O chapéu do mago

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Editado por Rodrigo van Kampen

Era um chapéu formidável. Protuberava sobre a aba como uma grande joia, o tecido rígido lapidado em vinte e seis faces — oito delas brilhantes triângulos roxo-cósmicos, perfeitamente equiláteros, doze faces quadradas levemente translúcidas verde-chá, e outras seis opacas e amarelo-ocre. O chapéu era enorme, e seria pesado demais para que o mago erguesse a cabeça se não fosse também mágico.

Um fazendeiro o observava da beira da estrada. Também tinha um chapéu, um disco de palha que sombreava seu rosto rosado, suado e simpático. Era meio-dia. O mago se aproximou, sorrindo de volta, e a poucos passos do homem tirou o chapéu formidável com uma mão, curvando-se enquanto o levava ao peito.

“Saudações arquimédicas,” disse o mago.

O fazendeiro começou a tentar imitá-lo, mas desistiu a meio movimento e se limitou a erguer o chapéu de palha, revelando por um instante sua calvície.

“Trilhas sãs e dias claros para o senhor.”

“E de fato como são claros e quentes os dias daqui! Sem ofensa ao clima desta parte do mundo. Venho buscando afoito por uma desculpa para tirar este chapéu abafado já há algum tempo, então agradeço por poder cumprimentá-lo. Será que poderia lhe pedir um segundo favor, meu caro?”

O fazendeiro arregalou os olhos para todas aquelas palavras e gaguejou uma afirmativa que esperançou suficiente. Apoiou-se com mais empenho na enxada, concentrado, para entender tudo o mais que o mago diria.

“Acontece que vou ao encontro do Rei Dourado em seu Castelo Dourado. Fui, bem, convocado,” ele retirou o chapéu, se abanou uma vez, e puxou de dentro dele um rolo de pergaminho com o Selo Real. Era o mesmo das cobranças que o fazendeiro recebia sobre as taxas de banalidades. O mago abriu o rolo e apontou para o amontoado de tinta como se o outro soubesse ler.

“Bem, o senhor está na estrada certa. É a Estrada da Coroa, e logo chega aos portões da capital. E dali até o castelo. Acho que até a Sala do Trono. Não sei. Mas precariamente, digo, provavelmente,” disse, e se orgulhou por só ter tropeçado em uma palavra.

O mago fez um gesto estranho com o polegar, enrolou e guardou o pergaminho, e colocou o chapéu de volta.

“Obrigado, Francis,” disse o mago, sorrindo.

Francis só perceberia o fato de não ter se apresentado muito depois, quando estivesse ruminando o encontro à luz dormente do crepúsculo, a enxada vagarosa em seus movimentos, secundária nos pensamentos, estática quando percebesse, abandonada quando se fascinasse, repetindo a palavra que se ocultara até ali, baixinho, sussurrada como só sussurrava suas preces: mago, mago, mago.


O mago observava atento o chão. Parecia cabisbaixo, mas apenas receava perder a trilha da estrada. Só percebeu que chegara à frente dos grandes portões da capital do Reino Dourado quando o mosaico de ladrilhos foi coberto pela sombra da muralha. Ele ergueu a cabeça para as duas torres de pedra que ladeavam os portões, envoltas em musgo como num cobertor, seus telhados vermelhos pontilhados de ninhos de só-assovios. Teve de segurar seu chapéu para evitar que caísse para trás. Eram torres altas.

Pessoas passavam ao lado resmungando alguma coisa sobre alguém estar bloqueando o caminho. Vestiam tons de verde, amarelo e marrom, empurrando carrinhos de frutas e peixes e batendo cajados enquanto tentavam manter suas ovelhas e crianças à vista. Aqui e ali vislumbrava-se uma túnica púrpura ou uma esvoaçante capa carmesim, vestidas por alguém importante e rodeado por homens de armaduras resplandecentes. Todos evitavam, como possível, o mago — à primeira vista julgavam seu chapéu e sua falta de pressa, erguiam as sobrancelhas, e então desviavam os olhares e os passos. O mago seguiu a correnteza e conseguiu não tropeçar em nenhum pé.

