Entrevista – Claudia Dugim

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Claudia Dugim

Claudia Dugim é paulistana da Mooca e neta de imigrantes, professora e pedagoga, leciona inglês como segunda língua para adolescentes e jovens adultos. Estudou artes gráficas e desenho, às vezes ilustra o que escreve. Escreve contos, poemas e livros desde os doze anos.

Em Gente é tão bom, a protagonista é praticamente uma antagonista, ainda que o conto seja em primeira pessoa. O que acha de fazer o leitor se identificar com seu lado "mal humor"?

O lado negro está em todos nós, uns disfarçam melhor que os outros ou são conscientes que este lado negro é nocivo tanto para ele quanto para os outros. Gosto de explorar este lado dos protagonistas fora do embate com o herói, deixar o herói aparecer depois que o caos já se instalou. Ou deixar o herói a mercê dos caras maus até que sejam revelados.

No conto há um forte componente contra a indústria alimentícia, de hormônios e componentes artificiais.

Não sou vegetariana há muito tempo, mas já fui. Os seres humanos sobreviveram a tudo e evoluíram graças também à facilidade em adaptar-se aos diferentes ambientes e dietas. Não sou fã do consumo exagerado seja do que for, e dentro deste rol de exageros, o consumo de carne vermelha, branca, cinza, rosada, etc, altamente tóxica me preocupa bastante. Não gosto de ser chata, ninguém muda a cabeça de ninguém, você pode fazer o outro pensar um pouco, mas é só, cada um é responsável pela sua própria consciência.

Seu texto tem um estilo mais direto, sem frescuras. Quais seus autores favoritos dentro desta linha?

Boa pergunta, nunca pensei nisso. Os livros que leio são histórias densas ou clássicas, acabo de ler "O Círculo Fechado" de Jonathan Coen. Acho que esta economia tem a ver com cinema. Amo cinema e histórias em quadrinhos e estes dois meios são mais diretos, tudo tem que ser dito numa única imagem, no caso da HQ o diálogo está dentro de uma caixinha minúscula. Escrever poesias, que gosto muito, também é por aí.

O conto surgiu de um desafio literário na Skynerd. O que acha do contato com outros escritores e oportunidades oferecidas por uma rede?

A troca de experiências é muito boa, os escritores sempre tiveram seus clubes para lerem e divulgarem entre si seus trabalhos. A vida da maioria dos artistas, seja de que arte for: pintor, cineasta, escritor, etc, não é fácil ou glamorosa. O artista trabalha em outras profissões por obrigação (não é o meu caso, adoro ser professora) todos os dias para seu sustento e por gosto nas horas vagas. Acompanho o Jovem Nerd há uns quatro anos, mas sempre achei que não tinha muito que conversar com a galera, já que sou mais velha e tal. Aprendi e aprendo muito com os amigos de lá, trocamos dicas, informações e elogios – alimento de todo artista.

Na Skynerd você publica muitas dicas para escritores iniciantes, assim como em seu blog. Como você enxerga esse trabalho?

Na verdade, começou como uma necessidade de alertar os colegas da Skynerd que publicavam livros inteiros sem registro na Biblioteca Nacional. Algumas histórias eram muito boas e ao conversar com os autores percebi seu amor pelo que faziam e a dedicação que tinham. Já ouvi muitas histórias de autores desconhecidos que mandam originais para autores conhecidos e acabam plagiados. O pessoal gostou do post e então passei a ler com mais cuidado os contos e trechos de livros que publicavam e postei o segundo sobre método de trabalho, já que muitos deles estudam e tem seus ofícios e tal. E assim vai indo, eu leio o que escrevem na Skynerd, uma ou outra publicação independente, faço anotações e publico um post. Todos com minha própria experiência e vivência, nada muito técnico ou dentro de padrões. Juntei tudo num blog para ficar mais fácil achar.

Poderia nos contar um pouco sobre os seus livros publicados de modo independente?

Eu publiquei nos anos 90 um livro de contos e um de poemas por conta própria e distribuí aos amigos. Naquela época as pessoas faziam cópias, grampeavam, convidavam amigos para fazer uma ilustração (estudei Artes Gráficas no SENAI, conheço um povo, por assim dizer). Fiquei parada uns dez ou doze anos e voltei a escrever há dois anos. Acabei de publicar um livro, O Caminho do Príncipe. Publiquei de forma independente sob demanda, estou buscando outra alternativa para o meu segundo livro que também já está pronto, "Matando Gigantes", uma ficção científica com humor negro, crimes e revolução. Estou escrevendo outros dois, que ficarão prontos no início de 2014 e um terceiro com uma trama mais densa, mas neste não coloquei prazo para terminar.

A publicação independente funciona no Brasil?

As editoras independentes no Brasil ainda são desacreditadas, em parte pelo perfil descaradamente aproveitador e comercial de algumas delas, em parte pela publicação de material de péssima qualidade. Por outro lado é um bom começo e não é coisa nova, muitos grandes escritores como Jane Austen, Marcel Proust,ou Virginia Wolf iniciaram suas carreiras se auto-publicando. Dá bastante trabalho divulgar de forma independente, mas vale a pena.

Sobre o que se trata O Caminho do Príncipe?

O Caminho do Príncipe, disponível na Livraria Cultura e pelo site, é uma história clássica de fantasia com um adereço de modernidade — um herói solitário, uma jornada e a descoberta de que o tempo passou para todos, menos para seu reino. Um terço da história é narrada em primeira pessoa, então outros elementos são introduzidos: aventura, ação e romance segundo os mandamentos dos livros neste estilo, mas sem dragões, fadas, magos, ogros ou castelos. O feedback que recebi até agora é muito bom, quem começa a ler não para até o final, isso é que faz um escritor feliz, as pessoas gostarem de sua história.

Conte um pouco sobre seu outro livro, pronto para ser publicado. Quais os próximos projetos?

Ao contrário de O Caminho do Príncipe, que é leve e destinado ao publico adolescente e jovem, o segundo livro, Matando Gigantes, é um pouco mais adulto e violento. Foi baseado num documentário que assisti sobre a possibilidade de construção de uma nave de escape no caso de nosso Sistema Solar desaparecer. Durante 85 anos a nave vaga no espaço. Vivendo em completa recessão, os 300 mil seres humanos chegam ao seu destino, mas ainda terão que esperar até desembarcarem. Neste clima ‘esperançoso’ mortes inesperadas começam a acontecer. Pessoas têm suas cabeças e outras partes do corpo cortadas de forma rápida e invisível, crimes que parecem sem solução. Outra espécie, minúscula, sente-se ameaçada pelos gigantes que a cercam. A população da nave se revolta achando que as mortes são, na verdade, parte de uma trama política. Este livro foi escrito antes das manifestações começaram, mas têm tudo a ver. Os dois primeiros capítulos estão disponíveis no meu blog.

Tenho outros livros: Um adendo ao "Matando Gigantes" — Qurd e Lurd pelo Universinho, uma história infantil para público adulto. E também Dois Piratas, contos de piratas cheios de humor e mentiras.

Algum link que você queira deixar para quem deseja conhecer melhor seu trabalho?

Meu blog: www.claudiadu.wordpress.com.

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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