Azul

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Era madrugada alta e o maldito ônibus não passava. Nora checou seu relógio de pulso; os números oscilaram, mas ela acreditava que já passava das três da manhã. Ou mais. Talvez menos. Ela cruzou os braços e começou a bater os pés no chão da calçada, impaciente. Não deveria ter ficado até tão tarde e aquela tequila no final da festa tinha passado da conta.

E depois ainda teve Pedro, beijando-a… Ah, ela não queria que aquilo acontecesse quando sua cabeça estava chapada de tequila e caipirinha. Não era o momento certo. Mas pelo menos a despertou para o erro que estava cometendo e a fez deixar o lugar. O certo era ir para casa, respirar ar puro e se jogar na cama. No dia seguinte tomaria um comprimido e cuidaria daquela ressaca. Sim, era o que precisava fazer.

Finalmente, depois do que pareceram horas, um ônibus apareceu. Nora suspirou, irritada, e fez sinal. Ela subiu, pagou o motorista – que estava tremendamente chapado de alguma coisa para se manter acordado – e cruzou a catraca.

Não havia viva alma no ônibus inteiro exceto por um homem no último assento. Nora sentiu seu corpo todo retesar e, rapidamente, sentou-se num dos primeiros bancos, perto do motorista. As mãos ficaram imediatamente geladas. Ela respirou fundo. Vai ver era a bebida na sua cabeça. Só podia estar imaginando coisas. Toda aquela tequila…

Nora fechou os olhos, tentando esquecer tudo aquilo. Só queria chegar em casa, deitar, dormir… Mas logo ouviu o som de passos no assoalho barulhento do ônibus e a aproximação de alguém às suas costas. Ela ousou dar uma olhada por cima do ombro e viu aquele mesmo homem sentado agora a apenas dois bancos de distância do seu. E ele a observava.

Ela virou o rosto depressa e encarou o próprio colo, as mãos geladas e suadas. Tinha bebido demais. Aquilo era ridículo. Mas o homem continuava lá, encarando-a com seus olhos azuis.

Com seus olhos azuis. Sua boca azul. Seu rosto azul. Seu cabelo azul. Sua roupa azul.

O maldito homem parecia uma versão assustadora da droga de um Blue Man Group.

Aquilo era ridículo, patético, inacreditável. Era uma alucinação, fruto da sua mente, piração de sua cabeça cheia de álcool. Nora jurou, naquele instante, nunca mais virar tantas doses de tequila. Aquilo era coisa do demônio, sua mãe diria. Era o coisa ruim pregando peças em sua mente. Nora não acreditava em nada daquela bobagem, mas naquele momento até que conseguia encontrar algum sentido nas histórias da mãe.

Ela pediu silenciosamente aos céus e a qualquer coisa que aquele homem a deixasse de encarar, que descesse na próxima parada ou que chegasse o ponto. Qualquer coisa resolveria. Os minutos pareciam intermináveis, congelados.

Nora levantou-se, trêmula. Ela viu pelo canto dos olhos o homem azul a acompanhar com o olhar. Tensa, ela puxou a cordinha: seu ponto era o próximo. O homem não fez menção de se levantar. Ela agradeceu a alguém invisível por isso.

O ônibus parou. Nora desceu aos tropeços. O veículo partiu, deixando um rastro de fumaça para trás. Ela caminhou a passos rápidos quando, de repente, sentiu uma mão em suas costas.

Uma mão azul.

Ela gritou, mas foi pior, porque logo sentiu um jato quente e azul entrando por sua boca, invadindo suas narinas, esquentando seu corpo, manchando sua roupa. O homem estava vomitando algo terrível, de aparência escura e pegajosa, mas ainda azul.

Nora se sentiu mal, enjoou, o mundo rodopiou e então ela caiu de encontro ao chão.

E tudo ficou azul escuro.

 

***

 

O sol da manhã invadiu seu quarto e esquentou seus olhos, ofuscando-os. Nora sentiu uma dor de cabeça horrível, começando nas têmporas e descendo até a nuca.

Maldita tequila.

Sentia-se enjoada, mas nada que um comprimido e muita água não resolvessem. Sentou-se na beirada da cama. O mundo girou por alguns instantes até parar e, então, quando julgou que estava segura, encostou os pés descalços no piso frio do apartamento. Precisava de equilíbrio, de segurança, de algo gelado que a acordasse. Precisava de um banho.

