Cada um com seus problemas

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Uma vez um sujeito me perguntou por que eu usava véu e turbante. Fez piada, de que era pela vergonha de revelar minha raça falida. Perguntou se eu era estúpido por usar sobretudo no espaço, onde o tecido pode se prender facilmente a partes móveis em baixa gravidade.

Expliquei as maravilhas do tecido inteligente niteriano, que se adaptava rapidamente às condições adversas e protegia meu corpo do vácuo. Expliquei, também, sobre o computador oculto sob o véu, enquanto dava o comando para que a comporta da estação se abrisse.

Acho que ele não me ouviu. Mesmo que ouvisse, duvido que desse atenção. O sujeito, um corporocrata corrupto procurado por escravizar engenheiros com promessas de riquezas e fama, estava preocupado demais morrendo asfixiado no vácuo do lado de fora. Felizmente o contrato pela cabeça desse cara não dizia nada sobre ele ser entregue vivo.

Normalmente não explico meus truques, mas não achei que faria diferença. Gosto de deixar no ar a dúvida sobre o que eu sou capaz de fazer. Não são muitos os caçadores de recompensas bem sucedidos entre os humanos, muito menos aqueles com capacidade psíquica. Um outro sujeito debochou uma vez, dizendo que era falha genética, porque minha espécie usava menos de 10% do potencial do cérebro.

Esse, infelizmente, queriam vivo. Dei um tiro em cada joelho e carreguei o babaca para minha nave explicando que isso era uma lenda urbana, citando alguns especialistas no assunto. Ele também não me deu muita atenção.

É uma pena que existam tantos que preferem ignorar o que eu tenho para dizer. Provavelmente sofreriam menos se me dessem ouvidos.

Como era o caso com esse sujeito aqui, meu atual contrato.

— Olha, eu não sou seu pai, mas ele está me pagando caro para garantir que você se una a ele.

— Eu nunca me unirei a você!

O garoto melodramático não era bem um garoto. Era um jovem yahidar com uns 200 quilos de pele oleosa e gordura flácida. Agarrava-se a um poste em uma diminuta plataforma sobre um poço sem fundo, o rosto todo ferido depois de tentar me atacar com uma espada de energia que provavelmente pagou caro para fazer. Quase perdeu a mão no processo. A espada, tirei dele com um pensamento. Os grandes olhos amarelos se encheram de lágrimas enquanto a arma extravagante caía precipício abaixo. A língua roxa lambia a baba grossa escapando pela boca larga e mole.

Estiquei a mão para ele tentando ser o mais paciente possível.

— Vamos. Eu realmente não quero que você se machuque.

No caso dele, o queriam vivo e ileso. Uma pena. Esse tipo de contrato me dá trabalho, mas o contratante geralmente paga bem. São pais preocupados com os filhos fazendo besteira. Não seria a primeira vez que pegaria esse tipo de contrato, nem a última.

Deu trabalho para descobrir onde ele se escondia, as ruínas de uma antiga estação celoniana em órbita descendente na direção da Estrela de van Maanen, no coração de um sistema sem dono da Zona Independente. Que ninguém se dera ao trabalho de sequer colocar uma boia de sinalização no lugar era indício de que não havia nada de útil por lá. Nem os celonianos de hoje sabiam porque seus antepassados, aqueles que uma vez compartilhavam um único governo e cultura, haviam colocado aquela estação lá. Conhecendo os sujeitos, provavelmente era um laboratório secreto para onde levavam pessoas abduzidas de planetas primitivos como a Terra. Pelo menos até a toda-poderosa Liga dos Mundos descobrir e acabar com a festa.

O garoto que eu precisava salvar dele mesmo se chamava Escolhido. Sério. Era o nome que ele havia dado a si depois de se unir a uma pseudo-religião que algum outro maluco qualquer inventou. Infelizmente isso era moda. O nome anterior do garoto traduzia-se como ‘O que caiu de cabeça’. Levando isso em consideração, não podia culpá-lo pela mudança.

Chequei com Katib o status da estação. Segundo minha nave, que havia deixado em órbita próxima, a estação não estava em risco iminente de se desintegrar pela força da estrela, mas não podia desconsiderar o bombardeiro radioativo que estávamos recebendo. Yahidars eram resistentes a essas coisas. Eu não.

Escolhido olhou para baixo, na direção do precipício. Os olhos tremeram. Acho que ele esperava que alguma coisa ia acontecer, como se no último instante fosse aparecer uma nave para salvá-lo. No caso, a única coisa lá embaixo era o brilho branco da estrela prestes a nos obliterar. Ele engoliu em seco e se agarrou mais firme ao poste. Subitamente minha mão parecia uma opção melhor.

Puxei o sujeito de volta à terra firme, usando tanto minha força física quanto a mental para evitar que Escolhido escorregasse. Duvidava que tivesse poder o suficiente para impedir alguém daquele tamanho de cair. Se tivesse esse poder, provavelmente conseguiria voar só com o pensamento.

Ele caiu de joelhos no chão de metal, arfando com o esforço. Começou a chorar soltando gases tóxicos pelos respiradouros na nuca. Me certifiquei de que os filtros no véu estavam funcionando. A última coisa que eu precisava agora era ter um ataque de náusea porque o garoto estava nervoso.

Dei dois tapinhas nas costas largas do sujeito. Confesso que não levo o menor jeito para esse tipo de coisa.

— Temos pouco tempo.

Era mentira, mas ele não precisava saber disso. O yahidar se virou para mim, o rosto largo subitamente cheio de uma determinação inconcebível. Esticou seus dedos gordos na minha direção e, fazendo um esforço fenomenal, disse.

— Eu não sou o yahidar que você procura.

Ele me deu dor de cabeça. Literalmente. Devia ter tomado algum tipo de droga que supostamente dava poderes telepáticos para quem o consumia. Num yahidar, duvido que fosse capaz de fazer mais do que incomodar os outros. Pelo menos isso explicava a estranha sensação de ter alguém tocando minha mente desde que entrei ali. Eu juro que um dia pego o niteriano que vende essa coisa para garotos impressionáveis como esse.

A estação rangeu ruidosamente. A coisa toda tremeu. Katib me alertou que corríamos o risco de ficar sem um chão para por os pés. Partes da estação não resistiriam tanto tempo quanto a superestrutura.

