Entrevista: Liége Báccaro Toledo

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Liége Báccaro Toledo é professora de ensino fundamental e tenta ser escritora nas horas vagas. Nasceu e cresceu em Londrina, mas vive em um mundo por dia. Graduada em Letras e mestre em Estudos da Linguagem, é autora da série O Enigma da Lua e publicou um conto na antologia “Excalibur”, da Editora Draco. Ama livros, cinema, comida, RPG, seu marido e cãezinhos.

De onde surgiu “O Vento do Oeste”? O que veio primeiro, a história ou o cenário?

Creio que as duas coisas foram surgindo simultaneamente. Eu quis criar uma ambientação diferente, que pudesse ser incorporada a um cenário maior meu, Edrim. Edrim vai bem naquela linha “Tolkieniana”, com elfos, florestas, cavaleiros, dragões, ou seja, fantasia clássica mesmo. Mas já fazia um bom tempo que eu tinha a vontade de desenvolver algo com elementos da cultura e da mitologia árabe, e foi assim que nasceu Sawad. Os personagens e a história de “O Vento do Oeste” surgiram na mesma época, porque a história que eu queria contar me ajudou a definir várias coisas no cenário.

Sawad e todo o mundo do conto é bastante rico. Você está produzindo algo mais neste universo?

Sim, estou. Quer dizer, acho que a resposta correta é “estou tentando”. Estou tentando escrever um romance dentro desse universo. “O Vento do Oeste” nasceu, na verdade, como uma espécie de prólogo para essa história maior que quero contar. O nome provisório da empreitada é “Coração de Areia” e ela conta o que aconteceu com esses personagens, principalmente Jahira e Farid, depois do final melancólico do conto.

Bahaal’zar é a encarnação do mal, um arquétipo até necessário aos deuses. Gostei de como trabalhou a diferença de poder de um deus e um mortal de modo interessante na narrativa, como se o deus estivesse brincando com essas vidas. Como foi construir o vilão?

Existe algo muito legal em se criar um vilão. Eu confesso que tenho uma enorme dificuldade com isso, mas acho que um vilão bem construído transforma a luta dos personagens em algo muito mais interessante. Com Bahaal’zar eu me baseei um pouco no que li sobre gênios, jinns e ifrits. Essa ideia de um espírito que rege o destino de um lugar, que é ardiloso, que brinca com pactos e suas brechas e com os desejos mais íntimos de uma pessoa é algo que me inspirou bastante. Quer dizer, a questão aqui é que o medo que o vilão instila não vem apenas de seus poderes ou de força bruta – vem do fato de que ele atormenta, manipula, causa uma sensação de impotência lidando com as fraquezas e com a condição humana das pessoas. E tudo isso sempre parece um jogo, algo que Bahaal’zar faz tendo em mente um objetivo maior, que os personagens, como mortais com vidas curtas, não conseguem vislumbrar, mas temem. Foi isso que procurei e venho procurando fazer com esse vilão.

Li um artigo no qual você conta um pouco das dificuldades em escrever sobre uma cultura que não é a sua. Qual a principal delas?

Eu acho que a principal dificuldade é fugir dos estereótipos. Quando a gente tenta se basear em uma cultura que não conhece a fundo, o perigo é reproduzir, ainda mais em um mundo de fantasia, aquelas ideias batidas, pré-concebidas. Nesse caso, por exemplo, acho que seria simplesmente enfiar todo mundo em um deserto, colocar véus nas cabeças das mulheres, fazer os homens serem mais rígidos/machistas, adicionar uma dança do ventre ou aquilo que nos parece exótico e bonito nessas culturas e pronto. Na nossa sociedade contemporânea, essa é a ideia geral que muitos fazem do oriente médio. Eu sempre procuro desconfiar dessas visões pasteurizadas, mas, ao pesquisar a história desses povos mais a fundo, sua cultura, descobri tantas nuances diferentes, tantas coisas lindas… é um mundo a ser explorado, mesmo, e acabei me dando conta (ainda mais) de que pensar que tal povo ou tal cultura se resume a três ou quatro coisinhas é um disparate. Então, eu acho que a questão é essa. Temos de tentar ir além do superficial, e isso pode ser difícil, porque temos conceitos e preconceitos arraigados. Além disso, acho que uma dificuldade bem grande é ter uma real ideia de como se vive no deserto, como se viaja por ele… enfim, existem muitos pontos que precisam de cuidado e atenção quando a gente lida com um mundo e uma sociedade que estão bem distantes de nós.

Seu nome apareceu há pouco, nas comemorações do Dia da Mulher, em algumas listas de autoras brasileiras para ficar de olho. Como se sentiu com isso?

