O papel da ficção no não-lugar de quem vivencia atrações múltiplas

O conto “Marcas d’água em chão de madeira” foi escrito para uma antologia de ficção científica e fantasia que teria como tema as sexualidades múltiplas, aquelas que abarcam a atração sexual e/ou romântica por mais de um gênero (e que, infelizmente, não foi publicada).

Antes de escrevê-lo, minha experiência na criação de textos era a de escrever poemas (curtos) e fanfictions, que utilizam universos e personagens previamente construídos. Trabalhar com um limite mínimo de palavras e com uma narrativa que exigia um início, meio e fim seria um desafio.

No entanto, me dispus a escrever um conto para aquela antologia, pois acredito que representatividade importa muito e a ficção (de todos os gêneros) tem um problema gravíssimo no que se refere a sexualidades e romanticidades múltiplas.

Enquanto bissexual, me dói ver nossas histórias raramente contadas e, quando são, muitas vezes escritas por pessoas que não são bissexuais, tornam-se narrativas distorcidas e rasas, nas quais atrações múltiplas aparecem apenas como geradoras de conflito, associadas a características negativas como amoralidade ou ganância, ou usadas como forma preguiçosa para demonstrar traços de personalidade como rebeldia, ou ainda fetichizadas para o olhar masculino.

Mesmo em obras escritas por pessoas homossexuais, muitas vezes a falta de familiaridade com o tema ou a bifobia gera narrativas de conversão à homossexualidade, nas quais o surgimento de uma atração pelo mesmo gênero significa necessariamente o abandono das atrações vistas como heterossexuais. Assim, a bissexualidade ou pansexualidade, ou sequer são consideradas possibilidades de existência, ou são mencionadas, ridicularizadas e descartadas.

Até em obras tidas como neutras ou positivas muitas vezes não nomeiam a identidade de personagens que apresentam atrações múltiplas, os quais muitas vezes declaram explicitamente que “não usam rótulos”; contexto sempre apresentado como alternativa superior à utilização de termos para autodefinição (como “bissexual” ou “pansexual”). Essa ausência de narrativas com rótulos positivos contribui para um apagamento dessas possibilidades do rol de personalidades possíveis, na ficção ou no mundo real.

Ansiosa por contribuir de alguma forma, mesmo que pequena, com algo que pretendia reduzir tal invisibilidade, decidi participar da antologia. A ideia da trama surgiu de súbito, e a princípio não haveria menção a qualquer relação sexual ou romântica do protagonista, ficando o tema das atrações múltiplas e do não-lugar de quem as vivencia apenas no campo da metáfora.

Comecei a trabalhar com o argumento na mente, acrescentando detalhes conforme escrevia (tudo que se escreve acaba se revelando diferente do planejado) e, natural e organicamente, a história que surgiu acaba tendo um protagonista que tem sim atrações múltiplas. Inicialmente, essa história teria um tom mais triste, mas talvez pelo carinho que o protagonista despertou em mim e a forma como talvez, subconscientemente, eu tenha desejado dar a ele um final feliz, procurei vislumbrar uma existência possível para todas as pessoas que acompanharam essa jornada.

Natasha Avital

Author: Natasha Avital

Natasha Avital Ferro de Oliveira nasceu em 86 em Santos e cresceu em Vicente de Carvalho, periferia do Guarujá, no estado de São Paulo. É servidora pública, formada em Direito, e milita no coletivo Bi Sides, voltado para pessoas bissexuais e outras pessoas com atração por mais de um gênero.

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