Tantruss, dadograme e barbatanas

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Na caixa empoeirada de correio de Francis uma correspondência brilhava, única e imponente, com as pontas levemente amassadas. O desleixo com a caixa de cartas era natural, nesse mundo onde o cheiro do papel perdia espaço para a luz do monitor. Francis rasgou violentamente o pacote. Até o mês passado sua ansiedade com a revista Scarnio era com relação a ler o que havia de melhor em literatura fantástica. Mas esse mês o motivo era mais que especial: o periódico havia aberto seu espaço para novos autores. Francis tinha enviado um texto e queria ser um desses escolhidos, tentando aproveitar uma oportunidade única de iniciar sua carreira como escritor em uma das publicações mais respeitadas do gênero.

Antes de folhear a revista Francis entrou em casa com passos apressados. Não era só a ansiedade que lhe fazia querer chegar rapidamente ao seu quarto: temia o encontro com o monstro mitológico que aterrorizava aquele território nada mágico.

— O que você está escondendo aí, Francis? — Murmurou o pai do jovem, do outro lado da sala, sem tirar os olhos do jornal que lia.

— Um livro novo pai, sobre a vida do Freud… — Falou timidamente.

— Você deveria estar estudando, Francis. Já viu quantos concursos têm aberto?

— Já entendi, pai… — Disse o rapaz em tom irônico, sem olhar nos olhos do pai e seguindo sua caminhada para o quarto sem a mesma empolgação de antes.

— Não, você não entendeu. Se tivesse entendido não estaria com mais uma merda dessas debaixo do braço…

Francis não esperou seu pai terminar de falar e se trancafiou no quarto. Antes de conferir a revista pela primeira vez, baixou a cabeça e respirou profundamente. Pensava nos caminhos que havia seguido até ali. Pensava mais ainda nos caminhos que gostaria de ter seguido. O jovem olhou para a capa da Scarnio, que tinha uma bela guerreira medieval ilustrada em aquarela, e tomou fôlego para folheá-la. Seus olhos buscavam quase desesperadamente por um nome. Seu próprio nome. Sua tensão aumentava conforme o final da publicação chegava e nada de um Francis ou outro nome iniciado por um F., afinal eles poderiam ter abreviado, ou ainda usado outro sobrenome… Ao chegar à última página, Francis resolveu fazer o mesmo percurso de trás para frente. Tinha que estar ali. A partir dali as coisas poderiam mudar.

Mas nada.

Agora, Francis tinha de voltar ao trabalho, mesmo sofrendo com o sentimento de batalha perdida, como se o coração estivesse atravessado por uma centena de lanças orcs.

Francis atendia numa clínica pequena fora do centro da cidade. Na profissão de psicólogo tinha se habituado a passar boa parte do dia ouvindo mães se queixando de filhos hiperativos ou jovens adolescentes depressivas. Ele realmente gostava da psicologia, das nuances da mente, dos mistérios das atitudes humanas, mas sua vida precisava de um algo mais. Talvez uma cruzada épica por um artefato mágico. Se não isso, pelo menos, uma modesta carreira como escritor.

— Dr. Francis? — A recepcionista da clínica invadia a sala do jovem psicólogo. — Temos apenas um paciente hoje… Ele já está lhe esperando.

— Um paciente, Sherazade? Já não tínhamos combinado que quando tivéssemos apenas uma pessoa você desmarcaria? Moro longe para vir aqui e fazer apenas cinquenta minutos de atendimento…

— Desculpa, doutor. Eu não sei o que deu na minha cabeça de ter esquecido isso! A gente fica nessa clínica e parece às vezes que alguém rouba nossos pensamentos — disse a atendente, enquanto Francis imaginou que já tinha visto isso em algum filme.

Já que estava ali, o psicólogo resolveu atender. Quando a porta se abriu, um homem gordo, suando bicas, entrou no consultório, amparado por uma bela mulher, que tinha dificuldade em segurá-lo. O sujeito parecia nervoso quando sentou-se à cadeira.

— Bom dia, seu… Octavio, não é isso? Como estão as coisas?

Depois de um breve período de silêncio e de analisar toda a sala, o paciente encarou Francis com um olhar desesperador.

— Pelo amor de Deus, doutor, me ajude. Preciso voltar para o meu mundo!


Depois de perder pela quinta vez de Tantruss no dadograme, pensei que era hora de arrumar as coisas da mesa e partir para resolver meu novo caso. Cocei as barbatanas da minha nuca. Achava aquilo tudo uma grande bobagem.

