Entrevista: Zé Wellington

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foto_ze_wellington_ Zé Wellington é músico, escritor e roteirista de Sobral, no Ceará. Nos quadrinhos, foi indicado ao Troféu HQMIX 2010 por Interludio. Em 2014 lançou a graphic novel “Quem Matou João Ninguém?” pela Editora Draco. Tem ainda participado de diversas coletâneas e revistas especializadas em literatura fantástica. É colunista e podcaster do site Iradex.

“Tantruss, dadograme e barbatanas” é um conto em duas camadas. De um lado, um psicólogo aspirante a escritor frustrado, de outro, um detetive um pouco decadente. Qual o paralelo entre as duas figuras?

O paralelo principal entre as duas linhas do conto é a frustração de não se realizar como pessoa. Ambos os personagens buscam encontrar seu espaço no mundo e tem que lidar com as expectativas das outras pessoas e suas próprias expectativas.

Como foi o processo de escrever este conto? Como é o seu processo criativo?

Meu processo criativo é muito simples: definir em algumas sentenças o que será a história inteira e, em seguida, ampliar estas frases, transformando em parágrafos (ou páginas, no caso de uma narrativa maior). Este conto nasceu especificamente das histórias que minha esposa me contava sobre seus atendimentos psicológicos. Uma, bem específica, falava de uma paciente que contava em detalhes sua relação com um príncipe fantasma que lhe visitava esporadicamente. Ouvindo esta história eu pensei: “não seria legal se isso fosse real?”. E tudo começou daí. Outros elementos foram acrescentados, como a do fã de ficção científica e fantasia e escritor frustrado, que parecia ser a única pessoa capaz de pensar que aquilo poderia ser real. Este tipo de personagem já foi pensado vendo a minha história e a de milhares de outras pessoas que se aventuram na literatura.

Há um detalhe interessante no conto, a “Revista Scarnio”. Existem planos para criá-la e concorrer com a Trasgo? Como você enxerga as revistas de contos no Brasil?

Para criar uma revista eu precisaria agora de uma contraparte em outro universo, como o personagem Octavio… O Zé Wellington deste universo já não quase não dá conta de escrever, de ser administrador no horário comercial e ainda de dar atenção necessária para uma esposa, uma filha e seis gatos. No conto, a Scarnio é uma versão alternativa da Scarium, do Smonium, da Black Rocket, da Trasgo e de tantas outras revistas que dão uma oportunidade para escritores iniciantes. Acho que estas publicações, juntas com as pequenas editoras, têm um papel muito importante na construção do mercado de literatura (fantástica ou não) no Brasil. Quem começa precisa de espaço e é difícil uma grande editora ou qualquer veículo da grande mídia emprestar seu espaço para a primeira vez de alguém. E sem o iniciante não há o profissional.

Quais são suas principais referências e escritores favoritos?

Eu sou egresso dos quadrinhos. Sempre li literatura, mas quando comecei a contar histórias eu escolhi as HQs como mídia principal. Sendo assim as minhas maiores influências vêm de lá: Alan Moore, Neil Gaiman, Garth Ennis, Will Eisner, Marcelo Quintanilha e muitos outros. Na literatura meus escritores favoritos são o Rubem Fonseca, o Machado de Assis e o Stephen King.

Além de escritor, você também é roteirista, com a HQ “Quem Matou João Ninguém?” lançada pela Draco no ano passado. Qual a diferença ao escrever para as duas mídias?

A princípio, na concepção da história, são processos até bem parecidos. Mas na hora de desenvolver a história na literatura você tem um controle maior e mais facilidades com relação a tempo e espaço. Numa página você consegue facilmente concentrar, por exemplo, cinquenta anos de história com algum nível de detalhismo. Nos quadrinhos a história é outra. Há um exercício constante de narrativa, de escolher o principal destes cinquenta anos para representar em cinco ou seis quadros. Ao mesmo tempo eu sou apaixonado pela ideia de cocriar, de trabalhar com outras pessoas. Você envia um roteiro e sempre é surpreendido pela forma como o desenhista interpretou aquilo. Se o parceiro for bom há sempre uma grande chance de ele transformar seu texto em algo ainda melhor.

Em que tem trabalhado, ou para sair? Pode nos adiantar algo?

Ainda nesse semestre lanço também pela Editora Draco a graphic novel “Steampunk Ladies: Vingança a Vapor”. É uma aventura retrofuturista com duas protagonistas mulheres. Também é minha carta de amor ao gênero western. Para o segundo semestre estou correndo com um projeto provisoriamente chamado de “Soccerland”, que serão quatro contos em quadrinhos sobre tolerância escritos em parceria com o roteirista PJ Brandão. As histórias se passam numa sociedade medieval distópica que resolve seus problemas através de uma batalha sangrenta que lembra muito o nosso futebol. Além disso, estou escrevendo meu primeiro livro, que mistura fantasia e ficção científica, e um livro-jogo nos moldes das clássicas “aventuras-solo”. Gostaria muito de lançar um desses dois ainda este ano.

Quais os links para quem quer saber mais sobre você e suas obras?

Para conhecer meu trabalho basta acessar zewellington.com ou ainda iradex.net, este último o lugar onde disperso meus sentimentos com relação à cultura pop em geral.

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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