentos que são do seu interesse.


Sebastián encarou o teto, deitado no sofá. A dor não estava tão ruim quanto antes, mas tinha que descansar algumas vezes por dia, ou não conseguiria continuar trabalhando. A cliente, a Sra. Mendoza, queria que descobrisse se seu marido a traia ou não, assim como muitas outras mulheres no mundo. Já tinha se acostumado com esse tipo de serviço, mas precisava ficar assim por alguns minutos, agora que seu tratamento envolvia medicação apropriada, exercícios e descanso, não abuso de opioides, como teria preferido.

— A gente podia comer algo antes de começar — sugeriu Cacau, sentada em sua cadeira. Ela desenhava em um caderno sem pauta, e seu cabelo, que estava ligeiramente mais comprido, estava preso com presilhas de várias cores. — Algo doce.

— Você é viciada em açúcar, senhorita Romero — rebateu Sebastián, escondendo um sorriso. — Mas sim. Nós podemos.

Cacau riu, ainda focada no esboço de um corpo feminino mutilado e sem rosto. Às vezes, nem mesmo ele conseguia acreditar que as coisas tinham acabado assim. Entregara os relatórios policiais a ela um ano atrás, sem esperar que os dois jamais fossem se falar novamente. Cacau leu tudo sozinha, e passou semanas sem dizer nada, até que finalmente pediu que a encontrasse em sua casa.

É estranho, Cacau tinha dito, e ele se sentiu de volta ao momento que entrara em casa pela primeira vez depois do galpão. Não sinto como se fosse eu.

— Tô morta de curiosidade pra saber se o cara tá traindo ela ou não — Cacau fechou o caderno, e se levantou para massagear os braços de Sebastián. — Quer dizer, que filho da puta.

— Acho que ele está. — Sebastián sentou com sua ajuda, e colocou os óculos de volta. — A maior parte deles estão.

Eu quero lembrar, Cacau tinha dito, e ele insistiu que ela lembraria, algum dia. Eu quero sentir como se minhas memórias não pertencessem a outra pessoa.

— Intuição?

— Intuição.

Sebastián sorriu para ela, e beijou o topo de sua cabeça.

— Vamos lá, então. Estou morrendo de fome.

H. Pueyo

Author: H. Pueyo

H. Pueyo (@hachepueyo no Twitter) é uma autora argentino-brasileira com foco em ficção especulativa e roteiros para quadrinhos, além de traduzir nas horas vagas. Não é muito de falar, mas seus contos já apareceram na Trasgo, Mafagafo e na antologia Mitografias, e podem ser lidos em inglês em diferentes revistas estrangeiras.

1 thought on “Você vai lembrar de mim

  1. A investigação aguça a curiosidade. As reações dos personagens são o ponto forte desse conto. Infelizmente a reação final passou batida, mas não prejudicou a obra. Deslumbrante!

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