Aquele caso do manicômio?

É isso aí, Tantruss. Não foi pra isso que eu me dediquei para entrar na academia, mas trabalho é trabalho.

Revirei a pilha de papéis na mesa. Várias fichas. Todas com nomes de pessoas que enlouqueceram nos últimos dois dias. Pelo menos uma dúzia. Despedi-me de Tantruss e segui em direção ao estacionamento. Percebi marcas de ferrugem cada vez maiores no meu aquaveículo. Era certo que as águas do Oceano Bônico andavam mais turvas do que antes. Bons tempos quando cruzávamos os céus em dragões.

Depois de deixar os engarrafados rios Tito e Aqueronte, aproximo-me da Casa de Saúde Mental de Omini. Recebido pelo responsável, percebo um alto nível de aflição no ar. Os dias não devem estar sendo fáceis.

Fico feliz com sua chegada, detetive! Temos pelo menos mais três casos!

Não é uma notícia que me deixa feliz, doutor.

Cruzando o vão principal da Casa de Saúde, encontro uma sala reservada com cerca de quinze indivíduos, todos circundando o ambiente como mongolóides. Como era comum entre os quissarguianos quando ficavam fora de si, as peles dos doentes estavam exibindo um preocupante tom roxo.

Eles simplesmente se transformam em zumbis, policial. Não respondem a estímulos físicos, não falam nada, nem piscam nenhum dos três olhos. Agradeço ao santíssimo rei por termos um mago à disposição… Só um encanto de calmaria mantém os pacientes aqui dentro… Espero que o senhor possa nos ajudar também.

Entenda, doutor, só estou aqui por procedimento padrão. Isso deveria ser um caso do responsável pela saúde na cid–

Fui interrompido por um dos doentes que andava em minha direção. Se eu não tivesse saído da rota dele em duas passadas esbarraria em mim como se ninguém estivesse ali.

Alguma similaridade mais entre os casos, doutor?

Nada. A não ser que alguns deles já haviam freqüentado essa Casa de Saúde alegando problemas depressivos… Temos ex-viciados em drogas tecnomágicas… Outros já haviam tentado suicídio, não encontravam mais sentido na vida… Mas daí a entrar neste estado de embotamento afetivo coletivamente… Isso não consta em nenhum manual psiquiátrico!

Em que grande loucura me meteram. Eu definitivamente não era a pessoa certa para esse caso.

Tenho de ir. Mantenha-me informado, doutor.

Caminhava devagar até a recepção, quando percebi uma enfermeira que se aproximava com mais um paciente catatônico. Notei um pedaço de papel rosa escapando pelo bolso do velho senhor, quase caindo. Catei-o furtivamente e li as palavras em letras garrafais escritas na pequena folha: “PROBLEMAS COM O MUNDO? CANSADO DA ROTINA? PROCURANDO UM NOVO SENTIDO PARA VIVER? VENHA EXPERIMENTAR UMA NOVA VIDA COM O DR. HAUSER”. O canto do papel mostrava um endereço circulado. O paralelo com os sintomas descritos pelo desesperado médico foi imediato. Meu instinto dizia que precisava visitar aquele endereço. “Esse pode ser um caso bem diferente, Octavio”, pensei comigo mesmo.


Francis despertou perplexo do fim daquele testemunho. Barbatanas? Oceano Bônico? Quissarguianos?

— O que o senhor quer dizer com isso, Seu Octavio?

— Eu estou no lugar errado… Preciso sair daqui, voltar a Omini…

— E onde ficaria… Omini? É esse o nome?

— No sistema Briaeros, às margens do oceano Bônico, nos limites do continente conhecido como o Reino… Mas isso não vem ao caso. Vou enlouquecer se continuar aqui…

— Você acha que vai enlouquecer? — Francis não pôde evitar uma leve risada — Nosso tempo acabou por hoje, Octavio.

— Como assim? Ainda tenho o que contar…

— Que tal na próxima semana?

— Você não entende, doutor… Preciso da sua ajuda. — Octavio foi interrompido pela mulher, que Francis sabia agora se tratar da esposa do paciente, que já entrava na sala.

“Quem escreveria um devaneio desse naipe? Phillip K. Dick?”, pensava o jovem já a caminho de casa. Ao se aproximar do seu lar, ele percebeu uma bela moça à calçada. À sua espera já havia quase vinte minutos, Rose se preparava para entrar no seu carro e seguir viagem de volta.