Peguei Escolhido pela gola das vestes marrons que usava e o arrastei pelo corredor. Agora, sim, usei telecinese. Facilitava meu trabalho.

Não encontrei oposição alguma no caminho de volta. Dos autômatos que encontrei quando cheguei só restavam os destroços que deixei para trás. Katib me esperava no hangar, a carlinga já aberta. Joguei Escolhido na parte de trás, onde costumava levar cargas, deitei no cockpit e parti. Plotei um curso até Sol. Escolhido choramingava atrás de mim, desconsolado.

— Não era para terminar assim. Eu devia salvar toda a Galáxia.

— Claro, claro. Agora fica quietinho aí atrás que a viagem vai ser longa.


Fazia tempo que não ia tão próximo à fronteira entre a Zona Independente e a Liga dos Mundos. Esperava dar de cara com uma daquelas naves monstruosas a qualquer momento, apenas observando para ter certeza de que eu não tentaria cruzar sem permissão. Não sei porque se davam ao trabalho. Como se não pudessem me vaporizar à distância em um nanosegundo.

Levamos cerca de 12 horas para chegar até Júpiter. Aproveitei para dormir, coisa que só consegui depois de aplicar um sonífero em Caído. Aparentemente Escolhido havia mudado de nome no meio do caminho, culpando-se por ter falhado em sua busca sagrada. Em uma semana ou duas teria mudado o nome de novo depois de assistir a algum outro filme antigo.

O pai de Caído tinha um negócio de coleta e transporte de refugo na Zona Independente. Removia destroços de satélites e estações, asteroides rochosos em rotas perigosas e eventuais refugos biológicos e radioativos perigosos.

Encontrei o cargueiro flutuando logo acima da atmosfera de Júpiter, despejando toneladas de lixo que eram imediatamente dragados pela gravidade do planeta para desaparecer entre as tempestades de hidrogênio. As nuvens abaixo relampejavam, como se o planeta agradecesse pela comida. Acharia engraçado se descobrissem vida inteligente abaixo das tempestades de Júpiter. O yahidar acabaria processado por jogar seu lixo na atmosfera do planeta. Ninguém dava a mínima para isso. Não na Zona Independente, onde era cada um por si e a lei era a de quem tinha mais força.

— Logo, logo você estará em casa.

E eu estarei livre desse sapo-boi choramingão. Acordou do sonífero balbuciando incoerências sobre o Espírito Galáctico, a salvação do Universo e as forças do mal, seja lá o que isso quer dizer.

A Rainha da Sucata era um cargueiro niteriano que um dia deve ter tido papel mais importante na vida. Provavelmente já tinha um século de vida, anos esses visíveis no casco corroído e manchado, coberto de remendos mal feitos e peças adaptadas. Era a maior e mais moderna das naves da frota do lixão, mas não a única com um nome curioso como esses.

Os problemas começaram logo que eu abri um canal com a nave. Uma explosão chacoalhou o cargueiro, fazendo-o emborcar para o lado. Uma segunda explosão veio logo em seguida, do mesmo lado. Dei ordem para Katib descobrir o que estava acontecendo. Pintou um grupo de naves emergindo das nuvens laranjas abaixo de nós, lançando mísseis. Tinham a forma de losangos cinzentos, sem detalhes. Antenas, turbinas e canos saíam de todas as superfícies. Pareciam ter sido feitas por alguém sem a menor noção de estética, mas muito conhecimento de engenharia, o que significava uma de duas coisas: ou algum yahidar magicamente conseguiu construir uma nave por conta própria ou o pai de Caído havia irritado alguém bem sério.

— Eles.

Caído saltou do compartimento de carga, agarrando meus ombros e olhando o holograma.

— Eles? Eles quem!?

Nem olhei para trás. Deixei Katib abrir o holograma com informação sobre Eles.

Imagine uma espécie alienígena que resolve colocar todo seu trabalho nas mãos de robôs enquanto aproveita a vida. Imagine isso dando errado. Não era difícil.

Ninguém sabia o que acontecera com a tal raça criadora. Eles ignoravam qualquer tentativa de contato, permanecendo isolados em um canto da Zona Independente.

— Oh, meu Deus! Eu vi isso nos holovídeos!

Era uma pena que não tinha mais daquele sonífero. O yahidar ficou gritando algo sobre a grande profecia, robôs infiltrados, deuses romanos e uma tal colônia perdida. Em certo ponto começou a cantarolar uma música que eu lembrava vagamente de ter ouvido antes. Fiz o melhor que podia para ignorar, concentrando-me na situação diante de mim.

O grupo que atacava era formado por quatro naves: duas grandes, provavelmente canhoneiras carregando soldados prontos para abordar a nave, e outras duas menores, caças de escolta. Não que fosse necessário. Duvidava seriamente que a Rainha da Sucata tivesse qualquer tipo de armamento. Mesmo que tivesse, era mais provável que explodisse a própria nave do que a defendesse.

Suspirei, pensando no dilema. Se atacasse, corria o risco de ser abatido. E ejetar assim tão perto de Júpiter era morte certa. Se fugisse, e eu podia fazer isso facilmente, perdia o investimento que fiz em procurar e resgatar o yahidar fanático.

— De vez em quando eu acho que ainda estou no exército…

Sob meu comando, Katib abriu ambos os casulos laterais, expondo os canos das metralhadoras. Ambas começaram a girar enquanto as bobinas magnéticas carregavam. Com um suspiro de quem sabe que vai se arrepender, mirei na nave mais próxima e abri fogo. Katib ajustava o ângulo dos canhões para não afetar demais o vetor da nave. Os projéteis de titânio rasgaram a parte de cima do caça, fazendo-o mergulhar para o interior das nuvens abaixo. O brilho que se seguiu pode ter sido a explosão da nave ou apenas um raio na tempestade abaixo de nós.

Como esperava, isso atraiu a atenção das outras naves. O outro caça e uma das canhoneiras desviaram-se do cargueiro para me dar atenção, enquanto a última nave aproximava-se para abordar o alvo original.

Transmiti um sinal de alerta em canal aberto para a região. Levaria algum tempo para que qualquer um o recebesse, e mais ainda para que o atendessem. Os yahidar provavelmente já haviam feito o mesmo, mas achei melhor reforçar o pedido. Talvez alguma alma caridosa tivesse mais interesse em ajudar um caçador de recompensas famoso do que aquela sucata em chamas sobre Júpiter.

