Entrevista: Guilherme Lopes

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Guilherme Lopes, nascido em Recife e morador de Atibaia, São Paulo, é escritor e trabalha como advogado. Mais feliz quando lê e escreve, ele mal pode esperar para mergulhar no mundo da literatura fantástica brasileira e deixar sua contribuição. Já publicou em uma coletânea de contos, mas “O Chapéu do Mago” é seu primeiro independente. Encontre-o na Câmara Sinestésica (camarasinestesica.wordpress.com), seu blog de literatura fantástica.

“O chapéu do mago” é um conto que trabalha com um humor ingênuo, mas muito rico uma vez que você percebe quem realmente está no controle da situação. Como foi o processo de escrita desse conto?

“O chapéu do mago” começou como só o primeiro capítulo, um microconto sobre um fazendeiro que tem um encontro com um mago sem perceber. Mas acabei querendo saber para onde a estrada levaria o Chapéus, e com quem ele iria se encontrar no caminho. Para descobrir, tive que escrever! Queria explorar essa ideia de um mago distribuindo epifanias por aí, inconscientemente. Chapéus tem pouco bom-senso e uma propensão a se perder no caminho, mas ao mesmo tempo desperta algo nas pessoas.

Tudo começou de uma ideia sobre um mundo em que magia existe, mas só sobre coisas pequenas ou banais. Para os RPGzistas, seria como um mundo em que magos só conseguissem conjurar “prestidigitação”. Esses magos seriam muito especializados, e até poderosos, mas de um jeito diferente.

Desde o início, o conto tinha a intenção de ser mais leve, “comfy”, mas também instigante.

Há duas cenas que me conquistaram, a primeira a do guarda, e o final, onde finalmente entendemos a força do personagem. Pode contar um pouco mais sobre essas cenas?

Quando estava escrevendo a cena do guarda eu já sabia que queria montar três atos “crescentes”, em que Chapéus vai encontrando personagens com cada vez mais poder social. O guarda corrupto é uma figura muito familiar para nós, mas eu não queria que ele fosse só uma caricatura, e sim que fosse real, ambíguo. Por isso o último parágrafo da cena, em que tentei humanizar o Tomas. Também, quando Chapéus faz menções a outros lugares no mundo, percebi que queria escrever mais sobre eles.

Na cena da sala do trono, há uma tensão constante entre as personagens, que não só têm interesses opostos, mas são incapazes de entender a visão de mundo do outro. Eu acho que Chapéus pode ser interpretado tanto como realmente ingênuo ou nem tanto assim, alguém que se utiliza dessa impressão para ofuscar e fazer as pessoas julgarem seus comportamentos por outra perspectiva. De qualquer forma, a ideia era que alguém poderoso e orgulhoso como o rei não está nem um pouco interessado em auto-reflexão — mas Chapéus o empurra nessa direção mesmo assim.

Nas duas cenas também tentei fazer com que o conto não tivesse como pano do fundo só uma “Europa fantástica genérica”, e tentei colocar diversos pequenos detalhes para sugerir uma atmosfera à brasileira.

Quais são as suas principais referências para escrever com humor? E de maneira geral, o que tem consumido?

Uma das minhas maiores influências, principalmente neste conto, é o Discworld de Sir Terry Pratchett. O humor dele é inseparável do desenvolvimento da história, sempre diz alguma coisa sobre as personagens (maravilhosas), ajuda a construir o mundo fantástico, critica o nosso, e ainda por cima consegue ser engraçado pra caramba. Também não dá pra negar minha artéria tolkieniana forte, e eu tentei passar a vibe daquele humor simples e leve que permeia a aventura em O Hobbit.

No momento a minha pilha de cabeceira está bem variada, até: tem a obra completa do Lovecraft representando o terror; Felipe Castilho a fantasia com seu Ordem Vermelha: Filhos da Degradação; Ursula LeGuin e Jeff VanderMeer (A Mão Esquerda da Escuridão & Aniquilação) pelo sci-fi; e Dostoiévski, Memórias do Subsolo, como “literatura de verdade” (brincadeira, gente).

Como é o seu processo de escrita, geralmente?

Eu penso muito antes de escrever. Quando tenho uma ideia, fico mastigando mentalmente a trama, personagens e cenas legais, andando pra lá e pra cá pela casa antes de fazer chá, sentar e colocar o brainstorming no papel (com caneta e caderno mesmo). Depois passo pelo Scrivener (programa de escrita que recomendo), e repito o processo a cada momento importante da história. Por causa disso sou um escritor lento, mas por outro lado já começo o processo tendo uma boa ideia do estilo e estrutura da história que quero fazer. E não tem jeito: por mais que se planeje, tem estradas que você vai encontrar e explorar só no momento da escrita.

Na Trasgo publicamos conto de autores experientes, e muitas vezes “revelamos” novos autores, como é o seu caso. O que você diria para quem está no processo de escrever e tentar ser publicado?

Se eu consegui aprender alguma coisa até agora, é que aquele conselho simples e bobo é o mais importante: escreva. Escreva todo dia, mesmo que seja só um pouco. Não tem segredo, ou se tem todo mundo sabe dele, e é esse. A única coisa que consegue empatar em importância com escrever, para um escritor, é ler (e há debates). Muitas vezes é difícil porque a sua melhora é invisível, mas ela acontece. Quando eu recebi a resposta da Trasgo sobre “O chapéu do mago”, havia terminado o conto há meses e estava trabalhando em outros projetos. Reli o conto, e vi um monte de coisas que me fizeram dizer “nossa, eu faria isso melhor hoje” (e graças aos editores, fizemos). E esse deve ser o critério, melhorar. Nem precisa estar bom, desde que esteja melhor.

Quanto a publicar, pra mim não tem porta de entrada melhor do que a comunidade fantástica, em mais de um sentido, que existe ao redor de revistas de contos como a Trasgo, a Mafagafo, e a (para críticas e resenhas) Fantástika 451. Os autores de romances fantásticos brasileiros são, na minha experiência, pessoas super acessíveis e apaixonadas pelo que fazem. Esse é meu primeiro passo nesse mundo, e estou muito feliz em estar aqui.

O que mais você tem no seu chapéu prestes a ser publicado?

Um conto no mesmo universo de “O chapéu do mago”, em parceria com minha irmã Juliana Lopes, que é uma ilustradora espetacular. Se você ficou curioso sobre os outros magos mencionados na história, vai querer ler essa. Ela está sendo publicada em partes no blog, inclusive com extras sobre o processo de criação.

Mais contos nesse universo estão no horizonte em outros periódicos de fantasia brasileira, além de contos independentes exclusivos para o blog, e uma noveleta no gênero de terror em que estou trabalhando atualmente.

Gostaria de divulgar ou contar mais alguma coisa? Aproveite o espaço!

Siga a Câmara Sinestésica (camarasinestesica.wordpress.com) para acompanhar meus projetos; tem muita coisa vindo, e se você gostar de construção de mundos de fantasia e contos interconectados, eu quero que você me acompanhe nessas aventuras!

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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