Caminhou a passos lentos e arrastados até o banheiro. Despiu-se, entrou no box, ligou o chuveiro. A barriga ainda revirava e algo subia pela sua garganta. Engoliu em seco, enfiou a cabeça debaixo da água fria.

O reflexo da luz que entrava pelo basculante dava a impressão de que a água era…

Azul…

— Azul. – ela repetiu para o banheiro vazio. E então uma enxurrada de vômito invadiu sua garganta e Nora não conseguiu mais resistir ao ímpeto. Vomitou tudo que podia no piso branco do banheiro.

Ele ficou manchado.

De verde, amarelo, marrom, branco…

E azul.

Algo se acendeu no cérebro de Nora e ela foi lembrando, aos poucos, dos acontecimentos da noite anterior. Havia algo. A bebida tornava tudo nebuloso, mas havia algo.

E havia azul.

Ela limpou o chão do banheiro como pôde e terminou o banho. Enroscou-se em sua toalha vermelha, sentindo um incômodo e um arrepio, e novamente aquele enjoo estranho. Largou-a no chão do banheiro, abriu o armário debaixo da pia e procurou por outra toalha.

Quando se enrolou em uma toalha azul celeste, sentiu-se melhor.

Enxugou-se às pressas. Faltava-lhe o ar e sua cabeça doía intensamente. O que era aquilo? Ainda seria o efeito da bebida? O que tinha acontecido na noite anterior?

Inclinou-se sobre a pia, observando o próprio rosto no espelho. Tocou a própria pele, os lábios, os cabelos. Parecia tudo igual, mas havia algo, alguma coisa levemente diferente, fora do lugar. Aproximou o rosto do espelho e encarou os próprios olhos. Eles sempre foram castanhos e bem escuros, mas hoje pareciam mais claros… quase de outra cor… quase…

Azuis.

Nora recuou até bater em um armário na parede oposta. Vários sabonetes e rolos de papel higiênico caíram no chão, espalhando-se pelo piso, enquanto ela própria tentava atravessar a parede, apavorada, o coração saltando pela boca.

De novo aquela cor. O que estava acontecendo? Ela forçou sua mente, mas a noite anterior ainda era um enorme borrão em sua cabeça, que doía mais e mais, intensamente.

Nora saiu correndo do pequeno banheiro, ainda enrolada na toalha. Sentou-se no sofá bege, mas ele lhe pareceu algo repulsivo e se levantou. Procurou por todos os lados até encontrar uma poltrona no canto da sala, sim, ela serviria. Era azul, com algumas rosas vermelhas. Sentou-se e logo se sentiu um pouco melhor, apesar das rosas pinicarem sua pele.

Sua cabeça rodopiava. Vai ver era algum pesadelo, vai ver ela ainda não tinha acordado, vai ver Pedro tinha colocado alguma coisa em sua bebida. Uma droga, um alucinógeno? Ah, mas ele ia pagar, aquele cafajeste de uma figa. Nora não deixaria aquilo barato, não mesmo. Ele a enganou, aquele…

Mas então ela reparou que havia uma carta no chão, próxima à porta. Provavelmente alguém a tinha passado por debaixo da soleira naquela manhã. Às vezes o porteiro fazia isso, às vezes ele distribuía o correio na portaria. Nora se levantou, sentindo os joelhos bambos.

O envelope era azul.

 

***

 

O seu mundo agora será azul. Por um ano, ele terá apenas uma cor. E então você terá que passar o azul para frente, assim como eu fiz com você. Boa sorte.

Era o que dizia na carta que Nora recebera. Isso já fazia mais de seis meses.

A essa altura, sua casa era completamente azul.

Os móveis, os tapetes, as cortinas. As paredes, os lençóis, as roupas. Algumas coisas ela jogou fora, comprou novas, trocou por coisas azuis. Outras ela pintou. Pintou a casa inteira, o chão e as paredes, o teto e o sofá.

A tinta azul tinha um gosto bom. Nora a bebia como água.