Sob o arco do portão, apoiado na parede, havia um guarda bocejante vigiando a multidão. Seu elmo de um dourado enferrujado estava torto, mas ele o endireitou para poder ver melhor aquela forma geométrica estranha que despontava entre as cabeças. Então encontrou o rosto do mago, que revelava um misto de curiosidade e confusão ingênuos, e sorriu para si. Abriu alas até ele com todo o poder de sua autoridade em uma invejável linha reta.

“Trilhas e dias, senhor viajante. Por favor me acompanhe. Seja bem-vindo ao Reino Dourado.”

“Trilhas difíceis, meu caro soldado! Obrigado!” disse o mago, errando um tanto o volume da voz e alarmando algumas pessoas ao redor. Uma matrona estreitou os olhos para ele, e as crianças que a acompanhavam berraram “De nada! De nada!” em resposta, rindo. O mago acenou para elas, entusiasmado. O guarda pigarreou alto.

“Venha comigo. Vamos regularizar a situação da sua viagem.”

“Mas é claro, prazerosamente. Gostaria de dizer que foi o desconhecimento que causou essa minha negligência em regularizar a visita — de fato, não sabia dessa necessidade até o presente! Perdoar-me-á, esperanço. Ah, este abafamento de humanidades está me matando, temo pelos meus pés. Somos como líquidos viscosos em um funil.”

O guarda deu um sorriso rígido para o mago enquanto o guiava, fingindo compreendê-lo sobre a cacofonia. Foram até um canto especialmente sombreado que se formava no encontro entre a torre e a muralha interna, à margem da multidão. Cogumelos gordos e sarapintados cresciam aos seus pés.

“Senhor viajante, presumo que ainda não tenha realizado o pagamento da Taxa de Passos?”

Tomas, o guarda do portão, tinha algum orgulho de sua longa lista de nomes tributários. Os últimos haviam sido Grã-gorjeta, Preço-de-chegar, e Auxílio-para-prevenção-de-violência-pelo-guarda-do-portão.

“De fato, honrado homem-de-armas! Ignorava essa taxa, conforme mencionei. Quanto devo ao Reino Dourado? Desejo remediar minha situação imediatamente.”

Tomas fez um rápido julgamento da pessoa do mago, pesando as vestes simples e a ausência de bagagem de um lado, e o chapéu, bastante impressionante, de outro. Hoje estava se sentindo um tanto ambicioso, e sua mãe sempre lhe dissera que mantos rasgados podem ter bolsos profundos. Tomas tinha sua mãe em alta conta.

“A taxa é de seis moedas de ouro.”

O mago não hesitou em tirar o chapéu teatralmente e começar a tatear seu interior. Tomas se permitiu um tique nervoso que fez curvar as pontas de seus lábios para cima.

“Receio ter apenas as frações dessa soma à mão. O chapéu é uma bagunça, você entende.”

Tomas concordou impacientemente, na verdade só meio-entendendo, e olhou em volta — algumas pessoas já começavam a olhá-los. Estava acostumado com contribuintes mais discretos.

“Aqui está uma bronzeléia de Plisseus, que deve valer sete treze avos de uma das suas moedas de ouro. Eu acho. Vejamos. Estou sentindo algumas conchas celefáticas aqui dentro, mas elas são tão escorregadias. Ah, eu tenho um punhado de Papéis-de-Gaspar, mas os bancos do Leste são um pouco longe demais para que você possa trocá-los, não acha, meu caro Tomas?” O mago riu simpaticamente. “De qualquer forma, vá segurando-os para mim. Estes, por outro lado, devem servir. São coinages d’ágata, do Princesado Julicrático. Bonitos, não é? Você deve saber que estão valendo um pouco menos do que uma moeda de prata esses dias, mas os cidadãos do Reino Dourado são mais que merecedores da minha boa-vontade. Ficarei feliz em arredondar a diferença.”

O guarda estava encontrando dificuldades em conter a crescente tilintação de moedas exóticas entre suas mãos e ao mesmo tempo manter a compostura para rebater os olhares do não tão pequeno grupo de curiosos que começara a se formar.

“Suponho que não sirvam estas moedas-furadas do Reino Prateado. A guerra, claro,” continuou o mago, incerto, segurando uma delas entre o indicador e o polegar e observando Tomas pelo buraco quadrado.