— Quer me matar de fome? Sabe há quanto tempo estou plantada aqui?

— Desculpa, Rose. Tive um caso bem atípico hoje.

Como sempre, Francis detalhou aquele atendimento a sua confidente. Rose ria exageradamente em certos momentos da narração.

— E o que mais? O que ele fez quando viu o endereço no papel? — Perguntava Rose empolgada.

— O atendimento acabou. Ele não conseguiu contar a história inteira.

— Ah, fala sério, Francis! Agora que estava ficando interessante… Fica parecendo àquelas séries que a gente tem que esperar uma semana para saber o que acontece!

— Pensando por esse lado, foi um bom fim de capítulo. Mas que tal irmos comer aquele angusburguer agora? — Disse o jovem com um sorriso.

No caminho de volta da lanchonete, Francis pensou naquela história mais uma vez. Rose não parava de tocar naquele assunto. Seria mesmo tão interessante a história de seu paciente? “Isso podia ser um grande conto ou coisa assim”, disse Rose em certo momento. Ao entrar no seu quarto, Francis enfrentou seu computador. Sabia que não conseguiria dormir enquanto não escrevesse algo. Encarando o ponteiro piscante e a imensidão branca do processador de texto, Francis escreveu três palavras: Tantruss, dadograme e barbatanas.


Caminhando pelos becos escuros de Eregion, eu sentia um frio correr pela espinha. Belo local para se ter um negócio suspeito. Se fosse reconhecido como homem da lei podia provocar a ira das dezenas de marginais que freqüentavam àquela região: traficantes de drogas, magos mal-intencionados e vampiros famintos. Por esse motivo tive de deixar insígnia e arma no escritório. Era apenas uma visita de reconhecimento. Afinal, tudo podia ser uma grande coincidência, e eu rezaria para que meus colegas de academia não soubessem que andava freqüentando o “consultório” de um curandeiro aproveitador.

A sala do Dr. Hauser não foi difícil de achar: estava identificada com um grande luminoso no fim de um beco sem saída do bairro. A porta estava aberta. Ao trespassá-la, percebi um ambiente à meia-luz com um forte cheiro amargo, semelhante a ramos de glimmung. Eu tinha dúvidas se seria atendido, pois não havia marcado hora. Fui surpreendido por uma suave mão em meu ombro.

Como posso lhe ajudar, meu caro senhor? — Era uma voz assustadora, mas também tranquilizante, a qual nunca mais esqueceria.

Eu… tenho tido problemas… em casa — gaguejei — o trabalho também está me consumindo. Preciso de um novo rumo. Uma nova vida.

Ora, meu caro. Eu diria que você vai ao lugar certo.

Você quis dizer “veio ao lugar certo”, não?

Claro, por que não? — Apesar da aparente calma, o olhar de Hauser parecia tão doido quanto o daqueles da Casa de Saúde que eu estava investigando. — Queira ir até a próxima sala, por gentileza.

Quando avancei à sala seguinte me deparei com um sem fim de bugigangas espalhadas pelo ambiente. Eram fotos embaçadas de criaturas estranhas, seres peludos e esbranquiçados, além de aparelhos que até aquele momento eu nunca tinha visto. Um deles me chamou a atenção em especial: uma espécie de óculos, mas com apenas duas lentes para os olhos. “Quem usaria aquela coisa? Um pirata com o olho do meio de vidro?”, pensei.

Sente-se, por favor, senhor…

Clarke.

Senhor Clarke. Como posso ajudá-lo?

Como já disse, o trabalho tem sido estressante. Minha esposa não colabora. Não existe mais sentimento entre nós. Meus filhos só têm olhos para tranqueiras modernas e mundos virtuais. Sinto-me solitário. Não agüento mais as pessoas desse lugar. Estive pensando até em me matar — Fiquei surpreso como minha capacidade de improvisar aquela história tão rapidamente.

Já pensou em procurar um médico? Ou mesmo drogas… Algumas delas ajudam a esquecer os problemas. Conheço alguém no bairro de Rama que domina misturas com ervas — Percebi que de alguma forma Hauser estava me evitando.

É isso que você faz, doutor Hauser? Encaminha para vendedores de drogas? É assim que vai curar meu problema?

Gosto de oferecer alternativas mais… suaves… antes de aplicar o meu método. Depois dele não há volta, meu caro oficial.