Ao menos o comandante da nave virou o cargueiro e acelerou para longe, despejando de uma só vez toda a carga que trazia. A manobra acabou por formar um escudo temporário entre a Rainha da Sucata e a canhoeira d’Eles, causando a explosão prematura de uma nova ogiva disparada. Sorte, com certeza.

Lancei contramedidas assim que o inimigo começou a lançar mísseis em minha direção, e rodopiei para a direita, atirando ao mesmo tempo, por via das dúvidas. Gosto de gastar quando o assunto é equipamento. Katib era uma nave niteriana, presente de um antigo cliente, mas o equipamento nela eu havia pago ao longo dos anos. Tinha acumulado uma pequena dívida por conta disso. Razão pela qual o contrato com os lixeiros yahidar era importante.

Cada uma das contramedidas era um drone em miniatura, controlado por inteligências artificiais semelhantes a de cães. Uma vez me explicaram que era como se você jogasse uma bola para que pegassem. Eles se arremessavam com toda a vontade contra os mísseis. Funcionou. Ambos os mísseis explodiram, levando com eles as caríssimas contramedidas. O custo foi imediatamente incluído na conta do meu cliente. A questão agora era garantir que ele sobrevivesse para pagá-la.

Disparos de energia atingiram meus escudos. Um feixe de energia maior do que eu ionizou a atmosfera a minha volta. Atrás de mim, Caído gritava como um porco no abatedouro. Lógico que não havia cinto de segurança na área de carga.

Girei a nave, colocando as nuvens laranjas de Júpiter sobre minha cabeça, então puxei o manche virtual para perto de mim, fazendo Katib mergulhar nas nuvens. Dados sobre a proximidade da tempestade elétrica começaram a surgir. Katib tentou montar um mapa virtual da tempestade diante de mim, já que não conseguia ver coisa alguma à medida em que as nuvens tornavam-se mais densas. Esperava que o mesmo acontecesse com os autômatos me perseguindo. Ouvi muito que a região era infernal com a maioria dos eletrônicos feitos pelo homem. Esperava que fosse igualmente nocivo a uma espécie sintética.

Larguei um presentinho atrás de mim, então ativei a camuflagem.

Um pequeno sol surgiu dentro da atmosfera do planeta. Katib foi arremessada para frente e o caça atrás de mim desapareceu. Fui cuspido para fora de Júpiter pela nova tempestade que se formava e recebido por um novo feixe de energia, que derrubou meus escudos. Camuflagem ou não, parecia que a explosão, ou talvez o movimento dos gases na atmosfera, havia revelado minha posição à canhoneira, que havia permanecido acima das nuvens.

Girei a nave no próprio eixo sem mudar o vetor. Abri fogo com ambas as metralhadoras, pintando o topo da canhoneira losangular com pequenas explosões de impacto. Reativei a camuflagem e acelerei na direção oposta. Outra vantagem de se pagar caro pelo equipamento que se usa. Katib tinha um propulsor gravitacional. Usava as fontes de gravidade a minha volta como eixos. Era como se lançasse cordas invisíveis na direção de planetas, estrelas e até mesmo outras naves e as usassem para se movimentar. Isso significava mudar de direção bem rápido.

A canhoeira disparou no ponto onde eu deveria estar se tivesse continuado naquele ângulo. Então desliguei a camuflagem e abri fogo novamente. O nariz já danificado da nave rompeu, expondo suas entranhas. Provavelmente teria sido fatal se comandada por um piloto orgânico. Foi o suficiente para fazê-la perder o controle. E perder o controle tão perto de Júpiter era morte certa.

Deixei a camuflagem desativada para não consumir todo o cristal que a abastecia e voltei minha atenção à Rainha da Sucata. Ela estava flutuando poucos quilômetros acima das nuvens. Chamas breves ainda eram visíveis onde o casco havia sido rompido. O propulsor estava desativado. Havia um carrapato cinza preso à sua lateral.

Não havia como a tripulação escapar. Se usassem cápsulas de fuga, seriam engolidos por Júpiter. Se eu destruísse a canhoneira atracada à força ao casco, corria o risco de expor o interior da nave ao vácuo. Duvidava que algum yahidar à bordo teria imaginação o suficiente para pensar numa saída.

— Para onde você está indo?

— Embora.

O garoto não disse nada. Ficou calado a viagem toda. Se houvesse algum tripulante vivo naquele cargueiro, ele já era prisioneiro de uma horda de robôs sem o menor pudor em torturar seres orgânicos.

A grande questão era por que Eles tinham tanto interesse em um transporte de lixo espacial.


Pousamos em Freeport poucas horas depois. Reportei o ataque a uma patrulha da República da Ásia, mas duvidava que fizessem algo a respeito. Provavelmente estavam mais preocupados em espionar as colônias dos outros países no sistema Joviano. E me perguntam por que deixei Sol para trás…

Ao que parecia os donos do lugar não investiam muito no suporte de vida local. O ar cheirava a óleo e metal, e a temperatura era abaixo do que eu preferia. A população não era muito melhor: mineradores e transportadores procurando diversão após semanas ou meses no espaço, e uma pequena multidão de mercenários de todo o tipo procurando emprego.

O problema de verdade era a pequena pendência com o contrato anterior.

— E então?

— Nada.

Havia tentado contactar meu cliente diretamente e através da secretária. Não consegui resposta. O máximo que consegui foi contato com Helena, um outro cargueiro da frota sucateira, vindo de Urano, que não fazia ideia do que havia acontecido. Acho que deixei o comandante em pânico.

Bom, eu tinha meus próprios problemas. No caso, um jovem yahidar que parecia ter murchado, olhando com um par de grandes olhos amarelos remelentos para o nada.

— Você deve ter parentes. Alguém que possa se responsabilizar por você.

Não era um expert em yahidars, mas sabia que Caído tinha idade o suficiente para ser legalmente considerado um adulto. No entanto, algo no olhar do sujeito me fazia pensar que ele não sobreviveria uma hora sozinho sem ajuda.

— Tenho um tio, eu acho. Talvez ele estivesse na Rainha da Sucata.

— Pode tentar contactá-lo? Falar com alguém pra quem eu possa te entregar?

