Gente é tão bom

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A TPM me consome. Consumo meu café da manhã. Os turistas consomem neve. Que neve?! Noite passada nevou, os jornais noticiaram e esta horda de incrédulos apareceu por aqui. Porque não vão para o Chile, para a Argentina, para o polo sul? Imbecis. Fecho a cortina e pego a panela de água quente. Despejo a água sobre o capô da “Porcaria Velha” que alguns chamam de carro. Vou à padaria. Eu não funciono bem de manhã, assim como meu carro. Minha avó dizia que nunca funcionei muito bem. Gentileza dela ter dito isso. Sério. Foram as palavras mais delicadas que qualquer pessoa já disse sobre mim.

— Uma nota de cinquenta para pagar um pedaço de bolo e um café preto. A esta hora da manhã! Tá de brincadeira? — A balconista tosca, com sua toca tosca e suas luvas sem dedos, me odeia. Todos me odeiam.

— Não tô não, Ilda, dá meu troco logo, senão eu grito. — Eu grito mesmo, ela me conhece.

Ela resmunga baixinho alguma coisa. Acho que me chamou de vaca, cadela ou galinha. Gosto mais da última, galinha. Não porque trabalho na maior indústria de processamento de frango do mundo — grande merda, se eu tivesse o maior salário das funcionárias de contas a pagar do mundo, pelo menos pagaria as minhas contas. Gosto por que sou galinha mesmo. Vou passar cinco dias sem foder direito, por causa da menstruação.

Que aguentem meu mau humor. Porra. Que cheiro é esse? Não sou eu. Troquei o absorvente de manhã. Não tomei banho ontem ou hoje. Com esse frio, quem toma?

— Ô psiu! Ei, turista! Eu tô meio de ressaca. A neve tá amarela? Ou sou eu?

— O céu esta amar…

Viro as costas no meio da frase e pego meu celular. Neve amarela! Os argentinos não têm disso. Tiro algumas fotos antes de entrar no carro. A estrada cheia de curvas está escorregadia por causa da neve. Olho no relógio. Vou chegar atrasada. Passo a cancela de acesso à estrada exclusiva da fábrica. A névoa amarelada está mais densa, cobre os edifícios. Dois carros param na frente do meu, bloqueando a passagem. Saio do carro e a rajada de vento frio provoca dor de cabeça, meus hormônios, perturbados como eu, fazem uma tabelinha entre a dor de cabeça e a cólica.

— Puta que pariu! Puta que pariu! Puta que pariu! — Um para o bloqueio, um para a dor de cabeça e um para a cólica.

O motorista do veículo da frente grita desesperado. O seu passageiro solidário… — Solidariedade é o caralho! No dia em que eu for solidária pode me internar que estou sofrendo de múltiplas personalidades e a ‘boazinha’ está tentando dominar minha vida. — …está morto, exalando pelos poros um líquido pegajoso e fedorento. Mas o cara não grita porque o amigo morreu, ele grita:

— Meu Deus! Meu Deus! Botei um ovo! Um ovo!

O sujeito segura um pequeno volume no fundo das calças.

— Você se cagou, cara. Fica calmo e tira o carro da frente que estou atrasada.

— Não, não. – Ele abre as calças e enfia a mão por dentro até o pacotinho. Tira um ovo: branco e quentinho, tanto que dá para ver a fumaça saindo dele.

— Isso não é nada. Experimenta ficar menstruado. Menstruação é isso ai. Evolução da clara e da gema tudo misturado. Queria botar minha menstruação para fora assim tão rapidinho. Pluft e acabou. — Falo enquanto agarro o braço do camarada tentando fazê-lo entrar no carro, ele se ajoelha e chora, eu me desespero. Sem atrasos na minha ficha, terei direito a uma cesta de Natal gigante. Não comemoro o Natal e não tenho família: passada, por que deletei; futura, por que não quero. Este sonho de empregado padrão será só meu.

Alguns motoristas param atrás do meu carro, parte deles vem “socorrer” os dois sujeitos. Como? Um já está morto e o que eles podem fazer pelo cara que botou um ovo? Um omelete! Outra parte grita que também botaram ovos ou que seus caronas morreram. Outros mais começam a se despir desesperadamente. Penas brotam no lugar de seus pelos.