Oficial? Como assim?

A quem você pensa que engana com esse nome falso? Nasci nesse bairro. Cheiramos gente da sua raça a quilômetros.

Estou aqui para conhecer o seu método, Hauser. Quem sabe você não me prova que essa espelunca não está fora da lei e que você não se aproveita da boa vontade dos seus clientes?

Eu ofereço uma alternativa, oficial. Uma chance de recomeçar. Você nunca teve vontade que as coisas fossem diferentes? Uma nova vida, uma nova família, um novo jardim, um novo jeito de ver o universo. É isso que ofereço aos meus clientes: um novo mundo para explorar.

Besteira! Você que é o explorador, Hauser.

Hum. Então por que você não experimenta, oficial? A droga não fará efeito se você não precisar do efeito.

Você só pode estar brincando. Eu vi o que isso faz nas pessoas.

Uma dose apenas. Sinta o novo. Não use mais se achar que não precisa. É simples assim.

Não sei se foi o desafio ou toda a atmosfera aquele lugar, mas, contrariando toda a lógica profissional, encarei Hauser e disse para que fizesse seu trabalho.


— Acho que por hoje é só, Octavio. — A esposa do paciente invadiu a sala com um curto sorriso no rosto.

— Meu paciente ainda tem algumas coisas a falar, se não se importa. — Francis tentava argumentar para que Octavio permanecesse um pouco mais.

— Desculpa, doutor, mas o Octavio costuma cansar com facilidade. Quem sabe outro dia? — Disse a mulher.

Octavio olhava para Francis como se implorasse para ficar. Francis agora compartilhava desse sentimento. Seu paciente, repentinamente, tinha se tornado a companhia mais interessante que ele poderia ter.

— Traga-o amanhã, então. Seu Octavio precisa ser acompanhado com regularidade nesse momento. — Disse, antes do paciente sumir pela porta.

Francis saiu apressado pelos corredores da clínica. Tirando do bolso um pequeno gravador, tratou de repetir como lembrava cada palavra da história contada pelo paciente. Da outra vez havia perdido uma série de detalhes, não podia arriscar-se dessa vez. Antes de atendê-lo, Francis inteirara-se do caso de Octavio, típica esquizofrenia paranóide. “Pelo menos os delírios faziam sentido”, pensava o psicólogo, “fluem narrativamente como os melhores contos de Sterling ou até mesmo de King”.

No final da tarde, Francis tinha encontro marcado com Douglas, colega de profissão e, anteriormente, de faculdade. Apesar de um tanto desligado, Douglas vez ou outra tinha grandes insights.

— Já percebeu como as pessoas parecem mais babacas com tênis branco? — Douglas rompeu o silêncio — Sério, cara, quem é que compra um tênis branco, sem nenhum detalhe, nenhuma marca? Deixa qualquer um com cara de babaca. Ei, Francis, tá me ouvindo?

— Claro, cara. Claro… — Francis despertava do seu transe.

— Não tava, não. Qual é o lance?

— Sabe quando você está com uma história na cabeça e não consegue pensar em mais nada, só quer um computador ou papel e caneta na sua frente?

— Você tá escrevendo algo?

— O melhor que eu já escrevi. É que um paciente tem contado essas histórias… E elas parecem muito boas.

— Vamos com calma… Você está escrevendo as histórias de um paciente seu? Isso é antiético, cara.

— Seria se as histórias fossem reais. São delírios, devaneios. Coisas que só acontecem na cabeça dele.

— Mas acontecem. Pra ele são tão reais quanto um cisco no olho: ele pode não ver ou pegar, mas perturba pra caralho.

— Eu acho que estou ajudando-o… Tenho escutado as história e…

— Intervindo? Por favor, Francis, diga que está intervindo, fazendo o que aprendeu na faculdade, tentando ajudar esse homem! Ou está apenas ouvindo uma história, como se seu pai estivesse te colocando pra dormir? — Douglas soou duro para o amigo.

Naquela noite, Francis sentiu seu texto menos fluido do que antes. Mesmo com as gravações, reescreveu cada período várias vezes. Tentava dar à história algo que fosse seu, mas nada parecia tão bom quanto a versão “real” de Octavio. Impaciente, demorou a dormir. Ansiava por um novo encontro com seu paciente.