Nesse momento Tomas percebeu que a patrulha da capitã da guarda, que possuía elmos muito mais polidos que o seu, marchava na direção deles, provavelmente atraída pela platéia que se formava ao redor da conjuração de moedas que o mago realizava com espalhafato. À menção das moedas do Reino Prateado, pôde imaginar perfeitamente uma acusação de traição e espionagem levada às suas últimas e desagradáveis consequências, cortesia de algumas pequenas provas metálicas, simples mas cabais. Não viviam em tempos tão tolerantes à deserção quanto eram ao suborno.

“Não! Isto é, já está certo. Está bom, está ótimo-ótimo. Tenho de ir, ah, cumprir meu dever, longe daqui. Aproveite sua estadia,” disse Tomas, e se afastou, deixando cair uma quantidade de Papéis-de-Gaspar em sua pressa. Os que não se espalharam ao vento foram agarrados por crianças, mastigados por uma cabra, e disputados por uma dupla de comerciantes que acabaram rasgando mais do que resgataram.

O mago deixou cair o restante das moedas para dentro do chapéu e tornou a colocá-lo, apenas para tirá-lo de novo, cumprimentando as pessoas que vieram assistir à coleta da Taxa de Passos. Elas comentavam o ocorrido, rindo e lançando olhadelas nervosas para ele enquanto se dispersavam, algumas devolvendo seu gesto.

Quando todos os espectadores se foram, o mago voltou a seguir a Estrada da Coroa, já convertida em uma larga avenida, na direção do castelo que se erguia no horizonte.

Tomas guardaria aquelas moedas estranhas, por medo e vergonha e por causa de algo de que não tinha certeza. Ele as daria a sua filha em um dia fresco e distante com mãos enrugadas, algumas por vez como o mago lhe dera, dizendo seus nomes de que nunca esquecera, e elas tilintariam, e ele não contaria a história, mas se lembraria do mago e do chapéu, e daquele dia quente e sonoro em que os Papéis-de-Gaspar voaram pelo céu azul da cidade como se fossem livres.


O mago seguiu os ladrilhos gastos da Estrada da Coroa pelas avenidas do distrito comercial até chegar ao portão do castelo. Os guardas dali usavam elmos dourados como os guardas da muralha, mas com as viseiras abaixadas, fazendo parecer que tinham bicos. Descruzaram as alabardas, permitindo sua entrada assim que lhes mostrou a carta do rei. O mago atravessou a ponte levadiça, ouvindo a água do fosso lá embaixo se perturbar com os movimentos ansiosos de jacarés.

O jardim do castelo era primoroso. Ele seguiu por uma trilha de pedras ocasionais, estreitando entre cortinas de salgueiros-chorão que deixavam escapar vislumbres de pequenas lagoas, vivas com o coaxar de rãs e vultos coloridos de carpas. Alargou os passos sobre as enormes raízes de uma bela-sombra e passou por um corredor de ipês em flor, rosas e brancos e roxos. Uma única araucária disputava com a altura das muralhas internas. Ele encontrou um arco de pedra ao fim da trilha serpeante, ladeado por samambaias que pendiam de armações delicadas, parecendo flutuar. Entrou.

Era uma antessala cavernosa, fria se comparada com o dia lá fora, e escura senão pela luz tênue de um par de velas que descansavam sobre uma mesa de madeira em seu centro. Um homem, usando um chapéu preto e sem adornos que fez o mago sentir profunda pena, se curvava sobre a mesa e escrevia. Sua caneta-tinteiro desenhava linhas elegantes sobre o pergaminho, e ao seu alcance havia um carimbo do Selo Real. Os passos do mago ecoaram até lá, mas o homem o ignorou e continuou a escrever. Por fim, com um floreio majestoso da caneta-tinteiro, ele terminou de assinar um nome, ergueu seus olhos cansados e displicentes para o mago, e então, lentamente, para seu chapéu. O mago aproveitou a atenção para fazer uma mesura e mostrar a carta de convocação que recebera.

“Saudações paracélsicas e meus votos para um fabuloso dia! Minha visita se dá em razão deste fatídico pergaminho,” começou o mago.

“Sim, sim. O senhor é aguardado.” O escriba apontou para a única porta, atrás de si.

“Ah, perfeito. Sou-te grato, Igor.”