A gorda que trabalha na assistência jurídica — não sei o nome dela, aliás, não sei o nome de ninguém do serviço. Chamo-os de: coisa, coisinha, ô você aí — corre na minha direção. Acho que ela precisa do conforto de uma cara amiga, alguém conhecido. Está tão desesperada que não percebe que essa cara amiga é a minha. Ela vem tirando a roupa. Que desgraça é a falta de autoestima! Ela provavelmente não se depila há uns dez anos. Penugens cobrem seu buço, longas penas saem debaixo de seu braço. Então ela abaixa as calças. Parece que enfiou um espanador entre as pernas. Um, não. Dois. Um em cada orifício. Desato a rir. Ótimo, ela parou de vir em minha direção e desvia para abraçar outro penugento pelado. Que nojo!

Decido ir a pé até a fábrica. Não vai fazer diferença agora, todos vão chegar atrasados, ou nem chegar, mesmo.

Pois é. Sou a única funcionária a entrar na empresa nesta manhã. Deduzo que a cesta de Natal continuará de pé. Eu acho. Não preciso mais trabalhar. O caos só dura pelo meu período, cinco dias. Até que a empresa controlou rapidamente este problemão!

— O acidente ocorreu quando testavam o desenvolvimento de uma espécie híbrida, maior, com menos penas e mais carne. Ao ligarem a bomba que aspergiria o hormônio para dentro da câmara de testes das galinhas, o tanque explodiu e o gás se dispersou. Com o frio e os ventos toda a região ficou contaminada, blá, blá, blá… — explica o técnico para mim, demorando-se uma hora nos detalhes.

Não sobrou ninguém com um cérebro maior que uma avelã naquela cidadezinha medíocre. Não vai fazer falta a falta de cérebro. Sei que quase morro de tédio durante a palestra, apoio-me relaxadamente, com os pés em cima da mesa da diretoria, deixo meu corpo começar a formigar e tiro um breve cochilo. Meus braços e pernas voltam a responder quando o sujeito menciona dinheiro.

Poder e dinheiro acobertam tudo. Não sai no jornal, em nenhum jornal, uma notinha sequer — verdadeira. Acidente climático — e vamos por a culpa na camada de ozônio que ela não revida, não tem advogado, não processa ninguém.

E agora a indústria produz frangos do nosso tamanho! Coxas enormes, peitorais imensos, asinhas, digo, asonas com muito mais carne. O povo adora. Delícia no churrasco e está vendendo mais que picanha.

Ganhei uma boa gratificação para ficar de bico calado e comprei uma casa na ilha, de frente para a praia. A indústria me paga um bom dinheiro para me usar como cobaia. Nada de mais estes testes, um pouco de sangue aqui, um pedacinho de pele ali. Fora este trabalhinho esporádico e insignificante, todo o abundante tempo livre que me resta, passo fodendo, tomando café e comendo frango de graça.

Claudia Dugim
Claudia Dugim
Nascida em São Paulo quando ainda garoava, Claudia Dugim é adoradora de grandes cidades. Cursou colégio técnico de Artes Gráficas e posteriormente graduou-se em Letras e Pedagogia; é professora de inglês como segunda língua. Escreve desde pequena, fã de histórias de todo tipo: filmes, quadrinhos, livros, vídeogame, RPG. Lançou um livro de poesias nos anos 90 e parou, voltou a escrever em 2011 e lançou O Caminho do Príncipe em 2013, em fase de reedição. Tem contos publicados na Revista Trasgo, nos Contos Sonoros, nas antologias Piratas (Editora Catavento), Boy’s Love e Contos do Dragão (Editora Draco). Coordenadora do Grupo de Escritores "Singularidades", cujo primeiro projeto foi lançado em 2015, "Cobaias de Lázaro". O segundo projeto, "Retrônicos" será lançado ainda este ano. Dá aulas como voluntária em Oficinas Literárias dentro do projeto Vai (Gibiteca Balão) da prefeitura de São Paulo.

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Um comentário

  1. Bruno Eleres / 23 de janeiro de 2014 at 23:51 / Responder

    Fantástico! Super divertido e com um clima irônico extravasando. Apesar de alguns problemas de edição, gostei bastante do conto!

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