Sentei à frente de Hauser, que se retirou da sala por alguns minutos. “É só mais um charlatão”, eu tentava repetir na minha cabeça. Mas o clima daquele local me perturbava. Já tinha estado em territórios mágicos, exorcismos de demônios e cemitérios indígenas, mas nada tinha me eriçado tanto. Em alguns minutos o “doutor” estava de volta com um copo grande com um líquido rosa viscoso. Colocou o recipiente em cima da mesa sem nada falar.

Não vai me mandar beber? — perguntei.

Faça o que tem de fazer, oficial. É uma escolha sua, sempre será, não esqueça. É assim que a vida funciona.

Levantei o copo e notei que era bem mais pesado do que aparentava. Tive que usar uma grande quantidade de força para fazê-lo aproximar-se da minha boca. Ao descer pela minha garganta, o líquido queimou como a pior aguardente de Endor. Fiquei aguardando alguns segundos por algum efeito. Hauser permanecia sério à minha frente, sem pronunciar uma palavra.

E agora? O que acontece?

O que você espera que aconteça?

Uma cura? Uma nova vida? Só o que eu vejo na minha frente é um velho mentiroso!

Os olhos vêem o que acham que deve ser visto, oficial. Uma boa noite e até amanhã.

Amanhã? Quem disse que eu voltarei aqui? — Levantei tão rapidamente da cadeira que senti uma leve tontura.

Caminhei até a porta e por um instante olhei para Hauser, tendo a impressão de que ele só tinha dois olhos. Pisquei por um momento e quando percebi o doutor já havia fechado a porta do consultório.

Já na minha casa, tudo parecia ainda mais silencioso do que antes. Uma pilha de contas se acumulava na entrada. Deitei no sofá e comecei a pensar no que faria no dia seguinte. Estava sentindo uma grande angústia, um sentimento de incompletude. Folheei dois pergaminhos digitais, procurei pelas notícias mais recentes. Nada tirava da minha cabeça a idéia de que minha vida não era como deveria ser.

Cochilei e tive um sonho esquisito: conversava com alguém, quando fui interrompido por uma mulher. Ela se aproximou um pouco mais e pude ver que ela tinha apenas dois olhos. Estranhamente me senti bem. Acordei assustado e resolvi fazer mais uma visita ao Dr. Hauser.


Naquela tarde, Francis estava ainda mais atencioso do que antes à história de Octavio.

— E como você se sentiu com relação a esse sonho? — Perguntou Francis.

— Era tão real. Era como se tivesse acontecido. Mas eu nunca tinha visto seres com dois olhos… É tão bizarro! — Respondia Octavio, gesticulando bastante.

— Mas você agora tem dois olhos. Você também se vê como um ser bizarro?

— Quando me vi no espelho pela primeira vez assim, me senti… confortável. Mas não sou eu! — Octavio parecia nervoso. Demorou um pouco para falar.

— E quem é você? — Francis intervinha.

— Alguém que talvez tenha tomado as decisões erradas…

— Você é casado, não? Digo, no nosso mundo é casado, certo? Com essa bela mulher que sempre lhe traz as consultas…

— Sim. É uma bela mulher. Mas tem algo estranho com a gente. É perfeito demais. Isso me incomoda. Sinto que ela tenta fazer o melhor. Mas não é só ela. Tenho sentido meus filhos cada vez mais distantes… — Francis percebia que Octavio começava a se reconectar com o mundo real, com aquele cotidiano em que ele era solicitado a viver pelas outras pessoas.

— E você? Não se sentia distante no seu mundo de origem?

Octavio parou novamente mais um pouco. Parecia estar refletindo a respeito. Francis percebeu o quanto era doloroso para o paciente pensar a respeito da sua “nova” vida. Era mais cômodo se refugiar naquela fantasia. Ou seria ficção científica? Por um momento o psicólogo se questionou em que gênero aquele relato se enquadrava. Tentou se concentrar e voltar novamente ao atendimento.

— Não importa o que você diga, doutor, nunca deixarei de acreditar que estou no mundo errado. Eu sei que aconteceu. Mesmo que você não acredite. — Falou Octavio, num tom muito sério.

— Sabe, Octavio, às vezes eu também sinto que vivo em outro mundo. Sou movido a base de sonhos que podem nunca se concretizar. Vendo por esse lado, sinto-me tão deslocado quanto você. Posso não entender bem o que está acontecendo, mas ninguém mais do que eu acredita em tudo que você está sentindo agora.

Francis pensou por um momento se não tinha se exposto mais do que deveria. Enquanto Octavio ouvia, um sorriso era esboçado no canto de sua boca.