Ele afirmou com a cabeça, o papo chacoalhando com um som úmido, e começou a mexer no computador. Pedi alguma coisa para bebermos. Acho que ambos precisávamos de algo forte.

— Arturo Ramazatti. Nunca pensei que o veria novamente tão perto de casa.

Internamente, chorei. Claro que eu era conhecido em Freeport. Claro que esbarraria com alguém que tivesse coragem de falar comigo, mas não esperava ser logo Kala Arkad syn. O rosto ovalado sorria sem lábios. Podia ver meu olhar de descontentamento refletido nos grandes olhos metálicos de tom mais azulados que a pele verde.

— Kala.

— Tanta formalidade depois de tudo que passamos? Pode me chamar de syn.

Ela puxou uma cadeira e se sentou entre o yahidar e eu, debruçando-se sobre a mesa e xeretando meu copo. Os tentáculos em sua cabeça haviam sido amarrados num rabo de cavalo tremulante. Os do queixo, bem mais curtos, moviam-se livremente. Por algum motivo achava que eles estavam debochando de mim.

— O que faz por aqui?

O tom da minha pergunta foi ácido. De propósito.

— Pegando um contrato novo, — ela respondeu, fingindo não reparar. Virou-se para prestar atenção no yahidar, como se esperando que eu o apresentasse. Não dei a ela o que queria.

— Quem é o alvo?

Ela se voltou para mim, o sorriso ainda lá. Eu odiava aquele sorriso constante. Eu já a havia visto sorrindo assim enquanto torturava um contrabandista pravii para obter informações.

— Não é bem quem, mas o quê. Um paleoartefato qualquer.

— Contrabando, aposto.

O sorriso se esticou um pouco mais. Nós tínhamos um histórico conturbado, ela e eu. Começou quando eu matei o ex-marido dela. Longa história. Mas também já tinha me beneficiado dos seus contatos. O sistema de camuflagem de Katib? Comprei de um conhecido dela por um preço irrisório.

— Quem é o seu amigo?

— Sou o parceiro dele — disse o yahidar antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.

— Quê? — Tanto eu quando minha colega de profissão dissemos ao mesmo tempo, ambos com tom de espanto. A diferença foi o sorriso no rosto dela, e o pânico no meu.

A expressão no rosto do yahidar havia mudado radicalmente. Ele continuava olhando para o vazio, mas tinha um tipo de sorriso frouxo nos lábios umedecidos e um brilho quase insano nos olhos. Tinha até se sentado mais ereto na cadeira.

— Estamos em uma missão secreta juntos. Não podemos contar nada a respeito, desculpe.

— Mas o quê…?

Kala gargalhou, uma mão na barriga, a outra ajudando-a a se levantar. Ela pegou meu copo, bebeu um gole e se afastou.

— Vou deixá-los discutir a relação. Foi muito bom encontrá-lo, Arturo. Muito bom mesmo.

Ela piscou um olho, fez a mão de pistola e puxou um gatilho imaginário para o yahidar, então foi embora, ainda rindo. Cogitei fazê-la tropeçar em alguma coisa. Provavelmente conseguiria arrastar algo para seu caminho, talvez até atingi-la na cabeça com um objeto cortante. Mas sabia que acabariam me descobrindo e não estava interessado em mais problemas.

— Meu pai está morto.

Virei para o yahidar. Ele ainda estava sorrindo quando disse aquilo.

— Ótimo. E agora? Quem paga a conta?

— Você não entende. Herdei tudo que era dele.

— Inclusive a dívida por te resgatar.

Ele não pareceu perceber o que eu havia dito. Estava perdido em alguma fantasia copiada de holofilmes terráqueos.

— Se eu tenho a fortuna dele, posso pagá-lo.

— Ótimo. Estamos resolvidos então.

Não seria eu que mencionaria a perda astronômica que a companhia dele teria com a destruição de seu principal cargueiro. Cada um com seus problemas.

— Só depois que salvarmos a Galáxia.

Por que eu sempre pego os piores contratos no Universo conhecido? Bebi um longo gole da minha cerveja. Chequei no computador do véu o status do meu contrato com o pai do garoto. Segundo uma cláusula que eu mesmo incluí, já que yahidars são propensos a morrer por sua própria culpa, o contrato passava imediatamente aos herdeiros legais do contratante. Se eu quebrasse o contrato, ficaria devendo o dobro da recompensa original ao contratante. O problema era que, se agora o objeto do contrato e o contratante eram a mesma pessoa, como eu poderia entregar o objeto ao contratante?

Isso daria uma dor de cabeça a algum advogado.

Será que eu podia acabar com o problema matando o garoto?

Não. Isso também violava o contrato. Tecnicamente, só o garoto poderia encerrar o contrato pagando a recompensa completa. Se o garoto morresse, eu ficava sem nada, só os gastos que tive até então.

Adoro esse tipo de situação.

— Eu sou um caçador de recompensas e não uma babá.

— Você aceitou um contrato para me resgatar.

Quem estava alimentando as ideias desse garoto?

— E daí?

— Aceite um para resgatar minha honra!

— Honra? Que honra? Você é maluco.

O yahidar suspirou longamente. O corpo bulboso pareceu murchar sobre a mesa. Por um instante achei que ele estivesse se desfazendo diante de mim. Então, ele sugou o ar pela boca enorme e começou a falar.

— Fui escolhido para restaurar a antiga Ordem dos Cavaleiros da Federação. Para isso, precisei resgatar a bionave Babylon e ir até além do espaço conhecido, onde a escuridão enlouquece os homens, para reencontrar a chave da Luz Divina escondida em um planeta-prisão. Assim poderei unificar toda a galáxia contra o avanço da raça de robôs que nós mesmos criamos!

Sério. Juro que foi isso que ele me disse. Tenho tudo gravado aqui. Já disse que deviam proibir a venda de filmes e novelas feitas na Terra para yahidars? É tipo uma droga, só que pior.

Levei uns dois minutos para conseguir dizer alguma coisa.

— Você tem problemas.

Eu também. Concordei com a nova proposta.


Para nossa sorte, a estação ainda estava lá, apesar da órbita estar ainda mais próxima da anã branca. Uma seção em forma de discos sobrepostos parecia ter se desprendido e desaparecido. Era provavelmente aquele anel de destroços chocando-se lentamente contra a superfície ardente da estrela.