Igor resmungou alguma coisa impolida, puxou um pergaminho em branco e voltou a escrever.

A porta era grande e coberta por relevos dourados de leões, peixes e macacos com juba, seus longos rabos formando filigranas. Não rangeu quando o mago a empurrou.

A Sala do Trono parecia maior do que a antessala, mas talvez fosse a luz.

Raios solares encharcavam o salão, coloridos pelos vitrais em mil geometrias que se espalhavam pelo chão. Havia um corredor de pilares de mármore com motivos ondulantes, imitando troncos de árvores que surgiam de nuvens esculpidas em sua base e se resolviam em um teto pintado celestialmente, dividido em partes de quase-negro salpicado de constelações e azul-aurora que cercava uma profusão de nuvens rosadas. No final do corredor e sobre um estrado surgia o trono, alto e estreito, de madeira nobre e emoldurado em ouro. Daquela distância, parecia ao mago que um amontoado de roupas estava jogado sobre ele.

Não foi anunciado e se aproximou nas pontas dos pés, trazendo seu chapéu junto ao peito no caso de alguém importante aparecer. Quando chegou a talvez vinte passos do trono, percebeu que o amontoado de roupas era o Rei.

O Rei Dourado estava afundado no assento, o queixo tocando o peito, uma mão sobre a testa cobrindo os olhos em uma posição sincera de exaustão. Estava envolto em um manto amassado de verde profundo. A coroa, mesmo torta, não deixava de ser magnífica — ouro branco maciço, incrustado de jades e citrinos e safiras que fulgiam ao sol. O mago ouvira falar que reis gostavam que pessoas se ajoelhassem, então o fez. O Rei pareceu notar o farfalhar das vestes, porque estremeceu, como se acordasse de uma meditação.

“Igor, pedimos que não concedesse audiências hoje. Exceto para magos.”

“Trata-se da exceção, Majestade,” respondeu o mago.

O Rei levantou a mão muito pouco, apenas o suficiente para permitir que um olho semicerrado mirasse o visitante. Então deu um longo e pesado suspiro, e com um vigor que poderia ser uma mentira para si ou para o mundo, ou ainda não ser mentira alguma para ninguém, se empertigou com naturalidade praticada contra o espaldar, transformando-se. Era um rei jovem de olhos velhos e verdes e vivos que sabiam mais do que supunham, a pele escura como madeira à sombra, mas sem rugas ou nós, e um sorriso exato, que não convidava à fala mas a permitia. Ele já conquistara uma nação por laço de sangue, outra por carisma, e mais duas por força de armas.

“Boas-vindas, mago. Por favor, fique à vontade. Que belo chapéu.”

“Sou-lhe grato e admiro seu bom gosto, Magnificência. Trata-se de um perfeito rombicuboctaedro,” disse o mago enquanto se levantava e colocava o chapéu de volta orgulhosamente.

Houve um movimento atrás de um dos pilares próximos, e alguém se revelou e galgou o degrau do estrado, embora o mago não tivesse visto ou ouvido outra pessoa no salão. Era o homem da antessala, baixo e curvado como se esquecesse que não estava mais escrevendo à pouca-luz. Tinha mechas grisalhas no cabelo apesar de não ser velho, e seu rosto pálido ficava na mesma altura do ouvido do Rei. Ainda usava seu chapéu preto e direcionava ao mago um olhar de inconfundível desprezo. Por sua vez, o mago pareceu deleitado em revê-lo.

“Admitidamente, surpreendi-me! De onde surgiu? Será o caro Igor também um artista das forças arcanas?”

“Não atribua à magia o que pode ser explicado por competência,” respondeu Igor, seco.

O mago sorriu.

“Igor nos disse que magos não têm nomes propriamente ditos,” disse o Rei. “E que atendem pelo nome de seus… ah, domínios? Áreas?”

Especialidades, Majestade,” intercedeu Igor.

“Especialidades,” repetiu o Rei, com um toque de ironia. “E qual seria a sua, mago?”

“Eu sou o Mago dos Chapéus.”

O Rei o considerou por um momento e então consultou Igor silenciosamente, as sobrancelhas erguidas em questionamento. Igor encolheu os ombros. O Rei decidiu por pigarrear, e encarou o mago com olhos frios e fixos.