— Estou cansado, doutor, preciso ir agora — e levantou-se caminhando em direção à porta da sala, onde sua esposa já o aguardava.

Francis pareceu um pouco mais satisfeito naquele dia.


Abra a porta, Hauser! Agora! — Eu gritava como um louco em frente ao consultório do estranho doutor, mas ninguém aparecia.

De tanto bater, a porta acabou abrindo sozinha. Antes de entrar ainda olhei para os lados para saber se aquele barulho não havia chamado a atenção de ninguém. O consultório estava completamente vazio. Havia estado ali ontem, mas o lugar parecia ter sido abandonado havia séculos. Poeira e teias de aranha enfeitavam os cantos. Era impossível que a noite anterior tivesse sido uma ilusão.

Ao avançar pelo corredor, encarei a sala onde havia tomado a droga milagrosa de Hauser. Todas as bugigangas não estavam mais lá. Estranhei a presença de um grande espelho ao fundo. Minha imagem refletia borrada, mal conseguia me reconhecer. Foi impossível não fazer um paralelo com minha vida: eu não era mais a mesma pessoa desde que havia assumido o cargo de policial de Omini. Havia escapado da minha família atrás de uma vida de aventuras tão falsa quanto um seriado antigo. Quem sabe as verdadeiras desventuras dos heróis ou guerreiros não fossem com seus filhos, em desafios com armas de brinquedo? Um mundo inteiro e novo de possibilidades. Um aperto tomou conta do meu peito. Aproximei-me do espelho e o toquei. Uma vertigem tomou minha cabeça. O espelho começou a se liquefazer, e minhas mãos pareciam coladas a sua superfície. Uma forte luz tomou conta do ambiente. Com muito esforço abri meus olhos e percebi que meu semblante havia mudado. Eu tinha apenas dois olhos e um monte de pêlos no rosto.


— Acordei nesse mundo, atordoado. Estava de frente a um espelho, gordo e barba por fazer. Era um mundo diferente… — Octavio tropeçava nas palavras. — Mas, de alguma forma, familiar.

— Você estava em tratamento, Octavio… — interveio Francis durante mais aquele atendimento — O psiquiatra indicou um medicamento que parecia estar fazendo bons efeitos em você. Isso tudo está no seu prontuário anterior… As coisas que você me fala de Hauser parecem as anotações do seu médico.

— Eu sei que parece loucura, doutor, mas andei pensando sobre isso. Parece que quando assumi minha contraparte nessa dimensão, minha vida se encaixou nessa outra… Eu já vi isso–

— Na Scarnio, número 14. “Universos em bolhas”. Esse é um dos meus contos prediletos…

— Mas é real! — Octavio tentava justificar o seu delírio.

— Ok… Você fez sua escolha, Octavio. Por que você veio para cá, se gostava tanto do seu mundo anterior, uma vida de aventuras e de desafios sem igual?

— Por que eu precisava de algo mais–

— Real? — O psicólogo interrompeu de forma amistosa. — Diferente da vida dos personagens dos livros que eu e você aprendemos a gostar? Por que você não aceita a cura do Dr. Hauser? Por que não encara os desafios desse novo mundo e se permite viver essa nova aventura?

Por um instante Octavio apenas pensou. E ouviu-se apenas silêncio na sala nos minutos seguintes. O tempo mais uma vez acabou. Francis encontraria o paciente mais algumas vezes, mas as aventuras contadas haviam mudado de universo. Octavio havia aprendido a reencontrar a emoção nas pequenas coisas do seu novo mundo. Mesmo assim, vez ou outra em seus depoimentos, relembrava suas aventuras como policial em Omini.

Antes de apagá-los de seu computador, Francis releu todos os textos relacionados a Octavio. Havia iniciado um novo romance, algo sobre vampiros no Brasil colonial. Porém as histórias do seu paciente nunca saíram de sua cabeça. E também, vez ou outra, gostava de acreditar que Octavio realmente podia ser alguém de outro mundo.

Zé Wellington
Zé Wellington
Zé Wellington é músico, escritor e roteirista de Sobral, no Ceará. Nos quadrinhos, foi indicado ao Troféu HQMIX 2010 por Interludio. Em 2014 lançou a graphic novel “Quem Matou João Ninguém?” pela Editora Draco. Tem ainda participado de diversas coletâneas e revistas especializadas em literatura fantástica. É colunista e podcaster do site Iradex.

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