Segundo os cálculos de Katib, tinhamos poucos minutos antes da estrutura se partir. Era um chute, claro. Katib dizia que sua análise tinha uma margem de erro de grande.

Pousei minha nave na mesma plataforma anterior, saltando do cockpit e acenando para que Escolhido — ele havia voltado a se chamar assim no caminho para a estação — andasse logo.

Estava analisando se o suporte de vida entre nós e a câmara central estava ativo quando Katib enviou uma mensagem para meu computador. A imagem piscou no meu campo de visão.

Nos sensores, quatro naves se aproximavam. Daquela distância, Katib não conseguia identificá-las, mas sabia bem a origem.

Eles.

Ótimo…

Empurrei o garoto para andar mais rápido.

— Por que Eles estão atrás de você?

O garoto me olhou com aqueles olhos grandes e melados por alguns segundos antes de entender a que eu me referia. Olhou por cima do ombro para o espaço. Katib já estava decolando, a camuflagem sendo ativada sob meu comando.

Com uma expressão de culpa, Escolhido puxou do bolso um objeto de desenho estranho: um disco prateado cravejado de um tipo de pedra ou vidro colorido, apagado. Havia ranhuras por toda a superfície, aparentemente feitas para encaixar em uma peça maior.

Lembrou-me imediatamente da outra caçadora de recompensas.

Um disparo atingiu a porta diante de nós. Não precisei olhar para trás para saber quem era.

— Corre!

Empurrei o garoto pela porta enquanto sacava minha própria arma.

Kala Arkad syn assobiou como que para um cão e correu atrás de nós.

Não, eu não estava com medo. Pelo menos não por mim. Kala não era a melhor caçadora de recompensas que existia. Em termos de habilidade pura, conheço melhores. Eu inclusive. Mas Kala era determinada e tinha um arsenal tecnológico a sua disposição, provavelmente obtido das corporações de seu mundo natal, as mesmas que forneciam armamento para os governos e movimentos separatistas na Terra. Aquelas que geraram o caos que tomou conta do sistema durante décadas depois do primeiro contato.

Que Katib não havia detectado a chegada de sua nave não era mistério. Kala provavelmente tinha equipamento de camuflagem semelhante em sua própria nave.

Chegamos à câmara onde havia encontrado o garoto pela primeira vez. Tinha a forma de um semicírculo. No centro, havia um tipo de terminal na forma de pedestal. O corpo transparente revelava cabos grossos, translúcidos, saindo do topo até o interior da estação. Uma luz tênue, azulada, pulsava no chão, como se o lugar estivesse sem energia o suficiente para se manter completamente ativo. Considerando o estrago, com buracos abertos nas paredes e equipamento quebrado espalhado por toda a parte, não era de se surpreender. Não podia imaginar o tipo de tecnologia que construíra aquele lugar, avançada apesar de milenar, capaz de manter gravidade, atmosfera e temperatura dentro dos corredores apesar dos óbvios estragos feitos pelo tempo e por vândalos.

Kala apareceu na porta com uma pistola grande nas mãos. Parecia ser algo bem avançado, com sensores, munições especiais e provavelmente inteligência artificial integrada. Ela errou porque quis.

— Sabia que um dia nos estaríamos de lados opostos de um contrato.

— Tipo no dia em que nos encontramos pela primeira vez?

Ela deu de ombros, sorrindo.

— Daquela vez foi coincidência.

Eu não abaixei minha pistola, mas estava em desvantagem. Tinha de manter o garoto vivo.

— Quem te pagou pra pegar o artefato?

— Um grupo de corporações niterianas. — Ela abriu aquele sorriso amigável que todo niteriano tem. — Estão pagando uma pequena fortuna por essa coisa.

Olhei para o garoto. Estava tenso, a pele da cabeça pulsando, gases tóxicos escapando dos respiradouros na nuca. A língua roxa, grossa e pegajosa, escapou da boca e lambeu os olhos. Abraçava o artefato perto do peito como uma criança guardando seu brinquedo mais querido.

Kala deu alguns passos para o lado, cautelosa. Estava buscando a proteção aparente de um terminal antigo e parcialmente destruído. A arma estava mirada em mim.

— Se soubesse desde o início que o paleo estava contigo, teria matado esse saco de pele em Freeport.

Imitei seus movimentos. Caminhei, empurrando Escolhido com uma mão, para por outro terminal entre a niteriana e nós. Duvidava que pudesse chegar até o bendito altar onde o garoto colocaria a chave e acabaria com tudo. Não via a hora de receber a mensagem de contrato concluído.

— Olha, Kala, você pode esperar um pouco? Ele coloca esse treco no lugar, meu contrato com ele se encerra, e então você faz o que quiser.

— A chave não pode ser removida. — explicou o yahidar parecendo bastante sério.

Kala deu de ombros naquele tipo de gesto humano que eu odeio quando alienígenas aprendem, então começou a atirar.

Puxei Escolhido para o chão enquanto usava a mente para arremessar um pedaço de equipamento entre Kala e eu. Os disparos atingiram o metal, soltando faíscas e arremessando-o para longe.

Eu estava cercado por robôs homicidas numa estação prestes a ser engolida por uma estrela protegendo um fanático de uma caçadora de recompensas muito bem equipada. Me lembre de não aceitar esse tipo de roubada de novo.

— Vamos lá, Arturo. Você sabe que minha filha ia odiar se eu o matasse. Entregue logo o artefato.

Olhei para o garoto, na esperança de que ele fosse concordar. Claro que não concordou. Balançou a cabeça exagerado, os olhos grandes como os de um gatinho pedindo colo. No caso, um sapo boi gigante pedindo colo.

— Desculpa, Kala. — Atirei por cima da barricada sem a menor intenção de atingir. Estava tentando ganhar tempo para pensar. Isso pelo menos manteria Kala abaixada.

O painel onde a chave precisava ser colocada ficava a alguns metros dali. O problema era que o caminho até lá estava completamente descoberto. Se eu tivesse um pouco mais de finesse provavelmente conseguiria colocar a chave no buraco apenas com a mente. O problema seria resolvido fácil. Mas não era o caso. Se tudo que precisasse fosse arremessar essa coisa com toda a força, eu faria. Só não me peça para fazer cirurgia com a mente. O estrago seria grande.