“Seremos diretos. Nosso amado Reino Dourado será em breve um Império. O Reino Prateado está, para quase todos os efeitos, derrotado. Os servos da terra se manterão leais, e as casas nobres já estão sob nosso domínio graças aos esforços de Igor. Em suma, mago, estamos em posição para ocupar o centro do poder do Noroeste do Mundo. Isso vai acontecer, certo como o crepúsculo.”

“Minha fascinação só é igualada pela satisfação do aprendizado, Majestade. As atualidades desta parte do mundo não me são familiares, e agora sou agraciado até pelo conhecimento do futuro.”

“Enviamos mensageiros com o Selo Real,” continuou o Rei, ignorando-o, “para cada um dos picos, pântanos, cavernas e torres abandonadas cujos rumores sobre magos nos apontaram. Procuramos seus líderes em cada guilda, ordem e culto imagináveis.”

“Não temos afinidade por pessoas,” observou o mago.

“Fizemos tudo isso porque enxergamos o poder impregnado nas histórias de que nos lembramos dos livros da infância,” a isso Igor fez uma expressão azeda que deixou claro que o plural não o incluía, “mas nosso objetivo é pragmático. Queremos a sua vassalagem, e em troca a fundação de uma Ordem Real de Magos de Guerra. Realizaremos grandes feitos juntos. As nossas preocupações militares se voltam para a Velha Frísia, que agora tem uma fronteira direta conosco. Nós a venceremos como vencemos os prateados. Os espólios serão generosos, e os magos terão o potencial de se tornar tão poderosos quanto outrora. Grandeza, meu caro mago, é o que nos espera,” e seus olhos faiscaram, como se deixassem escapar por fim um pouco do calor das palavras.

O sorriso do mago se esvaíra há algum tempo.

“Já recrutamos dois dos seus,” disse o Rei, observando-o para descobrir que parte do que oferecia o desagradava.

O mago pareceu surpreso pela primeira vez.

“Quem?”

“Quem, Majestade,” ressaltou Igor. O Rei fez um aceno displicente para dizer que não se importava.

“Fazem parte de nossa corte o Mago de Magenta e o Mago de Besouros,” disse o Rei, um tanto cauteloso, como se não tivesse ainda plena certeza de que aqueles títulos não fossem uma piada. “De fato, o chamado Mago de Magenta foi particularmente insistente em reivindicar os melhores aposentos do castelo, e tem opiniões enfáticas sobre decoração. Recebemos reclamações dos arquiduques até hoje.”

O mago transpareceu alívio com isso. Ele pensou um pouco, ajeitando o chapéu, e então falou ao Rei Dourado com um tom de quem explica um mal-entendido.

“Compreendo agora, Alteza! Infelizmente, é de rigor que eu os emerja de volta à superfície da realidade. Meu colega Mago dos Besouros é o detentor de uma alma gentil e caridosa, incapaz de responder em negativa a qualquer pedido, mas similarmente avesso à noção de violência e ao acúmulo de poder. Posso atestar que sua aceitação em participar do, ah, projeto de Vossa Majestade foi puramente ingênua e não sobreviveria à realidade da guerra. Receio que, quanto ao Mago de Magenta, exista um similar desinteresse em ajudá-los, não pela sua abominação de violência, mas pela abominação de esforço em geral, além da propensão dessa pessoa para a dissimulação e a ironia. Repreendê-lo-ei, garanto-lhes.”

O silêncio se espalhou pelo salão como uma teia de aranha. O mago sorriu, incerto, para Igor e o Rei. E então, como se tivesse esquecido de algo, levou a mão à testa com um gesto teatral.

“Cento e três perdões por ter me esquecido de responder diretamente vossa pergunta quanto à oferta dirigida a mim, Majestade! Percebo agora que devo fazê-lo formalmente. Não.”

O mago deixou a palavra revoar por um momento que presumiu razoável, tirou o chapéu, curvou-se, colocou-o de volta e girou nos calcanhares para ir embora.

“Quem é você,” disse o Rei, “para me dar as costas?”