Me senti extremamente honrada. Quando tive a coragem de começar a colocar meus escritos na internet, lá em 2012, jamais imaginei que alguém viria a ler o que eu escrevia. Ter sido colocada nessa lista, junto com outras autoras que admiro tanto, foi uma grande emoção mesmo. Como sou uma pessoa um tanto insegura, esse tipo de confiança/reconhecimento é muito importante na minha caminhada. É uma motivação e tanto, é algo que me instiga a melhorar sempre. Jamais me esquecerei disso.

Conte um pouco mais sobre sua série de livros independentes, O Enigma da Lua.

O Enigma da Lua foi o começo de tudo. Eu sempre amei escrever, sempre adorei contar histórias, desde que me conheço por gente, mas foi com essa série que realmente tentei colocar minhas ideias no papel. O que eu queria era escrever algo que tivesse tudo o que eu gostava: aventura, romance, um grupo de personagens enfrentando perigos em um cenário de fantasia medieval… e aí nasceu a história da Elora e do Laucian e seus companheiros fieis, o Myron e a Valenia. Eu diria que essa série traz aquela clássica jornada do herói, com muitos elementos de RPG, porque eu comecei a escrevê-la com quinze anos e estava apaixonada pelo universo do jogo. A história aborda coisas que me eram e são muito caras – a amizade, o amadurecimento, a passagem da adolescência para a vida adulta… apesar de ser uma série de aventura, de alta fantasia, com um mundo sendo desenvolvido, eu sempre me foco muito no desenvolvimento dos personagens quando escrevo, porque são eles, em última instância, que fazem com que eu realmente ame uma história.

E sobre seus contos em antologias, sobre o que se tratam?

Meus contos em antologias (ainda não tenho muitos, hehehe) vão numa linha bem diferente. Escrever um conto exige uma história mais dinâmica, uma construção de tensão diferente e começo, meio e fim bem definidos. Nunca fui de escrever terror ou suspense, mas em Excalibur, antologia da Editora Draco, meu conto “O Espelho” é bem assustador (ou assim me disseram) e se passa após a segunda guerra mundial. Há outro conto de terror meu que sairá em uma antologia da Editora Andross, chamado “O primeiro e último filho”. Esse lida com bruxaria, paixão e traição. São temas diferentes, saem da minha zona de conforto, mas fiquei bem feliz com a experiência.

No que anda trabalhando agora? Há algo para sair que você possa nos adiantar? Há algo mais que queira divulgar nesta entrevista? Aproveite o espaço!

Estou trabalhando no último volume da série “O Enigma da Lua”, que se chamará “O Despertar de Kathul” e que vai fechar a história desses personagens tão queridos para mim. Também estou escrevendo “Coração de Areia”, como eu disse antes, e me divertindo muito com o processo de pesquisa. Para quem quiser conhecer meu trabalho, meus livros estão na Amazon e também tenho um conto lá, “A Borboleta”, que faz parte da história de “O Enigma da Lua”. Além disso, se você me procurar no wattpad, vai achar algumas coisas minhas. Por fim, tenho também um blog onde falo um monte de besteira e sou colunista no excelente blog Livros de Fantasia, da Melissa de Sá.

Quais são seus links, para o leitor que queira conhecer mais sobre o seu trabalho, ir atrás dos livros?

Para meu blog: oenigmadalua.blogspot.com | Para meu wattpad: wattpad.com/user/LiegeBaccaroToledo | Meus trabalhos na Amazon: bit.ly/S4S0xU | Meus livros no Clube de Autores: bit.ly/1mkH2z4 | Livros de Fantasia: livrosdefantasia.com.br | E é isso! Muito obrigada!

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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3 comentários

  1. Amanda Silversong / 15 de junho de 2014 at 10:23 / Responder

    Adorei a entrevista! Foi muito bom conhecer um pouco mais sobre esta querida autora, que espero, encontre muito sucesso em seu caminho.

    Já li os dois primeiros livros da série O Enigma da Lua e recomendo a todos que gostem de um livro bem escrito que traga fantasia, aventura e romance, todos bem amarrados em uma trama muito bem construída.

    Parabéns, Liége!

  2. Odin / 16 de junho de 2014 at 00:05 / Responder

    Aos fãs de fantasia medieval, Tolkien e jogos de RPG, recomendo muito a série O Enigma da Lua e os outros trabalhos desta jovem escritora. As histórias são interessantes, os personagens, bem construídos, e há um ótimo equilíbrio entre ação e desenvolvimento de relacionamentos e conflitos.

    Parabéns e sucesso!

  3. Charles William Kruger / 3 de maio de 2015 at 21:27 / Responder

    Excelente entrevista, muito bem conduzida.

    Os textos da Liége são realmente muito bons. É realmente uma autora que merece ser lida. Fica a dica, leitores.

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