Puxei do bolso interno do sobretudo uma mina guiada. O custo desse trabalho só aumentava. Configurei o aparelho para a genética niteriana e a arremessei por cima da barricada. Ela se abriu e disparou na direção de Kala impulsionada pelo motor magnético. Eu sinceramente me sentia mal por matá-la. Não achava que ele era o tipo de pessoa que precisava morrer. Muito menos pelas minhas mãos.

Problema dela.

A mina explodiu, fazendo tremer o ambiente mais do que necessário. Kala parou de atirar.

Você não vive tanto tempo nessa profissão sendo burro. Não acreditei que tivesse pego ela. Empurrei com a mente uma placa de metal descartada entre nós e o altar da chave. Fiz rolar uma peça, como se estivesse correndo naquela direção. Kala atirou exatamente onde eu estaria se fosse burro.

— Esperto — ela gritou.

— Diria o mesmo. Como você esquivou da mina?

— Uma isca eletrônica, configurada para parecer um grupo de niterianos. Eu te conheço. Sei como você trabalha.

Esse é o problema em ser famoso. Seus truques começam a ficar velhos.

Contactei Katib para saber a situação lá fora. Suspirei assim que vi a resposta.

Uma explosão. A estação estremeceu e as luzes piscaram. Fiquei mais leve e vi alguns objetos flutuarem, antes de retornarem ao chão.

Podíamos ouvir o som de pés de metal marchando pela estação. Kala murmurou um palavrão. Ouvi algo sendo montado e ligado. Devia estar se preparando para o óbvio.

— Eu só quero o artefato.

A voz da niteriana estava afetada pelo medo. Acho que ela sabia muito bem o que estava vindo. Ouvi o som de uma tocha de plasma cortando a porta.

— Eu realmente preciso do dinheiro dessa recompensa.

Alguns segundos onde o único som foi o das faíscas escapando da porta.

— Te passo metade da minha recompensa.

Olhei para o garoto. Escolhido parecia prestes a chorar. Olhou para o artefato, depois para o equipamento onde pretendia ligá-lo. Ele ia correr, e ia acabar sendo morto.

— Acho bom isso valer muito a pena — acabei murmurando para o garoto, que não pareceu entender.

As coisas aconteceram todas ao mesmo tempo.

A porta caiu para dentro, o choque com o chão ecoando pela câmara. Eles entraram abrindo fogo com seus rifles laser. Uma mina, provavelmente colocada lá pela niteriana, detonou.

Kala saltou de onde estava, exposta aos autômatos, disparando com um tipo de escopeta magnética. Derrubou dois ou três d’Eles enquanto ela mesma era atingida.

Escolhido se levantou, correndo com suas pernas curtas e roliças na direção do altar, o paleoartefato abraçado perto do corpo. Ele gritava uma espécie de mantra ou hino sobre ir onde yahidar algum jamais havia ido antes.

Levantei da minha própria proteção, jogando com a mente uma pilha de detritos entre Escolhido e os disparos d’Eles. Atirei na direção da porta com as duas pistolas, sabendo que o inimigo não se abaixaria para evitar os disparos.

Um yahidar fantasmagórico usando longas vestes rústicas surgiu no meio do salão, os braços cruzados sobre o peito gordo, as mãos ocultas dentro das mangas largas. Ele observou o embate como quem desperta de um longo sono aos gritos de um bando de crianças arruaceiras.

A súbita aparição me fez desviar a atenção por um segundo. Foi tempo o suficiente para que me atingissem no peito.

Senti queimar o corpo, apesar de meu sobretudo absorver a energia do laser e dispersá-la pela superfície do material. Fazia com que eu não tivesse um buraco no peito, mas deixaria uma queimadura no meu tórax por um bom tempo. Me joguei no chão enquanto um segundo e um terceiro tiro me atingiam no braço e na perna.

Os tiros e as explosões terminaram, mas não o som dos passos metálicos. De onde havia caído, não conseguia ver nada nem ninguém. Chequei minhas pistolas, olhei o estrago feito pelo inimigo nas minhas roupas. O tecido inteligente tentava se reparar, mas levaria tempo. Se me atingissem no mesmo lugar de novo — e máquinas era ótimas em serem repetitivas — eu teria sérios problemas.

Depois de um tempo, o som dos passos se afastou. Fui deixado em completo silêncio.

— Eles já foram — disse uma voz que eu não conhecia.

Levantei, ambas as armas prontas, cobrindo o ângulo máximo.

De onde estava podia ver apenas a mão verde de Kala, caída perto de sua escopeta. Havia sangue no chão. Muito sangue. Não podia parar de pensar no rosto da filha dela. Não havia sinal de nenhum autômato inteiro. Alguns pedaços estavam espalhados pelo chão. Braços e pernas finas, uma cabeça prateada no formato de um bico de pássaro. Lembrei dos autômatos que encontrei na estação quando vim buscar o garoto.

Procurei por ele. Estava morto, um buraco enorme na cabeça. Pedaços do crânio e do cérebro escorriam para fora. E uma outra coisa. Eu levei alguns segundos para identificar o ponto metálico que havia sido implantado no cérebro. Assim, exposto, ele parecia emanar uma força psíquica poderosa que eu podia sentir sem nem ao menos precisar me concentrar.

— O Escolhido morreu. É sua a missão de salvar a Galáxia.

Eu estava realmente irritado. O garoto estava morto e meu contrato, inválido. Tinha acabado de provocar a morte de um companheiro que estava do outro lado apenas por questões profissionais. E meu corpo doía pra caramba.

Virei para o yahidar holográfico. Ele parecia saído de um holofilme, com uma aparência sábia e superior que yahidar algum jamais tivera.

— Eu não estou a fim de baboseira. Quem é você de verdade?

O holograma me encarou por um tempo, como se me estudando. Então balançou a cabeça com um suspiro.

O holograma perdeu peso. Muito peso. Tornou-se extremamente magro, perdeu as vestes em troca de uma roupa metálica colada ao corpo. A cabeça cresceu, a boca encolheu. Os olhos continuaram grandes, mas tornaram-se negros e ovalados. A pele mudou de um marrom oleoso para um cinza pálido.

O celoniano me encarou com a característica expressão de impaciência da primeira espécie a fazer contato ilegal com a raça humana.

— Você é menos estúpido que outros da sua espécie.

— Vindo de um celoniano, isso certamente é um elogio.