Algo se moveu para dentro do campo de visão do mago com rapidez, e ele sentiu metal frio tocando a parte macia de seu queixo. Igor, brandindo uma rapieira e incapaz de ocultar uma expressão de satisfação, roçou a espada muito levemente sobre sua pele para sugerir que se voltasse para o trono. O mago o fez. O Rei havia se levantado, e seus olhos arregalados pareciam brilhar tanto quanto as jóias da coroa, embora sua voz permanecesse perigosamente neutra.

“Vocês magos zombam de mim,” disse o Rei, “com seus falsos títulos e seus truques.”

“Bem, isto é tudo um tanto desagradável, Majestade.”

“Não me tente, mago. Eu pensei que trataria com mestres de artes piromânticas e invocadores de monstros e senhores sobre mentes humanas. Eu não sei se vocês ocultam suas forças por covardia e pequenez ou se são realmente tão decadentes quanto parecem. Não importa. Rejeitar a minha oferta seria uma decisão aceitável, ainda que não sábia. Mas fazer zombaria de mim,” o Rei tocou a própria testa. Veias saltavam em suas têmporas. “Isso, não. Eu sou o Rei Dourado. E serei Imperador.”

“Mas você é apenas um homem,” disse o mago, levemente perplexo, como se explicasse uma obviedade. Igor apertou a lâmina contra seu queixo, para cima, obrigando-o a erguer a cabeça. Por consequência, o grande chapéu geométrico escorregou, oscilando no ar enquanto caía, como faz uma pena levada pela brisa.

Assim que tocou o chão, Igor foi derrubado por uma profusão irrazoável de chapéus.

Caíram sobre ele como uma montanha multicolorida de barretes e boinas e capelos e chapelões e capuzes, seguidos por uma chuva de gorros, e até um cone com estrelas e um tricórnio que estava na moda em Plisseus, e pelo menos uma tiara, que rolou do topo do relevo recente para descansar ao lado do que parecia ser uma peruca de cabelos grisalhos e um capacete militar de couro de lagarto. A presença de Igor ainda podia ser deduzida pelos tremores de um deslizamento de chapéus, de onde despontava o seu como uma pequena lápide preta.

O Mago dos Chapéus o deixou para trás sem qualquer relance, resgatou seu próprio chapéu do chão, e começou a andar calmamente na direção do trono enquanto o equilibrava na cabeça.

“Guardas,” disse o Rei, e então com mais volume, mas menos dignidade, “Guardas!”

“Você é apenas um homem,” disse o Mago dos Chapéus, galgando o estrado, “e uma coroa é só um chapéu.”

E o Mago dos Chapéus tocou a coroa, e houve magia.

Não foi um feitiço vulgar e forçoso como alguns. Foi como um aceno na direção de algo ou alguém esquecido.

E o alguém era o Rei, e o Rei olhou para si e viu um garoto, um inevitável, eterno garoto, empertigado em um trono grande demais.

E ele viu outros reis, velhos, fingindo tanto que acabavam por se tornar aquilo que fingiam, suas coroas se sobrepondo em uma amálgama de diamantes e rubis e veludo, e então viu rainhas e tiaras brilhantes e diademas estrelados e então viu mais, uma coroa que era um círculo de penas de aves de todo o mundo, e outra como uma alta espiral de ouro com uma jóia de toda-cor no topo, e uma láurea, e uma coroa distorcida, de ferro escuro.

E percebeu que eram todas um tanto ridículas.

Quando abriu os olhos, o Rei sentiu a cabeça leve. Sua própria coroa de ouro maciço se fora, e agora pousava sobre sua cabeça um chapéu de palha, simples e gasto.

“Com todo o respeito, Majestade,” disse o mago, enquanto guardas irrompiam pela Sala do Trono aos borbotões, fazendo uma balbúrdia de metal e ordens, “pense por si. O meu chapéu não é nem um pouco ridículo.”

E como que ressentido, sem tirar o chapéu, o mago desapareceu.

Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Guilherme Lopes, nascido em Recife e morador de Atibaia, São Paulo, é escritor e trabalha como advogado. Mais feliz quando lê e escreve, ele mal pode esperar para mergulhar no mundo da literatura fantástica brasileira e deixar sua contribuição. Já publicou em uma coletânea de contos, mas “O Chapéu do Mago” é seu primeiro independente. Encontre-o na Câmara Sinestésica (camarasinestesica.wordpress.com), seu blog de literatura fantástica.

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