Ela também comia tudo o que via pela frente, e Nora só via azul. Bolinhos de blueberry, gelatina azul… Havia garrafas e garrafas de Curaçau Blue nas prateleiras e vários potinhos com corante azul, que ela colocava em tudo. Havia também canetas Bic, que ela adorava roer e chupar, sorvete azul, e potes e mais potes de plástico azuis que ela mastigava até a fome passar. Folhas de papel azuis e bloquinhos de notas, bem como perfumes e chocolates pigmentados.

O seu mundo era azul.

Nora caminhou até o espelho e olhou para si mesma.

Começou com os olhos. Depois, manchas apareceram em sua pele: nos braços, nas pernas, no rosto. Seu cabelo começou a crescer da cor azul claríssima, mas depois escureceu e ficou azul brilhante.

Ainda faltavam seis meses.

Seis longos meses.

Tantas coisas poderiam acontecer em seis meses… O que ela faria depois? O que ela ainda seria capaz de fazer para saciar aquela sede? Nora já começava a ver as coisas em azul… uma névoa clara e azul que pairava em todos os lugares. Doía olhar para tudo que não fosse dessa cor. Os olhos ardiam, sua cabeça doía, as pernas fraquejavam. E no final… no final… ela sabia o precisava ser feito. E aquilo a atormentava, todos os dias, todas as noites. Era uma maldição o que ela carregava. E um dia… um dia ela teria que condenar outra pessoa àquela vida.

Passar o azul para frente…

Ela respirou fundo. Caminhou até a cozinha, procurou e logo encontrou uma faca de cabo azul. Experimentou na pele, na palma da mão. Um pequeno buraco se abriu. Algo escorreu. Nora gritou e sentiu lágrimas descerem por seu rosto.

Não, não, não! Não podia!

Finalmente, com a resolução que somente o desespero traz, Nora rasgou de uma vez só a pele do pulso.

E gritou novamente.

Então caiu.

Poças de sangue começaram a se formar ao redor de seus pulsos no chão. Nora só queria ver de que cor era.

Mas o seu sangue também era azul.

Karen Alvares
Karen Alvares
Karen Alvares conta histórias para o papel há tanto tempo que nem lembra quando começou. Autora da duologia Inverso (2015) e Reverso (2016), de Alameda dos Pesadelos (2014) e organizadora de Piratas (2015), foi também publicada em revistas e antologias, e premiada em concursos literários nacionais. Vive em Santos/SP.

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6 comentários

  1. Bruno Eleres / 23 de janeiro de 2014 at 20:08 / Responder

    Adorei a imagem de início do conto: um ônibus vazio no meio da madrugada e uma pessoa que se aproxima quando ela não olha. É bem legal e me lembrou uma cena de uma série de terror japonesa na qual acontece algo parecido. =D

    • Karen Alvares / 30 de janeiro de 2014 at 10:11 / Responder

      Oi Bruno! Fiquei super contente que curtiu. É possível que eu tenha alguma influência japonesa nos meus escritos também, sou muito fã de filmes de terror japoneses, animes e mangás. Adoro a cultura daquele país! ;)

  2. Kell / 18 de fevereiro de 2014 at 23:41 / Responder

    Queria fazer um comentário azul, para combinar.
    Adorei o desenvolvimento do conto. Finais trágicos e reveladores também me atraem deveras.
    Primeiro conto que leio por aqui. Gostei. Volto mais vezes.

    • Karen Alvares / 21 de fevereiro de 2014 at 17:26 / Responder

      Pois fique sabendo que seu comentário em preto já fez uma autora deveras feliz por aqui, Kell! kkkkkkk =)
      Adorei saber que curtiu meu conto! Espero que leia mais dos meus trabalhos! ;) E leia sim os outros contos, são incríveis, muito orgulho de estar junto com esses autores feras nessa edição! ;)
      Obrigada!

  3. Stella / 21 de fevereiro de 2014 at 18:25 / Responder

    Incrível o texto e a maneira como você escreve, fui recomendada a ler seus textos por uma amiga. Realmente ótima recomendação!

    • Karen Alvares / 26 de fevereiro de 2014 at 14:01 / Responder

      Obrigada, Stella! Fico muito feliz que tenha aproveitado a leitura e tenha gostado! ;)
      Espero que leia meus outros trabalhos! Estou lançando um livro também no mesmo estilo do conto, chama-se Alameda dos Pesadelos, se quiser conhecer, visite meu blog: http://papelepalavras.wordpress.com/

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