— Você foi modificado. Telecinese não é natural em sua espécie. Posso sentir a cicatriz em sua mente.

Senti alguma coisa tocar meu cérebro. Era sutil, mas como se dedos alisassem minha cabeça. Lembrei da sensação que senti quando vim buscar o garoto pela primeira vez. Talvez não tivesse sido Escolhido daquela vez.

— Quem é você?

— A estação, lógico.

Claro, lógico que o celoniano holográfico que surgiu do nada no meio de um tiroteiro era a estação moribunda onde eu estava.

— Faria sentido — ele respondeu, como se lendo a minha mente — se sua espécie fosse evoluída o suficiente para compreendê-lo.

Guardei as armas no coldre. Chequei com Katib. A fragata d’Eles permanecia longe. Katib estava oculta do lado oposto da estação.

— O que está acontecendo aqui?

— Esse lugar era a espada sobre a cabeça do regente.

A estação rangeu. Acho que ouvi o som de alguma coisa se soltando.

— Poderia ser menos enigmático? Não estou com tempo para quebra-cabeças.

— Milhares de anos atrás, quando sua espécie ainda aprendia a fazer fogo, nós, as raças antigas desta Galáxia, enfrentávamos o maior inimigo de todos. Era uma força impossível de ser detida. Impossível para nós separados.

— Certo. Foi assim que a Liga dos Mundos foi formada. Aprendi isso na escola.

A dor de cabeça que o garoto me deu antes não foi nada comparada ao que senti naquela hora. Caí de joelhos no chão, totalmente atordoado. Achei que ia apagar. Então tudo voltou ao normal.

— Ok, não interrompo mais.

O holograma não mudou de expressão. Apenas continuou a narrar sua história, como se tivesse apenas afastado uma mosca irritante.

— Nem todos concordaram que o perigo havia sido erradicado. Por isso, o conselho votou pela construção de uma linha de defesa para ser usada em último recurso. Uma proteção caso um novo ataque, ainda mais poderoso, fosse feito contra a Liga dos Mundos.

Estrelas se acenderam por todo teto do salão. Representava a Galáxia alguns milhares de anos atrás. Um conjunto delas foi marcado, interligado por linhas púrpuras. Eram os mundos originais da Liga dos Mundos. Formava uma mancha enorme que seguia na direção do centro da galáxia. Apesar do tamanho fenomenal, não ocupava nem mesmo um quarto da Via Láctea. As demais estrelas surgiram em vermelho, em especial um vasto grupo que imaginei ser o extinto inimigo. Havia uma faixa apagada entre as duas manchas. Essa faixa era a Zona Independente, onde a maioria das espécies não-alinhadas, todas consideradas primitivas, viviam. Tinha certeza de que o nosso Sol estava ali em algum lugar, insignificante naquele oceano galáctico. Uma outra estrela, van Maanen, se acendeu.

— A Zona Independente é a linha de defesa?

O olhar do celoniano holográfico era o de quem está cogitando esmagar com o dedo uma formiga que se aproximou demais do seu prato. Me calei na mesma hora.

— Vocês eram insignificantes. Ainda são. Mas havia alguns membros do conselho que acreditavam no seu potencial de tornarem-se alguém um dia. Obviamente estavam errados. Foi por isso que aos celonianos foi dado o comando dessas estações. Ninguém mais teria a coragem de acioná-las quando fosse necessário.

Não sei se todo celoniano é assim tão lento para chegar ao ponto. Talvez seja porque esse sujeito esteve ali preso àquela estação havia milênios, somente recebendo transmissões vindas dos planetas mais próximos. Bom, pelo menos quando elas começaram a chegar. Toda aquela aula de história era interessante, mas não enquanto eu estava dentro de uma estação prestes a se partir em milhares de pedaços.

Katib transmitiu alguns dados. Levei alguns segundos para entender o que se tratava. Estaquei de imediato.

— Isso é impossível. Essa estrela está longe do fim da vida.

Mas não havia como discutir com os fatos. Alguma coisa estava provocando o início de uma supernova. Eu nunca vi uma coisa dessas acontecendo, mas não precisava que Katib fizesse uma simulação para saber que o resultado seria a destruição da vida em todos os sistemas estelares na região, inclusive Pravas, Niter e, claro, a Terra.

— É essa a linha de defesa? Uma supernova artificial?

— Uma de muitas.

A estação voltou a tremer. Olhei na direção do fosso sem fim. Podia ver o brilho branco vindo de lá.

— Bom, mas você está prestes a ser engolida pela estrela. Então não há risco algum.

— O sistema possui um gatilho especial. Caso eu seja destruída, a supernova acontecerá. Era necessário, caso o inimigo descobrisse a verdade e atacasse antes que pudéssemos reagir.

— Magnífico. E agora?

— É por isso que atraí este yahidar. Criei essa falsa profecia com base no que pude absorver das transmissões emitidas de seus mundos. Quando ele veio até aqui, introduzi um implante para poder me comunicar enquanto ele estivesse longe. Ele recuperou a chave que desativa a estação.

Olhei para o yahidar morto. Ele podia ter sido ingênuo, mas certamente era determinado. Nem imagino pelo que passou e o que precisou fazer para conseguir recuperar aquele paleoartefato.

A chave. Olhei por cima da barricada. Não havia sinal do paleoartefato. Descobri o que Eles queriam com o cargueiro yahidar. O holograma explicou a ligação.

— Eles acreditam que a detonação dessa estação ajudará a purificar a região de orgânicos como você.

— Ótimo… Você não pode fazer alguma coisa?

— Já estou fazendo. Eu os estou atrasando o máximo que posso, mas o aconselho a ser rápido. Não durarei muito mais tempo.


Segui o caminho por onde Eles escaparam até uma porta fechada. Procurei algum tipo de painel de acesso ou controle manual, mas não identifiquei nada. Sabe-se lá o que esses alienígenas de milênios atrás usavam.

A luz da porta se acendeu, talvez um resultado do esforço da estação. Talvez ela realmente estivesse lendo minha mente. O ar da câmara foi sugado para fora. Quase fui arrancado de onde estava e cuspido para o vácuo. Me segurei por telecinese ao chão de metal, atordoado o suficiente para perder um segundo antes de pensar em alertar meu computador pessoal do problema.

O traje foi mais rápido. Selou o espaço entre véu e turbante. As mangas do sobretudo se prenderam às luvas e a cauda longa da roupa ao meu corpo. Começou a me fornecer calor e oxigênio na mesma hora. Por sorte o tecido inteligente havia selado o dano provocados pelos tiros d’Eles a tempo. Já mencionei como essa roupa é útil?

Do outro lado boa parte do túnel, as paredes e o teto em particular, estavam faltando. Hastes de metal como costelas em um animal morto permaneciam aqui e ali. No final, uma plataforma parecia prestes a se soltar.

Quatro autômatos magros de forma ligeiramente aquilina caminhavam na direção da escotilha de uma canhoneira com a parte da frente destroçada. Aparentemente alguém havia sobrevivido a Júpiter.

Precisava impedi-los de fugir. Se entrassem na nave, seria difícil recuperar a chave sem o risco de destruí-la. Mandei um sinal para Katib e abri fogo contra eles.

A resposta foi imediata.

Enquanto meus tiros atingiam as costas e a nuca do autômato mais próximo, fazendo-o tropeçar e cair de joelhos, dois outros voltaram-se para mim com rifles prontos. O quarto, certamente aquele levando o paleoartefato, continuou em frente.

Feixes laser cortaram o vácuo, obrigando-me a procurar a cobertura da antepara. Respirei fundo, me concentrei e virei atirando enquanto usava o poder da mente. O autômato que havia caído estava erguendo-se, o corpo soltando faíscas onde eu o atingira. Usei a mente para fazê-lo perder o equilíbrio e cair no caminho do laser de um dos companheiros. O feixe o cortou em dois, fazendo seu atacante parar por um breve segundo. Meus disparos não tinham como alvo aqueles dois, mas sim o quarto autômato.

Acertei o portador do artefato no ombro e na omoplata metálica, fazendo o corpo magro girar sobre a própria perna. O movimento expôs a mão que segurava a chave.

Um pensamento, e arranquei-a da mão do autômato. Ela voou pelo corredor até mim. O soldado nem parou para pensar. Simplesmente ergueu sua arma na minha direção.

Katib saiu da camuflagem logo atrás dele, os casulos abertos. Me joguei para longe enquanto Eles eram moídos por algumas centenas de balas da minha nave.

Corri. Corri mais do que pensava que pudesse. Era um daqueles momento em que você pensa por que não incluiu algum tipo de injeção de estimulante do seu traje de combate. Uma dose e estaria como novo.

Cheguei à câmara com as pernas queimando de exaustão. Escorreguei no sangue de Kala, deslizei pelo chão e quase deixei a chave escapar. O holograma me observava impassivo, os braços cruzados como quem espera o cronômetro chegar ao final para poder dizer que você falhou.

Pulei, impulsionado mais pelo desespero do que pela força física ou mental. No fundo da minha mente, alguma coisa parecia errada.

Caí aos tropeços aos pés do altar, a chave ainda na mão.

— O que você está esperando?

Virei para o holograma.

— Por que corporações niterianas pagariam para que uma arma capaz de destruí-las fosse ativada?

O holograma franziu a testa, um tanto irritado.

— Do que você está falando? Apenas use a chave antes que o tempo se acabe!

E não era só isso. Lembrei algo sobre o que Katib me mostrou sobre Eles.

— E por que Eles iriam querer destruir a Zona Independente? Autômatos ou não, seu mundo também seria destruído pela supernova.

A dor de cabeça foi forte. Fiquei completamente atordoado.

— É por isso que eu quero ver cada um de vocês mortos, incinerados em seus planetinhas patéticos! Você tem ideia do que é passar séculos preso aqui ouvindo suas transmissões? Vocês merecem ser obliterados, todos vocês!

Katib me alertou que a fragata d’Eles se aproximava. Suas armas estavam ativas. Eles tentariam destruir a estação se preciso para impedir a detonação da supernova. Mandei um comando e me forcei a levantar. Falhei miseravelmente.

— Coloque a maldita chave no lugar ou o farei sofrer até o último segundo!

Com esforço descomunal, rolei para o lado. Usei a força que tinha para tentar ir para o mais longe possível do altar e do holograma. Usei telecinese para me deslizar pelo chão. Isso só piorou a dor.

Num lampejo de lucidez, percebi que estava ao lado do fosso sem fundo. A Estrela de van Maanen brilhava no meu rosto, trazendo a lembrança do que estava prestes a acontecer.

Olhei para o holograma. Forcei um sorriso e o saudei com meu dedo do meio.

Então rolei para trás, para dentro do fosso.

Caí na direção do buraco e da estrela, a chave da Luz Divina abraçada ao meu corpo. Por incrível que pareça, a dor de cabeça começou a passar, e foi substituída por um cansaço absurdo. Duvidava que meu traje pudesse me manter vivo por muito mais tempo no vácuo.

Katib sabia disso. Abriu a carlinga e praticamente me engoliu onde me esperava abaixo do fosso sem fim. Felizmente havia recebido meu último comando.

A Estrela de van Maanen engoliu o que restava da estação celoniana sem nem pestanejar. Nada mais explodiu. Aparentemente eu havia salvo a Galáxia. Ou pelo menos parte dela.

Claro que ninguém sabia disso, nem dava a mínima.

Não havia sinal da fragata d’Eles. Era o que Eles queriam desde o início: impedir que algum imbecil detonasse a supernova. Eu quase fui esse imbecil.

Katib marcou a trajetória para Niter. Olhei para o paleoartefato. Talvez pudesse reclamar o contrato feito por Kala. Ao menos pagaria pelo que perdi com os yahidar. O resto iria para sua filha. Eu não era um monstro. Só um vilão acidental.

Finalmente adormeci. Lembro de ter pensado vagamente no fato de existirem outras estações como aquela, prestes a explodir se alguém fosse menos inteligente.

Que se dane. Não sou herói. Cada um com seus problemas.

J. M. Beraldo
J. M. Beraldo
J. M. Beraldo é um nômade carioca que ganha a vida como game designer. Tem contos nas antologias Brinquedos Mortais (2012), Sagas 4 (2013), O Outro lado da Cidade (2015) e Piratas! (2015). Publicou os livros Véu da Verdade (2005), Taikodom: Despertar (2008) e Império de Diamante (2015). Tem ideias demais e tempo de menos, mas jura que um dia coloca tudo para fora.

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